Capítulo 23 - Sentimentos reprimidos
Talvez tivesse chegado ao fim. Aquele sorriso gentil que Mayck não tinha visto há anos, foi a última coisa que lhe veio aos olhos antes daquele mundo se desfazer.
Só restava aquela mesma vista do terreno da escola naquele dia de primavera.
Embora não tivesse resolvido tudo, parte dos conflitos internos que tinha se foram; ele ficou livre para cuidar de outros assuntos que manteve em segundo plano.
Um suspiro fugiu do interior do garoto, que permanecia imóvel, apoiado na travessa da janela.
“Acabou… por enquanto.”
Seu olhar quebrantado mostrava que sua mente precisava de repouso.
Ele se afastou da janela e foi até a cama mais próxima, se deitando e relaxando o corpo.
Desde que a aula em que foi expulso começou, não havia se passado muito tempo e a conversa com Alana não durou mais do que 10 minutos. Mayck poderia cochilar um pouco e voltar na próxima aula e assim o fez.
O resto do dia acabou sendo cheio de olhares abismados e cautelosos para o garoto.
Por conta de seu comportamento mais cedo, os outros alunos botaram em suas mentes um medo inconsciente de se aproximarem dele.
Não podia ser ajudado.
O garoto não deu muito crédito a isso. Ele se concentrou em outras coisas, mas, como parte do erro havia sido dele, optou por tomar mais cuidado e prestar atenção nas aulas até o fim do dia.
O sinal tocou e os estudantes se prepararam, seguindo a rotina de sempre. Ir para casa ou clube.
No entanto, esse foi um dia diferente.
Ao olhar pela janela, mesmo o verão estando próximo, estava nevando.
“Olhem lá fora.”
“Isso é… neve…?”
Todos estavam confusos, inclusive o trio de amigos, formado por Mayck, Chika e Akari.
“Isso é um fenômeno incrível, não é?”
“Realmente… Não é todo dia que neva desse jeito.”
“Eu estava me referindo ao fato de estar nevando nessa época do ano…” Chika falou ao perceber que foi mal interpretada por sua amiga, mas pensou que Akari era a verdadeira estranha por comentar algo assim.
Contudo, esses três sabiam que não poderia ser um simples fenômeno incomum da natureza ou algo relacionado a isso.
Tal coisa só tinha uma explicação: aquilo estava sendo causado por uma ID.
“Atenção, estudantes. Por conta do estranho e desconhecido fenômeno presenciado no momento, aconselhamos que todos voltem para suas casas imediatamente. As atividades do clube estão encerradas por hoje.”
O aviso veio de uma caixa de som que ficava suspensa no teto.
Como explicado, os clubes foram encerrados e todos os alunos se encaminharam para suas casas.
“O que vai fazer agora, Mayck?”
“Bom, eu… acho que vou pra casa também. Não estou com roupas para me manter no frio.”
“Você tem razão. Ir para casa agora é a única coisa que se pode fazer.”
Isso só valia para uma pessoa normal.
“Tenho certeza que a organização vai investigar isso e pode ser que a operação seja adiada. Você vai aparecer por lá?”
“Eu me pergunto… Talvez eu nem saia de casa.”
Com relação a essa questão, eles estavam conversando em um canto separado, enquanto esperavam a multidão de alunos liberarem a saída.
Agora que eu me lembrei… Hana ia falar comigo. Será que vamos nos ver ainda?
Com a movimentação, assim como Chika faria, Hana poderia sair da escola e ir até a base da Strike Down.
“Nos vemos depois então.”
A passagem foi liberada e as duas garotas saíram juntas.
Mayck preferiu esperar um pouco mais, já que com a neve, uma forte ventania fazia uma bagunça com os cabelos das garotas e era difícil andar sem parecer um passarinho que acabou de nascer.
“Que cenário…”
O garoto encarava os pequenos flocos brancos e pensava em métodos eficazes para sair da escola sem tomar muito dano de gelo.
Ele virou a cabeça para o lado e encontrou os olhos de duas conhecidas, que, provavelmente, também estavam esperando a poeira baixar, no caso, a nevasca.
“Hum? Mayck-kun?”
Rika foi a primeira a notá-lo, Haruna o percebeu logo depois de ouvir as palavras de sua amiga.
“Vocês também preferem esperar?”
“Sair agora seria um problema”, Haruna falou.
“Eu sei como é. Mas esperar também é ruim. A neve pode se acumular e existe a possibilidade de não passar tão cedo.”
“Então, não seria melhor irmos agora? Sabe, com a possibilidade de piorar, é melhor sair antes de ficar mais forte.”
“Isso é o óbvio a se fazer, mas pode ser que fique mais fraco daqui a um tempo.”
Os três suspiraram. Existiam possibilidades demais para isso.
“Se é assim, então porque não fazemos uma votação?”
“Votação?” Rika inclinou a cabeça.
“Hm.” Haruna assentiu e continuou. “O que vocês preferem: ir para casa agora ou esperar mais um pouco. A minoria faz o que a maioria quiser.”
Era justo. Assim eles não ficariam com tanta indecisão.
“Então… quem quer ir agora?” Mayck iniciou as eleições.
Ninguém abriu a boca ou se moveu um centímetro, no entanto.
“Quem quer esperar…?”
Três votos.
“Imaginei.”
Nem todos os alunos haviam ido embora. Também tinham aqueles que pensavam como eles, que decidiram esperar mais um pouco.
Mayck preferia voltar para a sala e ficar quieto em uma cadeira esperando o tempo passar, mas foi persuadido pelas duas garotas a explorar a escola, andando de um lado para o outro.
Eles fizeram isso por 30 minutos, até notarem que a ida para casa era possível.
“Então, até depois.”
“Hm, até.”
Se despediram e seguiram caminhos diferentes.
As ruas estavam vazias. Naquele momento, um alerta da prefeitura já havia sido feito, recomendando que as pessoas ficassem em casa para prevenir possíveis acidentes.
A nevasca já tinha se acalmado, mas levou quase uma hora e as ruas e casas estavam decoradas de branco, dificultando a caminhada de qualquer um que passasse por lá.
Mayck precisava levantar bem os pés para poder prosseguir.
Será que isso foi…? É possível que sim. Se eu estiver certo, ele vai me esperar.
Mesmo já sabendo o que lhe aguardava, Mayck preferiu ir para casa.
Ele voltaria para a escola, pois lá era onde ocorreria uma pequena reunião.
Sua prioridade era pegar algumas roupas para lhe proteger do clima frio, já que a mudança instantânea de temperatura acabou fazendo os números caírem ridicularmente.
Não dá pra ver a lua…
Encarando o céu escuro, tudo o que se via eram nuvens acinzentadas. O vento também não ajudava. A cada vez que soprava, o garoto tremia, como se estivesse sendo congelado.
Chegando em casa, ele tomou banho, jantou e trocou de roupa rapidamente.
Em sua cabeça, se fizesse isso, não ficaria com tanto frio.
Depois de fechar o zíper de um moletom com capuz, por algum motivo, o garoto pegou um cachecol que estava guardado em sua gaveta há muito tempo.
“Quando foi a última vez que usei isso…?” Ele encarou a peça.
O cheiro de mofo lhe trouxe algumas memórias nostálgicas que estavam escondidas até um dia antes.
“Ah, é verdade… eu emprestei ele a Kin uma vez.”
Enrolou o cachecol azul royal em seu pescoço e saiu de casa outra vez, fazendo o trajeto para a escola.
O colégio já estava vazio naquele horário. Passava das 22:00 e o portão já havia sido fechado.
Mas, falando sério, ser capaz de influenciar o clima é um poder e tanto. Vou parabenizá-lo depois.
Mayck pulou o muro e adentrou a área da escola. Ele andou calmamente e atravessou todo o campus até a entrada.
“Se ele for me esperar, então deve estar lá em cima. Que preguiça…”
O garoto se sentia cansado apenas por pensar em subir todos os andares da escola até o telhado.
Sem escolha, seguiu em frente.
Enquanto caminhava, fazia o máximo para abafar os sons de seus passos, não que ele estivesse tentando não chamar atenção, mas porque ele não queria fazer barulho naquele corredor escuro e sombrio.
Foi o momento em que ele sentiu na pele o quanto a luz podia fazer diferença em um lugar.
O corredor fazia menção à mais pura escuridão.
Aos poucos, Mayck ouvia seu coração bater.
Seus passos pareciam estar em câmera lenta.
Passando por uma sala, o garoto parou de se mover porque algo lhe chamou a atenção.
Em pé, no meio da sala usada nas aulas de culinária, uma garota, sentada na mesa, balançava os pés alegremente.
O garoto parou de se mover e assistiu a cena, sem saber o que fazer. De repente, ele se viu no meio da rua, naquele mesmo dia em que perdeu Alana.
Quando o notou, a garota sorriu e se levantou para ir até ele, mas, no momento em que ia se aproximar, um carro a atingiu e ela foi arremessada para longe da visão do garoto.
Essa cena foi tão realista que Mayck sentiu na pele, como se tivesse voltado para aquele dia.
Os sons, a temperatura, o ambiente… eram perfeitamente iguais.
Em resposta, Mayck inconscientemente levantou sua mão e tentou correr até ela, mas hesitou e desistiu, se colocando novamente em seu caminho.
Aquele cenário se desfez como uma poeira sendo soprada.
Mais alguns passos e Mayck encontrou a pequena Kin, sentada em uma cadeira e sorrindo. Essa imagem fez o garoto parar outra vez, mas ele continuou em frente ao ver o sangue escorrendo pelo pescoço dela.
Ele lutava para não cair nos truques mentais, mas, mesmo sabendo que era tudo uma ilusão, ele não podia negar de que tudo foi real.
Então é assim que você vai jogar, Haruki?
Ele já havia percebido que isso era a ID de seu amigo em atividade.
O plano era tentar fazer Mayck se arrepender de tudo e quebrar antes de chegar ao telhado.
Por isso, o garoto já sabia o que esperar da próxima vez.
Como ele havia pensado, várias pessoas diferentes apareceram e sumiram depois de sofrerem uma morte terrível. E todas as vezes, o garoto era levado para o mesmo local de casa acontecido.
Dentre elas, o Furacão vermelho também foi visto, mas como todos os outros, ele desapareceu tendo seu corpo desintegrado.
Mayck pisou no primeiro degrau da escada.
No topo, ele viu o garoto, Yuigahama Nariyuki, com seus olhos fixos para a base onde se encontrava.
“Não se sente culpado?” Nariyuki abriu a boca.
“… Por que deveria?”
“Eu morri por sua causa, não foi? Eles decidiram me matar apenas para te atrair.”
“Eu me pergunto.” Ele suspirou e começou a subir as escadas, sem nenhuma intenção de parar para conversar.
“Você não liga mesmo?”
“Eu entreguei a mensagem para sua irmã. Meu trabalho já foi cumprido.”
Sem olhar para ele, Mayck continuou a subir, enquanto Nariyuki desaparecia após uma pequena explosão.
Faltava pouco para o terraço.
Nagi apareceu, se contorcendo em agonia. Seus gritos faziam o chão vibrar e seu corpo se encheu de bolhas, que foram estouradas e jorraram sangue.
“Não havia nada que eu pudesse fazer”, Mayck balbuciou, mas se manteve firme e continuou caminhando, passo a passo.
“Você vai mesmo seguir em frente?” Uma voz que ele não tinha ouvido com frequência e que não ouvia há muito tempo, ecoou pelo corredor.
“Se você não tivesse trancado suas memórias, as coisas poderiam ter sido diferentes.”
“E o que garantiria que seria diferente?” Mayck olhou para trás e encontrou os olhos de Flame.
“Ao menos Yang não teria utilizado aquela bomba.”
“Não adianta tentar me culpar por isso. Não fui eu que fiz aquela coisa explodir, no final das contas.” Ele se virou e andou.
“Então é assim que vai ser? Você vai ficar fugindo de tudo apenas dizendo que a culpa não foi sua?”
Ignorando as palavras, o garoto caminhava firmemente, deixando Flame para trás, que teve seu corpo esmagado antes de desaparecer.
O telhado estava cada vez mais próximo. Subindo apenas mais uma escada, Mayck encontraria a porta que o levaria até Haruki.
Uma silhueta apareceu atrás do garoto.
“Você me odeia?”
“Você teve o que mereceu.”
Aquela figura era a última pessoa que caiu pelas mãos dele.
O homem que foi usado como um teste da Black Room para descobrir se o garoto seria útil ou não.
“E você? Quando vai ter o que merece?”
“Quem sabe…?”
Mayck deu os últimos passos e abriu a porta.
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Perto das grades, esperando sua chegada, Haruki mantinha as mãos nos bolsos.
Seus olhos demonstravam fortes emoções, mas não boas. Era um misto de ódio com tristeza.
Ao ver seu amigo chegar, ele abriu a boca.
“É estranho, não é? Essa é a primeira vez que venho na escola durante a noite.”
“Eu diria que é bem desconfortável. Gostaria de estar na minha casa, mas não posso negar que é uma experiência interessante.”
“Hmm… As vezes é bom curtir o clima frio, mas, como eu pensava, eu sou uma pessoa do verão. Ver o sol brilhando e queimando minha pele… é uma ótima sensação.”
“Se eu ficar no sol muito tempo, eu corro o risco de derreter. Por isso prefiro o frio, mas não quer dizer que eu vá brincar na neve, no entanto.”
“Você não gosta de brincar na neve? Para quem ama o clima gelado, isso é bem estranho.”
“Talvez você esteja certo.”
A atmosfera entre os dois não deixava nenhum traço de hostilidade, de ambas as partes, visível.
Era como um encontro normal de dois amigos.
Porém, ambos sabiam que não duraria muito tempo. O que estava por vir era algo que não poderia ser adiado nem ignorado. Isso já havia sido determinado há muito tempo.
“Mas, sabe… como você chegou aqui, quer dizer que não exista nada do qual você se arrependa?”
“Não diria que não me arrependo. É claro que existem coisas assim. Eu sou um humano, afinal.”
Mayck fechou os olhos e abaixou a cabeça, mas logo tornou a levantá-la e olhando para Haruki.
“Arrependimento, medo e todos os outros sentimentos complicados andam lado a lado com os humanos. É só que, bem… eu não gosto de ficar remoendo as mesmas coisas.”
“Mesmo que isso machuque outras pessoas?”
“Se você se importasse com cada pessoa que existe, então você nunca poderia ser feliz.”
“Tem razão. Para ser feliz, é necessário saber o que é tristeza. Caso contrário, a felicidade seria algo normal e irrelevante para as pessoas.”
“Antes que me pergunte, saiba que há coisas que eu me arrependo e coisas que eu faria de novo se tivesse a chance.”
“Matar o meu pai… isso se encaixa em qual lado?”
“Sendo sincero, eu não gostaria de fazer algo que magoasse um amigo. Mas eu não escolhi o ‘certo’ naquele momento, porque não havia uma escolha certa. Então eu não acho que estava errado em fazer as coisas acabarem daquela forma.”
“O que quer dizer com ‘não havia escolha certa’?”
“Exatamente isso. Em uma situação em que você tem que escolher entre matar seus inimigos e salvar alguém importante ou perder alguém importante e se deixar morrer pelos seus inimigos, o que você faria?”
“Salvar alguém importante… Mesmo que seu inimigo seja alguém importante para outra pessoa?”
“Não existem escolhas certas ou erradas na hora de salvar alguém. Tudo o que existe é o peso delas na balança… ou melhor, quem você preza mais.”
“Pesar as vidas em uma balança. Você sabe que esse pensamento é horrível, não sabe?”
“E o que se pode fazer? Eu não pude deixar seu pai impune depois que ele matou alguém importante para mim.”
“Mesmo assim…”
“O quê? Vai dizer que eu deveria abaixar a cabeça e deixá-los me matarem também?”
Haruki se sentiu encurralado. Ele ainda não conseguia aceitar que seu pai era uma pessoa terrível.
As palavras de Mayck eram como facas atravessando seu coração.
“Mas você consegue imaginar o que eu sinto? Meu pai era tudo o que eu tinha e precisava para ser feliz. Ele, eu e minha mãe. Não consegue entender?!”
Haruki começou a se exaltar. Nem ele mesmo sabia o que estava dizendo. Àquela altura, ele só queria cuspir todos os seus sentimentos.
“Foi mal, Haruki. Do jeito como eu estou, não vai dar. Não importa o quanto eu tente me pôr no seu lugar, tudo o que eu vejo são os meus verdadeiros sentimentos.”
“O quê…? Não consegue imaginar o que eu sinto?”
“Eu consigo imaginar. Porém, pra mim, eles não fazem sentido.”
O garoto ficou abismado. Seus olhos tremeram e ele acabou recuando alguns passos.
Aquelas palavras foram totalmente frias e sem um pingo de empatia. Elas estavam carregadas de egoísmo e, ao mesmo tempo, de confiança.
Os ombros de Haruki caíram e sua cabeça se inclinou para baixo.
Os seus sentimentos, ele havia sentido como se eles houvessem sido esmagados.
“Pra resumir… você não se arrepende de ter matado meu pai?”
Mayck suspirou.
“Sim. Eu não me arrependo e não tenho o direito.”
Não havia o que fazer. O garoto já havia se decidido há muito tempo. Ao menos com esses sentimentos ele tinha se resolvido.
“Parece que não tenho mais nada a dizer… Haha… Isso é estranho… Eu tinha pensado tanto em como ia te fazer pedir desculpas e se mostrar arrependido, mas, agora… parte de mim concordou com a sua decisão.”
O ruivo cobriu seu olho direito com a mão enquanto sorria amargurado.
Mayck o observou em silêncio.
Aquela etapa tinha chegado ao fim.
“Agora… só tem um jeito de eu me resolver com tudo isso.”
“É o que parece.”
Haruki começou a se afastar cada vez mais e, logo, eles se encontravam a uma determinada distância.
Sem voltar seus olhos para seu amigo, Haruki permaneceu de cabeça baixa e abriu a boca.
“Espero que não me odeie, Mayck.”
Ao dizer suas palavras, Haruki balançou os braços e empunhou duas adagas. Alguns traços amarelos brilhantes surgiram na lâmina e ele se preparou.
Mayck também se pôs em guarda, esperando o ataque.
O ruivo avançou rapidamente e desferiu golpes de várias posições no garoto, que conseguiu desviar, mas com um pouco de dificuldade.
A cada golpe, Mayck sentia o peso dos sentimentos de seu amigo e pensou que deveria respondê-los indo contra ele com tudo.
Continuou desviando até encontrar uma brecha.
Haruki moveu sua mão em um corte mirando o pescoço dele na horizontal.
Mayck viu ali, a brecha que procurava. Ele se abaixou e colocou seu pé direito ao lado de seu oponente e atingiu um soco na barriga, que foi efetivo e fez Haruki se desequilibrar, indo para trás.
Mas ele não deixaria barato. Se recompôs rapidamente e avançou mais uma vez, com mais golpes de lâmina. Ele tinha esperança de acertar alguns.
Mayck viu que, se continuasse daquela forma, eventualmente sua energia iria se esgotar e ele morreria de verdade nas mãos do garoto enfurecido.
Preciso desarmá-lo, mas como?
Haruki manejava as lâminas tão habilmente que ele parecia ser um só com a arma.
Nesse caso…
Após desviar outra vez, Mayck tomou distância e balançou a mão direita para baixo, onde sua katana surgiu magicamente.
Imediatamente após tocá-la, ele fez um corte horizontal, mas Haruki, que estava se aproximando, recuou rapidamente, se esquivando do golpe.
“Uau, não sabia que você era fã de espadas.”
“Ela me chamou a atenção quando a vi. As armas da Black Room são incríveis, não é? O mesmo para as suas adagas.”
A conversa foi interrompida, dessa vez, por Mayck, que decidiu se mover e desferir um corte vertical.
Haruki cerrou os dentes enquanto segurava o peso da espada que insistia em ultrapassar a barreira feita com as adagas.
“Argh… Você não tem intenção de pegar leve, não é?”
“Se eu fizesse isso seria um pouco chato da minha parte. Então, aguente.”
Nenhum dos lados queria ceder, até que Haruki percebeu que iria acabar perdendo. Mesmo que fosse uma disputa de força, Mayck tinha o auxílio do peso das espadas e das adagas, assim como da própria gravidade.
Ele decidiu fazer outro movimento. Bateu o pé no chão rapidamente e uma estaca de gelo surgiu abruptamente.
Mayck conseguiu fugir ao notar, mas acabou com um pequeno corte na perna.
“Droga. Isso dói muito no frio.” Ele encarou a ferida que começou a sangrar.
Quando levantou os olhos, viu que ainda não havia acabado.
Vários cumes de gelo começaram a subir do chão um após o outro e, logo, abaixo dele, forçando-o a se mover para não ser atingido e o colocando na defensiva.
Não posso deixar isso continuar!
Ele percebeu que não poderia continuar sem atacar.
Mayck mudou sua trajetória e começou a correr na direção dos espinhos de gelo que já haviam se formado, correndo entre eles em zig-zag, confundindo o ataque de Haruki.
Assim que se aproximou, manejou a espada em um corte diagonal e continuou atacando, mas Haruki desviava e segurava os ataques com suas armas.
“Vocês devia ter entrado no clube de kendō. Suas técnicas com espada não vão me derrotar”, ele zombou enquanto esquivava.
“Eu sei disso. Não precisa me lembrar.”
Não existia a possibilidade de Mayck derrotar Haruki lutando assim.
Ao contrário dele, que treinou incansavelmente durante cinco anos e aprimorou sua ID, Mayck apenas fez isso por menos de um ano.
Suas batalhas daquela época foram vencidas com a ajuda da Chave e Alana, que estavam presentes o tempo todo.
Vou ter que mudar minha abordagem, usando tudo o que eu sei.
Mesmo que o ruivo não fosse tão forte, ele ainda possuía mais experiência. Isso era um fato inegável.
“Eu vou acabar com isso, nem que tenha que usar meu trunfo.”
“Trunfo? Fala daquele laser gigante? Lamento te dizer, mas eu já tenho uma medida contra ele.”
“Eu gostaria de ver.”
Eles pararam de trocar golpes e se distanciaram um do outro.
“Tá preparado?” Mayck perguntou em tom irônico.
“Só vem.”
Ao receber a resposta, ele levantou a mão e Haruki se posicionou com as duas mãos para frente.
Perfeito.
Ao invés de um círculo surgir no ar, Mayck abaixou a mão e cerrou o punho.
Haruki ouviu um som como a nota de um piano e seu corpo parou de se mover.
“Hã? O quê… aconteceu?”
Mayck movimentou sua mão para cima e o corpo de Haruki seguiu as ordens como um se fosse um controle remoto.
Depois, ele foi jogado para a esquerda e direita consecutivamente e depois arremessado no chão com bastante força.
Suas costas atingiram o chão e ele acabou cuspindo um pouco de sangue.
“Que merda… foi essa?!” Ele indagou ao se levantar.
“O que será, né?”
O garoto respondeu sem dar um sorriso arrogante ou qualquer outra expressão que sugerisse isso.
Vendo que seu oponente ainda tinha armas escondidas, Haruki percebeu que não podia subestimá-lo e que deveria acabar com a luta rapidamente, antes que ele perdesse a vantagem.
“Tsk… Vamos acabar com isso de uma vez.”
“Eu concordo.”
Haruki respirou fundo e exclamou:
“Temperature break.”
Imediatamente, todo o terreno coberto de neve foi transformado em gelo e uma nevasca se iniciou apenas no local onde eles estavam.
“Oh… então essa é a habilidade que pode afetar o clima? Você é bem melhor do que eu pensei.”
“Estava me subestimando até agora?”
“Não pensei nisso. Só que… eu não pretendo perder pra você aqui.”
Haruki ficou irritado com as palavras do amigo e avançou contra ele, deslizando pelo gelo.
Mayck viu que estava em desvantagem e tentou se equilibrar, mas isso não era muito efetivo.
Sua única chance de virar o jogo só apareceria se ele saísse daquele local, onde seu oponente tinha total vantagem.
É difícil me manter parado. Ele faz parecer tão fácil.
Um corte veio em direção aos seus olhos e ele tentou esquivar. Acabou caindo, mas não foi atingido pelo golpe.
O garoto nunca havia se sentido tão sortudo antes.
Haruki não parou por aí. Ele continuou deslizando e lançando vários cortes em sequência, atingindo Mayck algumas vezes.
Os cortes começaram a sangrar logo depois e o garoto se via encurralado.
“O que foi? Você não falou que não iria perder?” Haruki levantou as mãos em um tom arrogante.
Mayck se irritou com o gesto. Por um momento, ele se lembrou de Yang.
“Não fique tão confiante. Eu ainda não te mostrei nada.”
“Eh…? Eu quero ver então.”
Haruki correu novamente. Mayck, por sua vez, permaneceu parado esperando o momento certo para fazer seu movimento.
Faltando poucos centímetros para uma das lâminas passar por seu pescoço, Mayck usou a habilidade [Observação], ganhando 5 segundos para se mexer.
“Não pense que estou pegando leve.”
No final da contagem, Mayck estendeu a mão e a moveu para a esquerda, jogando Haruki contra a parede.
Haruki bateu as costas e caiu no chão em seguida, arfando e aguentado a dor.
“Que droga! Vai continuar com esse truque sujo?” Ele elevou a voz.
“Truque sujo? Não vem com essa. Se eu tiver algo pra usar, eu vou usar e você não tem direito de falar nada.”
“Maldito… Esses são seus verdadeiros pensamentos? Acho que todos ficariam decepcionados se descobrissem isso.”
“É mesmo? Bem, eu não me importaria se isso acontecesse. Eu sempre estive sozinho de qualquer forma.”
“Você é pior do que imaginei.”
“E olha só para você. Não vejo diferença. Fingindo ser uma ótima pessoa enquanto escondia uma sede de sangue tão grande.”
“Eu não fiz isso. Todas as vezes que matei alguém, foi para proteger outra pessoa…”
“Isso é só desculpa. Você descarregava seu ódio nas suas vítimas, não é? Usava a desculpa de que eles eram a escória, apenas para eliminá-los da forma mais cruel.”
“Cala a boca! Você não tem que falar de mim. Era só uma desculpa? E daí? Ninguém pode me repreender mesmo. Eu cultivei todo esse ódio apenas para acabar com você. Eu matava aquelas pessoas, mesmo que existissem motivos para não fazer isso, para que eu pudesse descartar qualquer sentimento na hora da minha vingança.”
“É? Então eu vou fazer você descarregar esse ódio até a última gota.”
Mayck moveu sua mão novamente e lançou Haruki para cima e depois para baixo com mais força do que antes, o que fez uma pequena cratera no chão.
“Eu vou com tudo de verdade agora.”
Mayck deslizou pelo gelo com dificuldade e saltou pelas grades de proteção do telhado, caindo perto da quadra de esportes do colégio. A queda foi amortecida pela neve, mas ele acabou afundando um pouco.
Haruki pulou em seguida e eles começaram a trocar socos.
Novamente, o ruivo possuía uma vantagem de força e técnica. Por outro lado, Mayck ganhava em velocidade, defendendo e atacando em seguida.
Haruki fechou o punho e o moveu na direção de Mayck, visando seu rosto. O garoto se inclinou para trás e evitou o ataque.
Em seguida, ele se abaixou e tentou uma rasteira que também foi evitada.
Os dois se distanciaram e Mayck, utilizando o impulso da eletricidade, ganhou uma velocidade alucinante e efetuou um chute giratório que acertou o rosto de Haruki, o qual foi arremessado a alguns metros.
Sem dar chance para ele, Mayck correu outra vez e saltou, girou e acertou o calcanhar na barriga do ruivo, que cuspiu um pouco de sangue e reclamou da dor.
O chão abaixo dele rachou e um som estrondoso ecoou pela área nevada.
“Você pode ser o melhor assassino do mundo, mas eu não vou permitir que me derrote”, Mayck declarou ao se afastar.
“Você está dizendo que é o mais forte?”
“Preciso explicar?”
Uma habilidade natural que Mayck tinha era a de observar e compreender qualquer situação que assistisse. Isso lhe permitia aprender coisas apenas por observar os outros e colocá-las em prática.
Essa era sua verdadeira ID. A capacidade de fazer o que quisesse desde que tivesse uma imagem perfeita em sua mente, mas havia limites para o que podia fazer.
“Moonlight Nightmare”, o garoto anunciou a chave de comando para a ativação completa de sua ID.
Todo o ambiente ficou completamente escuro, mas a temperatura ficou um pouco mais aquecida.
Todas as cores visíveis eram a de seus corpos e roupas.
“Agora sim eu sinto a sua seriedade sobre isso”, Haruki afirmou se levantando do chão. Seus olhos apertados mostravam o mais puro odio de seu coração.
Mayck ficou em silêncio, com seus olhos fixos no seu inimigo.
Sim, ele o via como um oponente a ser eliminado.
Haruki avançou e atacou com suas adagas. No entanto, dessa vez elas deixavam para trás um traço branco que congelava apenas aproximando a lâmina.
Mayck notou isso e ficou mais cauteloso. Seria problemático receber um corte e ser congelado em seguida.
Empunhou sua espada e contra atacou cada golpe que recebia, ganhando, assim, a vantagem de estar um pouco mais distante dos ataques das adagas.
“Eu realmente te considerava um amigo…, não, eu ainda considero, então vamos separar o Haruki vingativo do Haruki gentil.”
“Quer separar vida pessoal e trabalho? Não que eu me importe. Então quem você odeia é o Olhos azuis, certo?”
“Pode pensar assim.”
Mayck deu um giro e atingiu as adagas de Haruki, que se defendeu ao colocá-las em sua frente.
O ruivo recuava conforme Mayck avançava e aumentava a força e a velocidade com que manejava a espada.
Ele tá me pressionando!? Que desgraçado! Haruki cerrou os dentes e tentava procurar uma brecha para sair daquela situação, porém estava difícil.
Ele teve que usar outra arma. Pisou no chão novamente e as estacas de gelo começaram a surgir de novo, forçando Mayck a recuar.
“Você não quer perder mesmo, hein…”
“Perder depois de tudo o que fiz… seria vergonhoso.”
Mayck começou a arfar. Sua energia já estava se esgotando e ele acabaria perdendo por conta de sua baixa resistência. Seu corpo quente era uma prévia para uma febre que viria depois.
Em um dia frio, esquentar o corpo se movendo era o que Mayck mais evitava.
“Oh… já está cansado? Por que não desiste de uma vez?”
“Eu adoraria. Mas não posso garantir que você não vai arrancar minha cabeça se eu fizer isso.”
“Não posso dizer que não faria.”
Haruki se posicionou e correu, com as adagas em posição.
Quando estava a poucos centímetros de distância, Mayck saltou para trás e moveu a mão para o lado, projetando um círculo azul.
Droga. Eu esqueci. Haruki olhou para o lado, se surpreendendo com o ataque.
Aparentemente, ele não esperava que Mayck o usasse nesse momento.
Baixei a guarda!
Como último recurso, ao pousar, Haruki saltou para trás esperando fugir do laser que foi carregado quase imediatamente.
O laser foi disparado e atingiu a perna do garoto. A eletricidade correu pelo corpo dele e o desestabilizou.
Por não ter sido um laser tão poderoso, não houveram muitos danos visíveis e apenas o paralisou, mas o fez sentir grande dor.
“Não se preocupe. Eu usei uma voltagem baixa para não arrancar sua perna ou matar você de uma vez.”
“Quer dizer que… você pode até calcular isso em um espaço de tempo tão curto?” No chão, Haruki buscava um explicação.
“Eu confio nas minhas habilidades de cálculo rápido. Não que vá dar certo todas as vezes.”
“Haha… você estava esperando por isso o tempo todo?”
“Não é como se eu prevesse o futuro ou algo assim. Mas você disse que tinha uma forma de lidar com isso, então eu queria ver se era verdade e como você o faria numa situação dessas. No fim, era só um blefe, não é?”
“Tenho que admitir que sim. Eu não queria que você usasse uma habilidade tão problemática. E agora, o que vai fazer? Estou no chão, é sua chance de me matar.” Haruki já havia se entregado.
Toda a sua luta havia sido em vão. Ele já tinha perdido seus motivos para lutar há muito tempo.
Inconscientemente, ele havia cultivado, em seu coração, um ódio pelas ações de seu próprio pai.
No momento em que ouviu que Mayck não se arrependia de nada, ele desistiu e apenas continuou para lembrar a si mesmo o que estava fazendo.
“É possível que a Strike Down venha até aqui. O que vai fazer?”
“O que…? Existe algo ainda?”
“Que pé no saco você é. Escuta, pelo que você tem vivido até agora?”
“… Eu preciso responder? É óbvio que foi só para te matar.”
“Se fosse isso você teria vindo com tudo de verdade. Eu quero muito saber o que se passa na sua cabeça.”
“Eu acho que não posso te responder isso”, Haruki retrucou.
Os dois encararam o céu acinzentado.
Não havia mais nada que os dois pudessem fazer. Foi uma batalha rápida e eles não sabiam qual foi o sentido dela.
Contudo, ao menos eles puderam abrir seus corações e colocaram para fora todos os sentimentos que reprimiram por anos.
“Amanhã existe uma grande chance de eu faltar. Me cobrir vai ser sua responsabilidade.”
“Eu acho que estou te devendo essa. Ok, eu vou dar um jeito.”
“Ótimo.”
Ao terminar de falar, Mayck se abaixou e ajudou seu amigo a se levantar, o apoiando em seu ombros.
“Vamos enterrar isso aqui?”
“Eu não me importo. Mas você tem certeza que quer fingir que nada aconteceu?”
“Tudo bem. No fim, você ganhou de qualquer forma.”
Mayck sorriu levemente e começou a caminhar.
Haruki estava com seu corpo paralisado, então não se moveria por alguns minutos.
Eles priorizaram sair de lá antes que alguém chegasse.
Embora eles tivessem lutado em um lugar tão chamativo, não queriam ter seus rostos conhecidos em todo o lugar; nisso eles concordavam.
30 minutos foi o suficiente para eles resolverem toda aquela disputa.
No início, eles estavam motivados em seus objetivos até o fim, mas quando um dos lados caiu, toda aquela teia de ódio se desfez.
A vida de seu pai era preciosa para ele. Haruki não negaria isso de forma alguma. No entanto, ele não conseguia lutar por alguém que cometeu atos tão horríveis e não se sentia no direito de vingar alguém.
Seu amigo também perdeu alguém importante e fez o que achava ser o seu dever no momento.
Ele poderia culpá-lo? Poderia. Porém, não conseguia ver motivos para continuar com esse ódio.
Quando já podia se mover, Haruki seguiu o caminho de sua casa e Mayck fez o mesmo.
Esse foi um longo dia e o próximo poderia ser pior.
Mayck sentia dores de cabeça só de pensar.
No dia seguinte, o garoto não conseguiu levantar da cama.
“Eu já sabia que seria assim.”
Sua cabeça doía tanto que ele não conseguia nem ver a luz do sol que passava pela janela.
Parecia que ele não iria para a escola de verdade.
Bom… só me resta voltar a dormir…
Apesar de sua péssima condição de saúde, Mayck tinha seu coração leve, como se uma etapa difícil de sua vida tivesse sido vencida com sucesso.
Enquanto não dormia, ele relembrava tudo o que havia acontecido desde o início da primavera.
Conheceu novos rostos, lembrou-se de velhos amigos…
No fim, tudo isso era importante para ele.
O que o aguardava no futuro? Só existia uma forma de descobrir: vivendo.

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