Capítulo 22: A Atendente
“Que nojo…” murmurou Qiao Jiajin, franzindo a testa ao olhar para as coisas sujas no chão. “Esse cheiro insuportável… não me diga que são excrementos?”
Excrementos?
Qi Xia de repente virou a cabeça para olhar para Qiao Jiajin.
Esse é um ponto de vista muito interessante.
Em outras palavras, além dos nove e das máscaras de animais, havia outras pessoas ali.
Ou melhor… outras “coisas”.
Essa pessoa ou “coisa” parecia viver nesse lugar há muito tempo; caso contrário, não seria possível deixar o chão cheio de excrementos.
Todos procuraram por todos os lados, mas não conseguiram encontrar agulha, linha e gaze. E do lado de fora da loja de conveniência, não se via nenhuma farmácia ou clínica. Sair para procurar às cegas não era uma opção; Han Yimo provavelmente não aguentaria tanto tempo.
“E o que a gente faz agora?” O Oficial Li colocou as mãos na cintura, olhando impotente para o Doutor Zhao, como se pedisse sua opinião.
Antes que o Doutor Zhao pudesse responder, houve um barulho atrás do caixa da loja de conveniência, e a porta da sala de descanso dos funcionários se abriu lentamente.
Os nove empalideceram de susto, recuando imediatamente alguns passos, com os olhos fixos na porta que se abria devagar.
Uma figura magra e frágil saiu de trás da porta.
Olhando com atenção, quem saiu foi uma garota tão magra que mal parecia humana; era impossível sequer adivinhar sua idade.
Suas bochechas eram profundamente afundadas e os olhos saltavam para fora, como se não houvesse mais carne alguma em seu rosto.
Ela apertou os lábios rachados, olhando com curiosidade para eles.
Após um breve momento de choque, ela pareceu voltar a si, apressando-se em ajeitar suas roupas sujas e esfarrapadas, e disse com uma voz rouca: “Bem-vindos…”
Bem-vindos…?
O Oficial Li pensou com cuidado no significado daquelas palavras e pareceu entender.
“Você é… a atendente?”
A garota assentiu. “Uhum.”
Ninguém disse mais nada, pois tudo naquilo exalava uma atmosfera absurda.
Sem mencionar o motivo de haver outros humanos ali, mesmo que ela fosse realmente a “atendente”, por que estaria trabalhando em uma loja de conveniência completamente em ruínas?
A atendente, vendo que eles não se moviam, só pôde dizer de forma hesitante: “Fiquem à vontade para escolher.”
Embora ela tivesse dito isso, onde é que havia espaço para “escolher” algo ali?
Quase não havia produtos nas prateleiras; as poucas coisas que restavam estavam apodrecidas e cobertas de sujeira.
Os olhos da atendente eram opacos, encarando-os fixamente.
Esse olhar deixou algumas das garotas com medo.
“Tem agulha e linha?” perguntou Qi Xia à atendente, sem mudar de expressão.
“Agulha… e linha?” Os olhos sem vida da atendente se moveram levemente. Então, ela estendeu as mãos, imitando o movimento de passar a linha na agulha. “Você quer dizer… esse tipo de agulha e linha?”
Só então perceberam que as mãos dela estavam cobertas de sangue seco e escuro, uma visão aterrorizante.
Qi Xia deu mais um passo à frente e disse: “Esse tipo mesmo, você tem para vender?”
“Golpista, você…” Antes de conhecer Qi Xia, Qiao Jiajin achava que era o homem mais corajoso do mundo, mas agora, até ele não ousava falar com aquela mulher. “Essa mulher não é normal, você não consegue ver?”
“E daí se eu vi?” respondeu Qi Xia em um tom calmo. “Nossa situação não tem como ficar pior do que já está.”
A atendente ficou pensando vagamente por um momento e, de repente, abriu a divisória do balcão e saiu correndo de lá.
Foi aí que todos puderam ver sua aparência por inteiro.
Ela usava uma camisa branca suja e larga demais, tão desproporcional que parecia estar pendurada em um cabide.
Havia algo manchado na camisa, que parecia óleo, mas também parecia sangue.
A camisa descia quase até os joelhos. Ela parecia não usar calças por baixo, e suas coxas estavam cobertas de sangue seco.
Qi Xia franziu levemente a testa e tentou dar um passo para trás, mas a atendente agarrou seu pulso com força.
Ele sentiu como se seu pulso tivesse sido envolvido por uma velha videira grossa: ressecada e dolorosa.
“Eu tenho aqui!!” A atendente abriu a boca, revelando dentes amarelados. “Tem ‘agulha e linha’! Vem comigo!”
Sua mão apontava sem parar para a “sala de descanso dos funcionários”, como se quisesse que Qi Xia entrasse com ela.
Todos ficaram genuinamente assustados. Julgando pelo comportamento atual da mulher, segui-la lá para dentro definitivamente não era uma boa ideia.
“Esquece… a gente não vai comprar nada!” Qiao Jiajin se aproximou, tentando soltar a mão da mulher. “Solta ele primeiro.”
Mas a atendente agiu como se não tivesse ouvido, exibindo um sorriso alegre enquanto puxava Qi Xia e começava a andar.
“Tem ‘agulha e linha’ aqui dentro! Vem!”
A força dela era maior até mesmo que a de Qiao Jiajin e Qi Xia, dois homens adultos, combinados.
“Ei!! Venham ajudar rápido!” gritou Qiao Jiajin, virando a cabeça.
O Oficial Li e o Doutor Zhao saíram de seu torpor e também correram para ajudar.
A atendente inevitavelmente apertou o passo.
Qi Xia apenas sentiu uma força descomunal arrastando-o, completamente incapaz de se soltar.
Os dois já não estavam longe da sala de descanso dos funcionários, e agora, em seis ou sete passos, já haviam cruzado a porta.
O Doutor Zhao e o Oficial Li estavam puxando Qi Xia para fora quando, para a surpresa deles, a atendente de repente soltou a mão dele.
“Ah!”
Com um grito de sobressalto, os vários homens quase caíram.
Depois de cada um recuperar o equilíbrio, viram que a atendente não prestava mais atenção neles. Em vez disso, ela se virou e começou a revirar a sala em busca de algo.
Os quatro homens, ainda abalados, deram uma olhada no ambiente.
O lugar era um pouco mais limpo que o lado de fora. Num canto havia uma cama dobrável, com cobertores que já estavam amarelados.
Em cima da cama havia uma grande poça de sangue, que parecia bem fresca.
No outro canto, sobre um fogareiro simples, havia uma panela de ferro enferrujada fervendo, borbulhando enquanto cozinhava alguma coisa.
A atendente ignorava tudo isso e revirava uma caixa velha.
“Onde está… a agulha e linha…” Ela jogava as coisas para fora da caixa sem parar. Lá dentro havia latas, revistas velhas, panelas e tigelas.
Qiao Jiajin esfregou o nariz, olhando para a panela de ferro.
“Pensando bem, eu tô morrendo de fome”, disse ele baixinho para Qi Xia. “Se ela não fosse uma louca, eu queria perguntar se podia descolar um pouco desse rango.”
Qi Xia olhou para a panela de ferro; havia uma coisa branca cozinhando lá dentro.
Ele também sentia um pouco de fome.
“Você teria coragem de comer alguma coisa desse lugar?” perguntou o Oficial Li. “Quem sabe o quão sujo isso é…”
“Mas o cheiro tá muito bom.”
Qiao Jiajin não estava errado. Graças àquela panela de ferro, o cheiro na sala de descanso estava surpreendentemente apetitoso, encobrindo o fedor.
“O que você tá cozinhando?” perguntou Qiao Jiajin, tomando coragem. Pelo visto, ele realmente queria uma porção.
“Um leitãozinho”, respondeu a atendente.
“Um leitãozinho?”
Qiao Jiajin ficou interessado e estava prestes a ir até a panela para dar uma olhada, quando a atendente soltou um grito.
“Ah! Achei!”
Ela se virou, segurando algo com as duas mãos, e disse animada para o grupo: “Olhem! A agulha e linha!”
O Oficial Li se aproximou para ver, com uma expressão constrangida no rosto.
Aquilo não era “agulha e linha” de jeito nenhum, mas sim um anzol enferrujado, acompanhado de um pequeno rolo embaraçado de linha de pesca.
Ele se virou para o Doutor Zhao, sinalizando com o olhar.
O Doutor Zhao pensou por um instante e, com os olhos fixos no anzol e na linha de pesca, perguntou: “Moça, você tem outro tipo de agulha e linha?”
“Não.” A atendente balançou a cabeça. “Só tenho esse. Vocês vão comprar?”

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