Capítulo 7: A Prisão de Mil Faces (1)
No alto da cúpula que cobria a estação, caso seja olhado embaixo, estavam as sessenta vítimas deitadas ao chão. Dois trens estavam parados, com as portas abertas, servindo de cobertura para a visão dos prédios e das janelas, já que é um espaço aberto, com uma cobertura sobre a área de espera.
Um dos homens trazia uma caixa de munição, preenchida de estojos de calibre alto, em tiras distendidas, e então batia sobre o ombro de um outro colega que estava deitado sobre o balastro. Então, foi até um dos líderes, ligando-o por rádio para lhe fazer uma transmissão à distância — em cada um deles, estavam com adesivo da polícia. Após prostrar deitados sem esperança, ouviram o capitão fazer uma transmissão.
“Bicho-papão na transmissão. Agora, sim. Chegou a hora. O protocolo vermelho será acionado em breve, sem perspectiva de diplomacia”, disse. “Pau no cu deles! De agora em diante, se entrarem aqui sem obedecer às nossas ordens, como o senhor prescreveu, abriremos fogo”, carregou sua Beretta M9, guardando-a de volta ao coldre. Por uns instantes, esperou por uma resposta, sentindo-se à obrigação de ser honesto.
“Será um sustinho que valerá de pouco, não se preocupe. Eu repito: apenas um sustinho, sem loucuras! Agora, o Senhor pode não concordar com a proposta de dinheiro. Mas cá entre nós, não vale a pena. O senhor precisará dele para fazer sua organização sobreviver: quanto mais cumprir com a honra do contrato”, exclamou, aproximando o microfone à boca para aumentar seu tom.
“Mas é claro. É difícil que um primata como o senhor esqueça mesmo. Afinal, esse é o dinheiro que move os macacos: vocês precisam disso, é verdade”, retrucou uma voz severa e envelhecida, sem consideração pela brevidade de suas palavras e muita secura.
“Mas não garanto que ele será de tanta utilidade, em especial pela sujeira. Era melhor assaltar um banco se quisessem dinheiro. Leve razão para si, pois precisará mais dela!”, continuou, para o desagrado do capitão que, desmantelado por aquela resposta sombria, fechou seu rosto em repreensão.
“Limpamos dinheiro há décadas, e melhor do que seus amigos no Parlamento. Isto tudo é fácil. Não perca tempo pensando sobre o dinheiro ser imoral ou que não espalha ideias, que aí ficará chato. É simples: as pessoas precisam de levar a sua parte e sobreviver. Não é complicado”, bradou, puxando um dos reféns para mais perto do atirador sobre a escada rolante.
Desesperada, a mulher chorou e ficou aos prantos com uma pistola na cabeça, espremendo o estriado do cano sobre os cabelos dela, quase lhe fazendo uma marca pela força brutalmente aplicada nela.
“Quanta gracinha para alguém esquecido. Vocês por acaso não se lembram da cláusula do contrato? O dinheiro não é Deus, não vem fácil. A morte desses policiais entra nesse acordo: não se cria justiça sem antes atormentar a injustiça”, a grossa língua do homem rasgava o capitão em pedaços, atordoado por aquela insanidade.
“Deixe-os entrar,” ordenou.
“Você é retardado?! A gente quer só o dinheiro, os policiais que se fodam para lá! Eu falei que vamos fazer isso rápido”, exclamou novamente. “Quantos teremos que matar, então? Se isso acontecer, não vai ter negociação e nossa rota de escape estará comprometida. Se o Senhor quer isso, faça você mesmo!”
“A injustiça se combate através de uma jovialidade tão grande quanto a sua. A mesma que pode ser estúpida”, disse o velho, com a voz fria. “Eu consigo dinheiro de outras formas. O contrato diz que essa grana será de vocês, abaixe os ânimos. Mas há um porém: se deixá-los entrar sem resistência, ocorre que ele simplesmente se rasgará, porque o nosso espetáculo tão esperado não se realizaria. Não é doce de criança para ficar tirando. Esse é o momento: está na hora de se usar o chicote. Sem dúvidas, é a melhor parte, em que o escravo virá ao seu mestre à mercê de sua vontade, e o mundo se inverte.”
“Então como você quer o dinheiro?”, esbravejou o capitão, indignado. “E largue de nos chamar de assaltantes! Assassinos de aluguel? Longe disso. Se fosse assim era melhor ter mandado uma pessoa. Vai ter que aturar, pois isso é uma operação séria e profissional. Nada além disso! Fazemos o serviço rápido, e quem fica com a parte de roubo são os contratantes, assim como a nossa parte. Que merda! Já estava pensando que o Senhor estava agindo esquisito, mas parece que você é um esquizofrênico mesmo.”
“É por isso, velhote, que não podemos matar, porque aí eles não vão fazer negócio e vão marcar o dinheiro que vier daqui. Está percebendo isso, gênio? Eu não sei o que os senhores têm com a tradição. Ou com sei lá mais o quê. Eu não ligo. Eu estou aqui pela porcaria do contrato que precisa ser seguido pelo senhor também. Não vendemos extremismo sem pagamento, estou me cagando para suas ideias de raça. Até entendo que seja um desejo seu, você pode pedir e a gente faz acordo, mas como infernos você fará isso sem a porra do dinheiro se nós matarmos os policiais? Eles não vão nos pagar, você está entendendo?”
Largou a mulher próxima do atirador, poupando-a com a vida por ora; no entanto, ele não reagiu, mas após um tempo ali, de súbito, como um monstro empossado, entregou um rifle a ela. Amarrou as mãos dela sobre o rifle, uma sobre o cano, sobre o gatilho, e vedou a boca dela com uma fita, e travou a arma.
“Nós não vamos fazer isso!”, berrou. “São os seus reféns que farão esse favor então, os que você pediu. Se acontecer de alguém tentar passar, por ordem que nós não damos, faremos questão de punir os ‘traidores’ e desobedientes. Mas eu não vou ficar dando suporte para essas loucuras”, depois, acenou para o atirador que saiu de posição para ir às outras escadas rolantes.
“Nós vendemos terrorismo de bem, não essa insanidade fascista.”
“Não há álibi que os salvará da prisão, estulto. Menos ainda ele vai fazer valer o seu heroísmo no tribunal. Por que será?”, gracejou-se, como se não fosse preciso tanta atenção para perceber que sorria maliciosamente do outro lado do rádio. “Que pena. Deveria saber, pois eu nunca disse que a vida ou a morte dos reféns importava. Quem importa mesmo são os policiais, assim como importaram aqueles mestres na Academia de Sendai.”
Ao se lembrar do incidente, o capitão segurou a língua: além das forças secretas, ele também tinha de enfrentá-lo para saber mais. Seu tom ficou severo, deixando-o quase sem palavras, entortando o olhar.
“Todo contrato foi assim desde que nos conhecemos. Porém, de repente, suas morais agora mudaram; então eu pergunto, qual a grande diferença, afinal? Tanto aqueles feiticeiros como esses policiais anseiam invadir. Mas a polícia não tem a hierarquia e a sacralidade dos feiticeiros, pelo contrário, eles têm mais um motivo: estão sedentos para distrair a mídia de sua silenciosa operação na delegacia. Essa, que nunca existiu”, a voz ruidosa travou o capitão em silêncio, sem saber como reagir
“Sim, é isso mesmo: virão com tudo até vocês. A partir daqui, nada é responsabilidade minha. Afinal, a culpa é só e somente da polícia mesmo…”
O homem armado se horrorizou em seguida diante do que foi dito, mordendo o beiço. Logo, olhou para os lados vendo os homens armados e se recusou a acreditar, sua respiração ficou pesada, o que acendeu o contratante.
“Ora! Então, o senhor não sabia disso até então? Trabalhou tanto tempo com exércitos e se esqueceu de que a modernidade rastejou sorrateiramente debaixo de seus sapatos? Aquela que julgou tanto, com toda convicção, sem se dar conta de que estava na ponta da língua? Que trágico. Não foi capaz um Sergei de lhe avisar, quem diria uma multidão”, riu bem alto, provocando desconforto e desalento jamais tão dolorosos no capitão.
“O que infernos você fez?! A Delegacia está trancada, eles vão para lá. Você falou que distraiu a polícia e está dizendo que essa operação nem existe”, ainda que o Capitão perguntasse, falar mais alto não seria de grande tamanho para salvá-lo.
“Mas foi exatamente o que fiz, camarada”, respondeu a voz. “O policial que trancou a Delegacia foi um dos que chantageou a polícia metropolitana, e os que estão dentro possuem informações sensíveis a respeito do esquema. No fim, não fui eu que fiz isso, muito menos eles. Mas que consequências maravilhosas, não são?”
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