Índice de Capítulo

    Assim que o dia raiou, a princesa Eirlys saiu do castelo para ver a cidade, e como fariam o papel de guardiões em breve, Mayck e os outros foram orientados a acompanhá-la. 

    A cidade continuava em progresso nos preparativos e o que tinha antes podia-se ver em dobro; a animação era quase palpável. 

    Algo, porém, que eles notaram, é que havia várias tabuletas de pedra pálida com inscrições nada legíveis para eles, que ficaram bastante intrigados. Pareciam o mesmo tipo de escrita dos livros da biblioteca. 

    “Ficaram curiosos?”, a princesa Eirlys, que estava no centro, perguntou. “As placas de pedra carregam algo além de uma decoração. Elas carregam a história de Nevéria e é muito importante para o dia do Escolhido.”

    As tabuletas tinham cerca de um metro de altura e alguns poucos centímetros de largura. Estava certo em dizer que aquilo era um resumo? Mayck pensou sobre isso, mas decidiu não falar nada. 

    Então Eirlys continuou:

    “Eu posso contar a vocês. Querem ouvir?”

    Expressões tediosas apareceram no rosto de todos ali, mas eles evitaram que a princesa notasse. Afinal, poucos estariam dispostos a ouvir tantas histórias longas e que poderiam ser ou não cansativas — só saberiam quando acabasse. 

    Mas em meio às suas intenções de recusar, Mayck se adiantou e disse “sim”. Foi fuzilado com olhos afiados em troca? Foi. Mas aquilo era necessário. Eles precisavam juntar o máximo de informações sobre aquele lugar, embora ainda não houvesse um motivo para tal. 

    Só parecia ser o certo. Então, até encontrarem o resto do grupo, eles precisavam disso. 

    Com a confirmação, a princesa pôs um sorriso gentil no rosto e começou a falar sobre Nevéria. 

    Tudo começou há centenas de anos. A terra congelada se ergueu dos mares, e nela foi posta um grupo de pessoas. Cada um com sua língua, a comunicação era difícil, então eles se separaram. Porém, sobreviver sozinhos naquela terra inóspita era impossível, afinal Nivorah não tinha posto apenas os seres humanos naquela terra. 

    A luta pela sobrevivência tornou-se brutal e sangue banhava a neve por todos os lados. Os humanos viram o caos da natureza e foram encontrados pela cruel verdade de que eram fracos. Sem escolha, eles se juntaram novamente e então clamaram. Eles receberam as bênçãos de Nivorah, um poder que começou a fluir dentro deles. 

    Com esse poder e o seu controle, eles ergueram montanhas e tempestades para manterem os monstros gigantes longe. Suas casas eram feitas com o poder da temperatura negativa e seus corpos adaptados ao frio. Então eles começaram a se multiplicar, e conforme seus números aumentavam, o reino crescia. Eles misturaram suas línguas e criaram o novo idioma do reino. 

    E assim foi por longos anos. 

    Entretanto, a maldade corrompeu os filhos e o caos começou a se instaurar rapidamente. A desordem, a fome e a falta de regência tornaram o reino de paz em uma nova arena de sobrevivência. 

    Os filhos que mantiveram a sanidade viram a necessidade de um governante e então guerrearam contra os filhos corrompidos. Com a ajuda de Nivorah, eles prevaleceram e o reino alcançou seu novo estado de paz. 

    Então escolheram para si um rei, o único homem que se mostrou digno, o homem que levantou sua espada unicamente pela salvação dos filhos e não se deixou cair pelas dores e sofrimento que enfrentaram nos dez anos de guerra. 

    Ele era o patriarca da família Coldheart, Ephraim Coldheart, aquele que levantou o reino pela segunda vez e o fez prosperar em um completo estado de paz e harmonia. 

    “E esse dia é comemorado no primeiro dia do Escolhido”, completou Eirlys com entusiasmo. 

    “É uma história e tanto”, comentou uma das agentes, embora parecesse meio entediada. 

    Eirlys parou de repente sobre o chão com camadas finas de neve e virou-se, ela apontou para o castelo e sua imensidão. Ou demais também seguiram o movimento; o Castela era tão imenso que mal dava para enxergar o seu topo. 

    “Estão vendo aquela montanha? É lá onde Nivorah descansa. Ela vai despertar em breve, mais uma vez…”

    A última linha foi dita com um tom sombrio. Mayck olhou para a princesa nesse momento, e por um segundo pôde ver sombras nos olhos dela. 

    “Eu espero que tudo corra conforme o esperado”, sussurrou. 

    Eles voltaram a caminhar e observavam os arredores enquanto Eirlys inspecionava os cidadãos e seus preparativos. Ela era bem popular com os residentes, ganhava aperitivos e lembrancinhas das crianças que vinham até ela com sorrisos contagiantes. 

    “Ela realmente tem um ar de princesa”, Sora parou ao lado de Mayck. 

    “É mesmo”, respondeu. 

    Mas até onde esse lugar mantém esse tom harmonioso?

    Ele se perguntava isso desde que haviam entrado em Nevéria. Tinha uma sensação esquisita sobre aquele lugar. 

    Mayck encarou novamente a montanha…

    “Fuuu…”

    … E soprou a fumacinha branca. 

    Depois disso, retornaram  ao castelo. 

    O garoto ainda pensava profundamente na história daquele lugar. Como isso explicava os idiomas que ele conhecia? Um grupo que foi posto naquele lugar por uma entidade divina… Tinha algo errado. 

    Até onde ele sabia sobre entidades, eles eram seres poderosos, que carregavam quantidades absurdas de energia. Mas ele só sabia até esse ponto. 

    O que elas eram realmente? Tal pergunta ficaria sem resposta por ora, mas ele sentia que essas dúvidas seriam sanadas assim que encontrassem a última peça do quebra cabeças criado por Yin. 

    Certo… o que fazer agora?

    Se ele dissesse que já tinha traçado um plano para o futuro, era mentira. 

    Até porque, nesse momento, ele estava jogado em sua cama, num quarto emprestado pelo castelo. Era um quarto compartilhado, então os outros dois agentes masculinos estavam ali também. 

    Eles estavam entretidos com um jogo de cartas. Mayck tinha sido convidado, mas recusou e definitivamente não foi por não saber jogar, ele só não estava afim. 

    “Acho que vou tomar um ar”, disse, se levantando. 

    “Okay.”

    “Se precisar é só chamar.”

    Então ele saiu. 

    O corredor era extenso e na escolha de direita ou esquerda, ele apenas seguiu para onde parecia mais seguro, para a direita. 

    Ele não podia dizer que era realmente mais seguro que a esquerda, mas algo estranho o fez fazer essa escolha. No fim, ele caminhou e saiu virando todas as esquinas que lhe agradavam, sem nenhum objetivo em mente. 

    Passou por alguns nobres no caminho, e foi cumprimentado por eles, com olhares tranquilos. Ao que parecia, apenas o rei, o capitão e alguns poucos soldados sabiam suas circunstâncias reais. 

    Isso é bom… né?

    Se eles descobrissem a verdade, quão grande seria o escândalo?

    Vou me cuidar pra evitar isso…

    Após algum tempo, ele chegou a um portão de cristal branco fosco e pôde perceber pela iluminação que a área do outro lado dela era aberta. Ele hesitou por um segundo, mas decidiu ir em frente. 

    Ele empurrou as portas, que rangeram levemente. Elas eram realmente pesadas. 

    Do outro lado, era uma ponte coberta com vista ao ar livre para o lado de fora de ambas as direções, e dava para ver a cidade e toda a sua beleza dali de cima. 

    “Wow!”

    O reino se estendia com toda a sua majestade fria e medieval. Mayck ficou tentado a tirar uma foto com seu DA. 

    Por que eu tô tão empolgado?

    Ele riu de si mesmo. 

    Olhando adiante, viu uma porta gigante, branca, parecia a porta de um bunker seguro contra explosões nucleares, a luz de fora refletia em sua superfície totalmente reforçada — dava para perceber de longe. 

    Que lugar é esse?

    Não era um onde ele devia estar, certamente. 

    Depois de olhar para trás e não ter nenhuma presença humana, ele foi em frente até a porta. Ela devia ter ao menos cinco metros de altura, olhar daquele ângulo era terrivelmente assustador. Mayck pensou se talvez não sofresse de megalofobia, já que os arrepios que estava sentindo eram intensos. 

    “Pensando bem… Aqui é a parte de trás do castelo, né?”

    As palavras de Eirlys martelavam em sua mente:

    Nivorah vive aqui, hein…?

    Ele levou a mão à porta. Como seria tal entidade? Talvez animalesca, já que os monstros que encontraram até ali eram serpentes e aves.

    Se bem que eles dizem ser uma divindade, então se parece com um anjo?

    Ele imaginou algumas formas, mas ainda não conseguia se convencer. 

    Que seja. Era hora de voltar. Mas quando ele tentou retirar a mão da porta, percebeu que ela estava presa. 

    “?!”

    Ele lutou, mas não teve resultados satisfatórios. O que ele teve foi algo bem diferente do que desejava. Sua mão parecia estar congelando a partir das pontas dos dedos e o gelo queimava sua pele. Não. Espere. Não só parecia como ela estava realmente sendo consumida pelo gelo. 

    O quê…!?

    Um choque intenso dominou seu corpo, como uma paralisia do sono.

    Em poucos segundos ele perdeu as forças para resistir e sua mente foi invadida por pensamentos doentios, imagens torturantes sob a neve — tão problemáticas que era impossível descrever —, e seus ouvidos foram obrigados a ouvir lamentos de sofrimentos sem fim, como se as portas da condenação eterna estivessem abertas. 

    Seus olhos estremeciam. O que ele estava vendo agora não era mais a porta que guardava uma entidade, mas um cenário de puro terror, o qual um ser humano não foi feito para experimentar. Aquilo estava completamente fora da realidade. 

    Mayck se sentiu minúsculo, frente a algo terrivelmente maior; a morte estava passando na frente de seus olhos, diferente de várias experiências de quase morte que ele já teve. Dessa vez, era como se ele deliberadamente estivesse caminhando até ela, hipnotizado por seu chamado macabro. 

    Um pedido de socorro ecoou distante, vindo do próprio Mayck, enquanto o gelo subia até sua cabeça, congelando até mesmo os seus neurônios. 

    “O que está fazendo?!”

    Uma alma caridosa tirou Mayck de sua ida para lugares desconhecidos. Era o rei Arden que tinha mandado um dos guardas tirá-lo de lá. 

    “Quem te deu permissão para vir até aqui?!”

    Ele estava furioso. 

    Mayck demorou alguns segundos até recobrar a consciência por completo e ainda assim ficou confuso. 

    Ele viu Arden quando levantou os olhos levemente, mas os abaixou novamente, enquanto eles tremiam por conta da sensação arrepiante que tivera há pouco. 

    Por que…

    “Eu vou perguntar só mais uma vez—”

    “Por que merda vocês protegem isso e chamam de divindade?” 

    Mayck falou num tom bem baixo. Não importava se o rei ouvisse ou não, ele apenas quis falar isso, como um aviso. 

    Ele então, passou pelo rei e os guardas, lançando apenas um olhar feroz, como se seus olhos brilhassem com a ameaça. 

    “É melhor tomar cuidado com o que você está pensando em fazer.”

    De novo. Não importava se o rei ouvisse ou não; o recado foi dado. Então Mayck saiu silenciosamente depois disso, mas sua mente estava vendo e revendo aquelas cenas perturbadoras que pareciam sair de um ciclo de tragédia sem fim. 

    Que inferno!

    Tudo o que ele queria era deixar aquele lugar o mais rápido possível, mas não poderia tomar essa decisão sozinho. 

    De qualquer forma, aquele rumo inesperado era incrivelmente irritante. 

    Mayck se recusou a voltar ao quarto e continuou perambulando pelos corredores, tentando acalmar aquele abalo sinistro que sofrera em seu coração. 

    <—Da·Si—>

    “Phew..! Que droga. A gente vai correr desse jeito até quando?” Rider parou. 

    Tinham corrido tanto que foram parar em um beco mal iluminado pelas chamas azuis dos cristais. 

    A noite estrelada pairava no céu orgulhosamente.

    “Acho que esse vice-capitão nem sequer sabe o que tá fazendo. Tudo seria melhor se a gente tivesse seguido aqueles caras”, Yoshiro comentou, seus braços cruzados e um olhar de tédio. 

    Nesse momento, os três soldados de Takeda retornaram, após fazer uma pequena verificação nos arredores. 

    “Até que enfim! A lerdeza de vocês em fazer um trabalho é surpreendente.” Viktor não esperou para elogiar os homens, que cuspiram em resposta. 

    “Parece que a cidade adormeceu completamente. Além disso, tem decorações que parecem ser religiosas por todos os lados.”

    “Também vimos alguns guardas vigiando em grupos. Talvez estejam atrás de nós.”

    Afinal, eles foram dados como fugitivos. 

    “Hunf! Pelo menos fizeram seu trabalho”, ele cuspiu de volta. “Vamos. Não dá pra ficar parado aqui. A gente tem que sair.”

    “E quanto ao capitão Takeda e os outros?”

    Um dos poucos agentes dispostos a confrontar Viktor deu um passo à frente. Ele foi fuzilado por um olhar ranzinza. 

    “Eles sabem se virar. A nossa prioridade é completar a maldita missão.”

    “Você está pensando em simplesmente abandoná-los? Qual o seu problema?”

    Outro agente se manifestou. 

    Mesmo que tivessem problemas em lidar com os personagens da Black Room, eles ainda tinham amigos que talvez estivessem com os outros grupos; no pior cenário, estavam perdidos naquele continente inóspito, ainda mais com os monstros que viram lá fora. 

    “A gente nem sabe se eles estão por aqui!”

    “Ainda assim, esse lugar é a melhor pista que temos. Precisamos nos reunir e encontrar os que possam estar faltando.” 

    Rider também entrou na briga, tentando achar um meio de diminuir os atritos. Os demais concordaram com ele. 

    Viktor estalou a língua e olhou para todos com desdém, seus nervos à flor da pele. 

    “Vocês são realmente estúpidos, não é?! Vocês sabem realmente qual é a prioridade que nós temos aqui? Se eles são agentes inteligentes de verdade, então vão pensar a mesma coisa!”

    Mas ele não era o único que estava chegando ao limite. 

    “Já chega, Viktor! Essa sua faceta irritante já chegou o mais longe que podia. Não tem como nós aceitarmos ordens de alguém como você.”

    “Vê se pensa um pouco mais na situação em que nós estamos!”

    “Eles podem morrer e nós vamos simplesmente ignorá-los?”

    Os ânimos alterados já não seriam facilmente revertidos. Nem mesmo Rider e Yoshiro poderiam acalmar a situação. 

    Pensando logicamente, ambos os lados tinham pontos significativos, e embora Viktor estivesse certo sobre a prioridade da missão, ele não podia apenas decidir deixar os outros de lado. 

    “Ah, é?! Se é assim, vão em frente. Sejam desertores e falhem miseravelmente numa ridícula missão de encontrar a merda de um pen drive ou seja lá o que for. Vocês são patéticos!”

    Viktor bufou e virou-se de costas, dizendo que quem ainda tivesse sanidade, o seguiria. 

    Diante de toda essa discussão, os três soldados apenas balançavam a cabeça em reprovação. Eles eram veteranos, então já tinham se deparado com situações desse nível, uma vez que sempre mantiveram o cargo como soldados. 

    Viktor estava prestes a virar a esquina, quando um som suave soou próximo. Era um som como se centenas de sinos do vento estivessem sendo chacoalhados de forma majestosa. 

    Todos os olhares se voltaram para cima, e então uma sentinela do céu os observava com brilhos nos olhos. 

    “Merda…”

    “Nós acharam.”

    Como se para comprovar essa tese, a ave fez um som, e então foi possível ouvir passos de vários guardas correndo até ali. 

    Agora não havia escolha. Assim que percebeu, Viktor saiu correndo e os demais tiveram meio segundo para decidir se o seguiriam ou se o abandonavam. 

    Rider e Yoshiro não pensaram muito, nem os três soldados; eles foram atrás de Viktor.

    “É sério?!”

    Eles não tiveram outra opção. 

    Então começaram a correr pela cidade novamente. Mas dessa vez não teriam a atenção dos moradores, que dormiam tranquilamente naquela noite fria. A temperatura devia estar abaixo dos zero graus celsius. 

    E para piorar a situação, a sentinela do céu atirava seus raios de gelo à sua vontade para bloquear as rotas de fuga, forçando os agentes a revidar. 

    Havia paredes de gelo por todos os lados. Se eles não tomassem uma atitude, seriam pegos. 

    “Já chega com essa merda, seus desgraçados!”

    Viktor parou de correr e projetou mais uma de suas esferas flamejantes. Porém, diferente de como a usou antes, ele a levantou no ar e jatos de fogo saíram dela numa velocidade alucinante, e choveram sobre a sentinela e sobre os guardas. 

    Fwoosh!

    Fwoosh!

    Por mais incrível que pudesse parecer, ele estava sendo cooperativo. Mas isso, na verdade, era o entendimento errado, afinal de contas, mesmo com as chamas devorando o gelo e levantando uma pequena muralha na rua, os guardas passaram dentro delas, com suas armas prontas. 

    Eles começaram a atirar enquanto gritavam o que parecia ser uma ordem de parada. 

    “Geh! Esses caras são resistentes ao fogo?”

    “Não importa. A gente tem que sair—”

    Mas quando se deram conta, a sentinela os cercou com uma gigantesca parede de picos congelados.

    “Porra!”, gritou o agente. 

    Eles pareciam ter sido encurralados, mas Yoshiro preparou seu arco, que brilhou com uma luz forte e então disparou uma única flecha luminosa. 

    Isso deve servir.

    O projétil assobiou nos ouvidos dos guardas e passou por eles. Se era para atingi-los, então o jovem falhou miseravelmente. 

    Enquanto todos pensavam sobre isso, algo surpreendente aconteceu. 

    Um segundo após a flecha passar, uma corrente poderosa de ar varreu o gelo e os guardas para longe, fazendo uma limpeza completa. 

    “Vamos correr”, disse Yoshiro tirando todos do transe. 

    Mesmo com aqueles guardas sendo empurrados, ainda havia outros que poderiam cercá-los. 

    E não demorou muito para eles darem de cara com outro grupo de uns vinte deles que foram guiados pelo barulho e agora não seria tão simples escapar. 

    “Que merda, eles são muito insistentes!”

    “Faz aquele negócio de novo!”

    “É claro que não, idiota.”

    Afinal, havia casas onde eles estavam; poderia acabar ferindo pessoas inocentes com aquela habilidade. A anterior tinha sido usada em sua capacidade mínima. 

    “Ninguém tem nenhum truque aí não?”

    “Foi mal, eu não sou de Dano Contido”, a única garota do grupo recuou. 

    “Cadê o Koji quando a gente precisa…”

    Agora eles estavam cercados. Se precisassem simplesmente matá-los, então não seria difícil, mas era melhor não arrumar esse tipo de confusão e piorar as coisas. Além do mais, a ideia de usar as mãos contra aquelas armaduras tão imponentes não era nada animadora. 

    A sentinela do céu também estava de volta.

    Agora já era, pensou Rider. Melhor começar a pensar no que fazer depois que formos pegos—

    “Ei!”

    De repente, uma voz ecoou de algum lugar. Todos pararam para procurar o dono, mas foram simplesmente surpreendidos por um objeto redondo que caiu no chão, pulsando um brilho fraco em sua lente. 

    “Melhor fecharem os olhos.”

    Um fantasma estava no meio deles. 

    Mesmo assim, eles obedeceram e então uma luz forte e rápida piscou causando algum efeito na viseira dos guardas, que perderam seu total controle. 

    “Aaargh!!”

    “Gah!!”

    Com os guardas atordoados, aquela figura que apareceu de repente guiou os agentes. 

    “Por aqui”, disse ele. 

    Mas enquanto todos decidiam ir, Viktor ficou para trás. 

    “Que caralhos você tá fazendo?!”

    “Eu não vou seguir vocês.” Ele cruzou os braços. Estava decidido. 

    Ele não movia um músculo, porém, havia alguém que não estava afim de aguentar seus chiliques. 

    Um dos soldados correu até ele e usou o cabo de seu fuzil, atingindo o estômago de Viktor em cheio.”

    “Gah! O que você…?!”

    “Foi mal aí. Mas eu não consigo lidar com crianças barulhentas.”

    E então ele o levou consigo atrás dos outros, e correram para os fundos dos becos de Nevéria, antes que o efeito dos guardas acabasse. 

    ****

    “Chegamos”, disse a figura encapuzada após algum tempo.

    Eles pararam frente a uma casa velha e totalmente escura, nas partes mais profundas do reino, longe de todas as áreas normalmente movimentadas durante o dia. 

    Estavam hesitantes em acompanhar aquele desconhecido, mas como foram salvos por ele sentiram que podiam confiar ao menos um pouco. 

    “Me solta, seu merda!” Viktor se debateu mais uma vez e foi posto no chão. Ele ajeitou as roupas e lançou um olhar feroz para o soldado. 

    “Venham por aqui.” A pessoa que os salvou passou pela porta de madeira que rangeu levemente. 

    Do outro lado, passaram por mais uma porta e então viram uma escadaria que levava para o subterrâneo e então desceram, chegando a um cômodo mais amplo e mais iluminado, onde havia algumas dezenas de pessoas. 

    Os agentes queriam questionar, mas os olhares curiosos que receberam tornou isso mais difícil. 

    “O que será esse lugar?” Rider perguntou retoricamente ao lado de Yoshiro, enquanto olhava ao redor.

    Parecia um tipo de bar ou algo assim, mas que ainda mantinha o toque tradicional que viram pela cidade antes. 

    Entretanto, pela forma como estava escondida e pelo clima que estava ali, era algo mais importante que isso, e a pessoa que os guiou estava prestes a contar sobre.

    Ela se virou e tirou a máscara e o capuz, revelando ser uma mulher de cabelos curtos e acinzentados, levemente ondulados. 

    “Desculpem a introdução tardia”, disse ela. Sua voz tinha um tom um tanto quanto enérgico. “Essa aqui é a base da família Braveheart. Mais precisamente, a base da oposição à família Coldheart.”

    Ela mostrou o lugar com naturalidade, mas logo percebeu a confusão no rosto dos agentes. Certo. Eles pareciam não ter entendido nada, mesmo que estivessem falando o mesmo idioma. 

    “Ei, Lyara, já está de volta? Pensei que demoraria mais.” 

    Um homem veio dos fundos da sala. Ele tinha cabelos com fios grisalhos e uma barba vistosa em seu rosto. 

    “E desde quando eu perco tempo nas minhas operações?” 

    A mulher respondeu o homem com as mãos na cintura e uma sobrancelha levantada. O homem riu suavemente. 

    “Vejamos… então esses são os forasteiros? Bem, bem. Vocês parecem ter passado por uns problemas bem chatos.” 

    Do jeito que ele falava, parecia já saber quem eles eram e parte do que estava acontecendo. 

    Mas ainda era bom reunir informações sobre isso, afinal de contas, precisavam saber com quem estavam lidando. 

    Rider, então, tomou a frente que Viktor se recusou a tomar, resignando-se a ficar em silêncio e de cara fechada mais atrás. 

    “Err… Perdão, mas vocês poderiam nos explicar o que está acontecendo?”

    Eles tinham sido empurrados para um evento atrás do outro, sem nenhuma explicação básica. E mesmo agora não conseguiam compreender nada. Era justo que estivessem cheios de dúvidas. 

    O homem abriu a boca. 

    “É claro. Mas primeiro vocês precisam descansar.” Ele voltou-se para a mulher. “Lyara, pode levá-los até os banhos? Vou preparar um jantar para os nossos convidados. A propósito, eu sou Erin Valmor.”

    “Mm… Eu sou Rider.”

    “Yoshiro.”

    Os dois se apresentaram, então os demais seguiram o exemplo, apresentando também Viktor. 

    “Muito bem. Me sigam. Sei que devem estar cheios de perguntas. Quando a líder interina voltar, ela vai explicar tudinho.”

    Ela virou-se de costas e começou a andar para o fundo da sala, mais precisamente para uma porta que levava para outra escadaria, e desceram estas também. 

    Apesar do que esperavam de uma base subterrânea, ela tinha uma estrutura incrivelmente aconchegante. Era construído com pedregulhos em cubo, organizados de forma uniforme e uma fonte de água quente escorria pelas estruturas para a piscina. 

    “Caramba…”

    “Uma fonte termal!”

    Os agentes logo se animaram. 

    “Vocês podem descansar aqui”, disse Lyara. “Essas águas têm a benção da purificação de Nivorah, então vocês serão renovados quando acabar. Ah, para as meninas é do outro lado.” Sorrindo, ela se virou para a única garota do grupo. 

    Com isso, a garota sorriu, aliviada. Ela realmente pensou que teria que tomar banho com todos aqueles homens. 

    Ainda bem que não seria assim. 

    Depois disso, Lyara a guiou para o outro banho, deixando os outros à vontade. 

    Eles não hesitaram em se jogar de cara na fonte termal. Tiraram suas roupas e equipamentos e os deixaram de lado. O cansaço que estavam sentindo desde que chegaram à Antártida parecia deixar o corpo assim que eles entraram na água quente. 

    “Isso aqui é muito bom…”

    “Nem me fale… Ficar tanto tempo assim sem uma dessas é tortura.”

    Eles relaxaram quase imediatamente. 

    Mas nem mesmo essa ideia foi capaz de trazer Viktor, que estava prestes a sair. Foi Rider quem o impediu, agarrando sua perna. 

    “Que merda você tá fazendo?!’

    “Ora, vice-capitão, você não pode ser assim. Por que não aproveita pra relaxar também?” 

    Ele tinha um sorriso assustador no rosto. Era calmo, mas aterrorizante de certa forma. 

    “Isso não me interessa nenhum pouco! Vocês podem ficar aí perdendo tempo e se juntar a um grupo estranho. Eu estou indo embora.”

    “E vai fazer o que depois? Continuar fugindo dos guardas lá fora sem um plano? Vamos ser honestos aqui. As decisões que você tomou até agora só empurraram a gente pra merda”, disse Yoshiro, sentado num canto dentro da fonte. 

    Para manter o respeito, estavam todos usando um lenço na cintura. 

    “Desculpe, vice-capitão, mas eu não entendo os motivos do capitão Takeda pra te escolher como vice. Sinceramente, você não parece adequado pra isso.”

    Agora foi um dos soldados que falou. Um homem de cabelos escuros que tinha por volta dos 20 anos. 

    “Que porra é essa? Decidiram mostrar suas malditas cores agora, é? Eu não dou a mínima se vocês se importam com isso ou não. Eu recebi o cargo. Eu tenho o direito de fazer o que quiser e quando quiser. Se não estão satisfeitos, isso é problema de vocês.”

    “Cara… Como é que você não consegue pensar só um pouco? Ter essas pessoas por perto, mesmo que elas sejam os vilões, vai nos dar uma chance de sair por cima. A gente tá aqui, perdidos, nem sabemos se os outros estão bem. E isso porque você resolveu surtar e nem deu a chance da gente conversar.”

    Viktor apertou os punhos, enquanto outro soldado falava. 

    “Viktor, você precisa relaxar. Você é um agente especial, não é? Deveria saber que as missões não funcionam assim.”

    Todas tinham imprevistos e muitas requerem paciência. Era difícil pensar em como aquele agente sobreviveu sendo desse jeito. Custava para o garoto da Strike Down lembrar quais as especificações dele ou o instrutor. 

    “Que se foda isso tudo. Eu já falei antes e vou repetir pela última vez… Isso aqui não é problema nosso.” Ele puxou sua perna de volta. “A gente vai embora daqui. Andem logo.”

    Ele subiu as escadas com passos pesados. 

    Como esse cara consegue ser tão cabeça dura? Era isso o que estavam pensando enquanto o viam subir. 

    “Como é que vocês lidam com ele?” Rider voltou seus olhos para o único agente da Strike Down, sentado num canto mais longe deles. 

    “Sei lá. Eu nem chego perto dele.”

    Os agentes da Black Room se entreolharam. 

    Tudo parecia ser mais problemático do que eles pensavam. 

    Algum tempo depois, uma mulher desceu com algumas trocas de roupas, deixou perto da fonte e saiu em seguida. 

    Então os homens se trocaram e saíram do banho renovados. 

    Agora só precisavam de uma boa refeição para poderem dormir em paz pela primeira vez desde que a excursão começou. 

    No entanto, diferente do que eles esperavam, a recepção que tiveram ao chegar na parte de cima foi um pouco estranha, ou melhor, complicada. 

    Eles se depararam com Viktor enfrentando alguns dos membros da oposição, uma batalha prestes a ser desencadeada. 

    “Ei, ei, ei, ei! O que diabos você tá fazendo?!”

    “Ah, desculpem atordoá-los com isso. É só que… o mocinho aqui é difícil de lidar”, disse Erin, um sorriso amargo nos lábios ao ver os agentes de volta. 

    “Ugh… Acredito que sim…”

    Era Viktor afinal. 

    “Eu já mandei saírem da frente, droga! Eu vou queimar todos vocês aqui!”

    Ao que parecia, ele  tentou sair, quando foi impedido pelos membros da oposição e obviamente isso o perturbou muito. Cientes disso, seus companheiros foram obrigados a intervir. 

    “Já chega, Viktor. Vamos. Essas pessoas nos salvaram lá atrás.”

    “Foda-se?! Isso não dá o direito deles me prenderem aqui. Saiam logo, porra!!”

    A comoção parecia que iria se estender mais e já dava para ouvir burburinhos nada bons vindos dos outros membros. 

    “Então é assim que eles retribuem?”

    “Francamente…”

    Por conta da impulsividade daquele idiota, eles poderiam perder muitos pontos naquele lugar, levando suas chances para conseguir ajuda para abaixo de zero. 

    Por que esse cara tem que ser assim?

    Rider balançou a cabeça. 

    “Viktor, já chega—”

    Yoshiro tocou no ombro do garoto e tentou falar, mas de repente a porta da frente foi aberta. Todos viraram a cabeça. Então uma mulher de cabelos claros, levemente azulados, entrou com uma expressão curiosa. 

    “Quanta animação aqui. O que está acontecendo?”

    “Líder interina!” Lyara esboçou um sorriso quando viu a mulher. 

    Aquela era a líder temporária da oposição, já que seu pai estava sendo mantido em cárcere. Enquanto isso, ela guiava as operações em seu lugar e tinha total controle ali dentro. 

    “Ah, veja bem, Elira… Parece que as coisas saíram um pouco da linha.” 

    Erin coçou a nuca, levemente envergonhado por não ser capaz de conter aquele jovem cheio de energia. 

    Elira olhou para os forasteiros e os analisou bem, antes de dar um pequeno sorriso. 

    “Entendi… Parece que eles precisam de uma boa explicação. Bom trabalho a todos vocês.”

    Ela saudou seus companheiros, que responderam com prontidão. 

    Depois, aos forasteiros. 

    “Eu sou Elira, líder interina da oposição. Foi quem pedi para os trazerem até aqui. Espero que me dêem a chance de conversar sobre isso.”

    “É claro que—”

    “Seria ótimo. Não vejo problemas nisso”, respondeu Rider, tirando Viktor da frente. 

    Após isso, foram para os fundos da base e se sentaram ao redor de uma mesa de madeira. Erin e Elira de um lado e os agentes do outro. Um clima denso pairava no local. Então a líder interina quebrou o silêncio com suas palavras. 

    “Primeiro, peço desculpas por agir de forma tão egoísta. Depois da bagunça que vocês fizeram lá fora… Percebemos que não são daqui, certo?”

    “Sim. Nós não somos de Nevéria”, respondeu Rider, sem a intenção de esconder isso.

    Elira esperava tal resposta, mas baixou a cabeça. 

    “Como eu pensei. Isso não é muito bom.”

    Tal atitude deixou os demais curiosos. 

    “Vou dizer uma coisa à vocês. Por conta das circunstâncias, não devem estar ligados às histórias desse lugar. Mas vamos dizer que foi bom vocês não terem se encontrado com o rei Arden.”

    “Isso significa…?”

    “Se vocês tivessem ido, poderiam terminar como seus companheiros, que foram jogados na Prisão das Árvores Acentuadas.”

    Ouvir isso fez os soldados reagirem. 

    “Vocês sabem onde o capitão Takeda está?!”

    “Não sabemos sobre seus nomes, mas nosso informante disse que um grupo de pessoas em vestes estranhas chegaram ao reino. Vocês vieram depois disso, então nós os associamos a vocês, que tiveram uma descrição parecida.”

    Então uma parte deles estava ali? Isso era um alívio. Rider e os outros já poderiam ficar mais despreocupados, já que as chances de seus companheiros estarem bem já eram mais altas. 

    “Isso é bom e tudo mais, mas vocês não nos trouxeram aqui por coincidência, certo?”

    Havia algo mais. Elira assentiu com um leve sorriso. Ela baixou os olhos por um momento, mas logo os encarou de novo. 

    “Tem algo que precisamos pedir a vocês. Claro, não é de graça. Em troca, te ajudamos a libertar seus companheiros.”

    Era previsível que ela diria isso. 

    Os agentes não tinham nenhuma ideia sobre aquele lugar, então certamente era benéfico para eles ter a ajuda daquelas pessoas. 

    “Estamos ouvindo.”

    “Certo. Em poucas palavras, o rei Arden enlouqueceu e nosso reino está em perigo. Vocês devem ter visto o clima da cidade, não é? Nós estamos no meio dos preparativos para o Dia do Escolhido, mas o rei Arden pode interferir nesse evento de forma negativa e causar um desastre.”

    “Um evento… o que é exatamente?”

    “É o dia em que Nivorah, a nossa divindade protetora, virá para levar seu novo servo. Porém, o rei Arden está pensando em intervir. Isso pode acabar nos colocando sob a fúria de Nivorah e levar nosso reino à destruição.”

    É sério? Uma divindade governa esse lugar acima do rei? Os agentes ficaram boquiabertos. Era como se testemunhassem a história de um reino de outro mundo. 

    No entanto, mesmo que martelassem sobre isso, não era hora para fazerem tantas perguntas. 

    Elira continuou:

    “Meu pai, o líder da oposição, Kaelric Braveheart, está sendo mantido na Prisão das Árvores Acentuadas. E ele é a única pessoa que pode parar Arden. Então, forasteiros, eu quero pedir a sua ajuda para o libertarmos. Em troca, libertarmos seus companheiros também.”

    Então era isso. 

    Rider ponderou por um momento. Ele olhou para Yoshiro e ambos assentiram. 

    Quando estava prestes a responder, Viktor interviu. 

    “Isso não é problema nosso. Temos nossos próprios problemas para lidar.”

    “De novo com isso?!”

    Viktor ignorou os outros e bateu na mesa. 

    “E se você estiver mentindo pra nos entregar, hein? Como a gente pode acreditar nessa historinha de reino mágico? Me dê um tempo! Não existe essa coisa de divindade nem nada do tipo.”

    Enquanto os agentes olhavam atônitos, Elira suspirou. Que tipo de resposta ela daria?

    Seus lábios se moveram lentamente. 

    “Nós também não acreditávamos que o lugar onde estamos é só uma parte de um lugar muito maior.”

    “Hã?”

    “Desde pequenos, somos doutrinados a aceitar que esse nosso reino é o nosso mundo inteiro, regido pela autoridade de Nivorah”, disse Erin. 

    “Custou tanto para nós acreditar que não somos os únicos aqui quanto é para vocês acreditar na nossa realidade. Nivorah existe.”

    Um silêncio tomou conta da sala, enquanto Viktor sentia seu sangue ferver cada vez mais. 

    “Não vem com essa merda…”

    Seus dedos se contraíram, arranhando a mesa. 

    “Essa porra de divindade não existe…”

    Uma luz incandescente apareceu na mesa abaixo de sua mão. 

    “!!”

    “Isso não existe!”

    Foi quando ele gritou que os outros perceberam que ela estava prestes a ser incendiada pelo descontrole de Viktor.

    Rider reagiu rapidamente. Ele puxou Viktor e desferiu um único soco na mandíbula, deixando-o cair inconsciente. Porém, aquela parte da mesa não pôde ser restaurada.

    “Você tá indo longe demais. Suas atitudes vão acabar ferrando a gente ainda mais”, disse Rider. 

    Ele então pediu que os soldados o levassem para fora e virou-se para Erin e Elira e sorriu nervosamente. 

    “Me desculpem por isso. Nosso vice-capitão é alguém um pouco problemático.”

    “Não se preocupem.” Elira tinha um tom compreensível em sua voz. 

    “Mudando de assunto. Nós gostaríamos de saber mais. E também aceitamos o seu pedido de ajuda. Vai ser bom trabalhar com vocês.”

    “Ficou feliz com isso. Então, vamos contar nosso plano de ação.”

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