Capítulo 8 - Como uma sinfonia
Em uma situação assim, manter a calma e tentar descobrir o porquê estava acontecendo, era a melhor coisa a se fazer.
Mayck deixou os olhos semicerrados e retirou lentamente a máscara de seu rosto.
“O que você está pensando? O Zero te mandou fazer isso?”
Nikkie manteve a arma apontada para sua cabeça e abriu os lábios.
“Estou fazendo isso porque quero. M-san, não, Mayck Mizuki, eu vou te entregar para Yang.” Ela demonstrava total seriedade sobre o que estava dizendo.
“Eu posso saber o motivo pra isso?”
“Não preciso te dizer.”
“Você viu os resultados do teste mais cedo, não é? Não tinha nada. Como pode ter tanta certeza?” Mayck cerrou os dentes.
“Você saiu de uma luta contra ele ileso. E eu vi em primeira mão você imobilizar Keize”, ela falou. “A ID dele não permite que ele seja derrotado facilmente, ainda mais por alguém com a sua fisionomia.”
Ela tinha lido a situação perfeitamente. Mas o garoto não estava disposto a ceder ainda.
“Se você fizer isso, vai quebrar o meu contrato com Zero e sair como traidora. Você está bem com isso?”
“Não me importo”, ela disse, indiferente.
“Tire essa máscara e diga olhando nos meus olhos. Se conseguir fazer isso, não vou dizer mais nada.” Mayck deu um passo à frente.
Sem vacilar, ela retirou a máscara de gato e revelou seus olhos amarelos como o sol. Deu um passo a frente, quase colando seu rosto no garoto.
“Eu não me importo.” Ela repetiu. Mayck a encarou por alguns segundos e abaixou a cabeça com um suspiro.
“Eu não vou sair sem oferecer resistência. E você não pode me forçar se eu fizer isso, não é?”
“Como pode ter tanta certeza?”
Mayck deu um passo para trás e começou a falar.
“Você poderia ter usado sua ID para me forçar. Já que, não importa como veja, você tem mais experiência e é mais forte do que eu. Mas você não fez isso. Pelo contrário, usou uma arma para me ameaçar.”
“E o que tem isso? Eu posso usar o que eu quiser para ameaçar alguém. Não preciso usar minha ID de forma desenfreada”, ela contestou.
“Mas esse não é o caso aqui.” Ele voltou seus olhos para ela. “O problema… É que você não pode usar sua ID, certo?” A resposta fez ela dar um pequeno salto para trás. Essa reação confirmou a hipótese do garoto.
“Mas se ainda quiser tentar me levar, pode ir em frente.”
Nikkie sentiu suas mãos vacilarem. A arma tremeu levemente. Ela cerrou os dentes, pondo em seu rosto neutro, uma expressão exasperada.
“Não é verdade… Você nem sabe do que está falando. Eu não sou tão inútil assim.”
Analisando as expressões da garota, Mayck suspirou.
“Não adianta disfarçar, você já se entregou.”
“Não aja de forma tão arrogante. Quem você pensa que é?”
“Se estiver disposta a me contar, talvez eu possa te ajudar.” Mayck ofertou a Nikkie, que ficou incrédula com a situação. Ele é idiota por acaso? Pensou.
“não tente me fazer de idiota. Eu acabei de te ameaçar. Então por que você me ajudaria?”
“Você não faria isso se não tivesse um bom motivo. Eu consigo te entender, por isso eu posso te ajudar”, falou, enquanto olhava fixamente nos olhos da garota, que era um pouco mais alta que ele.
Nikkie não sabia como reagir. Apenas com algumas expressões dela, o garoto conseguiu entender que ela não podia usar sua ID. Mas ele não sabia o por que.
Ela tinha seus motivos, mas não queria contar a ninguém. Nem mesmo disse a Zero sobre como se encontrava.
Ela fazia parte da Black Room há cerca de três anos. E, em pouco tempo, conquistou um dos cargos mais altos que a organização tinha a oferecer. Na divisão, Zero era seu único superior.
As outras divisões tinham seus líderes próprios, mas eram um só grupo que atuava em diferentes partes do Japão.
Nikkie tinha mostrado um ótimo desempenho, tanto nas suas habilidades com ID, como em sua liderança. Portanto, não tinha chances dela ser privada de sua ID. Até um certo alguém aparecer.
“Não vai me dizer?” Mayck insistiu na conversa.
“Você é só um novato… Não precisa saber das minhas circunstâncias.” A voz da garota mostrava seus receios. Ser ameaçado e não saber o motivo irritava o garoto, que estava se segurando para não perder a calma.
“Yang está te ameaçando?”
“…”
“Se você ficar em silêncio, não vai conseguir fazer nada.”
Nikkie mordeu os lábios avermelhados e abaixou a cabeça.
“Minha irmã…” Sua voz foi muito baixa e Mayck não entendeu.
“O quê?”
“Minha irmã mais nova… foi sequestrada por Yang. Ele me disse que se eu quisesse ela de volta, eu deveria levar uma ID forte pra ele.”
Então é isso…
“Por que não contou a Zero?”
A garota hesitou por um momento, mas continuou.
“A ID dela é muito instável. Yang iria matá-la se eu fizesse isso.”
“Qual o nome da sua irmã?”
“Shinobu Yuuko”, ela disse com a voz fraca.
Huh? Sinobu… Yuuko-san? Mayck já conhecia esse nome. Essa garota veio a mente de Mayck pela última vez em sua conversa com Hana. Yuuko tinha desaparecido. Ele já sabia. Mas Yang era o responsável?
As coisas estavam seguindo um rumo onde uma luta contra o homem da Ascension seria inevitável.
“Eu vou te ajudar a encontrá-la. Mas com uma condição.” Mediante a proposta, Nikkie levantou a cabeça lentamente. Uma esperança nasceu em seus olhos.
“Uma condição?”
“Isso.”
Mayck contou o que queria e, ao ouvir, os olhos da garota ficaram esbugalhados, mas logo se fecharam brevemente.
“Entendi. Eu aceito isso.”
Ótimo, ele pensou.
Nikkie abaixou sua arma e a guardou.
“Me desculpe por isso. Eu não sabia mais o que fazer.”
“Não se preocupe. Eu fiz a mesma coisa quando cheguei aqui.” A garota se virou e levou sua mão para o botão, para fazer o elevador subir, mas um ‘bip’ fez com que ela parasse.
“Nikkie. Onde você está? Eu preciso que venha a minha sala imediatamente.” A voz de Zero saiu de um aparelho eletrônico.
“Zero-san, eu estou indo agora.” Apertando o botão, o elevador começou a descer novamente.
Quando eu vou poder ir pra casa? Mayck chorou em sua mente.
Quando desceram, seguiram diretamente para a sala de Zero. No caminho viram várias pessoas em uniformes militares, correndo de um lado para o outro, por conta de alguma emergência.
Assim que chegaram a sala, Nikkie ia por a mão no leitor biométrico, mas a porta foi aberta por dentro e Zero saiu.
“Zero-san.”
“Nikkie, vamos para a sala de comunicação.” Quando ia sair, notou Mayck do lado da garota.
“Você ainda não foi?”
“Eu pensei que seria uma boa dar mais um olhada por aí…”
“Não importa. Sendo um novo membro, vou precisar de sua presença também. Vamos.”
“Sim”, Nikkie assentiu, seguindo o homem que estava um pouco agitado. Mayck seguiu os dois em silêncio.
“Como está a situação?” Zero indagou assim que entraram na sala.
“Senhor, o time Delta ainda mantém os sinais. Mas eles estão em com problemas.” O monitor mostrava um mapa de um determinado local, e vários parâmetros marcavam a situação da saúde dos cinco membros do time Delta.
“Faça uma conexão”, Zero ordenou, vendo os baixos números nos parâmetros.
“Sim, senhor.” O homem se dirigiu até uma mesa à frente da grande tela do monitor e um headset foi entregue a ele.
“Ruby, consegue me ouvir?”
“Zero-san. Estou ouvindo.” Pelo headset, a voz meio abafada de Ruby saiu. Por conta de toda a bagunça onde estava, ela mostrava um pouco de cansaço e podia-se ouvir o som de pequenas explosões.
“Relate o que aconteceu.”
“Quando iniciamos a investigação, descobrimos a presença de mais dois grupos além da Ascension. Eles entraram em combate e nós aproveitamos a oportunidade para investigar o sinal… Mas um imprevisto aconteceu e acabamos sendo encurralados”, Ruby disse, poupando os detalhes.
“Conseguiram identificar quem são os outros grupos?”
“São membros da Strike Down e GSN.”
“Eles, é? Eu devia ter previsto isso. Com um sinal forte daqueles, é claro que eles iriam investigar também”, Zero disse a si mesmo. Quando começaria a pensar, foi interrompido.
“Senhor, a explosão foi de grande escala e chamou a atenção da polícia. Eles chegarão ao local em breve.”
“Isso é ruim. Eles não podem chegar até lá. Verifiquem os times disponíveis.”
“Sim.” Após digitar algumas coisas, viram que os times disponíveis só eram de resgate, ou seja, sua ID não serviria para combate.
“Se a Strike Down ou GSN mandarem reforços, a situação do time Delta vai piorar.” Zero cruzou os braços.
“Vocês são contra a Ascension, não é? Então por que lutam com a Strike Down?” Mayck se intrometeu.
“Isso é certo, em partes. Nenhuma das quatro organizações são aliadas. Apenas temos inimigos em comum. Cada uma almeja algo diferente e faz de seu próprio jeito.”
“Então se estiverem na mesma missão, estarão entrando no caminho um do outro? Que besteira.” O garoto suspirou. “Eu vou até lá.”
“Huh? Do que você está falando? Você mal sabe o que é sua ID”, Nikkie que estava perto ouvindo, falou.
“Tá tudo bem. Eu posso não saber, mas tenho alguém que sabe.”
“Alguém que sabe? E quem seria?” Zero perguntou.
“Isso não importa agora. Se você quiser que seu time consiga sair de lá sem maiores danos, você não tem escolha.” Mayck olhou fixamente para Zero, esperando sua resposta.
“Eu me pergunto o que você procura, me encurralando desse jeito. Tudo bem, eu vou mandar você, mas antes é melhor se preparar.” Zero acenou para Nikkie que, entendendo o sinal chamou o garoto e o levou para outro lugar.
“Você é bem ousado. Não pensei que se ofereceria.”
“Eu não estou muito preocupado com seus colegas. Só que vai ser um problema se a polícia for até lá”, Mayck afirmou.
“Por que seu pai é policial?”
Tem informações demais, ele estalou a língua com o fato.
Os dois chegaram a uma sala que Mayck já tinha visitado antes e Nikkie abriu a porta.
“Michio. Preciso que prepare alguns equipamentos.”
Ao abrirem a porta, deram de cara com Michio deitada com o rosto no computador e vários papéis jogados ao chão.
“Dormindo de novo?” Nikkie andou até a garota e a acordou com um esporro.
“Wuah! Estou acordada…” a garota se levantou imediatamente e gritou com seus rosto inexpressivo.
“Dormindo no meio do trabalho. O que você está pensando?”
“Me desculpe, Nikkie-chan. Eu não aguentei”, a garota falou ainda um tanto sonolenta, movendo a cabeça de um lado para o outro.
“Aaah… Não importa. Apenas traga alguns equipamentos.” Nikkie exalou um suspiro e decidiu não lutar.
“Equipamentos? Pra quem?” Michio olhou por cima do ombro de Nikkie e viu o garoto atrás dela. “Ah! Você é… desculpe não lembro de você.”
“Não estou surpreso… por algum motivo.”
“Esse aqui é M-san. Nosso novo membro.”
“Prazer em te conhecer, M-san”, disse, coçando os olhos. Mayck acenou levemente.
“Você precisa de algum equipamento? Que tipo você gosta?” A garota se levantou lentamente da cadeira e começou a andar em direção a Mayck.
“Bom, eu gostaria que fosse algo simples e que não atrapalhasse…” Michio andou demais e caiu sobre o peito de Mayck o interrompendo.
“Desculpe. Eu não consigo trabalhar mais.” Nikkie olhou a garota e suspirou outra vez.
“Não tem o que fazer. Escolha o que você preferir.”
“Ok…” Vendo que a garota não iria ajudar, só lhes restavam fazer isso por conta própria.
Mayck colocou Michio, que acabou de dormir, encostada na parede e se dirigiu até o grande número de equipamentos que haviam na sala.
Passando seus olhos por vários deles, o garoto não achou nada que lhe agradasse, mas continuou procurando. Até que…
“Eu vou querer essa.” Mayck apontou para uma determinada arma em um suporte.
|×××|
“Você demorou. Conseguiu encontrá-lo?” Stella perguntou a Ruby que tinha acabado de entrar.
Depois de levar Mayck até Zero, ela se dirigiu para o grupo que a estava esperando para iniciarem a missão que lhe foi dada.
Os times saiam em missões frequentemente, por isso, o local era bem corrido. Algo em comum que todas as organizações tinham, era que as tropas dos não-portadores só eram mobilizados nós caso de uma guerra de grande escala. Caso contrário, eles permaneciam na base fazendo trabalhos de análise ou treinando para se manterem em dia.
Os usuários de ID, eram movidos para missões diariamente. Além de cuidar de problemas como outras organizações, ainda existiam portadores que usavam suas habilidades para fazer bagunça.
A missão dada ao time Delta da Black Room, era a de identificar sinais estranhos vindos de um metro abandonada, em um local isolado da cidade. Encontrar e relatar. Esse era o único objetivo da missão.
“Vamos indo.”
“Sim.”
Ruby, designada capitã do time Delta, tomou a liderança e guiou o resto do time para o local, levando cerca de 30 minutos.
Quando chegaram, os preparativos foram iniciados. Ruby colocou sua máscara que lembrava um coelho e os outros fizeram o mesmo.
“Como vamos fazer isso? Ruby”, Flame perguntou.
“Bom de acordo com o mapa” Ruby pegou um pequeno dispositivo e o ligou.
“A estação tem um subsolo bem grande, onde haviam diversos estabelecimentos. Nós vamos usar os tubos de ventilação para nos locomover até a sala de controle e usar o sensor de Isha para vermos os movimentos.”
“Okay~” Stella levantou a mão direita concordando.
“Por enquanto, vamos apenas examinar o lugar e encontrar a fonte do sinal?” Isha perguntou.
“Isso mesmo. Não entraremos em combate se não for necessário. Keize, você não conseguirá passar com a gente, então vá pelos caminhos normais e mantenha contato.”
O grandalhão acenou em concordância.
“Certo. Não vamos perder tempo.” Ruby se virou e começou a andar. Desceram as longas escadarias e chegaram até o primeiro piso.
“Qual é a profundidade disso aqui mesmo?” Flame perguntou. “Parece que equivale a um prédio de 18 andares.” Ruby respondeu. “Sério? A gente vai levar muito tempo indo por aqui”, Stella reclamou.
“Não há o que fazer. Só podemos continuar.”
Chegaram até o saguão. Era hora de por o plano em andamento. Com algumas ferramentas utilizadas por Flame, a grade do tubo de ventilação foi retirada e eles entraram em sequência.
Keize, como ordenado anteriormente, desceu pelas escadas rolantes, que não funcionavam e seguiu para os túneis, ignorando qualquer catraca em desuso.
“Será que ele vai ficar bem?”
“Não se preocupe. Keize é bem esperto apesar da aparência.” Ruby respondeu Stella, que seguia atrás dela.
“Hmm… eu espero que sim.” Eles engatinharam até saírem da tubulação. Chegaram em um local diferente onde realizariam a segunda parte da missão.
“Isha, consegue sentir alguém por aqui?”
“Vou verificar.” Isha juntou as mãos e fechou os olhos por alguns segundos. Uma luz cobriu seu corpo e se dispersou, cobrindo um raio de cerca de 20 metros de onde estavam. Sua ID foi ativada.
Com os olhos ainda fechados, Isha era capaz de sentir fontes de calor ao seu redor. Ela não encontrou nenhuma além dos seus companheiros e Keize, que estava a uma boa distância. “Nada.”
“Ótimo. Vamos continuar.” Ruby pegou o dispositivo novamente e acionou um radar. O programa mostrou um sinal mais ao longe de onde se encontravam.
A sala em que estavam era uma sala de controle, com vários monitores para vigiar a estação. Mas como todos os outros, não funcionavam.
Eles saíram cautelosamente pela porta, seguindo o sinal que apareceu no radar. Em cerca de 15 minutos, chegaram até os túneis do metrô. Keize estava esperando por eles. Antes de se separarem, o homem foi ordenado a relatar de imediato, caso encontrasse algo incomum, mas isso não foi feito, então estava ok.
Isha usou sua ID mais uma vez, porém, diferente de antes, ela percebeu uma presença.
“Tem cinco pessoas há poucos metros daqui”, Isha afirmou.
“Serio?! Isso não é ruim?” Stella se pôs em alerta.
“Sim, é. Vamos nos esconder”, Ruby ordenou. Todos acenaram e correram para lugares aleatórios, mantendo silêncio até que o perigo passasse.
Os passos ficaram mais audíveis e se aproximaram.
Em meio ao breu, cerca de cinco pessoas passaram cautelosamente pela plataforma procurando por algo.
“Você acha que vamos encontrá-los aqui?” Airi perguntou.
“Os superiores não passariam uma informação errada. Além disso, não faz muito tempo que o sinal foi detectado.” Ryuunosuke respondeu.
“Então eles só sairiam daqui se soubessem que estaríamos vindo, né?”
Eles caminhavam e discutiam em voz baixa.
“Sim. Mas e se eles fizeram isso de propósito?” Asahi mencionou. “É possível que algo assim aconteça. Yang é bem esperto afinal de contas.”
“Se isso acontecer, eu luto contra ele e pronto.”
“Não é assim que funciona Yui-chan.” Hana disse dando uma leve risada.
“Ignorando as crianças” Yuji continuou. “Devemos estar preparados para uma possível cilada. Estejam prontos para saírem.”
“Ok”, Airi respondeu. Não notando a presença da Black Room, o grupo da Strike Down passou casualmente, adentrando mais a escuridão. Passado o problema, os cinco que haviam se escondido retornaram às suas posições.
“Estão todos aqui?” Ruby perguntou.
“Sim.” Responderam em uníssono, sem elevarem suas vozes.
“Hum? Onde você se escondeu? Keize.” Stella questionou após olhar ao redor e não ver nada bom o suficiente para esconder o tamanho do homem. Como se compartilhassem da mesma opinião, Flame e Isha olharam para ele, mas Keize não respondeu.
“Bom, tanto faz. Mas quem eram aqueles afinal?” Mudando de assunto, a loira perguntou a Ruby.
“Um grupo inimigo, talvez?” Flame pôs a mão em seu cabelo.
“É melhor nos apressarmos, certo, Ruby?” Isha sugeriu. Mas a garota se manteve em silêncio, olhando para baixo e viajando em seus pensamentos. “Ruby?” Isha a chamou outra vez.
“Huh? A-ah. Você tem razão. É melhor continuarmos. Vamos.” Ruby se virou na direção oposta de onde Hana e seu grupo foram e foi andando pelo túnel. “O que deu nela?”
“Quem sabe…” Os quatro seguiram a garota sem dizer nada.
Aquela voz… eu já ouvi em algum lugar. Isso me lembra que Mayck também é um de nós… isso não é ruim? Será que ele percebeu que era eu? A garota se desesperava em seus pensamentos, lembrando que havia visto Mayck sem a máscara na base da Black Room. Esses pensamentos tiraram todo o seu foco da missão.
Depois de procurarem por mais alguns minutos, eles desceram por outra escada rolante em mau estado, indo para o terceiro piso da estação. Eles seguiram cuidadosamente, para não chamar atenção de quem quer que estivesse com eles.
3
|×××|
“Eu, Hyu. Por quanto tempo a gente vai andar?” Yuno reclamava estirando os braços.
“Não é minha culpa se não encontramos nada. Além do mais, nós estamos rodando o quinto piso há um bom tempo.” Haruki liderava o grupo até o objetivo, mas por alguma razão, eles pararam de descer e ficaram rodando pelo piso da estação.
“Ah. Falando nisso, vocês estão com os dispositivos anti-ID ativados, né?”
“Sim, sim. Claro que estamos. Mas porque a gente não desce logo?” Rikki estava começando a se irritar, desde que tinha pavio curto.
“Esperem só mais um pouco. Eu tenho certeza que está por aqui em algum lugar”, Kaito implorou.
“O que você perdeu, afinal?” Haruki perguntou.
“Um anel.”
“Oh, um anel, é?”
“Pra quem seria?”
Kaito sorriu e ajeitou os óculos.
“Eu ia pedir a mãe de um amigo em casamento.”
Os três garotos travaram por um momento. Ele estava falando sério? Fosse verdade ou não, eles apenas se viraram em direção às escadas rolantes.
“Que perda de tempo.”
“Ah! Esperem é brincadeira. Eu só quis fazer uma piada.” Kaito tentou se redimir, mas os seus companheiros já estavam descendo, não lhe dando escolha a não ser ir atrás deles.
Eles passaram pelo sexto piso e continuaram descendo, sem encontrar pistas.
“Eei, nós vamos continuar andando?” Yuno já estava exausto e caiu sentado no chão.
“Nós nem chegamos no último piso ainda, seu frango. Anda, levanta”, Rikki pressionou o garoto.
“Por que não damos uma pequena pausa? A gente andou bastante por muito tempo.”
“Eu aceito isso.” Kaito se sentou. Rikki estalou a língua e se sentou também.
Haruki tirou uma garrafa de água de sua pequena mochila e deu alguns goles. Mesmos que tivessem poderes sobrenaturais, eles ainda eram humanos, então se manter hidratado era muito importante.
Os outros três também fizeram o mesmo e, depois de 10 minutos se levantaram e continuaram descendo. Ao chegarem no décimo piso, Haruki parou todo o grupo e levantou sua guarda.
No sensor infravermelho do óculos, uma silhueta apareceu.
“Parem.” A figura se aproximou e parou a alguns metros de distância dele. “Opa, opa. Parece que encontramos algo bem problemático”, Haruki disse olhando para o Ninkai humanóide a sua frente.
O monstro avançou sem nenhuma cortesia e saltou sobre eles erguendo sua mão para atingi-los com duas garras afiadas.
O grupo se separou e desviou da investida, se colocando ao redor da criatura.
“Tomem cuidado. Não sabemos que habilidades ele pode ter”, Haruki alertou.
“Vamos descobrir isso agora.” Como um passe de mágica, Rikki puxou um cubo de sua cintura e ele se transformou em soco inglês.
Ele investiu contra a criatura e mirou uo punho em seu rosto disforme. O Ninkai contra atacou e suas garras se chocaram com a mão de Rikki.
Os dois lado davam tudo de si. Aproveitando a abertura, o garoto socou o ventre do monstro com a mão esquerda, o empurrando levemente. Com sua mão direita livre, ele correu mais uma vez e acertou o golpe que almejava no rosto do Ninkai.
“É só isso o que você tem?”
Sendo muito efetivo, o Ninkai perdeu seu equilíbrio e bateu contra um pilar. Haruki utilizou brecha para lançar duas adagas no pescoço dele e Kaito finalizou com dois disparos.
O Ninkai parou de se mover e caiu no chão.
“Parece que ele não tinha nada demais”, Yuno observou.
“Isso é bom. Se ele fosse mais forte estaríamos em uma saia justa.”
Haruki tinha razão. Um Ninkai forte demais poderia obrigá-los a usarem mais poder de ataque. E como a estação estava em ruínas, as chances de um desabamento seriam grandes.
“Isso é um sinal de que deve haver mais deles por aqui. Vamos seguir com mais cautela. Se formos pegos desprevenidos de novo, não vai ser bom.”
Os quatro concordaram e prosseguiram para o décimo primeiro piso, por onde passaram sem problemas. Faltava pouco até o décimo oitavo piso. Em poucos minutos chegariam lá.
No entanto, nada nunca foi fácil para eles, então foram barrados no décimo terceiro piso por um convidado indesejado.
“Parece que temos visitas, hein.” Um homem alto se aproximou.
“Desculpe. Não queríamos que alguém nos encontrasse.” Com um sorriso nervoso no rosto, Haruki deu um passo para trás.
O motivo para sua hesitação, era que ele podia sentir a força da figura a sua frente, então precisou se manter cauteloso.
“Eu deixei um dos pets fugir. Mas parece que vocês cuidaram dele. Devo agradecê-los?”
“Quem é você? Maldito.” Rikki perdendo a paciência levantou a voz.
“Eu preciso me apresentar? Bom… eu sou Ryuu. Muito prazer.”
“Ryuu? Droga, isso não é um encontro emocionante.”
“Pois é…”
Ryuu, era um dos principais membros da Ascension. Esteve sob comando direto de Yang por vários anos. Sua fama o rotulava como alguém difícil de lidar. Ele não era alguém forte como Yang, mas sua ID o tornava alguém bastante temível.
“Então, como vai ser? Vocês vão me deixar matá-los ou… eu terei que fazer isso à força?” Ryuu abaixou o tom de sua voz e ameaçou os garotos.
“Lamento, mas nenhuma das duas opções são viáveis. Alguém me ensinou a sempre criar uma terceira opção.”
Haruki, acompanhado pelos outros três, se armaram e se prepararam para a luta inevitável. Ryuu pôs as mãos em sua cintura e trouxe-a de volta, com várias agulhas entre os dedos. Ele abriu os olhos e uma luz começou a rodeá–lo.
“Então vamos começar.” Balançou as mãos e arremessou as agulhas contra eles. Por conta da falta de luz, tiveram que saltar pra não serem atingidos.
“Yuno.”
“Entendido.”Yuno fechou os olhos e levantou as mãos para frente.
“Brilho da meia-noite.” Ao proferir essas palavras, uma esfera de luz iluminou todo o local, os fazendo enxergar perfeitamente.
“Uma bela jogada. Mas será que vai ter alguma diferença?” Uma nova leva de dez agulhas voou para eles. Haruki e Rikki se puseram na frente e rebateram as agulhas, impedindo que elas prosseguissem.
Dando suporte, Kaito disparou três vezes contra Ryuu, mas ele levantou as mãos e várias agulhas se amontoaram na frente e começaram a girar, dispersando os tiros.
“Isso é possível?!” Yuno exclamou inconformado. A batalha continuou.
“Que tal esquentar mais as coisas?” Ryuu levantou a mão mais uma vez e, ao seu comando, as agulhas começaram a emanar uma luz alaranjada e choveram sobre os quatro garotos.
Sem escolha, eles se jogaram no chão e receberam o ataque. As agulhas foram atiradas com uma velocidade alucinante e penetraram o chão com facilidade.
Após isso, se levantaram sem nenhum arranhão.
“Eh? Como não fez nada?” Ryuu pareceu incrédulo.
“Que pena. Nossos uniformes são resistentes a cortes e perfurações por um bom tempo.”
“Você se ferrou, otário.” Rikki e Haruki começaram a golpear Ryuu simultaneamente. Haruki, desferiu dois cortes diagonais com suas lâminas, mas ele desviou facilmente, porém, deu uma abertura para Rikki atingi-lo com um soco no maxilar, que o deixou cambaleando.
Sem levar muito tempo, mais um soco foi em direção ao seu queixo, e Ryuu recebeu um upper e caiu de vez.
“Você não parece ser muita coisa, comparado ao que dizem nos rumores”, Rikki zombou e deu uma leve gargalhada. Ryuu se levantou de cabeça baixa e deu um sorriso maléfico.
“Fufu, você acha que me derrotou só com isso? Será que é tudo o que você tem?”
Uma veia começou a pulsar na testa do garoto que cedeu às provocações de seu inimigo.
“O que você falou? Seu merda. Eu vou te ensinar a ficar quieto.” Rikki avançou na intenção de acertar um direto de direita.
“Espera, seu idiota!” Haruki tentou impedir. Faltando poucos centímetros para o ataque ter efeito, uma chuva de agulhas caiu sobre o garoto irritado.
Como ele não usava proteção na cabeça ou no rosto, as agulhas acertaram sua cabeça e seu pescoço. Eles não haviam sido atingidos da primeira vez porque eles se ajudaram e cobriram uns aos outros. Mas Rikki estava sozinho e as agulhas perfuraram sua pele sem nenhuma dificuldade.
“Droga! Rikki.” Haruki correu e brandiu suas lâminas contra Ryuu, que esquivou se afastando deles.
Que porcaria. Por que esse idiota faz tudo pela emoção? Haruki tomou cuidado com as agulhas e começou a retirá-las do pescoço de Rikki.
“Aaah… que decepção. Cair numa armadilha tão óbvia… esse cara não é só um estorvo?”
“Infelizmente, pra você, ele é muito útil. Apesar de ser um imbecil teimoso às vezes. Kaito.”
“Entendido.” Ao comando de Haruki, Kaito começou a disparar contra Ryuu.
As balas voavam em velocidades surpreendentes, mas o homem conseguia se proteger delas pondo várias camadas de agulhas em sua frente.
“Não adianta. Elas estão imbuídas com a essência da minha ID. Uma arma de fogo não passa de brinquedo perto delas.”
“Nesse caso, vamos mudar a nossa abordagem. Kaito, Yuno, vocês tem permissão para usar suas IDs.”
“Até que enfim. Agora a luta começa de verdade.” Yuno balançou o pescoço e estalou os dedos.
“Vamos ver como as coisas serão a partir de agora, Ryuu-san.” Kaito guardou sua arma e retirou seus óculos. Yuno já havia ativado uma das habilidades de sua ID, mas ainda se pôs em posição.
“Silent gun”, dizendo isso, fez um gesto de ‘arminha’ com as duas mãos e começou a disparar tiros invisíveis contra Ryuu, o atingindo em cheio.
Ryuu perdeu o equilíbrio e caiu sobre um joelho com os disparos que vinham com uma velocidade alucinante. Mas ele começou a rir maliciosamente.
“Isso tá ficando divertido. Deixem-me mostrar o meu real poder então. Reverberação”, disse fazendo várias agulhas levitarem.
Os objetos finos e pontiagudos começaram a emitir uma vibração sonora irregular, que ecoou por todo o piso da estação. A vibração era forte o suficiente para fazer as janelas e outros objetos tremerem.
“Que som é esse?” Yuno perguntou dando um passo para trás e cerrando os dentes.
“Isso não parece nada bom. Tomem cuidado…”
Haruki foi interrompido pelas agulhas em sua mão, que seguiram o ritmo das outras e começaram a vibrar e penetraram a imunidade de seus trajes, fazendo cortes em sua mão.
Merda!
O garoto as soltou imediatamente. Se tivesse demorado mais para retirar os objetos de Rikki, seu amigo teria encontrado o fim naquele momento.
“Ei, vocês dois. Essas agulhas podem burlar as imunidades dos uniformes. Mantenham-se longe delas”, alertou seus amigos.
“Você diz isso, mas também precisa sair daí.”
Se Haruki ficasse parado, seria atingido. E, tanto ele quanto o inconsciente Rikki, seriam mortos facilmente. O garoto se levantou.
“Tirem o Rikki daqui. Eu vou segurar ele.”
“Você só pode estar brincando. Acha que tem chance sozinho?” Yuno gritou.
“Eu vou dar um jeito. Manter Rikki aqui só vai atrapalhar.” Era um pensamento rude, mas correto. Nem Yuno ou Kaito poderiam reclamar, lembrando que Haruki estava na liderança.
Sem mais delongas, os dois garotos pegaram Rikki para levá-lo para longe.
“Vê se não morre. A gente vai voltar para te ajudar”, Kaito falou e pôs a mão no ombro de Haruki antes de sair.
“Relaxe. Eu não pretendo morrer ainda.”
Sendo deixado sozinho com Ryuu, a verdadeira batalha estava prestes a começar. O garoto se levantou e respirou fundo, fechou os olhos e os abriu com um sorriso.
“Temperature break.” O ar foi resfriado de repente. Gelo começou a se formar por todos os lados e a temperatura caia gradualmente.
“Uau. Esse é só seu elemento base? E ver tanto potencial em um garoto da sua idade… Seu talento seria melhor aproveitado pela Ascension”, Ryuu falou enquanto batia palmas.
“Nem brinca com isso. Eu nem queria me meter nesse mundo, mas acabei sendo obrigado.”
“Que pena. Yang faria um belo uso de você.”
“Desculpe. Mas não tenho interesse.”
Ryuu estalou a língua desistindo do que quer que houvesse em sua mente.
“Vamos começar então.” Como da primeira vez, as agulhas foram arremessadas contra Haruki que, usando suas técnicas habilmente, levantou várias barreiras de gelo, para parar o ataque.
Como as agulhas vibravam velozmente, elas passaram por todas elas.Haruki correu para evitar ser atingido.
O que eu faço pra impedir essas coisas? Droga.
“Me surpreende que esteja tão calmo. Acho que vai vencer?”
“Eu não estou calmo, apenas parece. Talvez eu tenha adquirido o hábito de um certo alguém de manter um rosto apático.”
“Esse alguém deve ser bem problemático então. Mas não importa. Eu não vou deixar você ir mais longe que isso.”
As agulhas vibraram mais intensamente e sua velocidade foi aumentada.
O garoto se encontrava em uma situação complicada. Ele conseguia deslizar pelo chão congelado livremente, mas os ataques consecutivos de Ryuu começaram a destruir o caminho de gelo.
Haruki pôs as mãos para cima e várias estacas de gelo tomaram forma e foram lançadas. Com cuidado, as agulhas se posicionaram à frente de Ryuu e continuaram a vibrar, indo de encontro ao ataque de Haruki.
As estacas foram destruídas lindamente e vários pequenos pedaços de gelo se dissiparam pelo local, caindo como pedaços de vidro.
Haruki empunhou suas duas adagas e deslizou pelo gelo em direção a Ryuu. O homem não ia deixar ele se aproximar, então atirou as agulhas para o chão.
Quando se chocaram, a força foi tanta que causou uma pequena explosão de gelo.
A visão de Haruki foi obstruída por alguns segundos e ele pôs, instintivamente, as mão frente a seu rosto.
Tsk. Porcaria.
Com a fumaça dissipada, Ryuu lançou mais agulhas contra o garoto, que teve que continuar deslizando para não ser atingido.
Quando o ataque parou, Haruki avançou e brandiu suas adagas para fazer dois cortes simultâneos. Ryuu desviou, mas ele continuou atacando.
Fazia parte da GSN há muito tempo. Então tinha uma habilidade de combate bastante elevada. Ele se abaixou e desferiu um golpe nas pernas de Ryuu que se desequilibrou e caiu sobre um joelho.
Sem esperar, Haruki chutou seu rosto e o derrubou de vez. Colocou as mãos no chão e, manipulando o gelo, congelou as pernas e braços do homem.
“Parece que eu te peguei, hein.”
“É o que parece. Mas eu ainda não me dei por vencido. Eu estive pegando leve com você até agora”, Ryuu afirmou dando um sorriso malicioso.
“Desculpa de perdedor? Foi mal, mas eu não tô afim de ouvir.”
“Fufu. Vai se arrepender por ficar me subestimando. Já assistiu a algum concerto na vida?”
“Não me lembro de já ter visto um…” Haruki franziu a sobrancelha, confuso com a pergunta de seu inimigo.
“Quando eu era criança, eu amava música clássica. Meu sonho era me tornar um grande pianista. Eu comecei a estudar e tive grandes avanços. Com apenas 11 anos de idade, eu pude participar de um concerto na minha cidade”,
Ryuu fechou os olhos, sorrindo, como se aquelas lembranças patética o divertissem.
“Mas, nesse dia, um grupo de doentes invadiu o teatro e causou um massacre lá dentro, bem na minha vez de mostrar os resultados do meu esforço. Eu tive que desistir desse sonho. Meus pais morreram e eu não pude mais tocar. Agora, eu tenho essa ID, para mostrar meu som mortal ao mundo inteiro.”
Em um piscar de olhos uma onda sonora destruiu todo o gelo do local. O corpo do garoto travou e alguns segundos depois cedeu e caiu de joelhos. Seu ouvido começou a zumbir fortemente e uma dor terrível invadiu sua cabeça.
O quê?!
Ele perdeu sua capacidade de raciocínio.
“Essa é minha verdadeira ID. Sinfonia”, disse andando até Haruki.
“Já ouviu falar no vulcão Krakatoa? Imagine o som de sua explosão bem ao lado de seus ouvidos. O que poderia acontecer? Ah, é. Você não pode me ouvir. Desculpe.” Ryuu chutou a cabeça do garoto que caiu no chão e começou a rir maleficamente.
“Você tem um elemento base forte. Mas me subestimou quando não ativou sua ID. E agora? Será que eu mato você?”
A visão de Haruki se escurecia cada vez mais, até que não pudesse ver nada.

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