Capítulo 30: O Chamado das Profundezas
O mar se estendia infinito em todas as direções, um tapete de azul profundo cortado apenas pelo rastro branco do navio.
O amanhecer já havia ficado para trás havia algumas horas, mas a luz ainda era suave, filtrada por nuvens altas que deixavam o mundo com um tom pálido e tranquilo demais para quem carregava tantos segredos.
As velas estufavam com o vento constante, rangendo de forma ritmada. O convés estava relativamente calmo: alguns marinheiros iam e vinham em silêncio, ajustando cordas, limpando o convés, evitando conversas desnecessárias.
Passageiros permaneciam espalhados, a maioria quieta, como se cada um carregasse uma história que não desejava dividir.
Ivar estava encostado na amurada, os braços apoiados na madeira gasta, o olhar fixo no movimento hipnótico das ondas.
Sob a ilusão, ele parecia apenas um elfo comum de cabelo castanho curto, traços simples, olhos castanhos sem brilho especial. Mas por dentro… sua mente estava longe dali.
O mar tinha um efeito curioso sobre ele.
Não acalmava.
Não agitava.
Apenas lembrava que tudo era vasto demais para ser controlado.
Ele sentiu a presença antes de ouvir os passos.
Uma sombra se aproximou ao seu lado, apoiando-se na amurada com naturalidade, como se aquele espaço já lhe pertencesse.
O som do mar continuou o mesmo, mas algo no ar mudou, um leve deslocamento, quase imperceptível.
— É uma linda manhã, não é? — disse a voz, leve, descontraída demais para um lugar como aquele.
Ivar não se virou de imediato.
— Depende do que se espera do dia… — respondeu, mantendo o olhar no horizonte.
A figura ao seu lado soltou uma risadinha baixa e então puxou o capuz para trás.
Cabelos azuis caíram sobre os ombros como fios de tinta derramada, brilhando sob a luz do sol. O rosto era jovem, mas os olhos… atentos demais. Vivos demais.
Olhos de quem observa mais do que fala.
— Justo! — Ela inclinou levemente a cabeça — Prazer. Me chamo Ember Vance.
Ela estendeu a mão, firme, confiante.
Ivar finalmente virou o rosto para encará-la. Por um instante, seus olhos pousaram nos dela, avaliando, medindo, sentindo o peso invisível por trás daquele sorriso fácil.
Ele apertou a mão dela.
— Iren… — respondeu, usando o nome do disfarce sem hesitar. — Apenas um viajante.
Ember arqueou uma sobrancelha, divertida.
— “Apenas” raramente significa isso, senhor elfo. Mas tudo bem… — Ela voltou a olhar para o mar — Gosto de mistérios. Tornam a viagem menos entediante.
Por alguns segundos, ficaram em silêncio, observando as ondas quebrando contra o casco.
— Você não parece nervoso— comentou Ember de repente. — A maioria das pessoas nesse navio olha o mar como se ele fosse engoli-las a qualquer momento.
— O mar só engole quem luta contra ele… — respondeu Ivar. — Quem entende o fluxo… sobrevive.
Ember sorriu de lado, claramente satisfeita com a resposta.
— Interessante filosofia para alguém que diz ser apenas um viajante.
Antes que Ivar pudesse responder, passos leves se aproximaram pelo convés.
Elara surgiu primeiro, ainda sob o disfarce: pele cinzenta, cabelos negros lisos, traços típicos de uma elfa negra comum. O olhar dela foi imediatamente para Ember — rápido, atento, avaliador — antes de relaxar minimamente.
Logo atrás vieram Nyara, agora na forma feral felina, caminhando com naturalidade, e Delilah, pequena, ruiva e de bochechas rosadas, segurando uma caneca de algo quente com as duas mãos.
— Ah… então foi você que resolveu roubar nosso silencioso vigia — comentou Nyara, o tom meio brincalhão, meio desconfiado.
Ember virou-se para elas com um sorriso aberto.
— Culpa minha! Sou péssima em respeitar silêncios interessantes.
O olhar dela passou rapidamente por cada uma — rápido demais para parecer casual — mas sem demonstrar hostilidade.
— Ember Vance… — repetiu ela. — Passageira como vocês.
Delilah inclinou a cabeça, curiosa.
— Azul não é uma cor de cabelo comum em humanos…
— Nem ruivo em gente tão pequena… — Ember respondeu com leveza. — O mundo é cheio de exceções.
Nyara soltou um riso curto.
— Gostei dela!
Elara manteve-se mais reservada, aproximando-se de Ivar.
— Não está incomodando, espero.
— De forma alguma — respondeu Ember — Eu estava apenas apreciando a vista… e fazendo novas amizades.
Ivar sentiu de novo aquela sensação sutil.
Ember não era perigosa.
Mas também não era comum.
— O navio vai demorar dois dias para chegar ao próximo porto — disse Ember, apoiando os cotovelos na amurada — Em alto-mar, não há muito o que fazer além de conversar… ou observar as pessoas tentando esconder quem realmente são.
Nyara estreitou os olhos, divertida.
— Você sempre fala assim ou é só hoje?
— Só quando estou certa… — Ember respondeu, piscando.
Ivar desviou o olhar para o horizonte novamente.
— Então aproveite a manhã, Ember Vance. O mar costuma ser gentil… antes de decidir não ser.
Ela riu, um riso genuíno.
— Vou levar isso como um conselho.
O vento soprou mais forte, fazendo as velas estalarem. O navio avançava firme, cortando as ondas como se tivesse um destino próprio.
Enquanto Ember permanecia ali, sorrindo para o mar, e o grupo se mantinha em silêncio atento, uma certeza pairava invisível entre eles:
A viagem mal havia começado.
E aquela manhã bonita demais…
provavelmente não era um bom sinal.
Do outro lado do convés, perto da amurada oposta, uma voz feminina cortou o som constante das ondas.
— Ember! Venha ver! Olhe esses animais aqui desse lado!
A mulher que chamava tinha cabelos ruivos mais puxados para o castanho, presos de forma prática, e segurava nos braços uma pequena criatura que lembrava um filhote de lobo, mas apenas à primeira vista.
Seu focinho era ligeiramente mais longo, as orelhas tinham um formato incomum e o pelo — cinza-azulado — parecia reagir à luz, como se tivesse um brilho interno suave. A criatura se remexia curiosa, emitindo pequenos sons baixos enquanto olhava para a água.
Ao lado dela estavam outra mulher e três homens, todos humanos. Vestiam roupas simples de viagem, gastas pelo uso, com cintos cheios de pequenos apetrechos — facas, frascos, cordas. Não tinham o porte rígido de soldados nem a postura relaxada de mercadores.
Observavam o mar com atenção genuína, apontando para algo abaixo da superfície.
Ember virou o rosto na direção da voz, reconhecendo-a de imediato.
— Tá bem, Ingrid! Já estou indo! — respondeu, erguendo a mão em um gesto rápido.
Ela então se voltou novamente para Ivar e os demais, o sorriso fácil ainda no rosto, mas com aquele brilho atento nos olhos de quem nunca deixa de observar.
— Bem, foi um prazer conhecer vocês! Meus amigos estão me chamando agora. Até outra hora!
Sem esperar resposta, Ember se afastou, caminhando até o pequeno grupo. Ingrid começou a falar animadamente assim que ela chegou, apontando para o mar enquanto o filhote em seus braços se inclinava curioso.
Ivar acompanhou a cena em silêncio, ainda apoiado na amurada.
Nyara cruzou os braços, seguindo Ember com o olhar.
— Humanos… mas não comuns.
Delilah inclinou levemente a cabeça.
— E aquele filhote… Definitivamente é diferente de qualquer outro lobo por aqui.
Elara permaneceu calada, observando o grupo por mais alguns instantes antes de olhar para o horizonte, onde o mar se estendia calmo demais para o gosto dela.
— Eles vieram procurar algo — murmurou.
Ivar fechou os olhos por um breve momento, sentindo o balanço do navio e algo mais profundo… algo que se movia muito abaixo da superfície.
— E o mar… — disse por fim, em tom baixo — …costuma responder quando é observado por tempo demais.
O navio seguia em frente, cortando as águas abertas.
E, sem que ninguém ali soubesse ainda, aquele encontro casual já havia entrelaçado destinos que não deveriam se cruzar tão cedo.
O entardecer avançava lentamente, tingindo o mar de tons dourados e azulados. Os sóis ainda estavam altos o suficiente para lançarem reflexos cintilantes nas ondas, enquanto uma brisa morna percorria o convés.
Gaivotas — ou criaturas semelhantes a elas — sobrevoavam o navio, e por algumas horas tudo pareceu estranhamente tranquilo.
Foi nesse momento que a tripulação começou a se mover de forma diferente.
Marinheiros desceram ao porão e retornaram carregando um aparato incomum: uma estrutura alongada de metal escurecido, incrustada com cristais opacos e placas gravadas com símbolos náuticos antigos.
Tubos ressonantes desciam pelas laterais do casco, mergulhando parcialmente na água.
Quando o mecanismo foi ativado, um som profundo e vibrante espalhou-se pelo ar.
Não era apenas ouvido… era sentido.
Um chamado grave, lento, poderoso, como o bramido de um colossal monstro marinho ecoando das profundezas. O som reverberava no peito, fazia o convés vibrar levemente e alterava o comportamento do próprio mar, que parecia se afastar em ondas mais longas e cautelosas.
O capitão aproximou-se da amurada, a voz clara e firme:
— Atenção, passageiros… estamos passando por uma área mais perigosa. Esse som é para nos camuflar contra outros predadores, não se preocupem.
Alguns passageiros ficaram inquietos, outros curiosos. A tripulação, no entanto, parecia confiante. Aquilo não era novidade. O som imitava o chamado territorial de um predador supremo, algo que criaturas menores aprendiam a temer instintivamente.
E, por um bom tempo, funcionou…
As horas passaram. Os sóis começaram sua lenta descida, e o céu ganhou tons mais quentes, quase avermelhados.
Mas então… algo mudou.
O som do aparelho tornou-se irregular por um instante. Um leve descompasso, quase imperceptível. O mar, que antes se afastava, começou a se agitar novamente.
Ondas mais curtas, mais agressivas, batiam contra o casco.
Sombras surgiram sob a superfície.
E o primeiro ataque veio sem aviso.
Algo colidiu contra o navio com força suficiente para fazê-lo ranger. Em seguida, a água explodiu ao lado do convés, e criaturas marinhas emergiram, agarrando-se às bordas como parasitas famintos.
Eram figuras vindas de um pesadelo: corpos cobertos por pele úmida e escura, membros longos e fortes demais para algo que vinha do mar. Muitas tinham troncos vagamente humanoides, mas seus rostos eram deformações grotescas — bocas cheias de dentes irregulares, olhos vítreos e sem pupilas, guelras pulsando em seus pescoços.
— Monstros! — alguém gritou.
O pânico espalhou-se rapidamente.
Foi então que o outro grupo agiu.
Do outro lado do convés, Ember avançou um passo à frente, o olhar firme, sem medo. No instante em que uma das criaturas saltou em sua direção, algo impossível aconteceu: uma arma se formou em sua mão, como se tivesse sido chamada do nada.
Metal dourado brilhante, inscrito com runas que pulsavam com uma luz suave.
— Lento demais! — ela disse, e golpeou.
Ao redor dela, seus companheiros fizeram o mesmo.
Espadas, lanças, arcos e cajados surgiram envoltos em partículas de luz, cada arma distinta, cada uma carregando uma presença própria.
Ingrid caiu de joelhos por um instante, protegendo o filhote de lobo que carregava nos braços.
— Não… agora não, Fenrir… — murmurou.
O filhote então começou a mudar. G
Seu corpo cresceu em um piscar de olhos, os músculos se expandiram, seus ossos se alongaram, pelos se tornaram densos e espessos.
Onde antes havia um pequeno lobo, agora erguia-se uma fera colossal, com olhos dourados e uma marca vermelha luminosa na testa.
O lobo uivou, e o som fez até as criaturas marinhas hesitarem.
Ele avançou.
Garras rasgaram a carne úmida dos monstros.
Presas esmagaram os ossos.
O convés tornou-se um campo de batalha.
Foi nesse momento que todos perceberam…
Tatuagens brilhavam nos corpos daquele grupo — marcas gravadas na pele, flutuando sobre as mãos, sobre os braços ou costas, cada uma diferente.
Símbolos divinos…
Um escudo e uma espada.
Uma livro aberto.
Uma pata de fera.
Um elmo.
Um círculo mágico.
Um arco.
Um murmúrio correu entre os passageiros, misto de medo e assombro.
— Eles são… — um tripulante começou — Heróis! — completou outro, em choque.
Ivar observava em silêncio. Algo dentro dele reagiu àquelas marcas, a presença divina era clara.
Elara sentiu novamente o arrepio — não vinha apenas dos Heróis… vinha dele também.
Enquanto o sol sumia no horizonte e o céu se esfriava em tons de azul escuro e cinza, o navio seguia adiante, cercado por monstros, Heróis… e segredos que começavam, finalmente, a despertar.

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