Wally

    Aquela saudade, ela me destruía. Não ver o seu sorriso estava me matando por dentro.

    Menos de dois dias, aquele era o tempo que havia passado desde minha despedida. Os questionamentos e dúvidas preenchiam minha mente como um grande dilúvio:

    — Será que eu a verei de novo?

    Esquecer que minha vida de repente havia virado do avesso, não era fácil. Para melhorar, não dormi uma hora sequer noite passada.

    Aquela criatura assombrou meu pesadelo a noite toda. As vezes, prestes a dormir, escutava aquele rugido de novo.

    Ficava com tanto medo que nem ao menos me mexia, permanecia em cima da cama; parado, paralisado… imóvel.

    Na primeira vez que cheguei perto de um cavalo, eu estava apavorado, não me movia exatamente igual a noite passada.

    Minha mãe calmamente se aproximou de mim, agachou, passou sua mão cheia de calos sobre meu cabelo e me contou seu segredo.

    Ela me disse que quando ficávamos com medo, a melhor forma de voltarmos para a realidade era contando.

    — Respire, encare o perigo, conte até dez e depois, enfrente seu medo — ela me instruiu.

    Mas naquele campo de batalha não tinha tempo para contar, nem capacidade para encarar, estava enraizado em meu ser.

    Não acreditava ser capaz de me tornar tão forte quanto ela, nem muito menos cumprir as expectativas de meu pai.

    “Maior que todos no mundo”, como? Como alguém como eu poderia cumprir tal expectativa? Simplesmente era impossível.

    O lamento e o saber de um curto futuro foi o que me atormentou durante a viagem, mas ainda assim, nada. Não soltei uma lágrima sequer.

    Meu único livramento eram meus desenhos e os livros de Dracaries. Elementos, Valíria e Primordiais. Consegui aprender muitas coisas com aqueles livros.

    Os Elementos eram um tipo de força invisível do universo, equilibrados com perfeição. Cada um dos Elementos denominavam um papel fundamental no ciclo da existência, tanto na vida ou no que viria após ela.

    A principal descoberta dos últimos anos foi uma teoria de uma garota chamada Amara.

    Sua ideia era de que o Elemento não fazia parte dos seres vivos, mas sim o contrário, tudo o que realizávamos e conseguíamos com eles era uma espécie de empréstimo.

    Baseado naquilo, descobriram que o Elemento era vivo por si só, tudo o que ele entrava em contato em uma forte exposição, fosse matéria orgânica ou inorgânica, entrava em estado de transformação.

    Eles se conectavam ao Elemento. Assim, surgiram Dungeons, Masmorras, Itens arcanicos e feras mágicas.

    Mas os Elementos não eram onipotentes, até mesmo eles possuíam fraquezas; Essência de todas as coisas era fraca contra Energia dos seres, porém, sobressaía contra Espírito das pessoas.

    Assim como a destruição do Caos não conseguia abalar o Espírito, mas acabava com qualquer  probabilidade de sucesso da Energia. 

    Nunca existiu formas ou símbolos que remetessem aos Elementos, mas cada um foi separado pela cor dos olhos de seus descendentes.

    Amarelo para Energia, azul para Espírito, Essência era o verde e Caos possuía a cor vermelha. Aquilo foi tudo o que descobri com aquele básico livro.

    Embora o dos Elementos fosse escasso o de Valíria abrangia mais detalhes dos reinos. 

    No total existiam nove, Eques Dracaries, Eques Nômades, Eques Gladius, Fygon Bahamut, Jurys Wolf, Flay Zarpids, Unity Popullus, Sarit Pyres e Phantom Wallpurg.

    Todos os reinos eram conhecidos e normalmente chamados pelo complemento final de seu nome.

    Como uma espécie de hierarquia, cada um dos nove reinos tinha uma característica única e as vezes uma função própria.

    Com Dracaries, Bahamut e Gladius sendo a Trindade de Valíria, eu já os conhecia, mas o restante me surpreendeu.

    Nômades tinha muitos festivais e competições todos os anos, cheio de comida e pessoas de Valíria inteira.

    Wolf aparentava ser bem agitada. Cada morador possuía um canino desde os seus quinze anos de idade. Todos eles eram animais elementares, embora selvagens, conseguiam controlar um Elemento sem perder o controle… gostaria muito de visitar aquele reino.

    Zarpids estava descrita como perigosa para viajantes. Aquele reino era conhecido pela grande variedade de itens mágicos de todos os tipos.

    Popullus tinha a melhor engenharia e o título de reino mais pacífico de Valíria. Com construções maravilhosas e ideias inovadoras voltadas a construção, fossem elas de carruagens e carroças ou casas e castelos.

    Pyres obtinha os melhores ferreiros, muito famosos por criarem as armaduras e escudos mais caros e poderosos que existiam. Periodicamente os caçadores encomendavam equipamentos daquele reino.

    Wallpurg, um reino a beira da grande muralha, assim como Wolf, Dracaries e Pyres. Eram conhecidos pelo arcanismo, conhecimento e pesquisas arcanicas. 

    Aparentemente existiam poucas florestas em Valíria. O livro descrevia somente uma floresta entre Dracaries e Bahamut, um pouco em Zarpids e também entre Wolf e Wallpurg.

    As outras regiões eram mais planícies, com exceção do outro lado da grande muralha.

    Um local montanhoso onde habitavam de acordo com o livro: “As piores feras mágicas existentes”.

    Ele também descrevia mais sobre a grande muralha em suas páginas.

    A muralha foi uma ideia implementada pelo primeiro Dominus. Utilizando o material mais resistente de Valíria, Adamantium ou Adamantino.

    Com a ajuda de diversos outros guerreiros, eles criaram a grande muralha.

    Graças ao Adamantino e seus arcanismos exuberantes, a muralha dificilmente sequer era danificada. Independente de qual fosse a magia usada.

    Sua altura era imponente, ela era imensa. Sendo possível enxergar a grande muralha basicamente de qualquer reino de Valíria.

    Embora tão importante ninguém nunca nomeou o outro lado, o temor das criaturas que lá habitavam não os permitiu. Todavia, diferente do habitat, nomearam aquelas bestas horrendas com um nome, demônios.

    O Ordem dos Caçadores foi um esquadrão criado pelo primeiro Dominus principalmente para exterminar os monstros daquele lado.

    Embora inicialmente aquele fosse o objetivo, as expedições para o outro lado foram todas, de acordo com o livro, “Uma sentença de morte certa”. Não demorou muito para o objetivo sair de exterminar, para conter.

    Finalmente, o mais importante de todos os livros, os Primordiais.

    Aquela parte embora interessante, era a mais escassa de todas.

    Tão escasso que qualquer alegria ou empolgação minha, foi rapidamente apagada.

    As únicas informações que poderiam ser obtidas do “livro” eram o nome e Elemento de cada Primordial.

    Vlouthier e Fhyrier eram Caos, Essência tinham os nomes Proffanus e Hayzard, Shyoto e Crystaline apareciam como os do Elemento de Espírito, e os últimos Primordiais eram Shyn e… As#∆… Ask&… os Primordiais de Energia…

    Passando minha mão pelo par de Shyn, uma sensação familiar dominava meu peito. Acreditava já ter ouvido aquele nome antes.

    Lembrava de Akiris mencionar aquele nome dentro da biblioteca.

    Eu estava folheando aquele mesmo livro sobre os Primordiais quando ele apareceu e começou a conversar comigo. Sim, tinha absoluta certeza daquilo, mas…

    — Por que não consigo me lembrar do que conversamos?

    De repente, comecei a escutar um barulho de ferro. Aparentemente, o barco estava atracando.

    Então, finalmente havíamos chegado no lugar mais seguro de Valíria, Ilha Venatorum. A base da Ordem dos Caçadores.

    O capitão começou a sair da cabine em direção ao mastro da vela.

    Com o som das gaivotas voando e o barco encostando na costa, Karla levantou descabelada olhando para os lados assustada.

    Saindo da cabine, não via Soltrone nem Yuki, mas escutei a voz do Akiris nos chamando.

    Guardei o último livro em minha pequena bolsa enquanto olhava de relance para trás confirmando não ter esquecido nada.

    Com os olhos para frente, enxerguei Akiris conversando com a Karla enquanto Soltrone descia planando da vela até eles.

    Antes de minha partida, o caçador Yuki saiu caminhando dos fundos da cabine em direção a eles.

    Caminhando em vossa direção, por um momento uma sensação estranha me capturou, o calor do sol havia sumido de repente.

    Observando a minha direita, existia uma sombra me sobrepondo, engolindo-me completamente.

    Parando minha marcha, a sombra também deixou de se mover.

    Com enorme receio, comecei a virar meu pescoço para minha direita; lá estava ele, Dominus. Mais uma vez parado e me encarando em silêncio.

    Após longos segundos, tirou seus olhos de mim e continuou a caminhar ao encontro dos demais. Sem pestanejar, fui o acompanhando um pouco mais distante.

    — Tiveram problemas na viagem? — ele questionou.

    — Até o momento, não — respondeu Akiris.

    — Ótimo. Como normalmente os caçadores caçam a noite, neste momento a maioria devem estar em repouso.

    Dominus levantou sua cabeça e observou em volta da encosta da ilha por um momento.

    — Por precaução, não saiam de perto de mim por enquanto. Soltrone e Yuki vocês estão livres para irem e descansarem se preferirem.

    No momento que Dominus terminou, Soltrone levantou voo e se afastou entrando na ilha.

    Yuki assustadoramente foi saindo do barco com seu braço esticado como se estivesse sendo guiado por alguém.

    — Uau, essa é a base dos caçadores? — Karla com uma expressão curiosa perguntou.

    — Para onde mais achou que estávamos indo?

    — Espera… não vamos entrar para os caçadores né?… Né?

    Karla observou Dominus em completo silêncio por um momento e rapidamente se escondeu atrás do Akiris.

    Aparentemente prestes a chorar, questionou outra vez:

    — Não, é?

    — Não, nós não viemos entrar para os caçadores, Karla.

    Soltou um longo suspiro e se jogou para trás.

    Sentada em cima das tábuas de madeira, respirou fundo e depois inspirou com uma mão a cima do seu peitoral.

    — Vamos — Dominus ordenou antes de sair andando.

    Akiris seguiu logo atrás dele, mas Karla não se levantou, apenas virou seus olhos para mim e passou a me encarar… olhava para mim, depois rapidamente para o lado e em seguida eu outra vez.

    Aceitando seu pedido, passei a descer do barco e seguir Dominus na frente de Karla.

    Diante a caminhada, preenchia minha mente com o conteúdo que outra hora havia lido.

    Ainda não entendia exatamente pelo o que cada Elemento era responsável, mas sentia ao menos ter feito algum progresso.

    Pelo caminho que Dominus nos guiava, existiam algumas árvores que eu nunca tinha visto. Seus troncos eram gigantes e a madeira grossa tinha uma cor muito clara.

    Suas grandes folhas tampavam completamente a trilha que seguiamos, formando uma espécie de teto natural em cima de nossas cabeças.

    Outra caminhada longa e silenciosa, a ilha aparentava ser maior do que eu imaginava.

    Já de uma certa distancia, conseguia enxergar algumas casas separadas em grupos de cinco. Aquelas deviam ser as moradias dos caçadores de Venatorum.

    Como o lorde dos caçadores pontuou, todos aparentavam estarem dormindo, não tinhamos visto um caçador sequer até aquele momento.

    — Baita lugar sem graça esse — Karla soltou olhando ao redor.

    Akiris e Dominus estavam completamente calados, não ligavam para qualquer barulho ou mesmo tiravam o olhar da trilha.

    Parando para pensar, o livro não especificava nada da Ilha Venatorum além de ser a base dos caçadores.

    Provavelmente os comerciantes não deveriam frequentar em nenhuma hipótese aquele lugar. O porto da ilha era minúsculo, com certeza não cabia nem mesmo três barcos naquela costa.

    Caminhamos pela estrada pela trilha por vários minutos até finalmente, chegarmos ao nosso destino. O objetivo em minha frente, logo prendeu minha atenção.

    Uma construção de concreto imensa com um sino enorme no topo, e telhados meio curvados sendo o teto daquela espécie de castelo.

    As janelas do lugar não possuíam vidro, eram completamente expostas ao ambiente de fora e em sua entrada, existia um portão que era muito maior que Dominus.

    Próximos a eles haviam duas placas com uma escritura que eu não compreendia. Todavia, abaixo daquela língua estranha estava o nome; “Catedral”. 

    Dominus se aproximou das portas gigantes e começou a abri-las. Ele nem ao menos se esforçava para empurrar as duas portas.

    Quando jaz aberta, surpreendentemente encontramos algumas pessoas dentro do local revestido de madeira.

    Alguns conversando, muitos olhando panfletos e outros descansando aos cantos.

    A grande maioria deles usavam um manto branco ou preto com o broche dos caçadores no centro. Outros, utilizavam roupas casuais ou formais com o broche amostra.

    — Vou resolver alguns assuntos inacabados na minha sala. Chamarei vocês quando acabar, por enquanto, estão livres para irem e virem.

    Dominus se retirou em direção a um corredor bem distante a direita.

    Naquela espécie de salão existiam três corredores, um a esquerda, um na frente, e outro a direita.

    A esquerda havia um painel com vários panfletos onde residiam desenhos e diversas informações pregradas nele.

    Perto do corredor central se localizava algo que aparentava ser uma espécie de loja. Ela capturou a atenção de Akiris que começou a se dirigir para a mesma.

    Mais a direita, encontrei um grande balcão com uma mulher de cabelo curto, olhos pretos e um longo vestido cinza claro com um broche em seu peito.

    Karla começava a rodear os corredores e Akiris conversava com um vendedor. Roupas cinzas, cabelo lambido para trás, óculos, um relógio de bolso pendurado a sua calça e pelo jeito um broche no peito.

    Sem ideia do que eu poderia arrumar para ocupar minha mente, eu me direcionei a um banco de madeira próximo também do corredor central. Sentei e me apoiei na parede olhando para cima.

    O teto possuía uma espécie de corrente gigante com uma iluminaria evidente aprisionada em uma espiral de metal.

    A luz do sol não iluminava o suficiente daquele lugar, embora aquela iluminaria fosse gigantesca, haviam outras aos cantos daquela ala.

    Enquanto eu observava o lugar, percebi Karla se aproximando da loja, ela olhou a placa e em seguida retirou um cristal vermelho de um pequeno compartimento nas costas da armadura.

    Em poucos segundos após sua entrada, Akiris saiu da loja portanto algo diferente. Usava botas marrom claro com duas asas pequenas em seu topo.

    Sentia uma sensação estranha olhando para elas. Estávamos nos comunicando, elas ansiavam pelo meu toque, meu olhar, meus pés…

    Então aquele era o sentimento de entrar em contato com um Item arcanico.

    Focado na bota, três caçadores de Venatorum se aproximaram de mim pelo corredor central.

    Um com os olhos azuis e pupilas pretas como Yuki, em seus olhos se encontravam olheiras perante suas pálpebras.

    Não devia dormir decentemente a um tempo, o que me fazia questionar como o seu cabelo estava arrumado com diversas mechas sólidas.

    O homem encapuzado ao seu lado, embora fosse mais baixo e passasse uma sensação impotente, ele era muito mais forte que o seu colega.

    A frente dos dois estava um homem do tamanho de Gaius, ele era estupidamente forte, parecia uma muralha.

    Usava uma regata preta por baixo do manto branco dos caçadores, uma calça preta comum e andava descalço pelo salão.

    Aquele homem era um membro dos caçadores, parte da elite, mas, seus olhos eram iguais aos da moça do balcão, iguais aos de minha mãe, iguais aos de Akiris… aquele homem era um Nullu.

    — Fala ae, de onde você é? Um novato? — ele perguntou.

    O homem ficou estático esperando minha resposta. Ele aguardou por alguns segundos e então continuou.

    — Você ta bem, garoto?

    — Ah… sim… estou sim, obrigado. — o aliviei passando a mão em meu rosto.

    — Mesmo?… Certo então, que bom. Prazer em te conhecer novato, me chamo Cariani.

    — Prazer, sou Wally.

    — Esses dois irmãos aqui são Rios e Riuty, Rios é o do capuz e esse cabeludo é o Riuty.

    — Muito prazer, Wally — os dois disseram ao mesmo tempo.

    — Garoto, você… está parecendo um palito. Pelos céus! — apertava meus ombros enquanto falava.

    — Que tal treinar um pouco conosco? — soltou a opção sorrindo em minha direção.

    — Treinar?

    — Claro, a melhor forma de extravasar sentimentos ou pensamentos é com os punhos. — Cariani pontuou já me levantando com seus braços.

    Não os respondi, logo, os três começaram a me guiar de volta por onde eles vieram.

    Enquanto Cariani sorria deliberadamente, os outros dois aparentavam cansados e frustrados com suas mãos na cabeça.

    Não demorou muito para estarmos em frente a uma porta escura onde residia na madeira, “Treinamento”, Rios tomou a frente e ababriu.

    Logo atrás de seu irmão Riuty também entrou, por último, passei junto a Cariani.

    Depois da porta, uma sala enorme. Vários equipamentos para treinos em um canto e no outro vários bonecos parados. Todos exalavam um sentimento estranho, com certeza bonecos arcanicos.

    Rios fechou a porta e foi em direção aos equipamentos, enquanto Cariani e Riuty me levaram até os bonecos.

    — Seguinte, não tem como deixar você menos palito em algumas horas, mas podemos ensinar técnicas de luta que vão ajudar você a se defender, o que me diz? — Cariani falava enquanto se alongava.

    — Pareço tão fraco assim? — questionei observando meu corpo.

    — Pra ser sincero, ta evidente até de mais — proclamou Riuty.

    — Sei…

    — Relaxa campeão, todos temos pontos fortes, o nosso é a força física, o seu… bom… temos poucos médicos na ilha — Cariani tentou me confortar sorrindo desconfortavelmente.

    — Cariani, os olhos dele são amarelos.

    — Sim, mas quantos Híbridos você conhece de apenas um elemento?

    — É… acho que tem razão — concordou Riuty. — Ei, Wally, quantos Elementos você já é capaz de usar?

    — Ah… nenhum.

    Quando respondi a pergunta de Riuty os dois ficaram instantâneamente… incrédulos.

    O ambiente completamente silencioso e seus rostos impregnaram uma impressão tensa na sala rapidamente.

    Fazendo parecer até que eu havia dito a coisa mais abominável possível.

    — NENHUM?!… Quantos anos você tem?! — Riuty perguntou com suas mãos na cabeça.

    — … Dezesseis.

    — Dezesseis?… O mais tardar que uma criança começa a manipular o Elemento que possui afinidade… é aos quatorze…

    — Isso é tão grave assim? — perguntei a Riuty.

    — Dois anos de atraso certo? É, isso é bem ruim. No mais normal dos casos as crianças começam a se comunicar com seu afínuo aos dez, nos quatorze já dominam o básico da sua afinidade — Cariani explicou com um olhar abatido.

    — No caso dos outros Elementos eles são muito mais difíceis de manusear, uma pessoa comum que não mergulha muito no mundo do arcanismo, vive sua vida inteira com domínio geralmente de no máximo sua afinidade e mais um Elemento.

    — Não é normal uma criança se tornar caçador, e ainda por cima sem arcadismo algum? — Riuty realizou uma breve pausa.

    — Os caçadores mais jovens na história, foram Soltrone e Yuki com dezessete. Mas, aqueles dois Híbridos são prodígios escolhidos a dedo por Dominus.

     — Os dois garotos realmente são monstros, eles já conseguem utilizar os quatro elementos nessa idade… talvez um dos dois até se torne o novo Dominus um dia — Cariani completou rindo de braços cruzados.

     — Então você não vai entrar para a ordem não é?… Já sei, é um convidado do Dominus — Riuty afirmou batendo sua mão direita na palma de sua outra mão.

    — Esquece isso, Riuty, acho que perdemos o foco. Viemos aqui pra fazer você extravasar, então que tal começarmos de uma vez?

    Cariani imediatamente voltou a se alongar. Riuty seguiu a deixa e passou a realizar o mesmo, logo, eu não seria o único a ficar de fora.

    Bastava olhar para conseguir a convicção que eu não possuía chance alguma de os vencer em um combate real.

    Os caçadores estavam em um patamar muito a cima dos meros cavaleiros dos nove reinos.

    — Beleza, to pronto. Antes de ensinar qualquer coisa, quero ver do que você é capaz. — Cariani clamou estalando seu pescoço.

    O sorriso bobo dele havia sumido, em seu lugar um semblante sério e frio. Sem nenhum aval de meu lado, Cariani entrou em pose de luta.

    Suas pernas estavam alinhadas e separadas, sua cintura levemente direcionada para frente e seus braços se encontravam a frente da cabeça, ele não pretendia contra-atacar.

    Sem enrolação, fiquei apostos. Não conseguia pensar no que fazer ou quando fazer, minha única luta de verdade havia sido apenas a quase dois dias.

    — O que foi garoto?

    Não fazia sentido tardar mais minhas ações, embora estivesse receoso, aquilo era um treinamento e não um combate real.

    Comecei a me aproximar de Cariani um pouco displicente, com minha guarda levantada e o observando atentamente.

    Como meu primeiro golpe, um soco com o punho direito.

    Quase no momento do impacto, troquei minha postura através de um pequeno pulo, recuando o soco direito e avançando com um esquerdo.

    O impacto estremeceu meus músculos, a dor repassada para meus ossos tentavam me agoniar, porém, Cariani mal se mexeu.

    Ele apenas me observava parado com sua postura em pé e um leve sorriso se abrindo.

    Obviamente… não seria fácil. Recuando levemente para trás ao cair do ar, realizei diversos pulos consecutivos preparando rapidamente uma rasteira.

    Cariani parecia desprevenido, entretanto, antes de encostar em seu corpo, usou sua perna esquerda para pisar na minha direita.

    Tentei segurar o grito de dor que aquele brutamente me entregou, mas um pequeno grunhido escapou.

    Cariani era difinitivamente forte, um Nullu simplesmente bizarro.

    Rapidamente retirou sua perna de cima, e o seu sorriso se esboçou outra vez. Por fim, estendeu sua mão para baixo me chamando para cima dele.

    Não confiava nem um pouco que poderia derrotar Cariani… mas… 

    — Será mesmo que nem ao menos um golpe?

    Eu não tinha capacidade nem de acertar Cariani uma única vez sequer?…

    Andando de um lado para o outro, sentindo uma dor agoniante em minha perna, em frente a Cariani, finalmente percebi, estava me subestimando.

    Abaixando minha guarda, claramente não me preocupando com minha defesa, aproximava-me rodando ao redor de Cariani. Seu rosto mudou completamente, estava desapontado.

    — É SÓ ISSO QUE VOCÊ TEM?! — exclamou se virando para mim em suas costas e realizando um poderoso soco.

    Lançando-me ao chão, passei pelas suas pernas abertas. Antes de se equilibrar novamente, joguei-me para a esquerda segurando em sua camisa.

    Com minha perna esquerda me impulsionei para suas costas gigantes, onde iniciei um enforcamento.

    Um golpe engenhoso que aprendi após assistir diversas vezes Gaius o utilizando para punir Gal.

    Com meus braços flexionados, apertava com todas as minhas forças, meus musculos se contraíam e minhas veias saltavam… mas nada daquilo era o bastante. Cariani gargalhou com as mãos na cintura e disse:

    — Você é bem rápido garoto, impressionante. Mas… foi uma péssima escolha.

    Com o peso do seu corpo, levantou-se ao se jogar para frente, e sem seguida, realizou um grande salto para trás.

    O chão se encontrou com meu crânio, com o peso de seu corpo esmagando meu peito e estômago.

    A falta de ar era um problema claro naquele momento, logo eu estaria inconsciente… aquilo era… humilhante. Como se eu fosse mais uma vez, uma mísera formiga sendo esmagada.

    — Vai matar a criança! — gritou Riuty a distância.

    Cariani de repente cessou sua gargalhada e se jogou para o lado. Caindo estatisticamente como se fosse uma pedra.

    Com aquele urso em pele humana fora de cima, recuperava aos poucos meu fôlego de volta.

    Enquanto eu respirava profundamente era inevitável não perceber algo de diferente nos olhos de Cariani, no preto sombrio existia uma circunferência azul se mexendo levemente.

    Mais a frente, em pé com a mão esquerda estendida enxerguei o encapuzado Rios. Após Cariani ter caído ao lado, Rios bufou e se virou para de volta aos equipamentos.

    No mesmo instante, o brutamonte balançou a cabeça, olhou para os lados, em seguida para trás, e gritou:

    — Já falei pra não usar comando em mim, Rios!

    Riuty caminhou em minha direção passando por Cariani e realizando um soco atrás de sua cabeça.

    — Wally, você sabe de que Elemento foi aquela magia?

    — Sim… eu… sei sim. Espírito, não é?

    — Correto. Então você entende sobre os Elementos no geral, menos mal.

    Cariani com suas mãos em seu cabelo se virou de volta para nós e disse:

    — Aí, garoto, você cometeu dois erros enormes.

    Começava a se levantar do chão gelado da sala de treinamento me encarando sem piscar.

    — Primeiro, você foi pra cima de alguém claramente mais forte que você sem um plano concreto. Segundo, utilizou golpes que necessitam de força bruta sem possuir essa força. — ele terminou orgulhoso enquanto Riuty aparentava decepcionado.

    — Tenho uma ótima dica pra você, se você quer ficar mais forte, precisa rapidamente aprender a controlar ao menos sua afinidade ou como alguns chamam, seu Elemento afínuo. Além disso, quero que treine a sua capacidade de forçar os músculos de regiões específicas do seu corpo.

    — Você é rápido Wally, se fizer o que Cariani diz vai ser mais resistente em combate.

    — Mas o principal que quero que aprenda é a utilizar melhor os meios que estão a sua disposição. Por exemplo, quando estiver corpo a corpo você pode atordoar seu adversário com uma cabeçada. Ninguém nunca espera uma cabeçada.

     Antes de Cariani prosseguir, escutamos a porta da sala se abrindo. Perante a ela estava Yuki. Ele caminhou até nossa direção cumprimentando todos com a cabeça.

    Cariani levantou imediatamente sua mão acenando para ele.

    — Veio treinar com a gente Yuki?

    — Não, dessa vez eu passo. Vim para levar o Wally até a sala do Dominus.

    — Vish, você está encrencado garoto. A sala do Dominus é tão ruim quanto encarar um monstro com Caótico de Energia — Cariani explicou rindo de minha situação.

    — O que ele fez Yuki? — perguntou, Riuty.

    — Ah, o Wally? Não sei dizer, por quê?

    — Então Dominus está chamando apenas para… conversar?

    — Sim.

    — Entendo. — terminou colocando uma mão sem seu queixo.

    — Sério mesmo?! Bom, que sorte então. Foi mal pelo susto, Wally. — Cariani riu ao sentar no chão da sala.

    — Então, podemos ir? — Yuki solicitou olhando para mim.

    — Claro…

    Limpei a marca gigante do pisão na minha calça junto da sujeira e ao resto da roupa amarrotada pela luta.

    Abaixei as mangas da blusa e me virei para Cariani.

    — Obrigado, Cariani, aprendi muito com você. Com você também Riuty, obrigado de verdade.

    Em meio a troca de sorrisos, retornei para a mesma direção de Yuki e comecei ao acompanhar para a saída da sala de treinamento.

    — Boa sorte, garoto! — ouvi Cariani gritando.

    Virei-me de relance e sinalizei um joia para os dois.

    Quase passando pela porta acenei em despedida para Rios que balançou a cabeça em positivo para mim enquanto levantava alguns ferros.

    Aquela foi a primeira vez que fiz amizade com outras pessoas.

    Sentia-me muito melhor, havia conhecido Yuki, Cariani, Riuty e até mesmo Rios.

    Como se tivesse de verdade novos amigos… aquilo afugentou a dor no peito. Então, assim que era… sentir felicidade.

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