Capítulo 132 - Bastidores
Mayck ouviu o capitão falando sobre o terceiro grupo de forasteiros enquanto voltava para o jardim, e recebeu olhares hostis vindo dele e de seu grupo de guardas.
Passaram-se quatro dias desde que chegaram ao reino de Nevéria.
Será que estão todos bem? Se são três grupos, com o nosso, então fomos todos divididos.
Por sorte, estavam todos reunidos, de certa forma.
Só havia um problema.
Que merda que eles têm na cabeça?
Ao que parecia, esse terceiro grupo fez besteira e agora estavam sendo perseguidos como criminosos. O próprio rei o chamou e os ameaçou, dizendo:
“Se vocês estiverem relacionados, estejam preparados para enfrentar as consequências.”
Era uma clara ameaça de que eles poderiam ser executados como potenciais criminosos perigosos.
Mayck havia conseguido esse tempo depois de enrolar o rei e argumentar que poderia ser apenas coincidência. Então saiu da sala do trono.
Só estavam vivos àquela altura por conta da princesa Eirlys, que insistiu em oferecer hospitalidade e estava entusiasmada com seus supostos convidados.
No começo, eles temiam que a barreira de linguagem fosse ser um problema, mas assim como seu pai, a jovem conseguia falar japonês, um dos idiomas da segunda classe de nobres, o que fazia jus aos convidados que ela estava esperando.
Aqueles agentes só podiam agradecer tamanha coincidência.
Em outras palavras, eles estavam protegidos das ordens do rei até que fosse provado o contrário.
Aliás, Mayck andou pesquisando, e descobriu algo interessante sobre o idioma dos moradores. Eles não tinham uma linguagem própria realmente. Pelo que pôde perceber, havia palavras de todos os idiomas conhecidos misturadas em uma única frase, era isso que a tornava incompressível.
Nessa linha, a língua do país era dividida em três classes: a terceira classe, que misturava os idiomas, usada pelos civis; a segunda classe, que podia ser resumida a idiomas orientais; e a primeira classe com idiomas ocidentais.
Mayck não entendia o porquê, mas descobriu isso pelos padrões que observou no decorrer dos dias.
De uma forma ou de outra, eles precisavam fazer contato com os outros grupos.
Mas como? Sair daqui sem observação vai ser impossível, então eu não posso me encontrar com o terceiro grupo pra não acabar com o disfarce…
E ele não fazia ideia de onde estava o segundo, o qual o rei se recusou a falar. Mas se pudesse arriscar um palpite:
Na prisão.
Era o mais provável, já que seu grupo quase foi jogado lá.
Ele voltou ao jardim de árvores e flores com folhas e pétalas azuladas e pálidas. Tudo naquele reino parecia seguir o tema de gelo, mas provavelmente tinha uma razão para isso e não era apenas o fato de ser um reino na Antártida.
Ele caminhou até os outros por um caminho feito de pedras, com chamas azuis iluminando o caminho suavemente, e se aproximou da pequena cabana lustrosa, que mais parecia um guarda-chuva gigante feito de cristais de gelo, sustentado por pilares ao redor.
Havia doces, chás e flores sobre a mesa e tanto Sora quanto as garotas agentes e a princesa, que continuava deslumbrante, se divertiam rindo de alguma coisa — elas tinham ficado bem íntimas em apenas quatro dias.
Os dois garotos estavam de pé, um pouco longe delas, sem saber o que fazer. Estavam tão perdidos que sorriram abertamente ao vê-lo chegar para se juntar a eles.
Mayck se aproximou e foi cumprimentado por Sora.
“Bem vindo de volta. Como foi?”
A atenção das garotas também vieram para ele.
“Mm… Nada demais. O rei Arden só parecia um pouco curioso sobre algo, mas já foi resolvido.”
“Ah, é? Então tá tudo bem.”
O garoto assentiu. Elas voltaram ao que estavam fazendo.
Mas então um dos garotos abriu a boca, com um olhar sério, falando num tom que apenas Mayck e o outro conseguiam ouvir.
“Tem algo mais, não é?”
Ele parecia ser bem perspicaz. Seu nome era Masaki, e ele era um Executor de Alta Precisão, diferente de seu amigo, Koji, que era um Especialista em Dano Contido.
“É… realmente.”
Mayck não via motivos para esconder a verdade. Enquanto a voz das garotas animadas enchiam o jardim, ele contou aos dois o que escutou do rei.
“Pelo menos sabemos que eles estão vivos… ou parte deles, não sei…”
Naquele ambiente hostil, não seria tão estranho que alguém tivesse perdido sua vida naquele meio tempo.
“De qualquer forma… O capitão Takeda parecia ser centrado demais pra causar confusão sem mais nem menos. Isso só deixa uma pessoa…”
Uma expressão amarga apareceu em seus rostos. Eles consideraram cada uma das figuras que havia em seu grupo de busca, e, no fim, apenas uma pessoa seria capaz de causar esse problema todo.
“Viktor”, concluiu Koji.
O garoto de cabelos castanhos escuros assentiu.
“O que há de errado com esse cara, afinal?”
Mayck tinha o observado durante o tempo que estiveram juntos, mas não foi capaz de reunir informações realmente relevantes.
Ele era um cara barulhento e arrogante, que era isolado por algum motivo. Porém, seu status como agente especial ditava que ele tinha algum mérito nas mãos.
“Ah… longa história… Mas aquele cara é como uma bomba prestes a explodir. Ele não escuta ninguém e pensa que sabe de tudo.”
“Ele é forte, de verdade. Dá até pra admirar quando você checa o histórico dele.”
Mas ele era impulsivo e já foi advertido várias vezes por atrapalhar missões de alto risco, sem contar que já foi expulso por três equipes de ataque pelas quais passou.
“A gente não sabe muito sobre ele. Só que ele é difícil de lidar e acha que tá sempre acima dos outros. É o tipo que explode quando as coisas não são como ele quer.”
“É mesmo?”
Então era certeza que ele foi o responsável pelo problema na cidade.
Ainda bem que eu não caí perto dele.
Mayck conseguia imaginar o quão irritante seria ter ficado no mesmo grupo que ele.
****
Depois da pequena confraternização do chá, eles se dividiram.
Os garotos ficaram curiosos para ver o treinamento dos soldados, enquanto as garotas foram com a princesa para uma casa de banho que havia no castelo.
Restou apenas Mayck e Sora.
Ao que parecia, havia uma biblioteca numa das partes mais altas e eles decidiram visitar. Quando chegaram, se depararam com uma sala imensa, com arquitetura que lembrava a de uma catedral, com centenas de prateleiras contendo milhares de livros. Ela também era silenciosa, assim como a maioria, e havia vários visitantes ali.
“Aqui é incrível também”, comentou Sora, seus olhos brilhavam.
“Não achei que você era do tipo que gosta de livros”, comentou Mayck, após ver a garota olhando ao redor com entusiasmo.
“Fufu~ Pode não parecer, mas eu leio muito. Principalmente livros que envolvem medicina”, gabou-se.
Não havia recepção, parecia que o lugar era aberto para os nobres que viviam no castelo.
Será que encontrariam algo que veriam normalmente em uma biblioteca normal?
Eles se perguntaram isso, mas quando deram uma bela olhada, viram que os livros tinham capas duras, a títulos gravado com uma tinta dourada, mas eles não conseguiam ler nada do conteúdo; ainda seguiam o mesmo padrão de línguas misturadas, e nenhum deles era poliglota.
No fim, desistiram dos livros.
Eles se sentaram confortavelmente numa mesa próxima à janela, enquanto tentavam se acostumar com os olhares estranhos dos outros visitantes da biblioteca.
“Isso é esquisito… Acho que eu não ficaria bem sendo uma celebridade.”
“Toda essa atenção faz mal pra mim também…”
Eles conversavam em voz baixa, enquanto lentamente iam perdendo toda aquela atenção.
“Ah, aliás, eu descobri algumas coisas com a princesa.”
“Mm? Então não ficaram só jogando conversa fora?”
Como esperado de Sora; sempre trabalhando.
“Eu sei o que preciso fazer. Como seu braço direito, tenho minhas obrigações.” Ela apertou os olhos e cruzou os braços. “Enfim, escute, você já deve ter reparado, mas todas as pessoas que a gente viu por aí usam um anel.”
Era um fato. Desde que chegaram, notaram que até mesmo o rei usava um anel incomum no dedo médio e o mesmo valia para todos os residentes do reino.
“Mm-hum.”
“Ao que parece, cada classe de moradores aqui tem um tipo, e isso é mais que um símbolo de status. Você já ouviu sobre o Nheria, certo?”
O Nheria era como os habitantes do reino chamavam a energia fundamental que movia todas as suas tecnologias e habitavam o ser de cada um. Sua fonte era a benção concedida por uma divindade importante.
Era um termo novo, mas os agentes não viam diferença entre o Nheria e a energia sem nome que pulsava dentro deles.
Sim. Mayck ouviu sobre isso.
Sora continuou.
“Esses anéis funcionam como pedras receptoras da energia que cada um tem dentro de si”, ela gesticulou. “Além de provar sua identidade, ela é usada para todo o tipo de coisa formal e simbólica, como jurar lealdade ou coisa do tipo.”
Era como um documento, um artefato que criava contratos entre duas pessoas que não podia ser quebrado e poderia resultar em duras sentenças.
“Caramba… nunca pensei que dava para usar pedras da lua dessa forma.”
Talvez ninguém de fora tenha pensado. Mas até que fazia sentido, afinal a energia substituía coisas feitas com pacto de sangue, por exemplo.
Talvez fosse o nível mais elevado de juramento, que transcendia testemunhas ou palavras fiéis.
“Isso é interessante… Acho que dá pra subjugar muitos criminosos com isso.” Pensamentos malévolos entraram na cabeça do garoto.
“Nem pense em ferir os direitos humanos”, Sora o repreendeu.
Mayck apenas sorriu de canto em resposta, como se dissesse que isso nem chegou a sua mente.
Ele ponderou um momento. Realmente, aquela mecânica tinha diversos usos e com certeza podia ser usada tanto de forma boa como de forma ruim, assim como qualquer outra coisa.
Pera…
Algo pareceu estranho naquilo tudo. Desde que chegaram até o rei até aquele momento.
“Espera aí… Então por que o Arden—”
“Vocês são os convidados da princesa Eirlys?”
Antes que Mayck pudesse concluir seu pensamento, guardas se aproximaram deles e isso chamou a atenção de todos mais uma vez.
“Precisam de algo?” Mayck levantou uma sobrancelha mostrando que não se deixaria ser rebaixado.
No entanto, as coisas correram diferente do que esperavam.
“O príncipe herdeiro de Nevéria, Kaeelen Coldheart, solicita sua presença ao camarim de Sua Alteza.”
A parte de solicitar foi dita com um tom grosseiro. Aquele guarda parecia estar se forçando a falar com eles. Talvez fosse um dos que os enfrentaram dias atrás.
Mayck e Sora se entreolharam. Eles concordaram em ir, então foram escoltados até o camarim. Ficava no final de um longo corredor à esquerda da sala do trono.
Quando chegaram, às portas de algum material metálico fosco com detalhes dourados foram abertas assim que os guardas anunciaram sua chegada.
Eles entraram após a permissão. Quando ouviram a voz do príncipe, perceberam que era uma voz grave e carismática de um homem que estava no ápice de seus vinte e poucos anos, e assim que o viram sentado em uma cadeira de carvalho escuro com almofadas vermelhas, tiveram sua confirmação.
Assim como seu pai e irmã, seus cabelos prateados pareciam refletir a luz que passava pelas enormes janelas com cortinas brancas. Os olhos pareciam brilhar intensamente, embora tivessem um um tom mais pálido.
“Vocês são os convidados de Eirlys?” Ele sorriu e se levantou.
“Err… Sim, somos.”
Tecnicamente não, mas Sora manteve a encenação.
“Eu sou Sora, esse é o vi— !”
De repente, antes de completar sua fala, Sora parou. Ela olhou para Mayck com um rosto pálido.
Como deveria apresentar o vice-capitão? M-san? Ué? Qual o nome real dele?
Ela se sentiu atordoada.
Aquele olhar era um pedido genuíno de socorro.
Mayck suspirou. Ele não queria usar seu nome real e também não via motivos para ter receio de usar seu apelido como agente.
“Eu sou M. É um prazer conhecê-lo.”
“M? Sora? São nomes realmente incomuns. De qualquer forma, eu sou o príncipe herdeiro de Nevéria, Kaeelen Coldheart. Em nome da família Coldheart, eu aprecio a vinda de vocês e agradeço a companhia que fazem à minha pequena irmã.”
Diferente de como Arden os tratou, eles podiam ver claramente a cortesia encher aquele camarim.
“Então… bem, por que nos chamou aqui?”
Sora talvez não soubesse como se portar na frente de um príncipe daquele nível, que mostrava tanto uma aparência muito acima da média como um carisma palpável. Ele também tinha um sorriso radiante.
“Hum? Nada de mais. Eu só queria conhecer as pessoas que tiraram minha irmãzinha do quarto. E também dar as boas vindas. É meu dever como príncipe.”
“Oh… ah~ é mesmo? Ficamos lisonjeados… Haha…”
Novamente aquele olhar de socorro. Mayck balançou a cabeça levemente e então tomou a liderança.
“É realmente um prazer estar aqui… Eu deveria ter chamado os outros para conhecê-lo?”
Ele se referiu aos quatro restantes que estavam em diferentes atividades naquele momento.
“Não, não se preocupe com isso. Não quero incomodá-los com um simples convite para agradecer. Vocês devem estar muito ocupados com os preparativos também. O Dia do Escolhido chegará em breve. Nada pode dar errado.”
E novamente aquele evento estava sendo citado.
“A propósito, qual o nosso papel no dia do escolhido?”
Mayck lançou a pergunta com um olhar sério. Não importava se o príncipe estranharia, o que de fato aconteceu, mas no fim, acabou surtindo um efeito parecido com o que se imaginava inicialmente.
Sora ficou preocupada que a questão levantaria suspeitas sobre a verdadeira origem deles, mas o garoto estava apostando no outro significado que ela teria.
“Esperem… Eirlys não contou a vocês?”
Bingo, Mayck pensou.
“Foi tudo tão de repente que não tivemos muito tempo pra perguntar… E a princesa parecia muito entusiasmada também”, respondeu o garoto.
Kaeelen sorriu. Isso era bem sua irmã mesmo.
Em suma, o Dia do Escolhido era dividido em três dias. No primeiro, o reino estaria em uma grande confraternização; comprar e vender eram proibidos e seria o dia em que todos estariam em paz uns com os outros.
No segundo dia, haveria o discurso do rei, a revelação do escolhido ao príncipe e à princesa, e as honras ao escolhido por Nivorah, a divindade protetora de Nevéria.
Então chegava ao terceiro dia, onde os servos de Nivorah vinham em busca do mais novo servo e o levariam para o abraço da divindade. Assim, o reino era abençoado com colheitas fartas, abundância de Nheria e muitas outras coisas pelos próximos dez anos — o evento era finalizado com uma enorme festa providenciada pelo rei.
Sendo assim, o papel de Mayck e dos outros, segundo Kaeelen, seria acompanhar a princesa Eirlys durante todo festival e auxiliá-la em suas obrigações reais.
Havia outros pequenos detalhes que o príncipe contou.
“Como eu disse é um papel simples. Apesar disso, requer dedicação total. Espero que não seja um fardo para vocês”, concluiu Kaeelen.
“De forma alguma. Vamos garantir que tudo saia conforme o esperado.”
“Sim. Estou confiando totalmente em vocês.” Ele sorriu gentilmente.
Havia um brilho nos olhos de Sora.
“Uau… Acompanhar a princesa em algo assim… Isso é uma honra imensa.”
Era compreensível. Afinal, não era todo dia que se entrava em um reino isolado do resto do mundo e participava de seu principal evento.
Dito isso, eles não podiam deixar sua missão de lado. Precisavam encontrar Takeda e descobrir se sairiam dali ou o que deveriam fazer.
<—Da·Si—>
Com Takeda e os outros.
Eles foram trancafiados numa cela congelada, cuja única grade que dava para fora estava virada para árvores de folhagem acentuadas como pinheiros, coberto por neves e com folhas brilhantes.
Eles não resistiram à prisão, e checaram a estrutura do local. As paredes não eram comuns, havia algo nelas que ajudou a aumentar a resistência talvez até centenas de vezes mais que as paredes de tungstênio das prisões de contenção da Black Room.
Sair não vai ser tão fácil.
Takeda sentou-se no banco de pedra pálida acoplada na parede e cruzou os braços.
Os agentes que lhe faziam companhia estavam atordoados momentos atrás, mas já pareciam mais calmos, embora essa tranquilidade poderia ser rompida a qualquer momento.
Inclusive, somente Takeda, Gunner e os dois agentes homens da Strike Down estavam ali; Sky e a outra garota foram enviadas para uma cela diferente.
“Como a gente vai sair daqui, Takeda? A gente já perdeu muito tempo.”
“Relaxa aí, Gunner. Eu tô pensando.”
Ele dispensou o garoto balançando a mão. Mas os ânimos pareciam prestes a mudar.
“Você diz isso… mas só estamos aqui porque você escolheu se render…”
“Não tínhamos escolha, certo? Precisamos de informações—”
“Sobre o quê, exatamente? Nossa missão não é encontrar uma simples fita ou o que quer que seja?”
Nisso ele tinha um ponto. O único objetivo real ali era encontrar a última peça que lhes daria a resposta para um mistério que já tinha anos de existência.
Um dos agentes da Strike Down estalou a língua, e disse em voz baixa:
“Os nossos capitães são muito mais competentes.”
Gunner, porém, ouviu claramente. Uma veia saltou em sua testa e ele imediatamente agarrou o colarinho da pessoa em questão.
“Que merda você tá falando aí?! Acha que tá no direito de abrir esse esgoto que você chama de boca?!”
“E eu tô errado?! Estamos aqui há uma semana e não tivemos progresso nenhum. A única merda que a gente conseguiu foi sermos presos aqui sem chance de sair!”
“O capitão Takeda já disse que está pensando em algo. Vê se espera calado, seu imundo!”
Gunner o empurrou fortemente, jogando-o contra a parede. Ele se virou, mas o garoto abriu a boca outra vez.
“No fim, vocês são todos um doentes assassinos que não se importam com nada mesmo, não é? Como esperado da Black Room.”
Gunner até poderia tolerar um insulto ou dois a ele, mas algo que os agentes da Black Room tinham em comum era a lealdade para com eles mesmos e com a organização. Afinal de contas, eles sabiam os horrores que enfrentavam dia após dia para manter o lugar o mais seguro possível.
Portanto, uma afronta dessas à organização era o mesmo que desprezar todo o sofrimento que eles se dispuseram a carregar.
Foi por isso que ele parou e virou-se novamente. Os olhos ardendo em chamas.
“Repete isso mais uma vez…”
A outra parte não cedeu.
“Não passam de assassinos pregando justiça—!”
Sua frase foi interrompida por uma onda de choque, seguida de uma pressão incalculável. Gunner tinha desferido um soco em direção a ele, mas seu companheiro interviu o bloqueou com o punho.
“Não pense que somos mais fracos que você.”
“Continua falando merda e eu vou quebrar cada osso do corpo de vocês! Seus cachorros do governo!”
“Hahaha! Acha que dá conta, vermezinho? Com esse seu nível, você não deve dar conta de um Ninkai classe B.”
A hostilidade cresceu. Dava para sentir o ar esquentando devido a colisão das três energias prestes a explodir.
Se eles começassem a brigar ali de verdade, era possível que destruíssem a cela completamente. E tudo indicava que eles começariam a lutar até que um morresse.
No entanto…
“Já basta.”
A energia dos três foi engolida por uma pressão sombria ainda maior que vinha de trás de Gunner.
“Não ajam como crianças. Prestem atenção em suas palavras e ações.”
Takeda apenas deixou vazar um pouco de sua energia para interrompê-los, mostrando uma falsa intenção assassina. Mas foi mais do que o suficiente para fazê-los recuar.
“O gelo deve ter congelado a maior parte do cérebro de vocês, então eu vou esclarecer. Fomos divididos e não sabemos onde estão nossos companheiros. O primeiro de tudo é nos reunirmos e só assim pensaremos em como prosseguir. Entenderam?”
Eles assentiram.
“Ótimo. Sejam bons garotos e não comecem a brigar. Não temos tempo pra esse tipo de coisa agora.”
Com o fervor de uma luta intensa resfriado, eles se silenciaram mais uma vez e voltaram cada um para seu próprio lugar.
Não havia nada que pudessem fazer além de confiar em Takeda, por mais que odiassem isso.
Enquanto aquele silêncio se seguia, interrompido apenas pela ventania do lado de fora, eles ouviram uma voz.
“Ei, ei! Vocês não são daqui, não é?”
Custou para eles perceberem que era com eles que a voz falava. Parecia estar vindo da cela ao lado.
Gunner se adiantou e correu para perto da porta de aço reforçado, onde havia apenas uma pequena abertura com visão para o corredor escuro.
“E quem é você?”
“Meu nome é Kaelric. Sou um membro da família secundária, Braveheart.”
“Braveheart? Secundária? A família do rei?”
Ele confirmou.
“Tá. Mas se você é da família real, por que está preso aqui?”
Essa dúvida era justificável. Prisão era um lugar para criminosos em primeiro lugar. Se ele estava ali, então tinha feito algo que era contra as leis do reino.
“É uma história complicada. Eu ouvi a discussão de vocês. Vocês não são daqui, certo? Vocês são de um lugar fora das barreiras.”
Barreiras? Ele estava se referindo às montanhas e à tempestade?
“Você poderia nos dizer mais sobre esse lugar?” Takeda tomou a frente.
“Não vejo problema. Esse reino é o que é. Vocês viram, certo? Esse lugar foi fundado no centro do continente há centenas de anos e evoluiu graças ao poder de Nivorah — nossa entidade protetora —, o Nheria.”
“Hum… entendi. Mas o que isso explica sobre o fato de você estar aqui?”
Era intrigante, mas era melhor não se deixar levar pela história.
“Nivorah desperta a cada dez anos em busca de seu novo servo, que será levado no dia do escolhido e isso tem acontecido desde a fundação do reino. É um evento enorme e todos os moradores participam, sob a crença de um culto para nossa divindade.”
Era uma cultura bem diferente de tudo o que viram até ali. Apesar de ser algo que o que realmente importava era a crença, talvez aquilo fosse bem mais real do que se imaginava.
“E aonde você se encaixa nisso tudo?” Gunner insistiu, batendo o pé repetidas vezes no chão.
“Tenha calma, meu jovem guerreiro. A verdade é que esse evento animado e alegre esconde um segredo terrível. E quanto ao rei desse lugar, ele enlouqueceu.”
“Enlouqueceu?”
Lembrando do rosto frio e mau humorado de Arden, não dava para dizer se sua mente tinha sucumbido ou não.
Kaelric continuou:
“Eu adoraria contar tudo a vocês, mas não posso apenas empurrar mais informações. Só vou dizer uma coisa. Eu sou contra as ações do rei e pretendo pará-lo antes do escolhido se levantar”, disse com uma voz firme.
“Você diz isso, mas não parece ser tão fácil fugir desse lugar.”
Takeda analisou as paredes reforçadas mais uma vez. Definitivamente não parecia ser um lugar que permitia uma fuga. Apenas tocar nas paredes dava a sensação de que elas eram indestrutíveis até mesmo contra uma bomba atômica.
Tocando na superfície dela, era como se houvesse uma fina camada de vidro sobrenatural sobre ela.
“Como você pretende sair?”
“Em alguns dias”, disse o homem. “Meus companheiros irão me libertar. Nós vamos nos reunir e derrubar os planos malignos de Arden antes que seja tarde.”
Então não era apenas ele que estava contra o rei. Parecia algo muito mais enraizado do que parecia à primeira vista.
“Voltando ao assunto principal, vocês não são daqui, correto?”
Àquela altura, não fazia sentido esconder. Se o que Kaelric contou era mesmo verdade, então aquela era uma oportunidade única.
“Exatamente. Viemos de fora. Paramos aqui por mero azar—”
BAM!
De repente algo bateu contra a porta, fazendo um barulho ensurdecedor.
“Dá pra calarem a boca, seus imundos?! Vocês não têm permissão pra falar aqui!”
Era um guarda, e ele parecia bem irritado.
“Que merda… E pensar que alguém como eu foi rebaixado a um mero carcereiro! Que sejam punidos pelos mensageiros do inverno!”
Ele bufou, então saiu, deixando um clima esquisito para trás.
Takeda e Gunner se entreolharam. Depois de alguns segundos, Kaelric falou mais uma vez.
“Eu tenho uma proposta pra vocês, forasteiros. Dá pra ver que vocês precisam encontrar seus companheiros o quanto antes, então façamos assim. Antes do evento principal, daqui uma semana, nós vamos partir para ofensiva.”
“Isso significa que vão acabar com o evento?”
“Não exatamente. Nós vamos parar o que o rei Arden está planejando. Porém, com as peças que temos agora, isso pode acabar sendo mais chamativo do que queremos.”
Isso resumiu o que ele estava querendo dizer.
“Então você quer a nossa ajuda?”
“Isso mesmo. O rei Arden sabe sobre a existência de um grupo opositor, então ele pode ter cartas contra a gente. Porém, se vocês, forasteiros, nos ajudarem, serão como uma carta na manga que nem mesmo Arden e seu <Conhecimento Absoluto> pode prever.”
Em troca, eles ajudariam a encontrar o restante do grupo e a tirá-los do reino em segurança, foi o que Kaelric disse.
Não era um acordo ruim. Apesar de haver dúvidas, como se ele estava mesmo dizendo a verdade, ainda era a opção mais segura.
Takeda ponderou por um momento.
“Não é ruim, certo? Com a ajuda deles, a gente pode acabar saindo bem mais rápido”, disse Gunner.
“Vê se faz uma boa escolha agora, capitão.”
“Ainda tá falando?!” Uma veia saltou na testa do garoto.
“Quietos. Tudo bem. Nós aceitamos, mas temos algumas condições.”
“Eu vou ouvir tudo o que tiverem a dizer. Não vai demorar muito para virem até nós. Sejam pacientes até lá.”
Então havia um plano de fuga, mas que levaria tempo até ser concretizado, foi isso o que as palavras do homem deram a entender.
“Está bem. Eu sou o capitão do terceiro grupo de buscas, Takeda. Muito prazer.”
“O prazer é todo meu, capitão Takeda.”

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