Capítulo 136 - O véu da incerteza
Arden levantou-se cedo pela manhã. As cortinas brancas reforçando a luz que entrava em seu quarto luxuoso pela enorme janela no topo do castelo.
Depois de trocar-se para suas vestes reais, ele olhou pela janela.
O reino estendia-se ao longe; majestoso como sempre, brilhando com um tom azul cristalino. Porém, aos olhos daquele rei, já não parecia mais tão deslumbrante como era quando ele o olhava pela mesma janela quando criança.
Ele se lembrou que muitas vezes invadia o quarto de seus pais para ver o sol nascer sobre a cidade nas épocas que as nuvens no céu se dissipavam minimamente.
Agora… já não é tão espetacular assim.
Alguém bateu à porta.
“Meu senhor, o conselho te aguarda no salão.” Era a voz de uma das servas.
Arden suspirou, antes de olhar em volta.
Os móveis luxuosos revestidos com cristais e detalhes em prata, a cama de dossel, os tecidos finos as decorações e relíquias importantes… tinha tudo isso, mas ele só quis olhar para o retrato de uma bela mulher com feição gentil, olhos claros que pareciam janelas de uma alma pura.
Aquela era a mulher que ele deixou partir anos atrás, sem poder sequer impedir.
“Minha amada Elowen…”
Era a antiga rainha de Nevéria, Elowen Coldheart, que já não estava entre eles.
Me perdoe… Mas logo estaremos juntos.
As palavras de seu mentor ressoavam em sua mente desde que ele voltou para Nevéria:
“Vá. Você tem o poder de fazer isso. Salve o seu povo.”
Eu farei. Os dias dessa prisão estão contados.
Arden respirou fundo, então seguiu para as enormes portas e saiu.
Sua agenda estava cheia, como sempre. Porém, antes de qualquer coisa, ele se juntou aos filhos para a refeição matinal.
A mesa estava repleta de pães de centeio, que acabaram de ser assados, o aroma doce e suave do chá de ervas, próprio de Nevéria, impregnava o ar.
Depois de servir o rei, um dos servos saiu em silêncio, deixando a família real a sós.
“Ah propósito, Eirlys, como está se saindo com seus convidados?”
A garota inclinou a cabeça e desistiu de morder um dos pães.
“Huh? Não pensei que o papai estivesse com tempo para se interessar nisso.”
“É importante saber se os convidados da princesa estão recebendo a hospitalidade necessária”, Arden respondeu, tomando um pouco do chá levemente amargo.
“Nesse caso… Está tudo bem. Eu tenho me divertido muito com eles. Além disso, eles estão se preparando bem para o Dia do Escolhido. Eu mal posso esperar”, disse ela com entusiasmo.
“Parece que a pequena Eirlys ainda é uma criança.”
Kaeelen olhou para sua irmã mais nova com um sorriso, mas recebeu um olhar afiado em troca.
“Mm! O que você quer dizer com isso?”
“Não importa quantas pessoas você conheça, ainda fica incrivelmente animada com elas. Esse é o comportamento da pequena princesa. Mas lembre-se que está chegando perto da idade de se casar. Ainda não escolheu ninguém?”
“É claro que não! Eu ainda não preciso me preocupar com esse tipo de coisa.”
“É mesmo? Eu conheço alguns cavalheiros que poderiam ser do seu interesse… Ou será que você prefere um dos seus convidados? O nome dele é M, certo?”
Kaeelen sorriu provocativamente. O rosto de Eirlys rapidamente foi tingido de vermelho.
“É-é claro que não! Eu não prefiro nada!”
“Você realmente os convidou sem nenhuma intenção? Eu duvido~”
“Pai!”
“Não provoque sua irmã, Kaeelen. Ela ainda não precisa se preocupar com isso. E ainda não há um cavalheiro digno dela.”
“Até você?!”
O clima descontraído na mesa continuou até o fim da refeição, com Kaeelen provocando sua irmã que reagia desconcertada.
Depois disso, Arden se juntou ao conselho, onde estavam presentes os anciães representantes das cinco principais famílias do reino — Arden entre eles —, e iniciaram, discutindo o assunto da noite passada.
Como foi que aconteceu? Depois que foi relatado o ataque à prisão, eles se juntaram para uma reunião de emergência e acompanharam a situação até o fim.
O resultado foi esse: Kaelric foi libertado, o grupo invasor escapou.
Todos os representantes se mostraram insatisfeitos, e com razão. Afinal de contas, deixaram o líder opositor ser resgatado. Era esperada uma investida deles em breve. Mostrava-se necessário tomar medidas preventivas para evitar que a oposição interferisse no evento.
E eles discutiram um plano de ação.
Guiados pelo representante da família Valendor, Ronan, um homem de meia idade, com uma enorme cicatriz que atravessava seu rosto, eles decidiram mover a guarda para locais mais estratégicos e isolados da cidade, evitando, assim, que a oposição operasse de forma discreta.
“Além disso, também devíamos aumentar as vigilâncias. Aqueles invasores conseguiram escapar por pouco, então é bom deixarmos batedores e vigias a postos”, disse Ronan, apontando um mapa de Nevéria sobre a mesa.
“Nesse caso, precisamos também alocar os capitães e suas unidades. Não podemos nos dar ao luxo de deixar os opositores soltos. Temos que capturá-los.”
Quem sugeriu foi Edrik, representante da família Mornhart, e também o mais velho dentre eles
“Você quer que inicie uma perseguição aos opositores com o Dia do Escolhido chegando em breve?”
“Não podemos causar tanto barulho. Os cidadãos vão acabar ficando assustados com uma movimentação tão repentina.”
Os representantes das famílias Virelith e Braveheart, Lucian e Rowena, respectivamente, se pronunciaram.
Claro. Do ponto de vista deles, mobilizar seus capitães, que eram a força mais alta dentre o exército de Nevéria, era como dizer ao povo que havia algo errado e isso certamente causaria perturbação entre eles.
Edrik, porém, alisou sua barba rala e grisalha, enquanto sorria levemente.
Ele disse:
“Eu sei disso.”
“Então porquê—”
“Minha querida Rowena, você não está pensando direito.”
A senhora inclinou a cabeça, franzindo o cenho. Como poderia estar errada?
“O que você quer dizer, Edrik?”
“Meus garotos, lembrem-se em que época nós estamos. Com o reino animado e agitado, não seria estranho se houvesse uma marcha militar para celebrar a aproximação de uma cerimônia tão aguardada.”
A menção fez os olhos de todos os anciães se iluminarem. O que ele disse fez total sentido de repente.
Ronan abriu bem os olhos.
“Resumindo. Nós deveríamos mobilizar o exército para marchar pela cidade como parte da preparação, quando, na realidade, estão caçando opositores?”
Edrik deu um sorriso satisfeito e confirmou a resposta.
“Todos vocês conhecem Kaelric. Ele não atacaria em lugares cheios de civis. Você sabe melhor do que ninguém, certo Rowena? É do seu filho que estamos falando.”
Uma gota de suor escorreu pelo rosto da mulher.
As palavras de Edrik estavam corretas. Kaelric jamais prejudicaria o povo que sua família sacrificou tanto para proteger, sendo os que tinham mais afinidade com a manipulação de Nheria e aprendizado de guerras — mesmo que a família Valendor fosse aquela que carregava o poder militar nas costas.
“Mas, mesmo assim, se houver uma luta, isso definitivamente vai envolver civis.”
“Não. Na verdade, isso pode funcionar”, disse Ronan, olhando fixamente para o mapa. Ele levantou os olhos e encarou os demais. “O fato deles evitarem lutas à luz do dia é uma vantagem para nós.”
Arden, que estava apenas ouvindo até agora, decidiu abrir a boca.
“Poderiam ser mais claros?”
Ele queria confirmar o que tinha pensado.
Edrik respondeu:
“Meu rei, não precisamos destruir a oposição onde ela está. Podemos obrigar eles a virem até nós, e então damos um fim nisso.”
Em outras palavras, capturar alguns membros da oposição e transformá-los em moedas de troca.
“Isso é…”
“Um plano terrível. A cabeça de um comerciante funciona de forma assustadora”, disseram.
“Sei que parece ruim. Eu concordo com isso. Entretanto, pensem no que estamos sacrificando para manter a paz e fazer com que o evento ocorra de maneira pacífica e festiva, como sempre foi.”
Ele estava correto novamente. Mesmo que soubessem que Kaelric tentaria resolver as coisas da melhor forma possível, evitando todos os conflitos possíveis, não podiam negar que ele estava planejando algo para o Dia do Escolhido.
Se não fosse isso, então por qual motivo a oposição invadiria a Prisão das Árvores Acentuadas antes do evento ao invés de fazer com ele em andamento? A segurança com certeza seria bem menor do que no momento em que agiram.
No fim, eles não tinham muitas alternativas e se encontraram num caminho em que só podiam concordar com o plano. A decisão final foi unânime e Ronan ficou encarregado de cuidar dos detalhes.
Depois disso, o conselho foi encerrado.
Os anciães se retiraram, deixando Arden sozinho. Mas então alguém se juntou a ele. Na verdade, aquela pessoa já estava ali desde o início do conselho.
“É lamentável. Não esperava que seu irmão fosse morto do jeito que foi”, comentou Arden, para a figura de pé ao lado.
“Sim”, respondeu o homem vestido com um casaco longo de couro de serpente.
“Algo no plano deu errado. Qual foi a última informação que vocês tiveram dele?”
“Sim, senhor. A última mensagem dele foi que iriam iniciar a invasão e resgatar Kaelric e os forasteiros. Acredito que seja para aumentar a própria força”, afirmou o homem.
O indicador direito de Arden bateu na mesa várias vezes.
Então aqueles que fugiram pela cidade estão ao lado deles… Essa é a única explicação para eles terem libertado os forasteiros.
Se não fosse isso, seria outra coisa simples, mas que levava ao mesmo resultado, então não era tão importante.
De qualquer forma, isso não interfere diretamente com nada. Se eu colocar a atenção dos anciãos neles, então tudo deve correr conforme o planejado.
O rei de Nevéria aliviou sua consciência.
Ele continuou:
“Sabe se os forasteiros que estão com Eirlys têm conhecimento disso?”
“Acredito que não, meu rei. Eles não tiveram contato com o exterior sem a companhia da guarda da princesa e estão sob vigilância a todo momento.”
Arden acenou. Isso era bom. Ele pretendia eliminar os forasteiros e então usar isso como arma contra Mayck. Ele sabia que o garoto era muito mais do que dizia ser — assim como todo o seu grupo.
“Ótimo. Temos que garantir que eles tenham o mínimo de informações. Mas mesmo que eles interfiram, se não tocarem no principal, não tem erro”, assegurou.
“Kain, você ouviu toda a discussão. Quero que se infiltre entre as forças militares e elimine os opositores e também os forasteiros. Essa é a chance de vingar o sangue do seu irmão.”
“Sim, meu rei.”
Kain levou a mão ao peito. Dessa vez, seu olhar firme carregava uma determinação palpável, ao lado de uma intenção assassina assustadora.
“Eu, definitivamente, vingarei a morte do meu irmão.”
<—Da·Si—>
Mais um dia chegou. Mayck havia acordado antes que a luz do dia se erguesse sobre Nevéria, e estava andando pelos corredores do palácio.
Sua expressão sombria continuou desde que tocou naquele portão perto da montanha e tudo o que ele queria era encontrar o restante do grupo e deixar o reino o quanto antes.
Já tinha ficado sabendo do ocorrido algumas noites atrás — melhor — da janela de seu quarto, tinha presenciado aquela comoção turbulenta.
Ele pensou em sair, mas recuou quando pensou que isso só causaria mais problemas.
Pelo menos agora eu sei onde estão.
Só precisava encontrar uma forma de fazer contato. Por ora, devido ao estranho — talvez nem tanto — aumento de vigilância sobre ele e seu grupo, sair poderia ser uma tarefa difícil.
Mesmo naquele momento, ele podia sentir os olhares desdenhosos dos guardas e de alguns criados do castelo.
Pra quem tá tentando sair, eu acho que tô sendo muito cauteloso.
Um suspiro escapou de sua boca.
Acho que é assim que eu sou, no fim.
Depois de caminhar sem nenhum objetivo em específico, ele se deparou com a área aberta do jardim.
As flores brancas e azuladas, paravam silenciosas, mostrando sua beleza natural. Uma sensação fria invadiu o corpo de Mayck.
Sem que ele percebesse, alguém se aproximou.
“Já vi essa expressão muitas vezes. E sempre está no rosto de alguém perdido pelo castelo.” Cercado por alguns guardas, Kaeelen sorriu amigavelmente.
Mas não é esse o caso aqui… Que seja, o garoto resignou-se, sem vontade para explicar que o príncipe estava errado.
“Eu já estava aqui quando percebi.”
Kaeelen deu uma breve risada.
“De qualquer forma, fiquei surpreso. Você costuma acordar muito cedo? Boa parte dos nobres só se levantam quando as sentinelas agitam seus cristais.”
A expressão era estranha, mas Mayck aprendeu recentemente que as sentinelas gigantes faziam um barulho perturbador quando agitavam seus corpos após acordar. O porquê disso ainda era um mistério.
“Geralmente não. Mas dessa vez eu acabei acordando mais cedo por acaso”, disse calmamente.
“Ah, é? Bom, essas coisas acontecem.”
Mayck olhou para o rosto tranquilo de Kaelen. Ele se perguntava se o príncipe de Nevéria sabia sobre o que realmente estava ‘cuidando’ do reino.
Pela forma como Arden agiu até agora, provavelmente não. Mas era algo a ser pesquisado.
Kaeelen perguntou se Mayck tinha algum tempo livre e já que não tinha nenhuma desculpa, ele aceitou o convite, e então se mudaram para um lugar relativamente mais silencioso.
“Não tenho muitas oportunidades de conversar com amigos. Principalmente agora, que estou sendo mantido ocupado.”
Eles se sentaram a uma mesa debaixo de uma árvore grande e uma criada trouxe alguns aperitivos leves, com chá.
“Eu imagino que seja.”
O aroma do chá impregnou suas narinas. Mayck seguiu os movimentos de Kaeelen, que pegou um dos biscoitos e depois bebeu do chá, então o imitou. Por algum motivo, lhe pareceu descortês fazer isso antes dele.
“E mais uma vez, muito obrigado por estarem cuidando da minha irmãzinha. Ela tem estado mais alegre desde que vocês chegaram”, acrescentou, encarando as ondulações em sua xícara.
Mayck inclinou levemente a cabeça.
“Ela não era assim?”
Então isso queria dizer que os doces sorrisos dignos de uma princesa eram coisa recente?
O príncipe assentiu. Então continuou:
“Já fazia um tempo. Mais precisamente, dez anos. Dez anos atrás, nossa mãe foi a escolhida de Nivorah, então partiu. Ela era uma mulher incrível.”
Elowen. A última rainha que Nevéria teve. Ela não era só aclamada por sua beleza, mas também por sua grande compaixão e empatia pelo seu povo. Sua gentileza era invejável, mas não havia um ser vivo naquelas terras que a olhasse com maus olhos.
Ela era a rainha perfeita diante deles. Mas sua era, enfim, acabou.
“Ser escolhido por Nivorah é uma honra enorme. Pode-se dizer que é o ápice da felicidade para todo mundo. Mas, mesmo assim… Eirlys era muito apegada a nossa mãe; ela não conseguiu superar a ida dela tão facilmente.”
Na época, ela era só uma garotinha. Era justificável que se sentisse solitária quando seu porto seguro partiu tão de repente.
Então ela se fechou para todos.
“Os sorrisos dela ficaram cada vez mais reservados e ela mal interagia com as outras crianças do castelo. Até mesmo hoje, embora ela tenha voltado um pouco a ser como era, eu ainda consigo ver aquele brilho solitário em seus olhos”, concluiu.
Kaeelen suspirou, dizendo que gostaria de saber o que ela estava pensando.
“Ah, me perdoe por trazer isso tão de repente. Acabei me deixando levar.”
Mayck balançou a cabeça levemente, colocando a xícara no pratinho, que agora estava vazia. O chá era realmente delicioso.
“Não se preocupe. Eu também fico interessado em saber mais sobre a princesa. Não falei muito com ela, afinal…”
Ele parou de falar e apertou as sobrancelhas, encarando o príncipe, que pôs um sorriso radiante no rosto.
“O que foi?”
“Como eu pensei. Eu realmente ficaria mais seguro deixando minha irmã em suas mãos. Que tal se casar com ela?”
“De onde veio essa ideia?”
“Ela não é uma garota ruim.”
“Esse não é o problema aqui.”
“Ah… Então quer dizer que seu coração já tem alguém?”
Mayck piscou. Ele ponderou por um momento.
Uma amada…
Involuntariamente, desviou seus olhos para baixo.
“Talvez…”
“Eh? Isso é interessante.” Ele sorriu com um olhar malicioso.
Percebendo isso, Mayck decidiu revidar na mesma moeda.
“Tá, mas me fale sobre você, Kaeelen. Você é o príncipe herdeiro, certo? Já não está na hora de buscar uma esposa?”
“Mm… talvez.”
E ele não disse mais nada.
****
Depois de se despedir de Kaeelen, Mayck decidiu retornar para o quarto.
Não havia muito o que fazer desde que estava no castelo e sem permissão para sair sozinho. Além dos lugares que já visitou, como a biblioteca e os banhos, não havia outros lugares interessantes.
Estava no caminho perto da enorme escadaria que levava para o terceiro andar quando olhou para sua esquerda no corredor e se deparou com Sora e ao seu lado, uma criança.
“Hum?”
“Olha, olha!”
Ele era um garotinho que aparentava ter ao menos dez anos. Estava sorrindo de orelha a orelha enquanto exibia seus movimentos com uma pequena espada de lâmina branca.
“Uau! Isso é incrível!” Sora estava abaixada na altura dele, batendo palmas para a esplêndida demonstração de habilidades.
“Eu vou ser uma guarda tão forte quanto meu pai! Você vai ver!”
“Hahaha! Tenho certeza que vai ser o melhor guarda do reino. Huh?”
Quando ela abriu os olhos, percebeu Mayck ali. Então ela o chamou, acenando, e ele se aproximou.
“Quem é o projeto de neveriano?”
“Não fale desse jeito”, Sora reclamou, se levantando. “Esse aqui é Varian. O futuro guarda mais poderoso do reino.”
“Isso mesmo! Eu vou ser tão forte quanto o papai. Quando eu crescer, vou proteger o reino e vou me casar com a princesa”, gloriou-se, erguendo sua espada.
“Isso aí”, Mayck concordou, embora não desse para saber com qual parte exatamente.
“Hum-hum! Mas antes disso, você precisa derrotar esse tio poderoso aqui.” Sora pôs a mão no ombro de seu vice-capitão e Varian o olhou com olhos encantados.
“Você é tão forte assim, tio?”
“Hm… Talvez…”
“Então tá! Eu vou derrotar você, tio. Você não vai se casar com a princesa!”
Eu não planejo isso!
Mayck suspirou em resposta ao desafio, mas antes que pudesse responder adequadamente àquela declaração cheia de determinação, uma mulher apareceu no corredor.
“Varian! Eu disse para não incomodar os outros”, advertiu. “Me desculpem, senhorita, senhor. Espero que ele não tenha causado problemas.”
“Hu-uh. Não foi nada. Foi bom conversar com o guarda supremo.”
Sora sorriu para Varian, que retribuiu o gesto.
A mulher soltou um suspiro aliviada, então pegou a mão do filho e se despediram dos dois.
“Você se dá muito bem com crianças”, Mayck comentou.
“Eu gostei delas. Meu sonho era ter uma irmã mais nova ou um irmãozinho…” Ela tinha um olhar apaixonado no rosto.
Se tivesse um irmãozinho, ele com certeza seria mimado até não ser mais possível, Mayck pensou, olhando de canto para sua colega.
Ela tinha essa personalidade meio teimosa, mas era incrivelmente fraca quando se tratava de crianças.
É. Isso deve ser parte da personalidade dela.
Eles seguiram pelo lado contrário ao de Varian.
“Escuta. Tem uma coisa que eu preciso contar a você.”
“O que é?”
Sora olhou com curiosidade, sem interromper seus passos.
Olhando para os dois lados, Mayck continuou, mas em um tom mais baixo.
“É sobre esse lugar. Ele não é seguro.”
“Mm?”
“Eu não tenho certeza, mas algo muito problemático pode acabar acontecendo aqui em breve. E se a gente ficar, vamos ser pegos no fogo cruzado.”
Ele não a olhou nos olhos, mas seu tom estava claramente sério. Não parecia ser apenas um devaneio. Sora pensou que poderia ser uma guerra, mas não parecia haver outro reino além de Nevéria ali.
“É pior do que isso”, esclareceu o garoto. “É algo que não envolve a gente. Tem algo mais nessa coisa toda de divindade e Dia do Escolhido. Sinceramente, eu acho que quanto menos a gente souber, melhor.”
“Eu não tô conseguindo te entender…” Sora recuou um pouco, franzindo o cenho.
Então Mayck respirou fundo.
É melhor dizer com todas as palavras. Ela não é uma criança ingênua.
Diferente de outras pessoas que ele conhecia, Sora não era exatamente alguém que ele queria manter longe da cruel verdade.
“Nivorah não é uma divindade. É um monstro que pode matar todo mundo que está aqui”, declarou.
Sora levou alguns segundos até processar a mensagem por completo. Mas quando conseguiu, uma expressão estupefata apareceu em seu rosto. Seu coração bateu mais rápido.
“Do-do que você tá falando…? Como você sabe sobre isso?”
“Eu vi…, ou melhor, me aproximei daquela coisa. Não sei com quais olhos o resto do povo vê, mas eu tenho certeza disso: aquela coisa é um monstro terrível.”
“Você tem estado estranho desde uns dias atrás. Como se estivesse martelando algo sem parar… É por causa disso?”
“Acho que sim… Eu não sabia como contar direito. A gente tem que aproveitar que Takeda e os outros estão juntos e sair daqui —”
Antes de terminar, ele foi cortado pela garota, que agarrou seu pulso.
Então ela perguntou:
“Se o que você está dizendo for verdade… Então as pessoas daqui correm perigo, não é?”
O garoto hesitou por um momento. Aquilo estava caminhando para um lado que ele não queria.
“… Sim”, confirmou, seus olhos correram para o chão.
“Então nós temos que ajudá-las. Milhares de pessoas correm perigo. É nosso dever evitar isso.”
“Não. Nosso objetivo é outro. Totalmente diferente. Não tem motivos pra gente se meter nos assuntos desse lugar.”
“Do que você está falando? São pessoas!”
Sora o puxou, encontrando seu olhar apertado.
“O que eles decidem fazer é assunto deles. Ou você consegue carregar o peso do destino de um país inteiro?”
Sora recuou novamente. Mayck estava certo sobre isso. Por mais que quisessem, não podiam ditar o que milhares de pessoas fariam por conta própria. Como agentes, eles tinham limites e objetivos claros. E se envolver nos assuntos internos de Nevéria não fazia parte.
Mayck continuou:
“Desculpe te informar, mas não. Você sabe muito bem que o mundo não vive de ideais bonitos.”
“Eu sei, mas…”
Mas eu não consigo deixar isso de lado, era o que ela queria dizer, mas parou. Sentiu seu coração apertar, como se uma corrente invisível se enrolasse nele.
“A gente devia… falar com Takeda… Ele poderia aprovar e poderíamos ajudar—” Embora confusa, ela tentou dar uma solução.
Mas foi cortada.
“Sinceramente, eu espero que não. Isso aqui é demais pra gente. Vou juntar todo mundo e vamos embora. Essa é minha palavra final como vice-capitão.”
Mayck se virou para sair. Sora tentou impedí-lo, pedindo que reconsiderasse, mas ele partiu sem dar ouvidos.
A garota ficou apreensiva. Ainda não compreendia totalmente as palavras dele, e mesmo que enxergasse algo profundamente sombrio escondido em seus olhos, não conseguia dizer do que ele tinha tanto medo.
Que droga é essa…? Fez tanta pose antes pra fugir desse jeito?
Mayck disse que a ajudaria. Mas agora estava deixando todas aquelas pessoas para trás.
“Você sabe que não é assim que eu faço as coisas.”
Sora apertou os punhos, os olhos ficaram afiados.
“Eu não vou fugir se as pessoas estiverem em perigo.”
Afinal, ela era uma aspirante a médica. Portanto, valorizar a vida era seu dever..

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