Capítulo 31: A Fúria dos Titãs
O convés mergulhou no caos.
O cheiro de sal misturou-se rapidamente ao de sangue e madeira molhada.
Passageiros corriam para todos os lados, alguns tentando se esconder atrás de caixas e barris, outros simplesmente congelados de medo diante das criaturas que continuavam emergindo das águas.
As ondas batiam com mais força contra o casco.
Algo enorme se movia sob o navio.
Mas no meio daquele caos, os Heróis avançavam como se aquela batalha fosse algo comum.
Ember girou a arma nas mãos — uma espada de lâmina longa, dourada, com runas que pulsavam em ritmo com seu coração. Quando ela golpeou novamente, a lâmina deixou um rastro de luz no ar, cortando duas das criaturas que haviam saltado sobre um marinheiro.
— Cuidado com as guelras! — gritou um dos homens do grupo, brandindo uma lança que surgira em sua mão — Elas soltam um tipo de gás!
A mulher ao lado dele ergueu um cajado que parecia feito de cristal azul. Símbolos mágicos giraram ao redor da ponta, e um feixe de energia atravessou o convés, arremessando três monstros de volta ao mar.
Ingrid já estava de pé novamente.
Ao seu lado, o enorme lobo Fenrir avançava como uma tempestade viva. Sua pelagem eriçada refletia a luz do entardecer, e cada passo fazia o convés tremer levemente.
Uma criatura tentou saltar sobre ela.
Fenrir interceptou no ar.
As presas do lobo fecharam-se ao redor do torso do monstro, esmagando-o com um estalo seco antes de arremessá-lo de volta às ondas.
Do lado oposto do convés, Ivar continuava imóvel.
Nyara rosnou baixo, os olhos felinos acompanhando o movimento das criaturas que subiam pela lateral do casco.
— São muitos, acho que não vamos dar conta de todos…— murmurou ela.
Delilah segurava a caneca agora vazia, os olhos arregalados.
— Eles parecem… estar lidando bem com isso…
Elara, porém, não parecia convencida.
Mais criaturas estavam surgindo.
Muitas.
Demais.
Uma delas conseguiu subir perto do grupo, as garras raspando na madeira enquanto sua boca cheia de dentes se abria em um chiado úmido.
Nyara foi a primeira a se mover.
Seu corpo felino avançou em um salto fluido, as garras rasgando o pescoço da criatura antes que ela pudesse alcançar Delilah.
O monstro caiu com um som pesado no convés.
— Certo… agora estamos envolvidos — ela disse, limpando as garras na própria roupa.
Delilah exitou,mas então começou uma prece silenciosa. Uma aura dourada surgiu sobre todos no convés
— Com a ajuda das Deusas, vou evitar que mais pessoas morram hoje…
Elara puxou sua espada que estava escondida sob o manto. Seu olhar passou rapidamente pelos Heróis… e depois por Ivar.
— Ivar.
Ele não respondeu.
Seus olhos estavam no mar.
Algo mais profundo se movia ali.
Algo que não havia subido ainda.
Outro impacto sacudiu o navio, muito mais forte.
Fenrir parou por um instante, as orelhas erguidas, rosnando para as águas escuras.
Ember percebeu também.
Ela girou a espada, recuando alguns passos.
— Isso… não são só batedores — murmurou.
O mar então se abriu.
Uma sombra colossal passou sob o navio, grande demais para ser apenas mais uma criatura.
As ondas se ergueram como se algo gigantesco estivesse girando abaixo da superfície.
O aparelho que imitava o som do predador supremo ainda rugia… mas agora o som parecia quase ridículo diante do que realmente se aproximava.
Um silêncio pesado caiu sobre o campo de batalha por um breve segundo. Até as criaturas menores hesitaram.
Ivar finalmente ergueu a cabeça.
Seus olhos não estavam mais no horizonte. Estavam nas profundezas.
E pela primeira vez desde o início do ataque…
ele sorriu levemente. Não era um sorriso de diversão. Era o sorriso de alguém que finalmente reconheceu o verdadeiro motivo de tudo aquilo.
— Então era você… — murmurou ele, quase inaudível.
O mar começou a girar ao redor do navio.
Não era apenas o movimento das ondas.
Era como se a própria água estivesse sendo empurrada por uma vontade, formando um grande redemoinho lento sob o casco.
As criaturas menores que ainda lutavam no convés congelaram. Não por medo. Por obediência.
Todas viraram a cabeça ao mesmo tempo, seus olhos vítreos encarando o mesmo ponto no mar.
Então algo rompeu a superfície.
Primeiro vieram as cristas ósseas, negras como pedra molhada. Depois um dorso gigantesco emergiu, coberto por placas naturais que pareciam armadura viva.
A água escorria por aquele corpo monstruoso enquanto tentáculos longos se desenrolavam lentamente, cada um tão grosso quanto o próprio navio.
Mas o que realmente fazia o ar parecer mais pesado… era a cabeça.
Ela se ergueu devagar, enorme e grotesca, com um formato vagamente lembrando uma lula ancestral.
De sua face desciam dezenas de apêndices menores, pulsando levemente.
E no centro… um único olho colossal.
O olho se abriu.
Uma íris azul, profunda como um abismo, que parecia enxergar não apenas o mundo físico, mas as mentes de todos ao redor.
Um sussurro atravessou o convés.
Não veio de boca alguma.
Veio dentro da cabeça de todos.
Uma pressão psíquica esmagadora, como se um oceano inteiro estivesse tentando entrar pela mente.
Alguns passageiros caíram de joelhos imediatamente, segurando a cabeça.
Marinheiros deixaram armas caírem no convés, atordoados.
Delilah levou a mão à têmpora.
— Ah… isso… isso não é bom… não consigo me concentrar assim…
Fenrir começou a rosnar profundamente, os pelos eriçados enquanto olhava para a criatura colossal.
Ember apertou os dentes.
— Então é por isso que os monstros vieram todos juntos…
Um dos tripulantes murmurou, a voz tremendo:
— Tha-Thal’Kr-Kryss…
O nome parecia pesado, antigo.
A criatura era conhecida em lendas marítimas como Thal’Kryss, o Dominador Abissal. Uma entidade das profundezas capaz de controlar mentalmente outras criaturas marinhas, dobrando predadores e monstros à sua vontade.
Onde Thal’Kryss surgia… o oceano inteiro se tornava seu exército.
As criaturas menores começaram a se mover novamente.
Mas agora não atacavam em desordem.
Elas se organizavam.
Cercavam.
— Ele está comandando tudo… — disse um dos homens do grupo de Ember, segurando firme sua lança.
Ingrid respirou fundo, apoiando uma mão no pescoço de Fenrir.
— Fenrir… cuidado.
O lobo gigante respondeu com um rosnado baixo.
Mas até ele parecia desconfortável sob aquela pressão psíquica.
No entanto… Algo curioso aconteceu.
Ivar permaneceu completamente imóvel.
Nenhum sinal de dor.
Nenhum esforço para resistir.
Elara percebeu imediatamente.
Ela virou o rosto para ele, o olhar estreito.
— Ivar…?
O olho colossal de Thal’Kryss então se moveu lentamente. E parou… diretamente em Ivar.
Por um instante, o mundo pareceu congelar.
A pressão psíquica aumentou.
O sussurro na mente de todos se tornou mais intenso, mais caótico.
Mas quando tocou a mente de Ivar… O efeito foi diferente.
Foi como uma onda atingindo uma muralha infinita.
Algo antigo respondeu de volta. Não como ataque. Mas como presença.
O olho da criatura se contraiu levemente.
Curiosidade.
Reconhecimento.
E então, pela primeira vez em séculos, Thal’Kryss encontrou algo que não conseguia ler completamente.
Ivar inclinou levemente a cabeça.
— Interessante… — murmurou.
No convés, Ember estava concentrada na criatura gigantesca que emergia cada vez mais da água.
— Certo… — ela disse, girando a espada na mão. — Então esse é o chefe.
Um dos homens ao lado dela respondeu:
— Não é um monstro comum… li em um livro sobre ele, e no livro diz que só uma criatura rivaliza com ele no oceano.
Outro Herói assentiu.
— A Serpente Primordial dos Mares.
Uma lenda ainda mais antiga. A colossal serpente conhecida como Vorthalyon, o Leviatã negro de Marfim…
Uma criatura tão poderosa quanto Thal’Kryss, mas territorial,seu domínio ficava nos mares distantes do sul profundo.
Ali… naquele trecho de oceano… Thal’Kryss reinava sozinho.
E agora ele tinha um navio cheio de presas.
As águas começaram a subir ao redor da criatura.
Tentáculos gigantes se ergueram lentamente, projetando sombras sobre o convés.
Os monstros menores avançaram novamente.
Fenrir rugiu.
Ember ergueu a espada.
Nyara flexionou as garras.
Delilah já estava recitando mais preces.
E Ivar…
Ivar simplesmente observava.
Porque no fundo de sua mente, uma voz antiga havia despertado novamente.
E ela estava se divertindo.
A verdadeira batalha… finalmente estava prestes a começar.
O mar parecia ter parado de respirar.
As ondas, que antes batiam violentamente contra o casco, agora apenas se agitavam ao redor do corpo colossal de Thal’Kryss, como se o próprio oceano temesse provocar aquela entidade.
Os tentáculos do Dominador Abissal se ergueram mais alto, sombras monstruosas projetando-se sobre o navio.
Um deles deslizou pelo ar lentamente, aproximando-se da embarcação como uma serpente gigantesca prestes a esmagar uma presa.
A pressão psíquica aumentou.
Passageiros caíram de joelhos.
Alguns começaram a chorar.
Outros apenas tremiam, incapazes de mover um músculo.
Ember cerrava os dentes, a espada dourada vibrando em sua mão, mas até ela sabia a verdade.
— Não… — murmurou um dos homens do grupo dela. — Não temos poder suficiente para isso.
A mulher de cajado balançou a cabeça.
— Mesmo todos juntos… não é possível.
Ingrid segurava firme a pelagem de Fenrir, tentando manter o lobo calmo. A enorme fera rosnava profundamente, mas até ele parecia hesitar diante da presença esmagadora daquela criatura ancestral.
— Ember… — disse Ingrid, em voz baixa. — Se ele atacar o navio… acabou.
Ember não respondeu.
Porque ela sabia.
E então Thal’Kryss avançou.
A água se ergueu em uma muralha quando o corpo colossal da criatura começou a se mover em direção à embarcação.
Seus tentáculos abriram-se como braços de um titã marinho pronto para esmagar tudo em seu caminho.
O grande olho azul pulsou.
A ordem mental ecoou.
As criaturas menores gritaram em uníssono, como se desejassem o que estava preste a acontecer.
O navio estava prestes a ser destruído.
Foi então que o mar ao sul explodiu.
Um estrondo colossal ecoou pelas águas, tão poderoso que até Thal’Kryss interrompeu seu avanço.
A superfície do oceano se partiu como vidro.
E algo gigantesco emergiu.
Primeiro apareceu uma crista negra, longa como uma muralha viva.
Depois um corpo serpentino começou a subir das profundezas, escamas enormes refletindo a luz do entardecer como placas de marfim negro polido.
Água caía de seu corpo em cascatas.
Seu tamanho rivalizava com o de uma montanha viva.
A cabeça da criatura ergueu-se lentamente acima das ondas — alongada, majestosa, com olhos brancos brilhando como dois sóis antigos.
Um rugido profundo ecoou pelo oceano.
Não era apenas um som.
Era um desafio.
No convés, vários tripulantes olharam para o sul com os olhos arregalados.
— Pelos deuses… — sussurrou um marinheiro.
Ember também virou o rosto.
E por um momento… ela ficou completamente sem palavras.
A gigantesca serpente abriu suas mandíbulas, revelando presas enormes como lanças.
As águas ao redor dela começaram a girar.
— Vorthalyon… — murmurou Ingrid.
A lendária criatura das profundezas do sul.
Vorthalyon, o Leviatã negro de Marfim.
Guardião do oceânico.
O único ser conhecido capaz de rivalizar com o Dominador Abissal.
Fenrir soltou um uivo poderoso, como se reconhecesse a presença de outro predador supremo.
Thal’Kryss girou lentamente sua cabeça monstruosa.
O olho azul se contraiu.
Os dois titãs se encararam através das ondas agitadas.
Um dominador psíquico das profundezas.
Uma serpente primordial dos mares.
O oceano inteiro parecia tremer sob o peso daquela rivalidade antiga.
Então Vorthalyon avançou primeiro.
Seu corpo colossal mergulhou e cortou o mar com uma velocidade impossível para algo daquele tamanho, criando uma onda gigantesca que quase virou o navio.
Thal’Kryss respondeu.
Tentáculos colossais dispararam pela água enquanto uma onda psíquica invisível varreu o oceano ao redor.
Quando os dois monstros colidiram… o impacto sacudiu o mar como um terremoto.
Uma explosão de água ergueu-se dezenas de metros no ar.
O navio foi jogado violentamente de um lado para o outro.
— SEGUREM-SE! — gritou o capitão.
Marinheiros se agarraram às cordas.
Passageiros caíram no convés.
A batalha entre os dois colossos transformava o oceano em um campo de guerra.
No convés, Ember observava a cena com os olhos arregalados.
— Nós… estamos no meio disso…
Nyara prendeu as garras na madeira do convés para não ser arremessada.
— Isso não é uma batalha…
Delilah engoliu seco.
— É um desastre natural.
Elara olhou para o mar revolto… e então para Ivar.
Porque ele ainda estava de pé.
Imóvel.
Observando.
Como se estivesse assistindo algo… familiar.
Um sorriso de canto quase imperceptível apareceu em seus lábios.
Lá fora, no oceano em fúria, dois titãs ancestrais lutavam pelo domínio das profundezas.
E o pequeno navio de madeira era apenas um grão de poeira preso no meio daquela colossal batalha.

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