Capítulo 63 - Possibilidades amargas
Aquelas lembranças ainda pairavam frescas em sua mente — de quando Keiko declarou sua vingança contra Mayck.
Saori se perguntava se estava mesmo tudo bem. Ela conhecia Keiko melhor que qualquer um e sabia que ela estava escondendo alguma coisa.
Mas por elas terem crescido juntas, e com diferentes personalidades, além de diversas motivações, Keiko era aclamada como a irmã mais velha. Uma espécie de hereditariedade se formou no meio delas de forma inconsciente. Por isso, as mais novas nunca tentariam contradizer a mais velha.
Em contraste, a mais velha faria de tudo pelas mais novas, mesmo que isso fosse custar a sua vida, e Saori, sendo a terceira na tal hereditariedade, não podia fazer muita coisa.
Ela tinha plena ciência de que Keiko estava se sacrificando por elas, por mais que não tenha ouvido diretamente dela algo que comprovasse isso.
Sempre foi assim… mesmo quando Kin escapou.
Sua tarefa de ranque C estava finalizada no momento em que ela recebeu o e-mail de confirmação em seu celular.
Talvez eu devesse mesmo ter apagado Kin da memória delas… assim eu poderia ter feito alguma coisa útil.
O olhar solitário de Saori encarou o teto, como se ela estivesse arrependida de tudo o que fez…
…mas eu não fiz nada.
Ver a situação em que elas chegaram era deprimente. Parte dela acreditava no que Yang contou, sobre como Mayck tirou a vida de umas das suas melhores amigas. Mas ter conversado com ele por algum tempo, mesmo que só um pouco, fez com ela pensasse que talvez ele não fosse uma pessoa ruim como soube.
Ela começou a duvidar do que ouviu de um homem importante de uma organização assassina, essa era a realidade. Todas elas sabiam muito bem, mas estavam cegas pelo desejo de vingança, além de estarem em débito com tal homem.
Quando Saori tentou conversar com as quatro sobre tal possibilidade, antes de apagar as memórias do círculo social de Mayck, Keiko falou algo que ela nunca pensou que a ouviria dizer.
“Você está tentando trair Kin?”
Saori se calou imediatamente diante dos olhares reprovadores de suas amigas. Talvez ela fosse a única a se preocupar se estava fazendo a coisa certa ou não.
É difícil convencê-las sozinha. Elas nunca vão querer me ouvir quando estou indo contra a Keiko.
Como dito antes, Keiko era aquela que estava no topo da hierarquia do grupo, então as outras abaixo eram extremamente leais, mas, falando assim, nem parecia ser apenas um grupo de amigas tão unidas quanto ligações de diamante.
E isso porque ocorreu um gradual deterioramento na relação delas ao longo do tempo, e, a partir desse ponto, tornou-se mais realista descrevê-las como um pequeno grupo de indivíduos estruturados com um objetivo comum.
Elas já não compartilhavam mais seus segredos e sentimentos como antes. Tudo ficou mais frio. E Saori parecia ser a única a perceber essa constante degradação.
Tão perto, mas tão longe…
O que eu posso fazer…?
Ela estava descansando em seu quarto em um dormitório cedido pela Ascension, que vivia mudando sua base de lugar para não serem descobertos por nenhuma das outras organizações.
Ao navegar sem rumo em seu smartphone, encontrou o número de Mayck — eles haviam trocado há algum tempo. Uma ideia surgiu em sua cabeça, embora ela hesitasse em sequer cogitar aquilo.
Eu preciso tirar essa história a limpo… eu quero saber a verdade.
Mas era mais fácil falar do que fazer. Ela não sabia como suas amigas, ou talvez colegas de trabalho, iriam reagir e tinha medo de perder tudo de uma vez.
Eu não quero perder mais ninguém. Quero que nós voltemos a ser como antes.
Aquela amizade pura e verdadeira, mesmo em um mundo tão caótico.
Ela mordeu seu lábio inferior por causa da indecisão e de sua própria fraqueza. Desligou o celular e cobriu o rosto com o braço, deixou sua respiração mais lenta, a fim de relaxar um pouco.
No fundo ela sabia que a única coisa que ela podia fazer já estava claro como o dia.
Saori decidiu ir em frente. Ela não iria mais aceitar ser salva por ninguém, não antes dela salvar suas amigas, que eram o seu bem mais precioso.
Descobrindo a verdade, seria mais fácil decidir o que fazer a seguir. Se Mayck realmente tivesse matado Kin, então ela iria em frente com o objetivo inicial. No entanto, se fosse mentira…, ela ficaria contra suas amigas, porque seria difícil convencê-las de que estavam seguindo um rastro inútil.
Era pelo bem da amizade delas.
“Eu vou fazer isso.” Saori se sentou na cama, como se fosse para garantir a sua decisão. Ela estava de pijama, já que havia se deitado para dormir, só que com tudo o que estava rolando não dava para dormir em paz.
No celular, Saori abriu o bate-papo de Mayck, onde não havia nenhuma mensagem, já que eles nunca haviam trocado mensagens ou ligações apesar de terem o contato um do outro, isso, porém, mudaria nesse instante.
A garota digitou a mensagem, mas acabou hesitando na hora de enviar, seu polegar parou a poucos centímetros do botão.
Ela estava com medo do resultado que teria. Seria bom ou ruim? Era a coisa certa ou não?
Só havia um jeito de descobrir. Ela respirou fundo e enviou a mensagem. O silêncio até aquele momento tornou-se sufocante, como se algo tivesse mudado. A ansiedade tentou se apossar dela, como a escuridão que ficou após ela fechar os olhos.
Seu coração disparou quando os ícones que marcaram a mensagem como lida apareceram.
Agora não dá mais pra voltar.
Ela pediu para se encontrar com o garoto e ele respondeu com um simples “okay”, como se nada houvesse acontecido entre eles.
O que foi feito estava feito. Ela teria de ir em frente com isso até o final, independente do que Mayck a dissesse.
Saori estava preparada para rejeitar Mayck ou a decisão de suas preciosas amigas.
Pôs o celular em cima do criado-mudo ao lado da cama e se ajeitou, cobrindo-se com seu lençol em seguida. Ela ficou inquieta e se virou para todos os lados, mas acabou adormecendo depois de remoer sua situação por um bom tempo.
Pelo menos ela não acordou Midori, sua colega de quarto, que dormia tranquilamente na cama acima dela.
Ao acordar no dia seguinte por causa do despertador incessante, ela se aprontou e foi para a escola, ainda muito sonolenta. O que era normal quando se ia dormir depois das duas da manhã.
Ela encarou as aulas com menos fluidez do que normalmente. Seus sorrisos, no entanto, ainda eram forçados e suas interações com Keiko e as demais foram evitadas quando possível.
Ao toque do sinal, ela saiu da escola rapidamente, sem ao menos se despedir de suas colegas, que criaram um burburinho sobre como ela estava avoada o dia inteiro.
Mas não era algo com o qual Saori precisasse se preocupar. E quanto a Keiko e as outras, elas pensariam que ela precisava concluir alguma tarefa. Então, a necessidade de explicações era zero.
Ela correu até a estação e encontrou Mayck à sua espera. Ela hesitou ao vê-lo de longe e não conseguiu dar mais nenhum passo. Uma voz em sua cabeça ressoou, pedindo-lhe para dar um passo para trás e fugir.
A ansiedade da madrugada voltou mais forte e ela sentia medo do que poderia ouvir.
No entanto, o garoto a viu e acenou para ela, acabando com sua chance de fugir.
“Fiquei surpreso quando me chamou tão de repente”, Mayck falou de forma calma quando ela finalmente se aproximou.
Realmente não parecia que eles estavam em uma disputa valendo a vida do garoto.
“Eu também não queria ter que recorrer a isso…” Ela evitou contato visual por não conseguir olhá-lo nos olhos e ficou observando as pessoas que passavam por eles. “Vamos ir direito ao ponto…”
“Tem certeza? Bem aqui?”
Mayck já sabia sobre o que era, então concluiu que não era uma boa ideia conversar naquele lugar cheio de civis, onde não dava para saber quem poderia estar ouvindo.
“Eu tenho algo a fazer. Me acompanhe. Podemos conversar depois disso.”
“Algo a fazer? É uma tarefa?”
O garoto assentiu e se virou, indo para o local de embarque após pagar sua passagem com um cartão recarregável. Saori o seguiu. Eles esperaram o trem, e quando embarcaram, seguiram viagem em silêncio.
Desceram na estação mais próxima e foram caminhando para um lugar que Saori não fazia ideia de onde seria. Ela apenas seguiu o garoto em silêncio, pensando no que ele faria.
Após longos minutos de caminhada, em uma área residencial, o garoto parou em frente a uma casa simples, porém bonita, com janelas na varanda viradas para a rua, cujas outras residências também eram bonitas à sua própria maneira.
Era um local calmo e o silêncio fazia parecer que ninguém habitava ali.
Saori se perguntava o que fariam ali e observou os movimentos de Mayck.
Ele andou até a casa com uma placa escrito Yamada e tirou um envelope branco de sua bolsa. A mancha vermelha no meio indicava que havia um selo de cera ali, mas que foi retirado em algum momento. Apenas um pequeno adesivo circular preto mantinha o envelope fechado.
Mayck o colocou na caixa de correios e tocou a campainha, se afastando da casa imediatamente e puxando a garota pelo braço.
“Ei, o que você tá fazendo?” Ela se assustou com a ação dele, mas ele permaneceu quieto e a levou até a esquina mais adiante da rua.
Ao chegarem até um certo edifício, o mais alto naquela rua, ele disse:
“Vamos subir.”
“O quê? Mas como?”
Sem mais palavras, ele a segurou pela cintura e jogou uma espécie de dardo para o topo do edifício e depois de verificar se ele estava bem preso, o puxou com força, fazendo a fina linha escura levá-los para cima do local.
Saori se surpreendeu. De início ela acabou deixando um grito escapar, mas quando pôs os pés sobre o telhado, se acalmou, mas sua respiração ainda estava rápida.
“Pra que isso, hein?” Aparentemente, o susto que ela levou foi só porque não esperava ser jogada para cima, e ter Mayck agarrando-a pela cintura quase deu um curto em sua mente.
“Desculpa se te assustei.” A voz do garoto era séria e carregava certa frieza consigo. Saori engoliu a seco, pois Mayck continuou a falar. “Eu só queria te mostrar que uma das piores coisas do mundo, é ser um portador de más notícias.”
Ele se pôs a caminhar sobre o telhado e saltou para o próximo, refazendo o caminho anterior, porém, por cima das casas. Saori foi após ele.
Ambos chegaram até a casa vizinha a que Mayck entregou o envelope e viram uma senhora de idade no quintal com ele em mãos.
Quem é aquela? Saori pensou que era alguém que Mayck conhecia, mas não parecia ser o caso. Ela continuou observando, seguindo o exemplo do garoto.
A senhora, então curiosa, retirou o adesivo do envelope e de dentro dele retirou uma folha de papel retangular que fora dobrada três vezes. Ela a desdobrou e começou a ler. Segundos depois, a senhora caiu de joelhos no chão. Uma expressão de choque e descrença em seu rosto e que, logo depois, tornou-se uma face de pura dor e sofrimento.
Lágrimas escorreram de seus olhos e ela começou a soluçar.
Um calafrio percorreu o corpo de Saori. A curiosidade sobre o conteúdo da carta se aguçou. Seus olhos foram direcionados para Mayck, o qual se mantinha com a mesma expressão de seriedade, mas só ele podia dizer como estava se sentindo.
“O que foi aquilo…?” Um pouco hesitante, ela perguntou, mas não obteve resposta. Seus olhos se voltaram para a casa e ela viu um senhor também de idade sair pela porta.
Era o marido daquela senhora. Ele correu até ela, preocupado por vê-la tão desolada daquele jeito. Ele a abraçou com gentileza, deixando as lágrimas dela caírem em seu peito.
Mais alguns segundos se passaram e o senhor leu a carta. Ele também chorou.
Tal cena comoveu Saori. Ela também sentia as lágrimas forçarem a saída, mesmo sem saber o que estava havendo ali.
“Uma carta de suicídio”, Mayck afirmou de repente, atraindo a atenção da garota.
“Suicídio?”
“Uhum. Minha tarefa era entregá-la aos pais da pessoa. Ele se chamava Yamada Ren. Pra resumir, depois que ele terminou a escola, ele brigou com os pais e saiu de casa.”
Mayck começou a falar sobre o que leu na carta.
“Por anos, ele mentiu sobre como estava vivendo. Dizia aos pais que conseguiu um emprego e estava se dando bem, mas, na realidade, ele se envolveu com coisas ilegais e acabou que ele foi morto por estar devendo milhões de ienes.”
“Entendi…” Saori abaixou sua cabeça, sentindo uma dor em seu peito, se compadecendo pela dor daquele casal de idosos. Ela fechou os olhos e respirou lentamente. “E porque você quis me mostrar isso? Tem algum motivo em especial?”
“Na verdade não. Só coincidiu de eu me encontrar com você antes de vir pra cá. Mas se isso te serviu de lição para algo, está perfeito.”
Mayck deu as costas e saltou do telhado. Saori observou mais um pouco o casal de idosos que lamentavam a morte de seu único filho.
A pior coisa é ser um portador de más notícias…
As palavras de Mayck ressoavam em sua mente. De fato, era algo a ser pensado e isso acabou servindo como um empurrãozinho para que a garota tivesse mais fé nele.
Será que ele realmente não é uma pessoa ruim?
Seus olhos foram direcionados para o pôr do sol, que era ainda mais deslumbrante visto ali de cima. Uma leve brisa passou por seus cabelos, como se estivesse chamando-a para a realidade.
Ela desceu do telhado com um salto e foi atrás de Mayck, que seguia de volta para a estação.
Ela o parou. Não podia esperar mais. A ansiedade estava quase se materializando. Depois de agarrar o pulso dele, ela moveu os lábios, embora hesitante.
“Espera… Agora você precisa me contar a verdade.”
Mayck interrompeu seus passos.
“A verdade? Então você realmente duvida deles, não é?”
“…” Saori virou o rosto, vendo que não tinha como negar.
“Muito bem. Eu vou contar sem esconder nada. Acreditar em mim ou não é decisão sua.”
“Entendo…”
Eles não podiam conversar no meio da rua sobre um assunto daqueles, então caminharam até uma praça mais adiante. Eles se acomodaram nos bancos, um pouco afastados um do outro.
Então, Mayck começou a contar sua história. A história de como conheceu Kin, como a ajudou e como passou o tempo com ela. E também contou sobre o fim que ela teve naquela época.
<—Da·Si—>
Não era que ele quisesse enganar Mayck, mas era a forma mais fácil de ajudá-lo… e também uma forma de se redimir, mas se redimir pelo quê?
Haruki jogou-se em sua cama após mais um dia exaustivo de atividades do clube. Ele não queria fazer mais nada. Ficar deitado jogando e comendo seus lanches parecia uma boa ideia.
Mas eu preciso trabalhar… Sua expressão tornou-se amarga.
Ele tinha dois motivos para trabalhar para a GSN. Apenas dois depois que seu plano de vingança foi frustrado. O primeiro era para conseguir dinheiro, o segundo para se redimir, como dito antes, pelas vidas que tirou por egoísmo.
“Parece que eles estão indo bem.” Ele verificou o relatório de seus colegas no smartphone que diziam quem realizou suas tarefas.
Não era errado dizer que ele estava agindo pelos próprios interesses. Certamente Mayck não se importaria com isso, então ele poderia continuar sem remorso.
Haruki não sabia que tipo de passado Mayck teve ou o que estava acontecendo, mas ele estava disposto a ajudar do seu jeito. Além do mais, existiam algumas coisas que ele queria que Mayck e Hana soubessem, mas ele não podia dizer diretamente.
Os desafios nada mais eram do que missões da GSN que eles estavam repassando para os participantes. E a cada desafio realizado, Haruki ganhava a recompensa em dinheiro oferecida pela organização.
Assim ele sairia ganhando, mas ninguém perderia nada. Afinal de contas, ele precisava pagar a estadia de sua mãe no hospital e os remédios, que não eram nada baratos.
Ele se perguntava quando poderia deixar aquele mundo e viver uma vida normal. Já pensou várias vezes em se aposentar da organização e ir embora com sua mãe para o interior…, mas quando ele se pegou pensando nisso achou que tinha envelhecido e ria sem parar, descartando-o sem pensar duas vezes.
“Bom, vejamos… parece que a Keiko é mais forte do que aparenta. Ela conseguiu matar o cara sem nenhum problema. Até Kai teve dificuldades quando lutou contra ele.”
Como esperado de um dos subordinados diretos de Yang.
Os primeiros dois desafios eram como um teste. Haruki queria ver do que cada um dos participantes era capaz e iria atribuir as missões que pensaria ser difícil ou adequada para eles.
Mayck… provavelmente fez o que deveria. Tsubaki-san também. Bom, parece que todo mundo passou pelos dois primeiros sem problemas. Mas as coisas vão ficar mais difíceis a partir de agora.
Se ele se sentia mal por estar jogando seu trabalho para os outros era um mistério. Se bem que ninguém iria reclamar e nem tinham o direito, já que ele estava participando daquilo sem pedir muita coisa em troca. Nada mais justo do que ele ter alguma coisa como recompensa.
“Certo…” Ele se levantou e foi direto para o banheiro. Após um banho relaxante de meia hora, ele vestiu seu uniforme e foi até o sótão da casa financiada e pertencente à GSN, que anteriormente pertenceu à família Yukimura.
Lá, ele encontrou o dispositivo de teletransporte e o ativou. Uma luz vermelha preencheu o cômodo e imediatamente desapareceu, depois disso tudo ficou em silêncio. A alma viva que estava ali, também sumiu.
<—Da·Si—>
Hana virou sua garrafa de água na boca, enquanto ainda analisava o novo e-mail no celular. Com a toalha envolta de seu pescoço, ela secou o suor que descia por sua face.
Estação de Shibuya, né?
Era ali onde ela encontraria sua próxima tarefa.
“Hana-chan, vamos começar outra sessão.” A voz de Airi a alcançou do outro lado do ginásio.
“Estou indo.” A garota desligou o celular e se levantou, reajustando o rabo de cavalo em seu cabelo.
Ela estava em horário de treino. Não bastava o treinamento do clube de tênis, ela ainda precisava melhorar suas habilidades de combate com ou sem ID, além de se preparar mentalmente.
Todos os treinos físicos eram realizados naquele grande ginásio, onde novatos e veteranos se reuniam para compartilhar suas experiências e melhorar suas habilidades, com a ajuda de instrutores qualificados.
Era um local enorme com diversos equipamentos de tecnologia de ponta voltados para treino físico. Do outro lado do ginásio, havia um estande tiro muito bem organizado e que lembrava muito as tecnologias futuristas de filmes de ficção. Dava para saber apenas por olhar que muito dinheiro fora investido naquele local.
A Strike Down queria que seus agentes fossem os melhores em tudo, sendo treinados e disciplinados com o melhor possível.
Hana já era uma agente muito bem qualificada, embora só tenha entrado em um time depois de cinco anos. Fazer parte de um time era tudo o que os novatos almejavam; era o momento em que poderiam brilhar em trabalhos de campo e enfrentar missões mais relevantes — não que as outras não fossem.
Agentes formados na Academia de Desenvolvimento só precisavam realizar alguns testes e melhorar por mais três anos, depois disso eles conseguiriam sua qualificação para entrar em um time.
Hana, porém, foi diferente. Ela não foi formada na academia, o que fez dela um dos “Forasteiros”, como eram chamados os portadores da organização que foram recrutados de fora. No entanto, ela foi lecionada diretamente por Amélie, uma das presidentes da organização e representante francesa no polo japonês, que a viu crescer de perto.
Isso porque Amélie viu algo em Hana que a fez se identificar com a garota. Mas essa história é pra outro dia.
Em uma roupa de treino simples à vista, mas que foi criada com tecnologia avançada, Hana e Airi se envolveram em um treino de combate corpo a corpo. Airi elogiou a garota por ter melhorado, mas ainda não foi o suficiente para derrotá-la.
“Eu fui a primeira da minha classe, afinal”, ela comentou, seu ego inflado era quase visível. Mas não era como se ela estivesse mentindo ou se superestimando.
“Você… é realmente muito boa. Mas algum dia eu te passo.”
Um ar competitivo se instaurou entre elas.
Até que uma garota loira usando roupas do mesmo tipo, pretas e com alguns traços cinza, se aproximou delas com um sorriso.
“Você é impressionante, senpai. Conseguiu acompanhar os movimentos de Airi-senpai tão facilmente.”
“Mei-chan. Ah, não é nada. Eu ainda tenho muito o que aprender.” Hana sorriu.
“Ah… que legal. Eu não vejo a hora de entrar para um time também.” A garota juntou as mãos e inclinou sua cabeça, fazendo suas maria-chiquinhas balançarem.
“Então, treine bastante. Quem sabe você chega no nível de Yui algum dia.” Airi riu levemente.
“O que tem eu?!”
Ao ouvir seu nome, a garota com menos de 1 metro e 60 não deixaria impune, então ela disparou como uma bala e saltou nas costas de Airi, querendo sufocá-la.
“Ei, sua bobona, me larga.” A mulher lutou contra ela, tentando arrancá-la de suas costas.
Todos os que estavam próximos observaram aquele desenrolar, que não tinha nada de anormal, então logo perderam o interesse e voltaram a seus afazeres.
“Ah, falando nisso, senpai, você pode me ajudar a atirar? Eu não consigo controlar o recuo muito bem…” Mei pôs a mão atrás da nuca e deu um leve riso.
“Tudo bem. Podemos fazer isso amanhã? Eu tenho que ir agora.”
“Certo. Estarei te esperando.”
Hana acenou para Mei e suas outras colegas e deixou o ginásio em seguida, indo para o vestiário, onde se trocou. Depois voltou para casa, encerrando o seu dia.
Domingo. Hana acordou cedo como sempre. Ela se levantou da cama e foi até o banheiro depois de cumprimentar seus pais. Após terminar sua higiene matinal, ela se juntou a eles para o café da manhã.
A atmosfera na casa da família era a mesma de sempre: calma e aconchegante. O que Hana valorizava muito. Mas, ultimamente, aquela maldita tarefa bônus que tirava seu sono não saía de sua cabeça.
Será minha mãe… ou então meu pai? A garota olhou para os dois de relance, buscando não atrair suspeitas.
Ainda que ela não quisesse acreditar, era difícil simplesmente esquecer.
“Querido, não use o notebook nas horas das refeições”, Tsukiko repreendeu seu marido, mas ela não parecia brava.
“Ah, me desculpe. É que eu estou analisando algumas coisas e acabei me deixando levar.” Com um pequena risada, Masato fechou o notebook e se concentrou em seu café.
“Você vai ter atividades do clube hoje, Hana?”
“Hm… não, hoje não. As garotas decidiram tirar o dia de hoje para descansar.”
“Uma ótima decisão. Ter a mente leve é o segredo para o sucesso.”
“Você e suas frases motivacionais pela manhã…”
Hana suspirou com a mania de seu pai. Não que fosse algo ruim.
“Bom, uma pessoa do meu ramo precisa estar bem ciente do mundo ao redor. Mas isso não quer dizer que os demais possam negligenciar isso.”
Ele levou uma xícara de café à boca, tomando o restante do conteúdo. Em seguida, se levantou.
“Talvez eu volte mais cedo hoje. Se ocorrer alguma mudança, eu aviso.”
“Tudo bem. Bom trabalho, querido.”
“Estou de saída.”
Masato deu um beijo de despedida em sua esposa e afagou a cabeça de Hana levemente antes de sair.
Tsukiko voltou aos seus afazeres e Hana decidiu ajudá-la, lavando os pratos e talheres que foram usados durante o café da manhã.
Ficar perto da mãe, deixava a garota nervosa quando lembrava que ela poderia estar escondendo algo. E para os membros da GSN saberem, não poderia ser coisa pequena.
Embora ela lutasse para não deixar transparecer, sua mãe era muito perspicaz e a conhecia muito bem para saber quando havia algo errado com ela.
“O que foi, Hana? Aconteceu algo?”
“Huh? Não… porque você acha isso?” Ela poderia ter dado um salto para trás com o susto que levou ao ver que foi lida tão facilmente. Como esperado de uma corretora de imóveis.
“Bom, você nem reclamou quando seu pai acariciou sua cabeça e se manteve quieta o tempo todo.”
“Ah… pra falar a verdade, eu só tô pensando no campeonato de tênis… Eu me pergunto se nós temos chance.”
Ela deu essa desculpa, mas não era totalmente mentira. O campeonato de tênis era, de verdade, algo que a preocupava, já que havia várias escolas fortes competindo e no ano passado sua escola acabou não chegando na semifinal.
“Então é isso… Está tudo bem. Você e as outras garotas se esforçaram bastante. Vai dar tudo certo. Apenas confie em si mesmo e na sua equipe.”
“Eu vou… obrigada, mãe.”
“Não há de quê.”
Não tinha como Tsukiko estar escondendo algo ruim. Hana concluiu com essa simples conversa. Não tinha como alguém não ter remorso nenhum se estivesse fazendo algo errado, ela queria acreditar nisso. No entanto, se esse fosse o caso, então a única opção que lhe restava era seu pai.
Eu espero que isso seja apenas um mal entendido.
O que Masato escondia que poderia ser tão grave ao ponto da GSN saber? Que relação ele tinha com o mundo dos portadores? Qualquer resposta para isso seria perigosa. Se Hana não fosse a única da família ligada àquele mundo, então as coisas estavam feias — em um nível caótico.
Mas ela queria acreditar que seu pai era um homem justo. Além do mais, a tarefa dizia sobre um segredo, mas não especificava se era algo bom ou ruim. Ainda havia esperança.

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