Antes de começarmos, só uma ‘dica’ ao ler essa história, o autor adora a ideia da ‘Arma de Chekhov’ (aquele princípio narrativo que afirma que todo elemento introduzido em uma história deve ter relevância e ser utilizado posteriormente na trama.), por isso, ele joga muitas dicas sutis da trama em meio a referências, situações e etc. Caso goste deste tipo de história, estará bem servido!
Capítulo 1: A Sala Vazia
Uma velha lâmpada de tungstênio estava pendurada no centro da sala por um fio preto, piscando com uma luz fraca.
A atmosfera silenciosa era como tinta pingando em água limpa, espalhando-se e manchando o interior do ambiente.
Bem no centro da sala, havia uma grande mesa redonda que parecia extremamente manchada e desgastada. No centro da mesa repousava um pequeno relógio com padrões muito complexos, que naquele momento fazia tique-taque.
Ao redor da mesa, sentavam-se dez pessoas com roupas variadas. Suas vestimentas pareciam um pouco esfarrapadas e seus rostos estavam manchados de poeira.
Algumas estavam debruçadas sobre a mesa, outras recostadas nas cadeiras, todas dormindo profundamente.
Ao lado dessas dez pessoas, estava parado em silêncio um homem usando uma máscara de cabeça de bode e um terno preto.
Seu olhar penetrava através da velha máscara de bode, encarando as dez pessoas com bastante interesse.
O relógio na mesa tocou, os ponteiros dos minutos e das horas apontando simultaneamente para o “doze”.
De um lugar muito distante, fora da sala, soou o badalar grave de um sino.
No mesmo instante, os dez homens e mulheres sentados ao redor da mesa redonda acordaram lentamente.
Depois de despertarem aos poucos, primeiro olharam ao redor com perplexidade e depois olharam uns para os outros com dúvida.
Pelo visto, nenhum deles se lembrava do motivo de estar ali.
“Bom dia, aos nove”, disse o Cabeça de Bode, sendo o primeiro a falar, “é um prazer encontrá-los aqui. Vocês dormiram na minha frente por doze horas.”
O traje do homem à frente deles era verdadeiramente bizarro, assustando a todos sob a luz fraca.
Sua máscara parecia ter sido feita com uma cabeça de bode de verdade. Muitos dos pelos já tinham ficado amarelos e pretos, emaranhados e grudados uns nos outros.
Dois buracos vazios foram escavados onde deveriam ficar os globos oculares da máscara, revelando os olhos astutos do próprio homem.
Cada um dos seus movimentos não apenas exalava o cheiro de sebo e sangue exclusivo dos bodes, mas também um leve odor de podridão.
Um homem com os braços cobertos de tatuagens ficou atordoado por alguns segundos antes de finalmente perceber a falta de lógica de toda a situação. “Quem… é você?” perguntou ele ao Cabeça de Bode, com hesitação.
“Acredito que todos vocês têm essa dúvida, então vou me apresentar a vocês nove.” O Cabeça de Bode acenou com as mãos alegremente, parecendo já ter a resposta preparada há muito tempo.
Qi Xia estava sentado no lugar mais distante do Cabeça de Bode. Ele rapidamente avaliou a situação dentro da sala e, pouco depois, sua expressão tornou-se grave.
Estranho, esta sala é estranha demais.
Não há porta aqui, os quatro lados são paredes.
Em outras palavras, os arredores, o teto e o chão desta sala são totalmente fechados, mas por um acaso há uma mesa bem no centro.
Sendo assim, como viemos parar aqui?
Será que primeiro trouxeram as pessoas e depois construíram as paredes?
Qi Xia olhou ao redor novamente. Fosse no chão, nas paredes ou no teto, havia linhas que se cruzavam horizontal e verticalmente em toda parte. Essas linhas dividiam as paredes e o chão em vários quadrados grandes.
Outro ponto que chamou a atenção de Qi Xia foi a palavra “nove”, dita pelo Cabeça de Bode.
Sentados ao redor da mesa redonda, não importava como ele contasse, havia dez pessoas. Somando com o próprio Cabeça de Bode, havia um total de onze indivíduos nesta sala.
O que quer dizer com “nove”?
Ele enfiou a mão no bolso. Como era de se esperar, o celular já tinha sido confiscado.
“Não há necessidade de se apresentar para nós”, disse uma mulher de semblante frio ao Cabeça de Bode, “aconselho que você pare com isso o quanto antes. Suspeito que você já nos aprisionou por mais de vinte e quatro horas, o que configura o crime de cárcere privado. Cada palavra que disser agora será registrada e se tornará um testemunho contra você.”
Enquanto falava, ela esfregava a poeira de seus braços com desgosto, como se odiasse mais ficar suja do que ser mantida em cativeiro.
As palavras da mulher trouxeram um choque de realidade para os demais. Fosse quem fosse o sequestrador, ousar sequestrar dez pessoas sozinho era, sob qualquer perspectiva, ultrapassar a linha da lei.
“Espere…” interrompeu um homem de meia-idade vestindo um jaleco branco, cortando a linha de raciocínio de todos. Ele olhou lentamente para a mulher e perguntou: “Nós acabamos de acordar. Como você sabe que fomos aprisionados por ‘vinte e quatro horas’?”
Seu tom de voz era calmo e firme, mas ia direto ao ponto.
A mulher apontou para o relógio na mesa sem pressa e respondeu: “O relógio aqui aponta para as doze horas. Mas eu tenho o costume de dormir tarde. A última vez que olhei para o relógio em casa já eram doze horas. Isso significa que fomos aprisionados por pelo menos doze horas.”
Após terminar de falar, ela apontou para as paredes ao redor, continuando: “Vocês também já devem ter notado. Não há portas nesta sala, o que indica que esse sujeito teve muito trabalho para nos colocar aqui dentro. Ele disse que nós já dormimos por doze horas. Agora o relógio aponta para as doze de novo, o que significa que já deu pelo menos duas voltas. Por isso suspeito de ‘mais de vinte e quatro horas’. Há algum problema nisso?”
Depois de ouvir a resposta, o homem de jaleco branco olhou friamente para a mulher. Seu olhar ainda carregava suspeita.
Afinal, neste tipo de ambiente, essa mulher estava calma demais.
Uma pessoa normal diria aquelas palavras de forma tão calma ao enfrentar esse tipo de sequestro?
“Cabeça de Bode, por que há dez pessoas aqui, mas você disse que há nove?” perguntou, naquele momento, um homem robusto usando uma camiseta preta.
O Cabeça de Bode permaneceu em silêncio, sem responder imediatamente.
“Vai se foder, eu não me importo com quantas pessoas têm aqui…” xingou o homem tatuado. Ele apoiou-se na mesa para tentar se levantar, apenas para descobrir que suas pernas estavam moles e sem força, então só pôde continuar apontando para o Cabeça de Bode, “seu merda, aconselho você a ser mais esperto. Você pode não saber as consequências graves de mexer comigo, mas eu realmente vou acabar com a sua vida.”
Assim que disse isso, as expressões dos homens sentados tornaram-se gradualmente mais sérias. Naquele momento, eles realmente precisavam de um líder. Se pudessem dominar o Cabeça de Bode juntos, a situação ainda estaria sob controle.
No entanto, todos descobriram que suas próprias pernas pareciam ter recebido a injeção de alguma substância, pois não conseguiam aplicar força alguma neste instante.
Portanto, o homem tatuado só pôde usar palavras para ameaçar o Cabeça de Bode, berrando xingamentos em voz alta.
Qi Xia não abriu a boca. Ele ergueu a mão para acariciar levemente o queixo, encarando o relógio de mesa, pensativo.
A situação parece não ser tão simples assim.
O Cabeça de Bode falou sobre “nove participantes”. Se há dez pessoas aqui, isso só prova que uma delas não é um participante.
Então quem é?
Há seis homens e quatro mulheres sentados nesta sala. Será que um deles é o “sequestrador”?
Sem dizer mais nada, o Cabeça de Bode caminhou lentamente e ficou em pé bem atrás de um dos indivíduos, ao lado de Qi Xia.
Todos seguiram seu olhar, apenas para perceber que o homem à frente deles era diferente de todos os presentes. Embora seu rosto também estivesse sujo, transbordava um sorriso de pura felicidade.
O Cabeça de Bode ergueu a palma da mão lentamente, descansando-a na nuca do homem.
O sorriso do sujeito ficou ainda mais bizarro. Ele lançou um olhar emocionado para todos, parecendo já saber de algo muito antes.
Apenas um baque surdo foi ouvido. O Cabeça de Bode esmagou a cabeça do homem brutalmente contra a superfície da mesa.
Uma substância branca e rosada espalhou-se pela madeira como tinta derramada em um instante. O rosto de cada pessoa foi respingado com gotas de sangue.
O crânio do homem tinha sido completamente esmigalhado contra a mesa.
Fora da sala, o badalar distante do sino ecoou mais uma vez.
Qi Xia estava muito perto do corpo. Ele sentiu um objeto não identificado grudar no seu rosto. Quente, pegajoso.
Ele considerava que sua própria resistência psicológica já era forte o bastante, mas não esperava começar a tremer naquele momento.
A mulher sentada à direita do cadáver ficou em choque por três segundos antes de finalmente torcer o rosto, soltando um grito estridente.
Esse grito despedaçou as defesas psicológicas de todos.
Ser capaz de esmagar o osso mais duro do crânio humano contra a mesa apenas com as mãos… Esse Cabeça de Bode ainda é “humano”?
Como seu corpo magro e fraco conseguiu explodir com uma força tão monstruosa?
“O motivo de eu ter preparado dez pessoas é porque eu precisava usar uma delas para fazer vocês ficarem quietos”, disse o Cabeça de Bode, abrindo a boca lentamente.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.