No alto da cúpula que cobria a estação, caso seja olhado embaixo, estavam as sessenta vítimas deitadas ao chão. Dois trens estavam parados, com as portas abertas, servindo de cobertura para a visão dos prédios e das janelas, já que é um espaço aberto, com uma cobertura sobre a área de espera. 

    Um dos homens trazia uma caixa de munição, preenchida de estojos de calibre alto, em tiras distendidas, e então batia sobre o ombro de um outro colega que estava deitado sobre o balastro. Então, foi até um dos líderes, ligando-o por rádio para lhe fazer uma transmissão à distância — em cada um deles, estavam com adesivo da polícia. Após prostrar deitados sem esperança, ouviram o capitão fazer uma transmissão.

    “Oitava divisão armada pronta para ação, protocolo vermelho próximo de entrar em operação. Diplomacia falha está requisitada”, disse, “constam alguns empresários e secretários administrativo no pêndulo da morte. A munição é suficiente.”

    O capitão arregou sua pistola semiautomática, guardando-a de volta ao coldre. Por uns instantes, esperou por uma resposta, sentindo-se à obrigação de ser honesto. Mas percebeu um silêncio que o irritou, e o tornou a cerrar a boca com preocupação.

    “Será um sustinho que valerá de pouco, e vamos fazê-lo do nosso jeito. Sem loucuras“, enfatizou, aliviando as formalidades da radiocomunicação, “portanto, repense muito bem. Sua organização precisa disso para sobreviver: quanto mais cumprir com a honra do contrato. Avalie-o muito bem. Estamos sob um ponto crítico.”

    “Esse é o dinheiro que move os macacos: vocês precisam disso, é verdade”, retrucou uma voz severa e envelhecida, sem consideração pela brevidade de suas palavras e muita secura. Caiu-lhe um desagrado contagiante ao capitão que, desmantelado por aquela resposta sombria, fechou seu rosto em repreensão, “mas não garanto que ele será de tanta utilidade, em especial pela sujeira. Era melhor assaltar um banco se quisessem dinheiro. Leve razão para si, pois precisará mais dela!”

    “Limpamos dinheiro há décadas, e melhor do que seus amigos no Parlamento, não enche. Isto tudo é fácil. Não perca tempo pensando sobre o dinheiro ser imoral e não espalhar ideias, que aí ficará chato”, bradou, puxando um dos reféns para mais perto do atirador sobre a escada rolante, “há sempre uma parte nesse mundo para cada um.”

    Desesperada, a mulher chorou e ficou aos prantos com uma pistola na cabeça, espremendo o estriado do cano sobre os cabelos dela, quase lhe fazendo uma marca pela força brutalmente aplicada nela.

    “Quanta gracinha para alguém esquecido. O dinheiro não é Deus, não vem fácil. A morte desses policiais entra nesse acordo: não se cria justiça sem antes atormentar a injustiça”, a grossa língua do homem rasgava o capitão em pedaços, atordoado por aquela insanidade.

    “Deixe-os entrar,” assim ordenou.

    “Você é retardado?! Os policiais que se fodam para lá! Eu falei que vamos fazer isso rápido”, exclamou novamente. “Quantos teremos que matar, então? Nossa escape estará comprometida. Faça você mesmo!”

    “Ah, injustiça. Somente se a combate através de uma jovialidade tão grande, igual a sua. Infinitamente estúpida”, disse o velho, com a voz fria, “eu consigo dinheiro de outras formas. O contrato diz que essa grana será de vocês, abaixe os ânimos. Mas há um porém: se deixá-los entrar sem resistência, ocorre que ele simplesmente se rasgará, porque o nosso espetáculo tão esperado não se realizaria. Não é doce de criança para ficar tirando. Esse é o momento: está na hora de se usar o chicote. O velho escravo sempre volta ao seu mestre para pedir socorro.”

    “Então como você quer o dinheiro?”, esbravejou o capitão, indignado. “E largue de nos chamar de assaltantes! Assassinos de aluguel? Longe disso. Se fosse assim era melhor ter mandado uma pessoa. Vai ter que aturar, pois isso é uma operação séria e profissional. Nada além disso! Fazemos o serviço rápido, e quem fica com a parte de roubo são os contratantes, assim como a nossa parte. Que merda! Já estava pensando que o senhor estava agindo esquisito, mas parece que você é um esquizofrênico mesmo.

    “É por isso, velhote, que não podemos matar, porque aí eles não vão fazer negócio e vão marcar o dinheiro que vier daqui. Está percebendo isso, gênio? Eu não sei o que seus subordinados têm com tradição. Ui, vingança! Ou com sei lá mais o quê. Eu sou burro! Eu estou aqui pela porcaria do contrato que precisa ser seguido pelo senhor também. Não vendemos extremismo sem pagamento, estou me cagando para suas ideias de raça. Até entendo que seja um desejo seu, você pode pedir e a gente faz acordo, mas como infernos você fará isso sem a porra do dinheiro se nós matarmos os policiais? Eles não vão nos pagar, você está entendendo?”

    Largou a mulher próxima do atirador, poupando-a com a vida por ora; no entanto, ele não reagiu, mas após um tempo ali, de súbito, como um monstro empossado, entregou um rifle a ela. Amarrou as mãos dela sobre o rifle, uma sobre o cano, sobre o gatilho, e vedou a boca dela com uma fita, e travou a arma.

    “Nós não vamos fazer isso!”, berrou, “são os seus reféns que farão esse favor então, os que você pediu. Se acontecer de alguém tentar passar, por ordem que nós não demos, faremos questão de punir os desertores. Não vou ficar dando suporte para suas loucuras”, depois, acenou para o atirador que saiu de posição para ir às outras escadas rolantes. “Nós vendemos terrorismo de bem, de gente que é normal, não essa insanidade fascista. Vai se foder se ainda pensar que somos do mesmo saco! Está muito cedo para ir embora sem consequências”, declarou rispidamente.

    “Seu álibi está morto. Está assassinado desde o dia em que assinou o contrato com esses desprezíveis”, enojou-se, descosturando a humanidade pertinente a voz por uns instantes, tal qual um ruído imprevisto de um rádio quebrado, “Por que será? Que azar alcançaria tão cedo o anseio de livrar-se de um importúnio invisível a quem não quer ver?”, gracejou-se, retocando as sutis de que maliciosamente sorria do outro lado “Que pena. Deveria saber, pois eu nunca disse que a vida ou a morte dos reféns importava. Quem importa mesmo são os policiais, assim como importaram aqueles mestres na Academia de Sendai. Seu heroísmo está enterrado de frente à justiça cega. Ela caminhará por cima, para pedir ajuda.”

    Ao se lembrar do incidente, o capitão segurou a língua: além das forças secretas, ele também tinha de enfrentá-lo para saber mais. Seu tom ficou severo, deixando-o quase sem palavras, entortando o olhar. 

    “Todo contrato foi assim desde que nos conhecemos. Porém, de repente, suas morais agora mudaram; então eu pergunto, qual a grande diferença, afinal? Tanto aqueles feiticeiros como esses policiais anseiam invadir. Mas a polícia não tem a hierarquia e a sacralidade dos feiticeiros, pelo contrário, eles têm mais um motivo: estão sedentos para distrair a mídia de sua silenciosa operação na delegacia. Essa, que nunca existiu”, a voz ruidosa travou-o inteiramente.

    “Eles soltaram os cães contra cada um de seus soldados, capitão. Se não for o sangue deles, haverá de ser o de cada um de seus colegas. Eles estão com sede.”

    O homem armado se horrorizou em seguida diante do que foi dito, mordendo o beiço. Logo, olhou para os lados vendo os homens armados e se recusou a acreditar, sua respiração ficou pesada, o que reacendeu o caos de seu contratante.

    “Ora! Então, o rato não sabia disso até então? Trabalhou tanto tempo com exércitos e se esqueceu de que a modernidade rastejou sorrateiramente debaixo de seus sapatos? Aquela que julgou tanto, com toda convicção, sem se dar conta de que estava na ponta da língua? Que trágico. Se não foi capaz um Sergei rato, de lhe avisar, quem diria uma multidão”, riu bem alto, provocando desconforto e desalento jamais tão dolorosos no capitão.

    Чёртов змей!1 Se estiver dizendo que essa operação nem existe, eu vou matá-lo e castrá-lo vivo, seu pedófilo do caralho!”, indagou alto o militar, embora soubesse que a gravidade de sua voz o esmagaria mais abaixo nesse poço. As ameaças, no entanto, não sobreviveram às paredes da mortalidade.

    “Não assuste sua plateia, senhor capitão. Ora, tudo o que me disse agora foi exatamente o que fiz, camarada”, respondeu a voz, “o policial que trancou a Delegacia foi um dos que chantageou a polícia metropolitana, e os que estão dentro possuem informações sensíveis a respeito do esquema. No fim, não fui eu que fiz isso, muito menos eles. Mas que consequências maravilhosas, não são?”


    1. Mentiroso, impostor, lit. “serpente desgraçada”.[]

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