O mar se estendia infinito em todas as direções, um tapete de azul profundo cortado apenas pelo rastro branco do navio.

    O amanhecer já havia ficado para trás havia algumas horas, mas a luz ainda era suave, filtrada por nuvens altas que deixavam o mundo com um tom pálido e tranquilo demais para quem carregava tantos segredos.

    As velas estufavam com o vento constante, rangendo de forma ritmada. O convés estava relativamente calmo: alguns marinheiros iam e vinham em silêncio, ajustando cordas, limpando o convés, evitando conversas desnecessárias.

    Passageiros permaneciam espalhados, a maioria quieta, como se cada um carregasse uma história que não desejava dividir.

    Ivar estava encostado na amurada, os braços apoiados na madeira gasta, o olhar fixo no movimento hipnótico das ondas.

    Sob a ilusão, ele parecia apenas um elfo comum de cabelo castanho curto, traços simples, olhos castanhos sem brilho especial. Mas por dentro… sua mente estava longe dali.

    O mar tinha um efeito curioso sobre ele.

    Não acalmava.

    Não agitava.

    Apenas lembrava que tudo era vasto demais para ser controlado.

    Ele sentiu a presença antes de ouvir os passos.
    Uma sombra se aproximou ao seu lado, apoiando-se na amurada com naturalidade, como se aquele espaço já lhe pertencesse.

    O som do mar continuou o mesmo, mas algo no ar mudou, um leve deslocamento, quase imperceptível.

    — É uma linda manhã, não é? — disse a voz, leve, descontraída demais para um lugar como aquele.

    Ivar não se virou de imediato.

    — Depende do que se espera do dia… — respondeu, mantendo o olhar no horizonte.

    A figura ao seu lado soltou uma risadinha baixa e então puxou o capuz para trás.

    Cabelos azuis caíram sobre os ombros como fios de tinta derramada, brilhando sob a luz do sol. O rosto era jovem, mas os olhos… atentos demais. Vivos demais.
    Olhos de quem observa mais do que fala.

    — Justo! — Ela inclinou levemente a cabeça — Prazer. Me chamo Ember Vance.

    Ela estendeu a mão, firme, confiante.

    Ivar finalmente virou o rosto para encará-la. Por um instante, seus olhos pousaram nos dela, avaliando, medindo, sentindo o peso invisível por trás daquele sorriso fácil.

    Ele apertou a mão dela.

    — Iren… — respondeu, usando o nome do disfarce sem hesitar. — Apenas um viajante.

    Ember arqueou uma sobrancelha, divertida.

    — “Apenas” raramente significa isso, senhor elfo. Mas tudo bem… — Ela voltou a olhar para o mar — Gosto de mistérios. Tornam a viagem menos entediante.

    Por alguns segundos, ficaram em silêncio, observando as ondas quebrando contra o casco.

    — Você não parece nervoso— comentou Ember de repente. — A maioria das pessoas nesse navio olha o mar como se ele fosse engoli-las a qualquer momento.

    — O mar só engole quem luta contra ele… — respondeu Ivar. — Quem entende o fluxo… sobrevive.

    Ember sorriu de lado, claramente satisfeita com a resposta.

    — Interessante filosofia para alguém que diz ser apenas um viajante.

    Antes que Ivar pudesse responder, passos leves se aproximaram pelo convés.

    Elara surgiu primeiro, ainda sob o disfarce: pele cinzenta, cabelos negros lisos, traços típicos de uma elfa negra comum. O olhar dela foi imediatamente para Ember — rápido, atento, avaliador — antes de relaxar minimamente.

    Logo atrás vieram Nyara, agora na forma feral felina, caminhando com naturalidade, e Delilah, pequena, ruiva e de bochechas rosadas, segurando uma caneca de algo quente com as duas mãos.

    — Ah… então foi você que resolveu roubar nosso silencioso vigia — comentou Nyara, o tom meio brincalhão, meio desconfiado.

    Ember virou-se para elas com um sorriso aberto.

    — Culpa minha! Sou péssima em respeitar silêncios interessantes.

    O olhar dela passou rapidamente por cada uma — rápido demais para parecer casual — mas sem demonstrar hostilidade.

    — Ember Vance… — repetiu ela. — Passageira como vocês.

    Delilah inclinou a cabeça, curiosa.
    — Azul não é uma cor de cabelo comum em humanos…

    — Nem ruivo em gente tão pequena… — Ember respondeu com leveza. — O mundo é cheio de exceções.

    Nyara soltou um riso curto.
    — Gostei dela!

    Elara manteve-se mais reservada, aproximando-se de Ivar.
    — Não está incomodando, espero.

    — De forma alguma — respondeu Ember — Eu estava apenas apreciando a vista… e fazendo novas amizades.

    Ivar sentiu de novo aquela sensação sutil.
    Ember não era perigosa.
    Mas também não era comum.

    — O navio vai demorar dois dias para chegar ao próximo porto — disse Ember, apoiando os cotovelos na amurada — Em alto-mar, não há muito o que fazer além de conversar… ou observar as pessoas tentando esconder quem realmente são.

    Nyara estreitou os olhos, divertida.
    — Você sempre fala assim ou é só hoje?

    — Só quando estou certa… — Ember respondeu, piscando.

    Ivar desviou o olhar para o horizonte novamente.
    — Então aproveite a manhã, Ember Vance. O mar costuma ser gentil… antes de decidir não ser.

    Ela riu, um riso genuíno.
    — Vou levar isso como um conselho.

    O vento soprou mais forte, fazendo as velas estalarem. O navio avançava firme, cortando as ondas como se tivesse um destino próprio.

    Enquanto Ember permanecia ali, sorrindo para o mar, e o grupo se mantinha em silêncio atento, uma certeza pairava invisível entre eles:

    A viagem mal havia começado.
    E aquela manhã bonita demais…
    provavelmente não era um bom sinal.

    Do outro lado do convés, perto da amurada oposta, uma voz feminina cortou o som constante das ondas.
    — Ember! Venha ver! Olhe esses animais aqui desse lado!

    A mulher que chamava tinha cabelos ruivos mais puxados para o castanho, presos de forma prática, e segurava nos braços uma pequena criatura que lembrava um filhote de lobo, mas apenas à primeira vista.

    Seu focinho era ligeiramente mais longo, as orelhas tinham um formato incomum e o pelo — cinza-azulado — parecia reagir à luz, como se tivesse um brilho interno suave. A criatura se remexia curiosa, emitindo pequenos sons baixos enquanto olhava para a água.

    Ao lado dela estavam outra mulher e três homens, todos humanos. Vestiam roupas simples de viagem, gastas pelo uso, com cintos cheios de pequenos apetrechos — facas, frascos, cordas. Não tinham o porte rígido de soldados nem a postura relaxada de mercadores.

    Observavam o mar com atenção genuína, apontando para algo abaixo da superfície.

    Ember virou o rosto na direção da voz, reconhecendo-a de imediato.
    — Tá bem, Ingrid! Já estou indo! — respondeu, erguendo a mão em um gesto rápido.

    Ela então se voltou novamente para Ivar e os demais, o sorriso fácil ainda no rosto, mas com aquele brilho atento nos olhos de quem nunca deixa de observar.

    — Bem, foi um prazer conhecer vocês! Meus amigos estão me chamando agora. Até outra hora!

    Sem esperar resposta, Ember se afastou, caminhando até o pequeno grupo. Ingrid começou a falar animadamente assim que ela chegou, apontando para o mar enquanto o filhote em seus braços se inclinava curioso.

    Ivar acompanhou a cena em silêncio, ainda apoiado na amurada.

    Nyara cruzou os braços, seguindo Ember com o olhar.
    — Humanos… mas não comuns.

    Delilah inclinou levemente a cabeça.
    — E aquele filhote… Definitivamente é diferente de qualquer outro lobo por aqui.

    Elara permaneceu calada, observando o grupo por mais alguns instantes antes de olhar para o horizonte, onde o mar se estendia calmo demais para o gosto dela.
    — Eles vieram procurar algo — murmurou.

    Ivar fechou os olhos por um breve momento, sentindo o balanço do navio e algo mais profundo… algo que se movia muito abaixo da superfície.
    — E o mar… — disse por fim, em tom baixo — …costuma responder quando é observado por tempo demais.

    O navio seguia em frente, cortando as águas abertas.
    E, sem que ninguém ali soubesse ainda, aquele encontro casual já havia entrelaçado destinos que não deveriam se cruzar tão cedo.

    O entardecer avançava lentamente, tingindo o mar de tons dourados e azulados. Os sóis ainda estavam altos o suficiente para lançarem reflexos cintilantes nas ondas, enquanto uma brisa morna percorria o convés.

    Gaivotas — ou criaturas semelhantes a elas — sobrevoavam o navio, e por algumas horas tudo pareceu estranhamente tranquilo.

    Foi nesse momento que a tripulação começou a se mover de forma diferente.

    Marinheiros desceram ao porão e retornaram carregando um aparato incomum: uma estrutura alongada de metal escurecido, incrustada com cristais opacos e placas gravadas com símbolos náuticos antigos.

    Tubos ressonantes desciam pelas laterais do casco, mergulhando parcialmente na água.
    Quando o mecanismo foi ativado, um som profundo e vibrante espalhou-se pelo ar.

    Não era apenas ouvido… era sentido.

    Um chamado grave, lento, poderoso, como o bramido de um colossal monstro marinho ecoando das profundezas. O som reverberava no peito, fazia o convés vibrar levemente e alterava o comportamento do próprio mar, que parecia se afastar em ondas mais longas e cautelosas.

    O capitão aproximou-se da amurada, a voz clara e firme:
    — Atenção, passageiros… estamos passando por uma área mais perigosa. Esse som é para nos camuflar contra outros predadores, não se preocupem.

    Alguns passageiros ficaram inquietos, outros curiosos. A tripulação, no entanto, parecia confiante. Aquilo não era novidade. O som imitava o chamado territorial de um predador supremo, algo que criaturas menores aprendiam a temer instintivamente.

    E, por um bom tempo, funcionou…

    As horas passaram. Os sóis começaram sua lenta descida, e o céu ganhou tons mais quentes, quase avermelhados.

    Mas então… algo mudou.

    O som do aparelho tornou-se irregular por um instante. Um leve descompasso, quase imperceptível. O mar, que antes se afastava, começou a se agitar novamente.

    Ondas mais curtas, mais agressivas, batiam contra o casco.

    Sombras surgiram sob a superfície.

    E o primeiro ataque veio sem aviso.

    Algo colidiu contra o navio com força suficiente para fazê-lo ranger. Em seguida, a água explodiu ao lado do convés, e criaturas marinhas emergiram, agarrando-se às bordas como parasitas famintos.

    Eram figuras vindas de um pesadelo: corpos cobertos por pele úmida e escura, membros longos e fortes demais para algo que vinha do mar. Muitas tinham troncos vagamente humanoides, mas seus rostos eram deformações grotescas — bocas cheias de dentes irregulares, olhos vítreos e sem pupilas, guelras pulsando em seus pescoços.

    — Monstros! — alguém gritou.

    O pânico espalhou-se rapidamente.

    Foi então que o outro grupo agiu.

    Do outro lado do convés, Ember avançou um passo à frente, o olhar firme, sem medo. No instante em que uma das criaturas saltou em sua direção, algo impossível aconteceu: uma arma se formou em sua mão, como se tivesse sido chamada do nada.

    Metal dourado brilhante, inscrito com runas que pulsavam com uma luz suave.
    — Lento demais! — ela disse, e golpeou.

    Ao redor dela, seus companheiros fizeram o mesmo.

    Espadas, lanças, arcos e cajados surgiram envoltos em partículas de luz, cada arma distinta, cada uma carregando uma presença própria.

    Ingrid caiu de joelhos por um instante, protegendo o filhote de lobo que carregava nos braços.
    — Não… agora não, Fenrir… — murmurou.

    O filhote então começou a mudar. G

    Seu corpo cresceu em um piscar de olhos, os músculos se expandiram, seus ossos se alongaram, pelos se tornaram densos e espessos.

    Onde antes havia um pequeno lobo, agora erguia-se uma fera colossal, com olhos dourados e uma marca vermelha luminosa na testa.

    O lobo uivou, e o som fez até as criaturas marinhas hesitarem.

    Ele avançou.

    Garras rasgaram a carne úmida dos monstros.
    Presas esmagaram os ossos.
    O convés tornou-se um campo de batalha.

    Foi nesse momento que todos perceberam…

    Tatuagens brilhavam nos corpos daquele grupo — marcas gravadas na pele, flutuando sobre as mãos, sobre os braços ou costas, cada uma diferente.

    Símbolos divinos…
    Um escudo e uma espada.
    Uma livro aberto.
    Uma pata de fera.
    Um elmo.
    Um círculo mágico.
    Um arco.

    Um murmúrio correu entre os passageiros, misto de medo e assombro.

    — Eles são… — um tripulante começou — Heróis! — completou outro, em choque.

    Ivar observava em silêncio. Algo dentro dele reagiu àquelas marcas, a presença divina era clara.

    Elara sentiu novamente o arrepio — não vinha apenas dos Heróis… vinha dele também.

    Enquanto o sol sumia no horizonte e o céu se esfriava em tons de azul escuro e cinza, o navio seguia adiante, cercado por monstros, Heróis… e segredos que começavam, finalmente, a despertar.

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