Capitulo 3 - Encontro indesejado
As aulas continuaram acontecendo mas, logo, seriam finalizadas.
Mayck se recuperou de seu pequeno acidente no ginásio e pode voltar para sua sala tranquilamente. Haruki e Chika estavam com ele. Os dois, por sua vez, estavam com o rosto cheio de rabiscos pretos.
O trio de amigos retornou para a sala e foram cada um para sua carteira.
O professor entrou em seguida e iniciou sua aula. O tempo passou normalmente, sem nenhuma surpresa.
Às 16:30 o sinal tocou e o dia de aulas foi finalizado. Assim como todos os estudantes, Mayck guardou seus cadernos e se preparou para sair.
“Você ainda não decidiu entrar em algum clube?” Haruki se aproximou.
“Não… não tem nenhum que me interesse.”
“Cara esse é o seu último ano no fundamental. Vai querer terminá-lo sem fazer nada?”
“Ainda tem três anos no ensino médio. Eu posso participar de um clube lá.”
“Você tá certo, mas mesmo assim…” Haruki esteve com Mayck por três anos e nunca tinha visto ele participar de algum clube.
“Vai receber bronca se você se atrasar”, alertou seu amigo para apressá-lo.
“Eu vou indo então. Ao menos considere participar de um. O clube de futebol vai estar de braços abertos.”
“Sim, sim. Claro. Eu vou pensar no assunto.”
Deixando ele para trás, Haruki correu em direção à sala de seu clube.
O sol ainda iria levar um tempo para se pôr, então Mayck considerou ir até o local da noite passada e tentar descobrir se o que ocorreu foi real.
Melhor prevenir do que remediar.
Mesmo a chance sendo baixa, ainda era necessário fazê-lo. Se um crime estivesse envolvido, teria que denunciar.
A caminho dos portões da escola, viu Chika, Rika e Haruna seguindo para os prédios do clube. As três garotas faziam parte do clube de tênis de mesa.
“Será que é tão bom assim se juntar a um clube? Que preguiça…”
Ele olhou para frente e seguiu seu caminho.
|×××|
Andando tranquilamente pela rua, passou por uma máquina de bebidas. Uma sede veio de repente, o incitando a comprar algo. Ele tirou a carteira de sua mochila e pegou uma moeda de 500 ienes, colocando-a na pequena fenda da máquina.
Reagindo à moeda, algumas luzes se acenderam nas bebidas que eram possíveis de serem compradas com o dinheiro colocado.
Mayck olhou para algumas em questão e deu um leve sorriso.
Que sorte.
Ele pressionou um botão e caiu, no suporte da máquina, uma lata de refrigerante de laranja. Nada melhor que o sabor refrescante da laranja num fim de tarde. Pegou a latinha e puxou o lacre, liberando uma parte do gás da bebida.
“Esse sonzinho maravilhoso”, mencionou achando agradável o som das minúsculas bolhas de gás estourando depois da lata ser aberta. Continuou andando enquanto apreciava sua bebida.
Os carros andando de um lado para o outro e o número pequeno de pessoas na rua, tornam o ambiente mais agradável para um introvertido como ele.
A luz do sol esquentando seu rosto seguido de uma leve brisa atravessando as casas e prédios.
Alguns minutos depois, Mayck viu uma pessoa andando desnorteadamente, como se estivesse procurando algo de forma desesperada.
Era uma mulher baixa para a idade que parecia ter. Seus cabelos alaranjados balançavam de um lado para o outro, junto com sua cabeça.
Ela se aproximou de Mayck e parou em sua frente.
“Com licença. Eu poderia ter um minuto do seu tempo?”
“Sim. O que foi?” Mayck disse educadamente com um sorriso.
“Na verdade, ontem meu irmão mais novo saiu de casa para ir até uma loja de conveniência, mas ele não voltou até agora. Eu pensei que talvez você tenha visto ele.” Um pouco perturbada, a mulher tirou um celular de sua bolsa. O aparelho mostrava a imagem de um garoto ruivo, aparentando ter a mesma idade de Mayck.
Naquele momento, uma lembrança veio à mente.
No dia anterior, quando Mayck foi até a loja de conveniência, um garoto de sua idade tentou comprar bebida alcoólica. Era o mesmo da foto.
“Sim. Eu encontrei essa pessoa ontem a noite”, disse indiferente.
Como se Mayck tivesse acabado de salvar sua vida, rapidamente segurou-lhe as mãos e as apertou.
“Sério mesmo? Onde? Onde você o encontrou?” Ela aproximou seu rosto de Mayck quase dando-lhe um beijo.
Muito perto…
“Bem… eu o vi na loja de conveniência ontem a noite. Mas eu não sei para onde ele foi depois disso.”
Mayck respondeu timidamente e virou seu rosto, para evitar contato visual.
“Obrigada… Muito obrigada mesmo.”
“Ah, sim, de nada…”
Ao menos ela parece mais calma, pensou.
Mayck se afastou dela na intenção de ir embora.
“Então eu vou indo. Espero que você o encontre bem”, falou com um sorriso.
“Espere só um segundo.” Impediu-o de seguir segurando seu braço. Com o movimento brusco, um pouco do conteúdo da latinha respingou para fora dela.
“Seu nome é?”
“Mayck Mizuki…”
“Eu sou Yuigahama Narumi. Mais uma vez obrigada.” Inclinou a cabeça e se apresentou de forma educada.
“Está tudo bem. Não se preocupe”, a consolou movendo sua mão direita como se fosse um abanador.
Narumi parecia muito preocupada com seu irmão. Tanto, que as lágrimas escorreram pelo rosto, quando ouviu que alguém o tinha visto.
“A propósito, meu pai trabalha na polícia. Se você não encontrar o seu irmão, posso falar com ele diretamente”, Mayck sugeriu.
“Sério mesmo? Muito obrigada. Nesse caso poderia me passar seu número de telefone? Assim posso falar com você a qualquer hora.”
“Tudo bem.” Mayck pegou seu telefone no bolso e ditou os 11 dígitos do telefone.
Narumi fez o mesmo.
“Se eu vê-lo, vou ligar imediatamente, ok?”
“Sim. Muito obrigada.” Deixando essas palavras para trás, Narumi continuou sua procura por seu irmão. Mayck, por sua vez, seguiu na direção oposta.
Em sua cabeça, começou a simular algumas situações que poderiam ter ocorrido com o irmão da mulher.
Se ele sumiu, então era normal que, naqueles dias, relacionasse isso com os desaparecimentos em massa. Contudo, ele decidiu deixar essa como última opção a ser considerada.
Poderia ser que ele tivesse fugido de casa. Se esse fosse o caso, só restava entrar em contato com a polícia.
“Eu queria deixar por isso, mas não tenho um bom pressentimento”, Mayck disse para si mesmo. No entanto, a única coisa que ele pôde pensar que não fosse a fuga, era um possível sequestro.
Se Nariyuki tivesse sido sequestrado, Mayck, como a provável última pessoa a vê-lo, teria que pressionar sua mente para se lembrar de qualquer detalhe que ajudasse, caso contasse para a polícia.
Quando saiu de seus pensamentos ele notou que estava na frente da loja de conveniência que frequentou na noite anterior.
Se eu entrar para perguntar, pensou que poderia descobrir algo se o funcionário que impediu Nariyuki de comprar bebida alcoólica estivesse lá.
No entanto, Mayck viu que, durante esse horário, quem estava no local era uma garota.
“Parece que não vai dar.” Exalou um suspiro e continuou seu caminho.
Andando mais a frente, chegou ao beco onde encontrou aquela criatura. Nesse momento as lembranças retornaram mais uma vez, o fazendo querer ir embora. Mas uma vontade estranha de ajudar Narumi subiu a sua cabeça.
Não. Não só por isso. Ele ficou curioso sobre o caso que ele encontrou.
Possivelmente, o trabalho de seu pai o influenciou e, por isso, um espírito de investigação brotou dentro dele. Queria descobrir o que aconteceu, antes da polícia.
Mayck entrou no beco lentamente, um passo de cada vez. Diferente de antes, o local estava completamente limpo. Na metade do caminho, ele parou e analisou as paredes e o chão.
Não havia nenhuma pista de que algo aconteceu. Mais ao fundo, ele pôde ver algo pequeno refletindo a pouca luz solar que conseguia chegar até ali. Se aproximou e se agachou pegando o objeto.
Era uma corrente de pescoço prateada, daquelas que são usadas por delinquentes.
Isso estava com ele.
Tanto no dia anterior, como na foto mostrada por Narumi, Nariyuki portava o pequeno adereço.
A primeira pista apareceu. Seguindo isso, ele poderia acabar encontrando algo interessante. Uma chama queimou em seu peito.
“Eu ainda tenho um tempo, né?” Mayck pôs a mão no bolso e retirou seu celular. Clicou duas vezes na tela e o horário foi mostrado.
Eram 17:12.
Guardou o celular e ajeitou a bolsa no seu ombro, colocando-a nas costas. Ele se afastou vagarosamente a uma certa distância e começou a correr de volta, pulando e apoiando um dos pés no muro. Mayck pegou impulso e arremessou seu corpo para frente, alcançando o topo do muro e passando por cima dele.
|×××|
Do outro lado, Mayck viu um terreno baldio, que foi abandonado a muito tempo e o matagal começou a crescer.
O que se destacava na paisagem verde, era uma estrutura acinzentada no meio.
O garoto começou a caminhar em direção a construção que estava um pouco mais longe. Não era muito grande, mas era o suficiente para guardar um ônibus lá.
Em plena consciência, ninguém se aproximaria de um lugar tão suspeito. No entanto, se fosse para fazer uma investigação ou até mesmo alguma loucura, certamente estaria disposto a isso.
Mayck se aproximou e observou calmamente cada parte da estrutura. O lugar estava em ruínas e o ambiente monótono deixava uma péssima impressão em quem quer que fosse até lá.
O vento uivava e o matagal se movia conforme era ordenado, levando um cheiro úmido pelo ar e criando um clima sombrio.
Ugh… acho que era melhor não ter vindo aqui.
O garoto claramente arrependido de sua ideia, continuou vasculhando pelo chão e paredes, adentrando cada vez mais o local. Quanto mais fundo ia, mais a luz do sol se perdia, levando-o a ter que apelar para a lanterna do celular.
Vez ou outra, ele tropeçava em alguns escombros e alguns insetos corriam por eles.
Não faz muito sentido eu ter vindo pra cá.
O garoto admitiu que seguiu seu instinto na hora da decisão. Mas quem saberia o que ele poderia encontrar ali.
Depois de vasculhar por mais de dez minutos e não descobrindo nada, Mayck pensou em simplesmente desistir e ir embora, porém quando prestes a se retirar, ele bateu o pé em algo que se parecia com uma alavanca.
Será? O garoto imaginava que tinha encontrado algo bom.
Ele verificou o objeto e percebeu que estava com uma grande quantidade de ferrugem, por não ser utilizado a bastante tempo.
Ah… eu pensei que, já que o lugar está abandonado seria o esconderijo perfeito para alguém aprontar alguma… o garoto pôs a mão na cintura e soltou um suspiro de decepção, quando, por mera casualidade, colocou a outra sobre o objeto.
Um ‘tac’ ecoou seguido de um barulho alto. Algumas pedras caíram e revelou-se um buraco no chão.
No buraco circular, era possível ver uma escada que dava acesso até o fundo.
“Coincidências realmente existem”, disse apontando a lanterna.
Era como um bueiro, daqueles que se via no meio das ruas, porém mais fundo.
Haviam alguns suportes para apoiar os pés e mãos.
A luz da lanterna não alcançava o fundo.
Checando se a escada estava utilizável, Mayck começou a descer.
A descida durou um bom tempo e quando o chegou à base, notou uma porta de ferro, que parecia super pesada e impossível de ser aberta.
“Uou… isso é um tipo de base secreta?” Com uma das mãos, Mayck examinou a possibilidade da porta estar aberta.
Usando um pouco de força, a porta respondeu e se moveu.
Funciona.
Depois, com ambas as mãos, ele empurrou a porta e, lentamente, ela se abriu, revelando um corredor escuro e fedido.
“Que cheiro horrível”, reclamou e pôs a mão sobre o nariz evitando sua respiração. Calmamente ele passou pela porta e seguiu pelo corredor estreito.
Não havia absolutamente nada além do próprio corredor quadrado, então não precisava se preocupar em verificar alguma coisa.
Olhando à frente, viu que existia outra porta.
“Não parece ser muito longo…”
Quando chegou até ela, o garoto a empurrou e, para sua surpresa, a porta abriu mais suavemente que a primeira, porém caiu um pouco de sujeira em sua cabeça, como um preço a se pagar por ser curioso.
Ele bateu a mão na cabeça, retirando parte da poeira.
O lugar se parecia com um prédio, porém com apenas um andar, onde uma escada circular levava até a parte de baixo e não havia uma forma de subir mais.
A visibilidade era baixa por conta da falta de luz, mas era possível ver esses detalhes apenas com a lanterna.
“Vou ter que descer de novo? Vir aqui foi um erro. Que droga”, lamentou de sua própria curiosidade e desceu a escada.
Seguiu cuidadosamente para não tropeçar em nada. Alguém com claustrofobia iria odiar passar por lá. A escada era estreita com corrimão dos dois lados.
Chegando ao final, ele notou que na parede ao seu lado tinha uma outra alavanca.
Mais uma? Espero que um alçapão não se abra embaixo de mim quando eu puxá-la.
Não sendo muito conveniente, mas por precaução, Mayck voltou um degrau da escada e puxou a alavanca.
Melhor prevenir, do que remediar.
Um estalo ecoou e a energia do local foi ativada. As luzes se acenderam, juntamente com ventiladores imensos que estão quase no topo do local.
Com o ligamento repentino da energia, Mayck levou um pequeno susto.
“Parece que ainda está tudo bem”, consolando a si mesmo, começou a se mover novamente.
A luz revelou várias salas. Com janelas de vidros, que tomavam boa parte da parede. Várias delas quebradas com manchas vermelhas e os cacos espalhados no chão.
Enquanto caminhava, Mayck observou cada uma delas de longe. Ele não queria se arriscar desnecessariamente, portanto, optou por se manter em linha reta.
“Isso aqui é algum tipo de instalação médica?” A pergunta foi feita com base em uma das salas, que tinha alguns equipamentos de hospital, como seringas e frascos de remédios.
Conforme ia se aprofundando, o conteúdo de cada sala ia mudando e coisas suspeitas apareceram.
No começo, havia equipamentos comuns como ferramentas, porém a partir de um certo momento, as salas possuíam macas e cadeiras que são vistas em dentista. Estaria tudo bem se elas só estivessem lá, o problema é que elas estavam sujas de sangue e com alguns materiais estranhos.
O estômago dele embrulhou, mas não de fome. Algo quente subiu até sua garganta e a vontade de fugir dali se intensificou.
Eu acho melhor voltar daqui. Se eu me aprofundar mais, posso acabar descobrindo coisas desagradáveis.
O pensamento dele não estava errado. Se ele não pudesse resolver as coisas, seria melhor que ele não soubesse de mais nada. No entanto, o momento de voltar tranquilamente se perdeu.
Não foi possível notar mais cedo por conta dos ventiladores que abafavam o som de algo arfando.
O som de um objeto de vidro se quebrando, ecoou por todo o local. Poderia ter sido um frasco, mas pela frequência do ruído, foi algo maior como uma janela ou mesa de vidro.
Ele ficou pasmo. Não estava sozinho como pensou.
Seus batimentos aceleraram com aquilo, mas mesmo assim ele voltou seus olhos para trás. Passos começaram a ser ouvidos.
Da direção que Mayck veio, surgiu uma silhueta.
O que é essa coisa?
Se reconhecesse a figura como humana, a pergunta seria desnecessária. No entanto, a aparência deixava dúvidas sobre a existência de tal coisa. O rosto deformado daquele ser deixou a impressão de que ácido foi jogado nele. Seus braços longos, continham garras imensas nas mãos. Seus olhos totalmente brancos refletiam o mais puro terror.
Mayck recuou.
O que é isso… Porquê isso tá aqui?
Seu corpo demorou para responder aos comandos do cérebro que o mandava correr. Manteve-se parado por um bom tempo. Tentou controlar a respiração, mas era um pouco difícil se manter quieto.
Os olhos esbugalhados com tal visão ficaram trêmulos, assim como suas mãos e pés. A consciência dizia-lhe para não se mover, mas o instinto de sobrevivência mandava fazer o contrário.
Depois que pôde se mover, correu na direção de uma sala aberta e se escondeu nela. Não era muito eficaz depois de ter sido visto pelo agressor, porém foi a única coisa que ele pôde pensar.
Como eu posso sair daqui?
Vendo que não podia fazer nada contra aquela coisa, Mayck dedicou seus pensamentos à uma forma de escapar ileso.
Para evitar emitir algum som, pressionou a mão em sua boca e começou a respirar bem devagar.Ele abriu um pouco a porta, o suficiente para que ele pudesse ver o ser que tinha acabado de chegar.
Viu que a criatura permanecia parada, olhando ao redor.
Essa coisa é um tipo de alienígena? Não. Eu acho que pode ter sido uma cobaia em algum experimento maluco.
Chegou a essa conclusão, depois que a imagem dos equipamentos médicos das outras salas vem à sua mente. Como nos filmes de ficção, todos os experimentos feitos em laboratórios acabam em desastre.
Essa situação não era diferente. Ele havia começado a se acalmar e conectar os pontos da situação.
Ele me viu mas não veio atrás de mim… é possível que ele não tenha visão?
Olhando ao redor de seu esconderijo, viu um pequeno recipiente de metal. Ele o pegou, abriu a porta mais uma vez e, sem sair, arremessou o objeto com força contra uma sala um pouco mais longe.
Reagindo instantaneamente ao som, o monstro correu de forma enlouquecida até o local atingido, se chocando contra a parede mas não se abalando.
Que merda. Essa coisa é rápida, pensou.
Sua hipótese foi confirmada. A criatura não podia ver, ela apenas ia atrás dos sons que ouvia. Uma excelente oportunidade para Mayck. Se ele fizesse bom uso dela, poderia escapar facilmente.
Mayck abriu a porta totalmente e pegou outro objeto do chão. Agora sendo apenas uma pedra, Mayck a arremessou para outro lado, bem longe dele. A criatura, como na primeira vez, correu em direção a ela.
“Isso…”, quase gritando, Mayck cobriu a boca. Tinha esquecido que não podia fazer barulho.
Começou a andar, evitando qualquer barulho que pudesse fazer, ele se direcionou para o fundo do local. Fez isso porque a criatura foi para perto das escadas.
Sua intenção era encontrar outro corredor que dava acesso às escadas por onde ele veio.
Se pudesse evitar passar pela criatura seria ótimo. As salas que estavam ruins ficaram ainda piores. Ao invés de objetos, possuíam restos mortais espalhados por elas.
Entre sangue e todo tipo de sujeira, Mayck viu um corpo decapitado ao lado de uma mesa.
Ele olhou para frente e pôs a mão na boca.
Andando mais um pouco, se deparou com um objeto de formato retangular na mesa de uma sala, que estava vazia, de certa forma.
O garoto andou cautelosamente até ela e viu que o objeto era um celular. O dispositivo com a tela trincada, deixava dúvidas sobre seu funcionamento.
Mayck apertou o botão Power, do lado direito do aparelho. O smartphone ligou e mostrou que estava com pouca bateria, porém desbloqueado. Deslizou o dedo sobre a tela suja e um aplicativo de lembretes estava aberto, contendo uma nota. Imediatamente, o garoto começou a ler o conteúdo.
[Se você encontrou esse celular, gostaria que passasse uma mensagem para alguém. Quero que você peça desculpas para minha irmã, por mim. Diga que eu nunca gostei de brigar com ela e que queria desejar a ela que fosse feliz em seu casamento, mesmo que seu noivo não seja um cara bom. Yuigahama Nariyuki.]
Yuigahama? Mayck conheceu esse nome antes e não fazia nem duas horas.
A surpresa por ver esse nome duas vezes em situações diferentes, fez com que se esquecesse de segurar o celular firmemente. O celular caiu na mesa e foi para o chão, fazendo um barulho relativamente alto.
Essa não...
Quando se virou, a criatura pulou pela janela de vidro da sala, fazendo os estilhaços se espalharem. Alguns desses estilhaços acertaram o garoto, mas nada tão grave. O pânico fez ele correr como se sua vida dependesse disso.
Seus passos pesados faziam barulho, guiando a criatura até ele.
Em uma perseguição frenética, Mayck só conseguia correr e desviar dos obstáculos em seu caminho.
Caramba, fiz merda. O que eu faço agora?
Ele pensava de forma desesperada em como sairia daquela situação.
Merda, merda, merda. O que eu faço?!
Os destroços atrapalhavam seu caminho e dificultavam sua fuga.
A criatura não emitia nenhum som. Por isso, apenas os seus passos intensos e pesados já assustavam qualquer um.
Já estavam chegando ao final do corredor. Uma barra de ferro surgiu no caminho e fez Mayck tropeçar. Nessa hora, a criatura pulou em direção a ele, mas acabou passando direto se chocando na parede a frente.
Mayck não sabia dizer se chamaria aquilo de sorte. Ele se levantou e levou a barra consigo.
Por causa dela, acabou ficando mais difícil correr, dando outra chance para a criatura alcançá-lo.
Antes que pudesse ser pego, Mayck estendeu a barra e deu um giro, soltando-a em seguida. O objeto arremessado, se chocou contra uma máquina, o que causou um som terrivelmente alto, chamando a atenção da criatura.
Isso deve servir…
Mayck se inclinou e colocou as mãos sobre o joelho, buscando recuperar seu fôlego.
A máquina foi atingida impiedosamente pela criatura. O som emitido era como se batesse um martelo em uma panela de pressão.
Nenhum rugido se ouvia, apenas o choque das garras que faziam cortes incríveis. Era um bom momento para recuperar o fôlego, apesar de não ser um ambiente em que o garoto gostaria de relaxar.
Só pensar que estava trancado com um ser daqueles, era o suficiente para dar náuseas em alguém. Mayck analisou a criatura.
“Yuigahama Nariyuki, né? Eu vou lembrar de passar o recado para sua irmã…”, disse em voz baixa.
Mayck retornou alguns metros e voltou até a sala onde derrubou o celular. Ele o pegou e saiu com a intenção de ir embora.
“Ainda não.” Uma voz ecoou em sua cabeça.
Nesse momento, sentiu uma pulsação estranha em seu peito, o levando até as costas da criatura a alguns metros de distância.
Seus olhos não eram mais os mesmos, estavam pretos como o céu noturno, com uma lua azul brilhando no centro.
Mayck para atrás da criatura. Seus olhos visualizaram o ser como um alvo a ser eliminado. Estendendo sua mão, uma espiral de luz se formou e o ar em volta começou a vibrar, emitindo ruídos parecidos com sons eletrônicos e, em alguns segundos uma esfera que liberava cargas elétricas tomou forma.
Sem consciência, Mayck apontou a energia criada na direção da criatura que batia incansavelmente na máquina.
Como se o controle de seu corpo tivesse sido tomado, uma voz feminina se misturou com a voz do garoto em uníssono.
“Delete.” A esfera foi encaminhada em uma velocidade alucinante contra a criatura a atingindo em cheio. A onda de choque fez com que vários objetos fossem arremessados para longe de forma aleatória e criando uma fumaça que encobriu o local.
“Huh?” Estando de volta a si, Mayck se viu em meio a uma pós-explosão, mostrando sinais de que fez isso de forma involuntária.
Algumas faíscas corriam pelas paredes e chão. Os olhos do garoto não acreditavam no que viam e sua boca não se movia para nada.
No fim, tudo seria uma ilusão, algo que aconteceu em um sonho. Quando acordasse, Mayck veria que era só um delírio de uma mente cansada do dia a dia, que encontrou abrigo em fantasias.
Era o que ele queria que fosse.
Sem fazer mais nada, saiu perplexo do local e foi direto para casa.
|×××|
O relógio marcava 19:45.
Mayck ficou quieto depois de voltar e fez o que sempre fazia. Tomou um banho e, por conta da poeira que veio com a explosão, as roupas precisaram ir para a máquina de lavar.
Quando terminou, foi preparar sua janta.
Passando para a cozinha para pegar os ingredientes, o garoto viu o aparelho que deixou na mesa quando chegou.
Ele se sentou numa cadeira e abaixou sua cabeça.
Como eu vou dar uma notícia assim? A angústia de não saber o que fazer tomou conta. Ahh… que dia complicado.
Além do que ocorreu naquele lugar, ainda havia o problema que surgiu na noite passada.
Um odor de queimado começou a se estabelecer na casa.
“Wuah! Minha comida!” O garoto correu e desligou o fogo. Tirou a tampa da panela e viu que a água tinha secado completamente e o arroz começou a queimar.
“Quanto azar, hein.” Desistiu de sua janta e tampou a panela.
Subiu até o quarto, pegando uma blusa de frio para sair de casa, e ir até a loja de conveniência em mente.
Mayck foi até seu destino e procurou por duas marmitas. Ele as encontrou e as colocou na cesta, que pegou na entrada do estabelecimento.
O garoto entrou na fila e quando chegou sua vez o funcionário ofereceu serviço.
“Gostaria que eu esquentasse?”
“Ah, não. Tudo bem.” Mayck respondeu de forma educada, inclinando a cabeça para frente. O funcionário passou os produtos e mencionou o valor total, que deu 700 ienes.
De seu bolso uma nota de 1000 ienes foi tirada e entregue para o funcionário. “
Senhor, me desculpe se for algo indelicado de minha parte”, o funcionário começou a falar enquanto tirava o troco de 300 ienes.
Mayck olhou atentamente para ele, recebendo seu troco e esperando que continuasse.
“O senhor se lembra do cliente que veio aqui ontem a noite? Sabe, o que tentou comprar bebidas alcoólicas.”
“Ah, sim. Eu me lembro. Tem algo com ele?”
“Na verdade, uma mulher que se dizia irmã dele passou aqui mais cedo e disse que ele está desaparecido.”
O garoto se sentiu um pouco nervoso com o tópico iniciado. Ele sabia perfeitamente o que tinha acontecido e não poderia dizer a ninguém o que fez com Yuigahama Nariyuki.
“Eu a encontrei mais cedo e ela me disse sobre isso”, afirmou pegando suas compras.
“Se o senhor o encontrar, pode vir até aqui e me contatar. Obrigado pela visita.”
“Claro. Farei isso.” Mayck se curvou levemente e se despediu do funcionário.
No caminho de volta, ele passou pelo mesmo beco na qual tinha encontrado as pistas e a quase resolução do desaparecimento de um desconhecido.
Apenas no início da primavera, a cabeça dele foi inundada de problemas que ele nunca conseguiria contar para alguém ou pedir ajuda para resolvê-los. O garoto decidiu manter tudo em segredo, pelo menos por um tempo.
Ele iria focar apenas no futuro casamento de seu pai e torcer para que desse tudo certo.
De volta a casa, esquentou sua marmita no microondas e fez sua refeição. Em seguida, esquentou também a de Takashi e a cobriu com um plástico para que não estragasse.
Para ele, esse dia já estava encerrado. Agora, só tinha que esperar que as coisas se resolvessem pela manhã, o que nunca aconteceria.
Subiu para seu quarto e fechou a porta, indo direto para sua cama.
O celular que pertenceu à Yuigahama Nariyuki, foi colocado na última gaveta da escrivaninha, deixado para ser esquecido.
“Espero que o dia amanhã seja normal…” Fazendo dessas suas últimas palavras do dia, se embrulhou em suas cobertas e caiu no sono.

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