Capítulo 127 - Nova partida
O incidente relacionado ao realizador de desejos foi resolvido, e apesar de não ser possível reverter a situação dos cinco alunos, Mayck e os outros puderam evitar mais transtornos, então a semana de provas correu bem.
Depois de tudo, as férias finalmente chegaram e assim os alunos puderam respirar aliviados.
Shinjuku, 11:30, sábado.
Mayck estava andando ao lado de Haruna, carregando algumas sacolas. Não eram muitas, mas as alças estavam machucando sua palma. Ele andava atrás de sua irmã em silêncio, com uma expressão tediosa, afinal, estava ali contra a sua vontade.
Acontece que ele perdeu uma aposta contra Haruna durante as últimas provas, onde eles apostaram quem ficaria numa posição mais alta entre eles.
No fim, Mayck ficou em quinto lugar e Haruna em quarto. Uma diferença extremamente pequena, mas que fora o gatilho para o garoto se tornar um subordinado por um dia.
Aliás, Kanzaki caiu trinta posições por ter ido brincar com misticismo ao invés de estudar para as provas. Rika, por outro lado, também conseguiu aumentar sua posição e pegou o segundo lugar de seu ano.
“Vamos! Ainda temos um dia inteiro pela frente.” Haruna se virou e acenou apenas para dar a terrível notícia, como uma comandante levando seus homens para o campo de batalha.
“Por que eu fui me meter nisso?” O garoto suspirou, exausto.
Só para constar, eles tinham saído de casa às oito horas da manhã e já tinham visitado mais de cinco lojas de roupa diferentes. Ele não fazia ideia da extensão do amor de sua irmã por roupas, mas ela com certeza queria estar preparada para todas as estações do ano.
A única parte boa disso tudo, era que o clima estava cooperativo. Não estava quente, então Mayck estava enfiado no conforto de seu agasalho, embora a multidão ao redor parecesse drenar sua energia mental — mas esse era o único problema, no entanto.
Apesar de tudo isso, ele continuou a seguir Haruna em suas compras.
Em uma rua com grande movimento de pessoas e veículos, Mayck acabou sendo atraído por uma mulher que balançava um sininho. Ela estava frente a um estande nomeado como uma empresa de turismo, a qual parecia estar em colaboração com um laboratório científico.
“Participe do nosso sorteio e tenha a chance de viajar e estudar a Antártida”, ela dizia com grande empolgação. Algumas pessoas tentaram, mas não receberam nada além de um brinde de participação.
“O que é isso?” Haruna olhou com curiosidade.
“Poxa… É uma pena… Aqui está! Um chaveiro do monte Fuji.” Outra pessoa recebeu um prêmio de consolação.
Por que eu não estou surpreso…? Viajar pra Antártida… Isso parece bem suspeito. Duvido que alguém vá ganhar, no entanto, ele pensou. Porém, quando se deu conta, já estava na visão da mulher, que parecia encarar sua própria alma.
“Ei, lindo jovem, por que não tenta? É de graça e você ainda pode deixar sua namorada feliz!”
“Ah, desculpa, mas nós…”
“Vamos, vamos! É rapidinho. Você não tem nada a perder.”
Mayck tentou recuar, mas sentiu uma enorme pressão vindo também das pessoas ao redor, que olhavam para ele com expectativa.
“Ser confundida com uma namorada sua é desagradável, mas parece divertido participar”, disse Haruna.
Às vezes Mayck pensava que a vida dava muitas oportunidades para a garota alfinetá-lo com qualquer coisa.
Ah… que seja.
Ele apenas desistiu.
Então caminhou até a roleta do sorteio, enquanto era fuzilado por olhos curiosos.
Bem, isso não vai dar em nada mesmo…
Com um suspiro, ele girou a manivela. Após alguns segundos, ouviria as palavras de consolo da mulher e receberia um chaveiro, como aconteceu com os demais; ou era o que pensava.
“Uau! Meus parabéns! Você recebeu o grande prêmio! Pessoal, uma salva de palmas para o lindo jovem”, ela anunciou com muita empolgação.
Aplausos os rodearam quase imediatamente.
Como…?
Absolutamente não. Não fazia sentido. Mayck não tinha nenhum tipo de sorte com sorteios ou coisas do tipo. Então em que momento o universo conspirou para ele receber aquele prêmio?
Seus olhos incrédulos encaravam um documento oficial contando os detalhes da excursão.
“Bom, basta assinar esse documento e entregá-lo no nosso posto aqui de Shinjuku. Aí você estará oficialmente apto para participar do evento.”
Depois de dar as instruções finais, a mulher de cabelos castanhos deu uma piscadela para Mayck e saiu em seguida.
“Não é que você conseguiu mesmo?”
“Eu posso vender isso?”
“Sério? Que desperdício. Acho que muitas pessoas gostariam de viajar para um lugar como a Antártida. Eu pensei que você fosse esse tipo de pessoa. Como você anda sempre com roupas de frio, achei que gostaria de visitar o lar dos pinguins, seus semelhantes.”
Enquanto falava de forma sarcástica, ele imitava um pinguim.
“Não faça esse tipo de comparação. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.”
Mesmo assim, embora ele tenha conseguido o prêmio e seja um desperdício não aproveitar como Haruna afirmou, ele não era obrigado a participar.
Além do mais, Takashi não o permitiria ir de forma alguma. Talvez fosse melhor apenas devolver o prêmio afinal.
Mayck fechou os olhos brevemente e respirou fundo, mas assim que abriu os olhos novamente acabou se deparando com uma palavra no canto do documento.
“BlackR/M-SAN/Zero.”
“Ah!” O garoto acabou elevando sua voz ao perceber do que se tratava. Deveria rir de si mesmo por ter entendido errado.
Não foi sorte nenhuma, apenas manipulação para dar a ele a chance de participar da próxima missão.
Com uma pista tão óbvia, não tinha como não saber do que se tratava. Além disso, ele tinha a leve sensação de que já tinha visto aquela mulher em algum lugar.
Então esse é o seu plano, Zero? Quanta criatividade. Ele até falsificou informações oficiais.
Não havia muito sobre o que pensar. Mayck esboçou um sorriso satisfeito. Era hora de pensar em como convencer seu pai de que deixá-lo ir para a Antártida era uma boa ideia.
****
No final da tarde, eles voltaram para casa.
Haruna tinha um sorriso satisfeito no rosto, enquanto Mayck se arrastava atrás dela, carregando um pouco mais de dez sacolas. Suas mãos já estavam dormentes e bem vermelhas.
“Yoru-san! Olha! Eu trouxe isso pra você. Não é fofo?”, ela indagou o animal que veio os receber.
A garota rapidamente tirou uma coleira azul com um pingente escrito o nome do gato. O felino miou em aprovação.
Precisava comprar tanta coisa?
O garoto finalmente soltou as sacolas. A sensação de liberdade percorreu seu corpo. Era a primeira vez que poderia descansar desde que acordou pela manhã. Ele soltou seu corpo no sofá preguiçosamente.
“Ah! Já estão de volta? Sejam bem vindos”, Suzune desceu as escadas e sorriu gentilmente.
“Estamos de volta! Eu trouxe algo pra você também, mãe.”
Então Haruna estava distribuindo presentes? Ela tirou uma caixa de perfume de uma marca bem famosa.
“Oh! Isso é… Esse perfume é bem caro!” Suzune não pôde esconder seu espanto.
Haruna sorriu convencida.
“Huhu! Eu sei. Mas não pensei muito nisso. Eu sabia que você iria gostar.”
“É claro que sim, mas… Ah… não é nada. Muito obrigada, Haruna.” A mãe provavelmente tinha notado o preço etiquetado na caixa, mas desistiu de falar sobre ele.
Agradecendo, Suzune borrifou um pouco do perfume em si mesma. Um cheiro suave e doce imediatamente dominou a sala. Isso definitivamente combinava com ela.
“Tem um cheiro tão bom~”
Ambas compartilhavam do mesmo gosto.
“E também… Toma.”
Foi a vez de Mayck. Ela estendeu a mão com um objeto plastificado e o entregou sem rodeios.
“Você gosta, não é?”
Apesar de parecer não se importar muito, ela evitou contato visual e estava com o rosto levemente vermelho.
O garoto encarou o presente. Era um chaveiro metálico com a forma de um violino.
Hum? Eu falei pra ele sobre isso?
O garoto sabia tocar o instrumento, embora não tivesse um, mas ele não se lembrava de mencionar algo assim para ela. Até porque não era do tipo que se gabava por isso.
De qualquer forma, ele sorriu. Era um chaveiro bonito no fim das contas. E se Haruna estava sendo tão sincera, ele precisava ao menos mostrar consideração.
“Sim. Obrigado.”
“É só um presente de agradecimento por ter me ajudado a estudar. Não pense que vai ter uma próxima vez.”
“Sim, sim. Claro que não vai…”
“Aliás, onde Takashi-san está? Eu também trouxe algo pra ele…”
“Ah, ele está no quarto… Ou não. Olha ele aí.”
Antes que desse a informação completa, Suzune viu Takashi descendo as escadas calmamente, como se tivesse acabado de acordar de um rápido cochilo. Suas roupas estavam meio desajustadas, mas ele arrumou quando viu os filhos ali.
“Ah, vocês já voltaram… bem vindos.”
“Alguém parece ter descansado bastante no seu dia de folga”, Mayck respondeu num tom irônico, já que ele passou o dia como serviçal.
“Meus pêsames por você.”
Depois disso, Haruna entregou uma caneca de porcelana que possuía a frase “Mantenha a calma e entregue o café” gravada nela, com um brasão policial no fundo.
Takashi agradeceu, então Haruna foi guardar suas coisas no quarto enquanto os outros se organizaram para preparar o jantar.
Após uma refeição em família, Takashi falou que eles tinham algo importante a anunciar.
Ele e Suzune trocaram olhares e deram as mãos sobre a mesa, enquanto uma tensão pairava sobre eles, mas havia um sorriso genuinamente alegre em seus rostos.
Seus batimentos estavam acelerados. Eles não sabiam o que esperar da reação de Mayck e Haruna ao ouvir, porém, não iriam esconder isso de forma alguma.
Suzune molhou os lábios, estava pronta. Takashi também estava. Então ela abriu a boca, sendo direta ao ponto.
“Nós… estamos esperando um bebê.”
Após a voz de Suzune, um silêncio intenso se seguiu. Aquelas palavras ressoavam na mente tanto de Mayck quanto de Haruna.
A garota cobriu a boca com as mãos, ao mesmo tempo que seus olhos se encheram de brilho.
“É sério…?”
Suzune assentiu.
“Isso significa que…”
Mesmo sendo óbvio, Suzune ainda respondeu. A alegria contagiante não permitia que eles pensassem sobre ser claro ou não.
“Vocês terão um irmãozinho ou irmãzinha.”
Haruna não conseguia conter o fervor e a euforia que se apossaram dela naquele momento. Ela saltou sobre sua mãe e a abraçou fortemente.
“E-ei! vai com calma.”
“Meus parabéns, mãe! Takashi-san também!”
Eles riram e se alegraram juntos, por outro lado…
Sério…?
Mayck ficou distante.
Um bebê? Logo agora?
Naturalmente, um casal recém formado não demoraria muito para ter um bebê, e isso não era problema algum. Mayck realmente ficaria feliz com isso.
Isso, obviamente, em circunstâncias normais. Aquele realmente era um péssimo timing, considerando tudo o que estava acontecendo.
Mayck já estava dando tudo de si para proteger sua família atual e várias outras pessoas… Mas o que fazer sobre um novo membro? Um bebê!
Em outras palavras, apenas mais peso para ele carregar.
“Mayck?” Takashi o chamou.
“Huh? Ah, meus parabéns aos dois.” Ele sorriu, demonstrando um sorriso na superfície, mas em seu âmago, um turbilhão de sentimentos confusos e torturantes.
“Um bebê, hein… Mal posso esperar.”
“Eu fiz os testes e estou com quatro semanas…”
“Então não dá pra saber se vai ser um menino ou menina… Ah~ Eu acabei ficando ansiosa.”
“Hihihi~ Em breve vai ser possível.”
Haruna e Suzune foram fisgadas pelo assunto. Enquanto Takashi estava ao lado, com um enorme sorriso no rosto.
Mayck por outro lado, apenas observou em silêncio. Ele não sabia se deveria falar alguma coisa ou não, mas pensou que aquele seria um ótimo momento para discutir algo importante.
“Ah, sem querer atrapalhar o momento, mas hoje eu ganhei um sorteio e recebi uma excursão gratuita para a Antártida. Queria saber se tenho permissão pra ir.”
Considerando a hora, ele decidiu que era melhor ser direto ao ponto.
Bom, a reação do casal foi como o esperado.
“Excursão para a Antártida?”
“Isso não é meio longe?”
“É, sim, mas eu pensei sobre e achei que seria bem interessante realmente”, disse o garoto, entregando o documento contendo todos os detalhes. “Pensei que essa talvez seja uma oportunidade única.”
Takashi e Suzune olharam cada uma das três folhas. Ela era realmente bem formatada e tinha informações cabíveis, bem como a inscrição de uma instituição famosa de turismo. Estava escrito que era até mesmo aprovada pelo governo.
“Será que vão fazer estudos científicos e estão usando a excursão para ter lucro?”
“É bem possível… E parece que vão providenciar todas as provisões para a viagem e estadia, além de estarem acompanhados por um serviço de segurança oficial…”
Mayck apenas ouviu a análise dos dois. Se fosse recusado, ele teria de pensar em outra forma de conseguir a aprovação, mas as coisas pareciam estar caminhando numa boa direção.
Era hora de jogar outra carta.
“Eu achei suspeito no começo, mas quando pesquisei parecia bem real. Acho que seria divertido conhecer um lugar assim.”
Com um olhar calmo e um sorriso leve no rosto, ele olhou para Suzune. Como a mulher gentil que era, não conseguiria dizer um não quando olhada com tanta expectativa. Mayck sabia bem disso.
“Hmm…”
“Ora, porque não? Conhecer o mundo além dessas paredes de concreto é uma coisa que não se tem muitas chances de fazer. Ele é jovem, que mal há em deixá-lo viver e encontrar algo diferente?”
“Não sei não… Parece meio perigoso… E um lugar tão longe…”
“Ué? Vai ficar solitário se eu for? Bom, considerando sua despedida emocionante quando eu viajei nas férias de verão…”
“Tá, tá. Não precisa falar disso!”
Takashi interrompeu o filho, escondendo o rosto vermelho.
Então deu seu veredito, numa respostas que nem Mayck esperava ser tão simples.
“Eu deixo você ir, mas me garanta que vai ser cuidadoso.”
“Okay, obrigado.”
Então o assunto retornou novamente para o bebê de Suzune, como se a excursão tivesse sido apenas um tópico a mais.
Talvez ele não se importe tanto, afinal.
Há um tempo atrás, Takashi faria questão de buscar sobre nos fóruns oficiais e traria um interrogatório pronto para os responsáveis pelo evento.
É… mas agora ele tem Suzune e Haruna. Assim como… uma nova criança para se preocupar.
Sem que percebesse, o leve sorriso que ele esboçou desapareceu, assim como o brilho de seus olhos.
Esse é o pior momento…
Haruna foi a única que notou a queda no semblante do garoto, que logo saiu da mesa e foi para o quarto em silêncio.
Mas talvez seja melhor assim. Se houver algo que me substitua, então está perfeito.
****
Alguns dias depois, Mayck se levantou cedo, cerca de oito horas da manhã. Depois de sua higiene matinal, ele voltou para o quarto e pegou um agasalho cinza escuro que tinha em seu armário.
Em cima da cama havia uma mala, que Takashi obrigou o garoto a encher com algumas trocas de roupas e objetos de uso pessoal. Mayck a encarou com olhos abatidos — talvez nem fosse precisar dela.
É amanhã… Espero que dê tudo certo.
A excursão aconteceria no dia seguinte, Mayck já havia se preparado bem mentalmente, mas ainda restavam algumas coisas, então ele saiu de casa após trancar o quarto.
Por conta das férias de inverno, o número de pessoas na rua era bem grande até. Ele viu e cumprimentou alguns vizinhos que raramente via por ali, mas que conhecia por morar ali desde pequeno.
Seus passos lentos como a brisa de inverno leve que soprava seus cabelos rangia sobre a fina camada de geada que cobria a rua. A estação que mais gostava finalmente voltou. Ele não sabia dizer ao certo porquê, mas talvez fosse pela sensação de acolhimento que o calor lhe trazia, quando todo o resto era intensamente frio.
O mundo parecia mais calmo no inverno, e as pessoas mais compreensivas.
Mas isso tudo podia ser só uma ilusão criada pela cabeça turbulenta dele; algo que ele queria acreditar.
Alana não gostava nenhum pouco do frio…
Ela era quase completamente oposta a ele. Sorridente e calorosa, assim era sua irmã mais velha, até onde ele se lembrava.
Um sentimento nostálgico pairou sobre ele, mas não era hora para ficar assim.
Depois de sair da área residencial, ele embarcou no trem em Ayase station e seguiu até descer na próxima estação, onde fez a baldeação e repetiu o processo mais duas vezes. Depois de chegar em seu destino, ele saiu da estação e caminhou um pouco mais.
O ar frio cortava seu rosto enquanto ele caminhava pela calçada. Com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, ele caminhou em direção ao parque, onde as árvores nuas estendiam seus galhos contra o céu cinzento. O lago, quase imóvel, refletia a luz pálida da manhã e poucos visitantes caminhavam lentamente, envoltos em cachecóis.
Suas vozes ecoavam distantes, mas quase dava para repetir o que diziam.
Mayck apenas caminhou em silêncio até um banco, enquanto seus olhos vislumbravam a paisagem melancólica, mas que ainda tinha um toque sereno.
Depois de consultar o relógio, viu que ainda faltavam cerca de dez minutos para o horário combinado, então decidiu comprar um chá quente em uma máquina próxima.
Ele inseriu a moeda e fez sua escolha. A lata caiu na bandeja e ele a pegou. Estava bem quente, diferente de suas mãos incrivelmente frias.
Acho que eu devia ter pego umas luvas…
Agora era tarde pra isso. As pontas de seus dedos já estavam bem vermelhas.
Ele abriu o lacre da lata e bebeu um pouco do chá, mas quase o cuspiu de volta, numa reação instantânea.
Queimei a língua…! E pra piorar…
O chá não era adoçado.
Devia ter prestado mais atenção em sua escolha.
Mas também era tarde para isso. Ele voltou para o banco e sem escolha bebeu o chá depois que ele esfriou um pouco. O líquido descendo por sua garganta o esquentou rapidamente por dentro, de forma que ele até cogitou tirar seu casaco, mas se fizesse isso, certamente congelaria instantaneamente.
Foi mais ou menos nessa hora que ele ouviu uma voz feminina chamar por ele.
“Mayck!” Era Chika. Ela acenou de longe com um sorriso, e então se aproximou. Estava usando um casaco longo cor bege por cima de um suéter de tricô branco e uma calça jeans.
“Você não esperou muito, certo?”, perguntou ao se aproximar. Ela provavelmente queria se certificar de que não havia se atrasado.
“Não. Relaxa. Chegou bem na hora. Até pensei que teria de esperar bastante.”
“Eu não sou do tipo que se atrasa pra um encontro”, disse ela, mesmo sabendo que aquilo não era um encontro da forma como ela mencionou, mas era apenas brincadeira.
Mayck ignorou.
“De qualquer forma, por que no Toneri Park? Nós podíamos ter ido até um local mais perto.”
Havia diversas opções de lugares para se encontrarem. Até mesmo a escola seria uma boa opção, visto que não teria muitos alunos por lá.
Mayck suspirou antes de responder.
“Sei lá… eu raramente venho aqui. Achei que seria uma boa ocasião.” Ele apoiou os cotovelos no joelho e olhou ao redor. Chika se sentou ao lado dele.
“É realmente um bom lugar… Sabe, eu acho que você se parece muito com Clair-senpai.” Ela tinha um sorriso solitário no rosto.
“…”
“Apesar de ser tão feliz o tempo todo, estar brincando e animando os outros, ela gostava desse clima de solidão. O silêncio era precioso pra ela. Você sente o mesmo, não é?”
“Talvez… talvez eu sempre tenha sido assim. Não sou muito fã de bagunça, então ficar assim é bom…”
“Entendo…”
Os dois ficaram em silêncio por algum tempo, apenas observando as crianças e adultos. Havia várias famílias reunidas ali, além de alguns casais.
“É amanhã, né? O início da operação. Ouvi de Nikkie que você conseguiu dar um jeito de ir.”
“É… Zero sabe brincar quando quer.”
“Hahaha! Muito a cara dele. É uma pena que eu não possa ir junto dessa vez.”
“Não se preocupe com isso. Tanto você quanto os outros precisam de um tempo para se recompor. Não deve ser interessante sair carregando tantas bagagens. Então, relaxa. Vocês devem voltar à ativa logo, logo.”
Ele não estava mentindo. Depois do confronto com Ryuu, a equipe Delta estava em uma situação delicada. Mesmo que Akari tivesse se recuperado dos ferimentos, ainda havia feridas emocionais não cicatrizadas que precisavam de um pouco de tempo.
“Mas e quanto a você?”
“O que tem eu?”
“Você é quem mais está se esforçando aqui. Um atrás do outro, você tem ajudado todo mundo. Eu ouvi seu relatório sobre o problema com Haruki e Hana-chan. Não só isso, mas Haruna também… Mayck, você vai ficar bem?”
De fato, o garoto tinha perseguido incidentes atrás de incidentes com pouca ou nenhuma pausa entre eles. Se fosse dar tempo para alguém se recuperar, deveria ser para ele, ela insinuou.
Mayck, porém, sorriu levemente. Sua opinião parecia ser diferente.
“Não importa muito. Chika, eu perguntei se você tinha bastante tempo livre hoje, certo?”
“Ahn? Ah! Sim… Eu tava me perguntando isso. Por que?”
“É que eu gostaria que você gastasse ele me ouvindo. Tem umas coisas que só posso dizer a você. O que acha?”
O que ele estava planejando fazer? E como assim seu estado mental não importava? Essas e muitas questões apareceram na cabeça de Chika, mas ela não ousou fazê-las.
“Não tô acostumada a ouvir isso de você…”
“Não? É estranho?”
“Uh-uh. Não é estranho. Só é… inesperado.” Ela se levantou e então olhou para ele com seu habitual sorriso enérgico. “Certo! Eu vou tirar o dia todo hoje para te ouvir. Então me diga o que quiser.”
Ela era compreensível. Aquela provavelmente era sua nova verdadeira personalidade depois de conviver com Clair, uma garota gentil e simpática, disposta a ouvir e animar os outros.
Mayck também se levantou. Ambos começaram a andar sem rumo pelo parque, observando as belas paisagens. Enquanto isso, Mayck contava suas aventuras e desventuras desde que se lembrava. Ele não escondeu muito. Contou sobre Alana, Kin, Keiko… e tudo mais o que podia contar.
Seu objetivo não era sobrecarregar Chika com informações sombrias e dolorosas, mas ele resumiu a maior parte e omitiu coisas que achava que não deveria revelar.
Nesse meio tempo, eles brincaram juntos, almoçaram e comeram lanches, enquanto Mayck transformava aquelas histórias trágicas em pequenas lembranças ruins.
Me desculpe, Chika. Eu não quero jogar mais peso sobre você. Eu entendo o que você passou até aqui e sei que ainda tem muitas coisas a resolver, porém, nesse momento, você é a única com quem posso contar.
Não que ele não confiava nos outros. Porém, as informações que tinha podiam ser consideradas de alto valor para suas respectivas facções. Haruki poderia ser pressionado pela GSN, cujas intenções eram ocultas e Mayck mal sabia sobre ela.
Por outro lado, Hana estava sobrecarregada de informações. Desde Kin até Masato e ainda houve aquele incidente na organização. Outro fator crucial que fizeram Mayck tomar a decisão de contar à Chika era que os dois estavam do mesmo lado. Na mesma organização, com os mesmos objetivos.
Ela era a melhor para ter aquelas informações.
“Dito isso, Chika, eu tenho um pedido.”
“O que é?”
“Eu não sei quanto tempo vai levar essa operação, então eu preciso que alguém fique de olho neles. Hana, Haruki, Rika, Haruna… Não preciso nem falar, mas Isha também precisa de cuidados. Tem um monte de coisas acontecendo ao mesmo tempo… Não estou pedindo que você lide com elas, mas, por favor, cuide dos que eu falei. Eu não quero que nada dê errado até eu voltar.”
“Hum! É claro que você pode contar comigo. Eu estava te devendo uma, afinal. Além do mais, tenho algumas pessoas que podem me ajudar a carregar tudo isso e mais um pouco”, disse ela com um ar de orgulho.
Dito isso… Você sofreu muito, hein, garoto? O quão forte você pode ser?
Apesar de estar calma e enérgica na superfície, cada palavra de Mayck foi como um açoite doloroso em seu peito. Ouvir suas histórias era como ler um conto sombrio de tragédias e dor. Ela se perguntava como ele era capaz de suportar tanto.
E ainda assim, está fazendo o seu melhor por nós…
Ela sentia que tinha compreendido seu amigo pela primeira vez.
A tarde já estava caindo. O sol se pondo no horizonte embaçado e difuso se escondia atrás das nuvens, emitindo um brilho suave e pintando o céu com tons dourados.
“Venha aqui um pouquinho.” Chika balançou a mão e o trouxe para mais perto.
Mayck se perguntava o que era, então foi surpreendido pela mão de Chika, que pousou suavemente sobre sua cabeça e bagunçou seus cabelos levemente.
“Continue se esforçando”, disse ela, um sorriso meigo e sereno no rosto.
Mayck sentiu isso ressoar dentro dele. Seu coração se aqueceu mais uma vez, embora ele não tenha deixado transparecer.
“É claro.”
Naquele momento, Chika pensava que repreender o garoto por suas ações ou por ter carregado tudo sozinho seria como rejeitar seu pedido e negar todo o esforço que ele fez até aquele momento.
Ela decidiu não se deixar levar por aquelas emoções profundas. Isso certamente era o que Mayck queria que ela fizesse depois de ouví-lo. Seria terrível para com ele caso ela se sentisse mal ou tentasse ajudá-lo desesperadamente ao saber de tudo o que ele passou.
A única coisa que ela podia fazer ali era…
“Pode contar comigo. Não se preocupe com nada aqui.”
<—Da·Si—>
Todas as equipes escaladas para a nova missão se reuniram no grande átrio, ao chamado de Zero, que chegou algum tempo depois, acompanhado de sua fiel secretária, Nikkie.
Estavam nas últimas preparações para o início da operação, que, provavelmente, seria a última e então vários mistérios seriam revelados.
Havia cerca de duzentas pessoas reunidas ali — agentes e soldados. Zero discursou na frente deles e reafirmou o objetivo da missão.
A prioridade. Seria tão difícil quanto procurar uma agulha no palheiro. O que eles estavam procurando era um objeto capaz de armazenar uma gravação de vídeo ou áudio; isso porque os dois dispositivos que eles encontraram eram um pendrive e uma fita K7, então poderiam encontrar seu objetivo até mesmo como um disco de vitrola. E era isso o que dificultava tudo.
Eles tinham dois polos para investigar, e para conseguir cobrir a maior área no menor tempo, se dividiriam em pequenos cinco grupos de vinte — 100 agentes em cada polo — e iriam para diferentes pontos.
Mayck estava designado para a Antártida, assim como a equipe Beta e Gamma, além de outros soldados e agentes da Strike Down sob comando de Zero.
Além disso, Zero os avisou, existia a menção de terras não visitadas, então era algo a ser investigado também.
Os preparativos estavam prontos. Eles partiriam no mesmo dia. Pegariam um cruzeiro de fachada no principal porto da baía de Tóquio, em seguida iriam desembarcar em uma plataforma no meio do oceano Pacífico, onde dois aviões estavam à espera.
A operação começava assim que eles pusessem os pés em terra.
Enquanto ouvia atentamente, a equipe Delta se aproximou de Mayck.
“Finalmente vai começar, hein…”
“Essa é a sua primeira missão em um lugar tão longe, não é?”, perguntou Stella com um olhar curioso.
“Bem, de certa forma, sim. Eu realmente não sei o que esperar.”
“Está nervoso? Relaxa. Não deve ser tão ruim assim.” Isha parecia ter percebido a inquietação de Mayck e deu tapinhas em suas costas.
“Bom, de qualquer forma, você pode confiar no pessoal da equipe Beta. Eles são bons no que fazem, apesar de tudo. E quanto às coisas aqui, nós vamos dar conta.”
Chika gesticulou com um sorriso confiante.
Mayck realmente podia sentir segurança em deixar tudo nas mãos dela; poderia partir sem preocupações.
Enquanto conversavam, a equipe Alfa também se aproximou, desejando boa sorte para cada um deles, afinal, estariam em locais diferentes dessa vez.
Era tranquilizante. Mayck realmente estava se sentindo inseguro em ir, mas conversar com eles foi libertador de certa forma e ele até começou a sentir certa empolgação ao se imaginar em um lugar tão distante e tão diferente de tudo o que ele já tinha visto.
“Muito bem”, Zero anunciou. “Vocês receberam em seus DAs localizações dos ônibus que os levarão até o porto. Estarão seguros, então não se reprimam em falar com seus companheiros. Nós não temos uma operação desse nível desde a primavera, então é normal que se sintam deslocados.”
Em outras palavras, todos do ônibus eram companheiros, então eles podiam espairecer e acalmar a mente até que o show começasse de verdade.
Assim como Zero disse, havia pontos registrados no mapa, não muito distantes uns dos outros, marcados com a cor verde. Quando ficassem em vermelho, significava que o ônibus já estava lotado.
“É uma missão sem tempo determinado para acabar. Vocês precisam ser pacientes e lembrar que não estão sozinhos. Ajudem-se e façam o possível para voltarem todos vivos e bem. Desejo uma boa sorte a todos.”
Quem disse essas palavras foi Nikkie. Ela não podia deixar seus subordinados partirem sem encorajá-los um pouco.
Depois de um grande “Sim!” uníssono, a reunião foi finalizada. Assim, todos os agentes que participariam da operação — tanto da Black Room quanto da Strike Down — seguiram em direção aos pontos no mapa.
Mayck também estava entre eles, mas seguiu sozinho, aproveitando o clima da madrugada fria e silenciosa.
Ele sequer conseguia pensar em quanto tempo levaria até que estivesse de volta. Se possível, até o final do mês as coisas teriam se ajeitado.
Então é isso…
Um sentimento o fez olhar para trás e encarar as luzes da cidade. Uma pequena geada caía naquele horário, em pequenos flocos sendo carregados por uma brisa suave. Um sorriso apareceu no rosto do garoto, assim como uma chama que ele não sentia há tempos.
Acho bom eu apertar o passo. Não quero ficar sem lugar.
Ele se preparou, então deu um salto e o impulsionou com eletricidade, conseguindo alcançar o topo de um edifício. Sem hesitar, seguiu saltando de um para o outro até o ônibus mais próximo.

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