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    Uma semana após o fim dos eventos que levaram a Strike Down a se mover para outro país, Mayck se despediu de seus avós. 

    Juntamente com Jade, eles seguiram para o aeroporto logo cedo, com destino ao Japão. 

    Lorena não estava junto com eles. Ela iria dentro de dois dias com Takafumi e Tomoko, até porque dois adolescentes fazendo uma longa viagem com uma criança tinha tudo pra dar errado. Mas parte dessa divisão foi coisa de Mayck, que não queria ter tanta responsabilidade em suas costas. 

    Quanto ao que fez com os líderes, ele não os viu desde que partiu para enfrentar o monstro gigante que nem sequer foi nascido na Terra. Mas ele sabia que, provavelmente, os quatro líderes estariam sob custódia da Strike Down. Esse era seu plano desde o início. 

    Ele não tinha nenhuma intenção de deixar aqueles quatro livres, então aproveitou e usou a Strike Down para tirá-los da jogada, assim como fez com os presidentes da organização. 

    Foram dois coelhos com uma cajadada só. Se os quatro líderes tomassem o controle do país, seria um desastre sem precedentes, dada a natureza de cada um deles.

    O mesmo servia para Alexander, mas o garoto tinha certeza de que o mercenário fugiu quando teve a chance. Havia muitas coisas suspeitas a seu respeito, porém, só poderia descobrir no futuro. 

    Mayck sentia que ainda o encontraria. 

    Muita gente já tinha rancor dele, então mais um pouco não faria diferença, ele pensou. 

    “Vamos descer”, ele avisou Jade, vendo que haviam chegado no aeroporto. 

    “An? Ah, claro.”

    Jade parecia nervosa. Se era porque ela nunca havia viajado antes ou por causa da distância, Mayck não conseguia dizer. 

    “Ei, relaxa. Não vai ser tão ruim.”

    “Eu sei… é só que…” ela abaixou a cabeça com seu rosto avermelhado, talvez por causa do frio naquela manhã. 

    O sol havia subido ao céu há pouco tempo e nem estava tão alto, então o reinado do frio ainda persistia naquele horário. 

    “Hm… eu te entendo. Se está com medo do avião, pode ficar tranquila. Dizem que acidentes com aviões são bem raros.”

    “… Dizem? Então nem você tem certeza, não é?”

    “É… bom… não importa. Se não é medo do avião, então é por causa do frio?”

    “Eu deveria perguntar isso a você.”

    Jade levantou uma sobrancelha enquanto analisava o garoto, que estava bem equipado para o frio com um cachecol e luvas. 

    “Olha, as pontas dos meus dedos estão até vermelhas. Mas nem é tão ruim assim.”

    “Nossos corpos são diferentes. Você não entenderia…”

    “Talvez se você engordasse um pouco…”

    “… Não fui eu quem disse isso.” Mayck deu as costas e seguiu em frente. 

    Jade levou alguns segundos para perceber que havia chamado a si mesma de gorda por não sentir frio e seguiu Mayck a passos pesados até o local onde realizaram o check in. 

    O avião sairia em cerca de duas horas, então eles teriam que esperar até lá. Não tiveram outra escolha senão buscar algo para matar o tempo. 

    Primeiro, foram até uma cafeteria — seguir viagem de barriga vazia não era lá uma ideia muito sensata. Jade, porém, se recusou a comer mais do que um pão na chapa e uma xícara pequena de café, mesmo com Mayck alertando para comer, pelo menos, algo mais nutritivo. 

    Terminada a refeição, eles decidiram dar um passeio pelo aeroporto, com a condição de não perderem o horário do voo. 

    “Você não vai comprar nenhuma lembrança para o seu pai? Pode ser que ele esteja esperando por algo.”

    “Hm? nem tinha me ligado. Acho que você tem razão. Mas o que eu deveria levar?”

    “Algo leve… talvez um lanche que ele goste?”

    “Se não for algo que estrague fácil pode ser. Tem alguma sugestão?”

    Jade ponderou por um momento e analisou as lojas ao redor. 

    “Hmm… brigadeiro?”

    “Pode ser uma boa…”

    A decisão foi tomada e eles saíram em busca de alguns doces. Compraram algumas coisas como rapaduras, pé de moleque e cocada, que foram embalados para a viagem. 

    A corrida pelos doces levou cerca de meia hora, então eles ainda tinham bastante tempo para explorar o lugar. Uma das ideias de Jade foi de comprar algumas roupas, mesmo que Mayck a tenha dito que poderia comprar modelos diferentes e até mais baratos no Japão — mas não foi ouvido. 

    O resultado: Jade gastou cerca de 150 reais em duas peças de roupas; um agasalho e uma camiseta.

    Após isso, ela só pode se lamentar. 

    A uma hora e meia restante se passaram e eles se apressaram para o local de embarcação, carregando duas malas consideravelmente pesadas. 

    Ao embarcarem, se dirigiram até seus assentos designados. Por sorte, Mayck conseguiu se sentar ao lado da janela novamente. 

    Quinze minutos após o piloto anunciar quando iriam sair, o avião decolou. E a insegurança de Jade também se foi. Isso porque Mayck disse a ela que não tinha mais volta, então ter medo era inútil. 

    O tempo foi-se passando. Por ter acordado muito cedo, o garoto resolveu tirar um cochilo enquanto ouvia sua playlist aleatória de sempre. Porém, após cerca de meia hora, ele foi despertado por um pequeno tumulto no assento da frente e, sem querer, acabou prestando atenção à conversa. 

    “Eu queria que ele viesse com a gente”, uma criança falou, com uma voz abalada. 

    “Você é chato, hein. As férias estão acabando e ele também vai voltar a estudar. Você não pode ser tão egoísta assim.”

    Mesmo que não quisesse, Mayck pensou sobre o assunto. Aparentemente, a criança estava chateada por algum parente ou amigo que não pôde viajar com eles. Não era nada relevante para ele, no entanto. 

    Mas não foi isso que o incomodou. 

    Essas vozes… eu já ouvi antes… onde foi?

    Ele se concentrou mais um pouco na conversa. Quando ouvia a voz de dois adultos ele não teve mais dúvidas. 

    Nem fudendo. Quanta coincidência. Isso é mesmo possível?!

    Mayck lembrou-se da família que também estava no mesmo avião que ele na ida para o Brasil. Ter eles no mesmo lugar fazendo a mesma viagem pela segunda vez o dava uma sensação de proximidade. 

    Quais são as chances de algo assim acontecer…?

    Ao seu lado, Jade estava dormindo confortavelmente e seu sono parecia tão pesado que sua cabeça caiu no ombro do garoto, que não se importou. 

    Ele ainda estava perplexo com aquela coincidência e até brincou dizendo que poderia ser o destino. 

    Será que ela conseguiu controlar a ID nesse tempo?

    Mayck acabou tendo uma crise existencial apenas com esse acontecimento. 

    Então, depois de refletir sobre sua vida inteira em alguns minutos, ele desejou ver seu pai logo e se perguntou como ele estava se virando. 

    Ah, é… ele vai se casar nesta semana… Parece que mesmo depois que voltar, vou acabar ficando atarefado. Talvez eu recrute algumas pessoas para me ajudar. 

    As pessoas, nesse caso, eram Chika, Haruki e o resto do grupo com quem ele falava na escola. 

    Seguindo nessa linha de pensamento, ele se lembrou de Saki e do terrível poder dela. Se possível, ele pensou, que ela não esteja utilizando esse poder por aí, ele desejou para uma força maior. 

    Acabou perdendo o sono, então se perdeu, olhando para o céu claro e com muitas nuvens, pela janela. O sol já estava chegando em seu ápice, então Mayck supôs que já fosse ao menos meio dia. 

    Ele pensou em que local estavam sobrevoando naquele momento. 

    A tarde veio e se foi, deixando os holofotes para o luar deslumbrante e o céu cheio de estrelas, do qual Jade tirou centenas de fotos após insistir que Mayck trocasse de lugar com ela. 

    Após mais algumas horas, o avião pousou, e depois de quase quatro semanas, Mayck, novamente, pôs seus pés em solo japonês. 

    <—Da·Si—>

    Quando desembarcaram, já podiam sentir a diferença do clima e se dirigiram até o detector de metais, por onde passaram sem problemas, e logo depois seus documentos foram conferidos por um funcionário do aeroporto. 

    Nesse trajeto, Mayck se divertiu com a confusão de Jade tentando lidar com um idioma diferente e ele teve que guiá-la pelos locais. 

    “Falando nisso, eu nem perguntei qual é o seu nível com japonês. Você aprendeu algumas coisas com meus avós, certo?”

    “… É… bem, eu consigo cumprimentar e contar até cem…”

    “Ah… é mesmo?”

    Mayck desviou o olhar e tentou esconder um pequeno riso, mas falhou. 

    “Não ria de mim, idiota.”

    “Foi mal, foi mal.” 

    Mesmo se desculpando, a verdade era que Mayck estava descontando o que passou com Hana quando chegou ao Japão. 

    “De qualquer forma, você deve estar com fome, né? Vamos comer alguma coisa.”

    Jade assentiu e eles foram para a lanchonete mais próxima. Depois de fazer o seu pedido e o de sua prima, Mayck saiu do estabelecimento e pegou seu celular. 

    Alguns dias atrás, ele mandou uma mensagem para Takashi, avisando que voltaria em breve e foi respondido com uma mensagem dizendo para ele avisar quando tivessem chegado ao aeroporto. 

    E era isso o que Mayck faria naquele momento. 

    No entanto, ele teve uma surpresa desagradável ao entrar no aplicativo de bate-papo. Isso se deu ao fato de não poder enviar mensagem para o seu pai. 

    O quê…? O que aconteceu? Eu tô bloqueado?

    Nesse aplicativo, os usuários não podiam mandar ou receber mensagens de um contato que eles bloquearam ou que os bloqueou. 

    Era aí que residia o problema. Mayck não havia bloqueado o seu pai, o que queria dizer que ele havia sido bloqueado. 

    Ao pensar um pouco surgiram duas possibilidades. 

    Takashi poderia tê-lo bloqueado sem querer; ele havia sido roubado. 

    Ele não é tão desastrado a ponto de me bloquear sem querer. Mas também não é possível que ele tenha sido roubado. 

    Mayck descartou as duas possibilidades e tentou procurar outras formas daquilo ter acontecido. 

    Alguém mexeu no celular dele… mas quem poderia ter sido? E porque me bloquearam?

    Alguns nomes como Haruna e Suzune se passaram em sua cabeça, mas nenhuma delas tinham motivos para fazer tal coisa, por isso seus nomes foram descartados. 

    Mayck sentiu sua respiração acelerar e uma dor aguda em seu peito. 

    Ele se encostou na parede da lanchonete e ponderou por um momento. 

    A conversa que teve com Haruki no meio das férias veio à sua mente. 

    Será que a Ascension tem alguma coisa a ver?

    Essa possibilidade levou Mayck a verificar seus outros contatos. Mas uma Jade desesperada veio correndo até ele com seus olhos encharcados. 

    “Mayck!”

    “O quê… o que foi?”

    “Uma gente estranha veio falar comigo, mas eu não entendi nada!”

    “An? Só por isso? Fala sério?”, Mayck a repreendeu. “Vem, vamos pagar a conta e ir embora. Você não pode fugir de lá assim. Eles podem pensar que estamos roubando.”

    O garoto arrastou Jade para a lanchonete e pagou o que devia. Assim, os dois saíram do aeroporto e pegaram um ônibus com destino à estação. 

    No trajeto, Mayck ainda tentava se acalmar enquanto pensava no que tinha acontecido. Mas para seu desespero, não só Takashi, mas também Chika, Akari, Haruki e todos os outros estavam na mesma situação. 

    O que tá rolando?

    Mas em um momento ele viu uma luz de esperança, o contato de Hana não estava como os outros, então ele poderia mandar uma mensagem livremente. 

    Porém, uma corrente não o deixava digitar. E Jade conseguia ver a preocupação em seu rosto. Ele dizia que não era nada, no entanto. Então ela desistiu de insistir e fixou seus olhos na paisagem que nunca havia visto antes.  

    Depois de algum tempo, eles chegaram na estação perto de onde Mayck morava, então desembarcaram. 

    “Bom, nós vamos ter que andar mais uns quinze minutos. Consegue aguentar até lá?”

    “Eu não estou tão cansada assim. É claro que consigo.”

    Durante todo o caminho, Jade não pode deixar de admirar os arredores. Era totalmente diferente de tudo o que ela conhecia e um lugar assim só tinha sido visto por meio de fotos. Era uma atmosfera diferente. 

    Ainda eram cerca de 10h da manhã, e como estavam, ainda, nas férias de verão, não havia alunos nas ruas, o que deixava os arredores bem silenciosos e confortáveis. 

    Após o tempo dito, eles chegaram em casa. 

    Primeiro, Mayck verificou que o portão estava devidamente trancado, o que deixava claro que seu pai havia ido trabalhar. Isso, por si só, não era um problema, mas a impossibilidade de enviar mensagens para o seu pai ainda o perturbava. 

    Parece que não vai ter jeito. Eu preciso descobrir o que está acontecendo. 

    Mayco se virou para Jade, que ainda estava com os olhos brilhando com a paisagem. 

    “Ei, Jade, parece que meu pai não tá em casa. A gente vai precisar esperar ele voltar.”

    “Ah, é mesmo? Tudo bem, então.”

    “Hmm… mas esperar aqui fora é um problema. Ele só volta no fim da noite.”

    Ao apontar isso, a expressão feliz de Jade travou e Mayck pode ouvir os pensamentos de amargura dela. 

    “Mas… lembra da Hana? Aquela garota que brincava com a gente de vez em quando?”

    “Hana…? Ah, lembro sim. A garota dos olhos vermelhos?”

    “Ela mesmo. Se dermos sorte, ela já vai estar em casa, então nós podemos ficar lá por um tempo.”

    “Podemos mesmo fazer isso? Quer dizer, eu sou praticamente uma estranha…”

    “Não se preocupe com isso.”

    Maick pegou seu celular e abriu o aplicativo de bate-papo e entrou na conversa de Hana. Eles não se falavam há um bom tempo. Mas, por sorte, ela estava on-line. 

    Então o garoto não perdeu tempo. 

    Enviada a mensagem, ela respondeu que havia voltado cerca de dois dias atrás, então ele poderia ir até lá. 

    E assim o fez. 

    Chegando na casa da garota, ela os recebeu tranquilamente e as apresentações foram feitas. Mas a situação ficou um pouco complicada, já que nenhuma das duas garotas entendiam o que a outra estava falando. 

    Mayck explicou a situação, dizendo apenas que seu pai não estava em casa. 

    “Bom, vocês podem ficar aqui até que ele chegue…”

    “Valeu. Você me salvou. Mas eu vou, ao menos tentar encontrá-lo no trabalho. Talvez eu consiga pegar a chave…”

    “Não se preocupe com isso. Vocês podem ficar aqui até ele voltar”, Hana afirmou firmemente. 

    Ela não queria apoiar a ideia de um garoto e uma garota sozinhos em casa. 

    “Ora, Mayck-kun, seja bem vindo”, Tsukiko, entrando na sala cumprimentou. “Hum? Espera, essa não é a Jade? Olá, há quanto tempo. Como você está?”

    Ela mudou o idioma para cumprimentar a garota, que, um pouco nervosa, respondeu timidamente. 

    Hana apenas observou, já que não entendia o que elas falavam. 

    Logo em seguida, veio Masato e os cumprimentou também. Eles se juntaram na sala e começaram a conversar botando o papo em dia. 

    Quando questionado sobre Takashi, Masato falou que ele provavelmente estaria no trabalho, mas não tinha certeza. Isso porque ele ficaria com uma semana de folga e só voltaria a trabalhar no fim das férias de verão.

    Mayck pensou seriamente em ir até a delegacia, procurar seu pai. Não apenas para pegar a chave, mas também por ter um mal pressentimento e se deixasse de lado, a ansiedade voltaria pra lhe assombrar. 

    Se despedindo da família Tsubaki, o garoto deixou Jade para trás e seguiu para a delegacia. No caminho ele conteve seu nervosismo ao máximo, apenas para travar na porta da delegacia. 

    Eu não posso ficar parado. Nada vai se resolver assim. 

    Ele respirou fundo e entrou. 

    Como sempre, a delegacia estava agitada. Telefones tocando, informações proibidas para pessoas não relacionadas sendo trocadas. 

    Em meio àquela correria, Mayck encontrou um colega de Takashi, com quem já havia conversado antes e decidiu perguntar sobre seu pai. 

    Porém, para sua infelicidade, Wataru, o tal conhecido, afirmou que seu pai havia saído para uma investigação. 

    Pelo que Mayck ouviu de Wataru, alguns incidentes estranhos ocorreram no meio das férias, então seu pai ficou responsável por eles. 

    Não havia outra escolha além de ir embora, então Mayck se despediu do policial. 

    Uma investigação? Será que tem alguma relação com a atividade da Ascension que Haruki me falou outro dia?

    Juntando incidentes estranhos com movimentos suspeitos de organização criminosa, era possível relacioná-las muito bem. E seria estranho de verdade se fossem duas coisas distintas. 

    Com sua mente ainda trabalhando, Mayck sabia que precisava se acalmar e pensar com mais cuidado, sem se forçar muito. 

    Ele parou perto de uma máquina de bebidas e comprou um refrigerante de laranja, após inserir uma moeda. 

    Por enquanto, é melhor dar uma volta pra ver se acho alguma coisa. 

    Assim ele fez. Saiu de onde estava, do centro da cidade e deu uma volta pelos bairros nos arredores, mas não encontrou nada. 

    Quando estava prestes a se dar por vencido, ele viu uma figura ao longe que reconheceu instantaneamente: Takashi. 

    Em seu uniforme policial, ele estava parado ao lado da viatura, enquanto seu companheiro conversava com um civil. 

    O coração do Mayck disparou e ele deu um passo atrás. Sua respiração ficou pesada e sua mão no peito tentou aliviar uma dor aguda. 

    O que eu vou fazer…? Eu tô com medo. 

    Ele tinha medo de ir falar com seu pai e não ser reconhecido. 

    Lentamente, ele deu o primeiro passo e criou forças para continuar. Aos poucos ele se aproximou. 

    “Hm? Já voltou?” Takashi falou com um sorriso. 

    Mas não era com Mayck que ele estava falando. 

    “Ah, sim. A gente vai ter que continuar procurando. Ele não sabia de nada. Disse que não esteve em casa a noite toda.”

    “Sério? Francamente… não tem o que fazer. Makabe, vamos indo.”

    “Okay”, seu parceiro respondeu. “Muito bem, senhora. Muito obrigado.”

    A senhora inclinou a cabeça e se despediu. 

    Mayck apenas observou os três entrarem na viatura. 

    Mas antes de entrar, Takashi notou a presença dele e chamou sua atenção. 

    “O que houve, garoto? Precisa de ajuda?”

    Mayck hesitou por um momento, mas pôs as mãos no bolso de sua blusa e deu um leve sorriso. 

    “Não. Não é nada.”

    Dando as costas ele se afastou da viatura, que partiu em seguida. 

    De volta para a casa de Hana, ele disfarçou ao máximo sua angústia e desespero. Ele não queria que ninguém percebesse que não estava bem, por isso se escondeu na sombra de Jade, já que ela estava sendo a novidade do dia, e a atenção de todos estavam presos a ela. 

    Conforme as horas iam se passando, Mayck ficava mais atordoado, tendo que pensar em como voltaria para casa. Não podiam passar a noite lá e só jantar era um grande abuso. 

    Parece que eu não vou conseguir manter a farsa por muito tempo. 

    Uma solução que ele pensou, era invadir sua casa pela janela do seu quarto. Como ele já conhecia sua residência com a palma da mão, poderia abrir a janela por fora com tranquilidade. Sem contar que poderia usar seus poderes também. 

    O maior problema disso seria ter Takashi de volta ao lar enquanto eles estivessem ali. 

    Posso até acabar sendo preso por invasão à domicílio. Que palhaçada. 

    Além de tudo isso, Mayck e Jade ainda estavam carregando malas pesadas. Precisavam guardá-las urgentemente. 

    Parece que não tenho escolha. 

    Se essa fosse a única saída, então Mayck precisava garantir que seu pai não voltasse para casa naquela noite. 

    Por volta das 15h, Mayck e Jade se despediram de Hana e seguiram para casa. 

    Mesmo questionado sobre como entraria em casa — já que ele disse que não havia conseguido a chave — Mayck afirmou que se lembrou de uma chave reserva que ficava na caixa de correio. 

    Então, os dois retornaram. Ao invés de se dirigir para a caixa de correio, Mayck colocou as bagagens na calçada e subiu em cima do muro, deixando Jade extremamente confusa. 

    “Ei, você não falou que tinha uma chave na caixa de correio?”

    “Foi mal, eu menti. Na verdade, a chave reserva é a minha chave e eu deixei ela no chaveiro da sala.”

    “E como você vai entrar…? Não me diga que vai derrubar a porta.”

    “Claro que não. Tem um jeito mais pacífico de entrar.”

    Mayck caminhou pelo muro e deu a volta na casa. Nesse caminho ele chegou até a garagem e subiu no telhado com um salto. Em seguida, só restou dar a volta e se pendurar na janela. 

    Pronto…

    Mayck colocou as mãos no vidro da janela e as moveu de forma que seria vista como aleatória por terceiros, mas para ele aquilo era um tipo de padrão. Com isso, a fechadura caiu e a janela foi aberta. 

    “Ei acho que preciso reforçar um pouco minha segurança…”

    Enquanto Jade o observava sem reação, Mayck entrou pela janela e saiu por seu quarto, indo até a sala e pegando a chave. 

    Ele… fez isso mesmo? Jade pensou, e seguiu na direção de Mayck, que abriu a porta. 

    A primeira coisa que fizeram ao entrar, foi guardar as malas no quarto do garoto. 

    Mayck calculou o tempo e se deu conta de que os preparativos para o casamento de Takashi e Suzune iriam começar em breve. Porém, naquela situação, ele era um total estranho para a própria família. 

    Se não desse um jeito de fazer as coisas voltarem ao normal, iria perder a oportunidade de estar presente no momento mais feliz da vida de seu pai. 

    Contudo, era mais do que óbvio que aquele fenômeno fora causado por uma ID, então tudo se resumiria em descobrir quem era o portador por trás daquilo. O que fazer depois, Mayck iria decidir na hora. 

    Estando no quarto, Mayck ligou seu computador que estava até com um pouco de poeira acumulada, e abriu o e-mail privado de Nikkie. 

    Se ela não tiver sido afetada, fica mais fácil descobrir o que está acontecendo

    Apesar de sua decisão racional, Mayck ainda estava com as mãos trêmulas e um nervosismo contínuo. 

    Imaginar que a pessoa que passou a vida toda a seu lado não fazia a menor ideia de quem ele era, deixava-o apreensivo demais. Em breve, a calma de Mayck iria pelo ralo e o desespero tomaria conta dele. 

    Mayck enviou o e-mail e só restava esperar a resposta, que veio cerca de dez minutos depois, deixando o garoto surpreso. 

    Me encontre às 18h na estação de trem. 

    Poucas palavras, mas que diziam tudo o que Mayck queria saber. 

    <—Da·Si—>

    Ao fim da tarde, por volta de 17h50, Mayck instruiu Jade a ficar em seu quarto e lhe deu permissão para acessar a cozinha e qualquer parte da casa que fosse necessário. 

    Seguiu para a estação e esperou por Nikkie. Ao vê-la chegando, ele mal pôde conter sua felicidade em saber que alguém ainda se lembrava dele, não que tivesse confirmado com os outros. 

    “Há quanto tempo, senhor M.”

    “Me chame pelo nome em público, por favor. Mas nem faz tanto tempo.”

    “Tem razão. Mas foi uma boa hora. Eu estava prestes a entrar em contato com você.”

    “É? Eu soube que algumas coisas estranhas andaram acontecendo…”

    “Sua rede de informações é impressionante. Talvez nem precise mais de nós.”

    “Hum… eu só consegui por acaso.”

    “De qualquer forma, vamos dar uma volta e falarmos sobre isso no caminho.”

    “Tudo bem.”

    Eles deixaram a estação e seguiram em direção ao centro comercial. 

    “Vou começar com uma pequena história, ok?”

    “Desde que eu consiga entender tudo…”

    “Então vamos voltar para alguns anos atrás. Essa história em ouvi de Zero, de quando a Black Room era recém fundada .”

    “Hmm…” 

    Mayck respirou fundo, se preparando para a longa história que estava por vir. 

    Nikkie, então, começou, sem muitos rodeios. 

    “Depois de uma pequena briga de ideais na Strike Down, Akihiro largou a organização, juntamente com Zero, e fundou o seu próprio grupo intitulado Black Room. A ideia era de proteger o Japão dos portadores, mas também proteger os portadores de certos atos do governo.”

    Atos do governo…?

    Não era preciso pensar tanto para chegar em uma conclusão. Seres humanos era criaturas curiosos e um mistério era sempre bem vindo. O que poderia acontecer se um poder misterioso surgisse nas pessoas? A curiosidade abriria caminhos para experimentos desumanos e exploração. 

    “Resumindo, a Black Room combatia esses atos do governo e teve sucesso ao longo do caminho. Como você deve saber, o grupo Sol da meia noite era um dos que conseguiram se manter firme. Até você chegar claro.”

    “Eu me pergunto se fiz um bom trabalho…”

    “Enfim, assim como o Sol da meia noite, ainda alguns institutos conseguiram escapar e parece que eles voltaram com tudo agora.”

    “Vocês tem uma ideia de como derrubá-los?”

    “Ainda não. Tudo o que sabemos é fruto de investigação policial. No meio de julho, corpos de crianças e adolescentes foram encontradas nas áreas mais remotas do Japão.”

    “Então é isso… espera, investigação policial?”

    “Sim. Nós temos alguns contatos por lá, então conseguimos essas informações.”

    “Ah…” 

    Mayck ponderou por um momento. Aquilo poderia ter relação com o que aconteceu com seu pai. Mas e quanto aos outros? Eles não tinham nada a ver com a polícia e mesmo assim…

    Não. Calma. Eu preciso ter certeza primeiro. 

    “Eu acho que já sei onde isso vai parar. Você quer que eu me junte as investigações, né?”

    “Ora, como descobriu?”

    Nikkie se fez de desentendida. 

    “Por enquanto, tudo o que temos é algumas pistas clichês como sempre: detecção de energia perdida e algumas localizações. Queríamos resolver isso logo, mas não podemos mobilizar muitas equipes.”

    “Vocês já decidiram quem vai?”

    “Bom, além de você…”

    É sério?

    “A equipe Alfa também vai estar colaborando. A equipe Delta também, que você já está familiarizado. Mas todos vão trabalhar separados.”

    “Por que isso?”

    “Apenas duas equipes já são muita gente. Só colocamos você porque isso aparentemente te interessa.”

    “Hm?”

    “Sabe, Ruby e Stella não fazem ideia de quem seja você.”

    “Ah, elas também… com eu imaginei. Parece que vou ter que me apresentar de novo.”

    “Você já sabia?”

    “É por esse motivo que eu te chamei. Eu preciso que você faça algo por mim.”

    Enquanto caminhavam e conversavam, eles chegaram até o centro comercial, onde várias pessoas ainda transitavam. 

    “E o que é?”

    “Vai ser meio abstrato, mas eu quero que você mantenha meu pai ocupado por essa noite, não importa como.”

    “Mas por que isso?”

    “Ruby e Stella não foram as únicas a me esquecer. Meu pai também e, com certeza, meus colegas da escola.”

    “Mas como… Hana Tsubaki também?”

    “Por incrível que pareça, não. Nem ela nem a família dela.”

    “… Pessoas específicas esqueceram de você, menos a família Tsubaki…”

    “Eu acho que é porque eles não estavam aqui nas férias. Então algo aconteceu no decorrer do mês.”

    “Alguém está tentando te derrubar. Um portador. Você tem ideia de quem seja?”

    “Não, não tenho. Mas eu preciso encontrar essa pessoa imediatamente.” Mayci não se deu conta, mas acabou elevando sua voz e mostrando que estava desesperado. 

    “Isso não é do seu feitio. Entendo porque está tão desesperado, mas precisa se acalmar. Você sabe muito bem que agir apenas por sentimentos não leva a nada.”

    “Sim, eu sei.”

    “Eu vou ver o que posso fazer. Não hesite em me procurar se algo mais problemático acontecer. Talvez isso tenha alguma relação com os institutos, mas não tenho certeza. É óbvio que tem alguém tentando te sabotar.”

    “Será que é alguém da Ascension? Eu ouvi que eles fizeram movimentos suspeitos…”

    “A mera presença deles é suspeita. Mas, realmente, pode ser que haja alguma ligação. Certo, vamos fazer isso. Eu vou tentar descobrir quem é essa pessoa e você investiga os institutos, tudo bem?”

    “Se não for pedir demais. Obrigado, Nikkie, e, por favor, tente deixar meu pai ocupado ao menos essa noite.”

    Nikkie assentiu. 

    Os dois continuaram caminhando e depois aproveitaram para jantar em um restaurante que estava por perto. Após isso, Mayck retornou para casa e começou a analisar as informações que Nikkie enviou por e-mail. 

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