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    Eu me lembro perfeitamente. 

    Desde aquele dia, eu ainda tenho medo. 

    Prometi à Sophia que protegeria nossos filhos a todo o custo… e no fim, eu os deixei escapar da minha vista. 

    Foi complicado de entender no começo. O que era ID? O que é esse monstro com que vocês estão lutando?

    Ela me explicou tudo, mas, ainda assim, eu não conseguia absorver toda aquela situação. 

    Depois que Sophia se foi, eu pensei que não conseguia mais seguir em frente, no entanto, ver o sorriso no rosto de minha filha e segurar o meu pequeno garoto no colo me trouxeram as forças necessárias para me levantar. 

    Foi difícil? Sim. 

    Eu estava sozinho. Não podia confiar na família dela. 

    Meus pais moravam longe e eu não queria que meus filhos se distanciassem de mim. Fiquei com medo de que eles saíssem da toca e não voltassem nunca mais. 

    O que aconteceu depois de tudo isso? Eu perdi um deles e não conseguia reconhecer o outro. 

    Por conta da minha negligência, eu perdi umas das minhas preciosas crianças. 

    Mayck se fechou. Ele não me olhava nos olhos e quando fazia isso eu ficava com medo daquele abismo que o seu olhar me mostrava. 

    Eu pensei que seria bom fugir daquele lugar que tirou o que eu mais tinha de importante. 

    Para bem longe deles. 

    Minha terra natal era minha melhor opção. 

    Se eu me transferisse para lá, poderia viver com meu filho tranquilamente. Ou foi o que eu pensei. 

    Não notei os sinais que ele manifestava e quando percebi, tive que usar um poder estranho para apagar as memórias do meu próprio filho. 

    Que pai horrível eu fui. 

    Isso me corroía por dentro todos os dias. 

    Eu me levantava pela manhã e tinha receio de ir até o quarto dele e ver se ele estava bem. 

    Tive medo de chegar em casa à noite e não reconhecer a criança que estava lá. 

    Porém, a cada dia ele se parecia mais com Alana. 

    Se parecia mais com ela do que com ele mesmo. 

    Aquele garoto frio foi se tornando mais comunicativo e sorria mais do que antes. Não havia como não compará-lo a ela. 

    Eu fiquei preocupado. 

    E se ele chegou ao limite e começou a se comportar como ela? Com esse pensamento, eu o levei ao psicólogo várias e várias vezes, mas não havia nada de errado. 

    No fim, eu aceitei. E me acostumei. 

    Como se eu não lembrasse do que fiz com ele. 

    Depois de alguns anos, ele começou, aos poucos, a ser o que era antes. Mas eu não dei crédito a isso. 

    Cheguei do trabalho, estava meio cansado e só queria minha cama. 

    Depois da neve que começou a cair em plena primavera, a cidade ficou bastante agitada, deixando todos com uma pulga atrás da orelha sobre a misteriosa mudança climática.

    Na TV, não se via outra coisa. 

    Pesquisadores e cientistas lutavam para encontrar uma explicação, mas sem sucesso.

    No dia seguinte ao ocorrido, Mayck ficou de cama após contrair uma forte febre e foi forçado a faltar três dias na escola. 

    Pensei em levá-lo ao hospital, preocupado por ser alguma sequela do acontecimento de alguns dias atrás, mas ele recusou e disse que ficaria bem logo. 

    Gostaria de saber o motivo para tanta confiança, mas decidi acreditar nele. 

    Eu queria tomar um banho e dormir, mas fui interrompido pelo telefone fixo da sala que começou a tocar. 

    Eu fui até ele e atendi. 

    “Alô? Quem fala?”

    “Há quanto tempo, Takashi.”

    “Mãe?”

    “Como você tem passado? Faz bastante tempo desde que veio nos visitar.”

    “Sim… Desculpe não ir com tanta frequência. Eu tenho estado meio ocupado com o trabalho.”

    “Eu entendo. Fico feliz em saber que está bem. E quanto ao seu casamento, você está confiante?”

    “É claro. Não precisa se preocupar. Mayck aceitou bem isso, então não teremos nenhum problema.”

    “Isso é bom. Vocês já decidiram a data?”

    “Estamos planejando para o próximo verão.”

    “Então está bem perto.”

    “Tenho que admitir.”

    “E como Mayck tem estado? Ele está bem na escola? Se alimenta direito?”

    “O Mayck tem ido muito bem nos estudos. Nunca tive que ir até a escola por causa de mau comportamento. Eu agradeço sua preocupação pra ele.”

    “Sim. Isso é ótimo. Porque não o manda pra cá por alguns dias? Eu gostaria de passar algum tempo com ele.”

    “Hm? Você quer que Mayck os visite?”

    “Isso mesmo. Existe algum problema?”

    Eu congelei por um momento. Não sabia que decisão tomar. 

    Não sabia se Mayck ficaria bem indo para um lugar cheio de memórias dolorosas. 

    Era possível que ele tivesse voltado a usar seus poderes, eu não tinha como confirmar mas existia a chance. 

    Mandá-lo para tão longe seria preocupante. 

    “Bom… antes de dar uma resposta conclusiva… seria melhor perguntar a ele primeiro.”

    “É verdade. Você tem razão. Decidir as coisas, sem ao menos consultá-lo, não é algo bom a se fazer. Tudo bem, eu ligo novamente amanhã, quando ele estiver acordado.”

    “Está bem. Se cuida, mãe.”

    “O mesmo a você, meu filho. Agora é noite aí no Japão, certo? Então tenha uma boa noite e não se force demais.”

    “Sim, vou me cuidar. Até mais.”

    O apito frequente do telefone desconectado soou nos meus ouvidos. 

    Eu fiquei algum tempo com o telefone na orelha, antes de colocá-lo no gancho novamente. 

    Claro, eu deveria perguntar a Mayck primeiro. Não seria bom se eu apenas recusasse por ele e minha mãe ligasse depois para ele e perguntasse os motivos. 

    Ele é um garoto gentil. Não iria recusar um convite da avó, ao menos que tivesse um grande motivo. 

    Não havia muito a se pensar. Mesmo sem perguntar a ele, já estava garantido que ele iria para lá. 

    Só me restava aceitar e torcer para que ele ficasse bem. 

    Acordei no dia seguinte para a continuação da minha rotina de trabalho. 

    Tive uma grande surpresa ao ver uma certa pessoa de pé tão cedo. O alarme nem havia tocado ainda. 

    “Oh, o que aconteceu? Passou a noite em claro, é?”

    “Não… na verdade, eu acabei dormindo cedo demais ontem. Aí, acabei acordando mais cedo.”

    “Entendi. Eu vou sair agora. Não vai perder o horário da escola, hein?”

    “Pode deixar.”

    Eu estava prestes a sair, mas me lembrei de algo e voltei para a sala, onde Mayck estava sentado assistindo a um programa infantil. 

    Então ele ainda assistia a essas coisas? Não pude evitar me perguntar isso.

    “Ah, agora que eu me lembrei. Ontem a noite sua avó ligou e perguntou se você gostaria de visitá-la nas próximas férias.”

    “Minha avó? Bom, por mim, sem problemas.”

    Como eu pensava, ele não iria recusar. 

    “Então ligue para ela depois e confirme com ela. Estou saindo.”

    “Até mais.”

    Saí pela porta e entrei no carro, indo para meu local de trabalho. 

    Embora eu tenha me decidido rápido, não tinha acabado com as minhas preocupações. Só restava esperar e acreditar que nada sairia de controle. 

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