Capítulo 87: Reis Não se Cruzam
O sol amarelo-terra do terceiro dia subiu mais uma vez no céu vermelho-escuro. Deveria ser mais um dia tranquilo e fedorento, mas Lin Qin e Zhang Chenze entraram em pânico dentro da casa de massagem: Qi Xia tinha sumido.
Procuraram por todos os cantos. Até sentiram o sangue dele esfriando na maca com a brisa, mas não havia qualquer sinal de Qi Xia.
No final do corredor, o “Nativo” continuava massageando o corpo ressecado, trazendo uma terrível sensação de inquietação.
“Ele foi embora…” murmurou Zhang Chenze, olhando desolada para a porta. “Assim como ele mesmo disse. Cansou e desistiu.”
“Não, não pode ser…” hesitou Lin Qin, achando difícil acreditar. “Vai ver ele estava preocupado demais com a gente e decidiu participar de um jogo sozinho…”
“Os vinte ‘Dao’ estão todos aqui”, explicou Zhang Chenze, pegando o pequeno saco de pano na maca e sacudindo-o na frente de Lin Qin. “Qi Xia não levou um único ‘Dao’. Como ele vai participar de algum jogo?”
Lin Qin ficou sem palavras, sem saber o que responder.
Para onde o Qi Xia pode ter ido?
Ele está machucado e não tem nenhum “Dao”. O que vai conseguir fazer se arrastando com esses ferimentos graves?
“Advogada Zhang, você toparia participar de um jogo comigo?” perguntou Lin Qin, tentando se acalmar.
“Nós duas?” Zhang Chenze ficou um pouco surpresa. “Você tem certeza disso?”
“Com certeza não sou tão forte quanto o Qi Xia, então vamos procurar apenas jogos de nível ‘Humano’. Se ganharmos, é lucro; se perdermos, pelo menos não morremos. Assim, se ele voltar um dia, teremos ‘Dao’ suficiente para acolhê-lo de novo.”
Zhang Chenze pensou um pouco e assentiu.
Será que o Qi Xia consegue voltar?
Faltavam apenas sete dias para a aniquilação. Os ferimentos dele só piorariam nos próximos dias; era impossível que se curasse totalmente.
Ele realmente tem como voltar?
As duas arrumaram suas coisas e saíram da casa de massagem sob o sol da nova manhã.
…
Qi Xia tropeçava pelas ruas, segurando um mapa desenhado com sangue.
Nunca imaginou que a perda de sangue deixaria seus braços e pernas tão dormentes; tinha caminhado por apenas uma hora, mas já suava frio.
Ele baixou os olhos para o mapa nas mãos, sabendo que essa era a sua última esperança.
O “Portão do Paraíso”.
Após três dias sondando as coisas, ele já tinha uma noção clara da situação ali.
Reunir três mil e seiscentos “Dao” nos jogos é tão difícil quanto alcançar os céus num pulo só.
Afinal, a recompensa de cada jogo é escassa demais.
Mesmo que os jogos de nível “Humano” permitam apostar a própria vida com os Signos do Zodíaco para aumentar o lucro, os jogos de nível “Terra” não dão essa chance. Os Participantes correm perigo mortal só por estarem neles.
Em outras palavras, seja no nível “Humano” ou “Terra”, qualquer um que queira lucros maiores precisa arriscar o pescoço sem hesitar.
Até agora, o jogo mais perigoso que presenciei foi a caça ao urso negro do Boi Terrestre. Se não fosse pela presença de Qiao Jiajin e Zhang Shan, teria sido uma morte quase certa.
E mesmo numa situação de extremo perigo, cada pessoa só podia ganhar, no máximo, vinte “Dao”.
Se eu quiser mesmo juntar “Dao” participando de jogos, precisarei encarar cento e oitenta rodadas tão arriscadas quanto a do Boi Terrestre. E vencer todas elas.
Quantas pessoas vão morrer nesse meio tempo? Quantos ferimentos vão sofrer?
E que garantia eu tenho de que consigo aguentar até o fim?
Qi Xia calculou tudo a noite inteira, mas não encontrou um único cenário em que conseguisse sair vivo. Pensou, repensou e concluiu que o Portão do Paraíso era o seu melhor destino.
Zhang Shan tinha mencionado que viram alguém fugir dali, e que as anotações desse “fugitivo” agora estavam nas mãos do líder, Chu Tianqiu.
Seguindo as direções deixadas por Zhang Shan, Qi Xia continuou avançando até chegar à base do Portão do Paraíso por volta do meio-dia.
Era uma escola abandonada.
Como a placa do colégio estava despedaçada, ele não sabia dizer se era de ensino fundamental ou médio. Só conseguia ver o prédio das salas de aula e a quadra de basquete logo na entrada.
Um rapaz estava de pé do lado de fora do portão, vigiando os arredores. Vestia regata esportiva, tinha o cabelo amarrado num rabo de cavalo e não devia ter mais de quinze ou dezesseis anos.
Qi Xia apertou as ataduras no ombro e caminhou na direção dele.
Ao ver alguém se aproximar, o rapaz ficou alerta. “Gente boa?” perguntou.
“Gente boa?” Qi Xia achou o sotaque desse rapaz muito estranho, mas apenas assentiu. “Sou gente boa.”
“Você… precisa de ajuda, assim?”
Além do sotaque estranho, a forma como o rapaz construía as frases também era bizarra.
“Eu…” começou Qi Xia, pensando um pouco. “Eu quero ver Chu Tianqiu.”
“Ver o irmão Chu…” O rapaz franziu a testa. “Posso saber como se chama?”
“Qi Xia.”
Ele pensou por um momento e assentiu. “Irmão, me espera um pouco.”
O rapaz passou pelo portão da escola, trancou a entrada e correu rápido para o prédio principal.
Na sala de aula mais ao sul do primeiro andar, um homem de camisa preta e óculos escrevia na lousa num ritmo acelerado. Perto dele, uma mulher lindíssima estava sentada em uma carteira, pintando as unhas.
“Irmão Chu! Irmã Yun Yao!” chamou o garoto de rabo de cavalo, da porta.
“Entra”, respondeu Yun Yao friamente, sem nem erguer os olhos.
O rapaz abriu a porta, olhou para os dois e fez uma reverência antes de falar com o homem de camisa preta: “Irmão Chu, tem uma pessoa lá fora querendo te ver, assim.”
Chu Tianqiu continuou escrevendo e perguntou, distraído: “Qual o nome?”
“Qi Xia.”
“Qi Xia?” A mão de Chu Tianqiu parou, e ele deu dois passos para a esquerda.
Procurou algo no meio da massa densa de palavras na lousa, até encontrar a linha que queria.
“Número: 87. O Mentiroso, Brotos Após a Chuva, Morte Vinda dos Céus, Cobra Astuta.”
Ele sublinhou a frase e abaixou a cabeça, imerso em pensamentos.
“O que foi?” perguntou Yun Yao. “Você conhece esse nome?”
“Esse cara é uma figura extremamente formidável”, disse Chu Tianqiu com um leve sorriso. “Os três Signos do Zodíaco responsáveis pela entrevista do número 87 já estavam com um pé no nível ‘Terra’. Que tipo de jogo você acha que eles criaram?”
Surpresa com a revelação, Yun Yao questionou: “Isso não faria da entrevista um massacre total?”
“Não”, negou ele, balançando a cabeça. “Graças a esse cara chamado Qi Xia, nove pessoas sobreviveram.”
“Todos sobreviveram? É possível?” Yun Yao levantou os olhos brilhantes para encará-lo, de repente se lembrando de um detalhe. “‘Qi Xia’ não é aquele tal gente boa de quem o Quatro-olhos passou os últimos dois dias falando?”
O rapaz pareceu entender e assentiu: “Irmão Chu, vou trazer ele pra dentro agora, assim.”
“Não…” Chu Tianqiu estendeu o braço para parar o jovem. “Kim Wonhun, faça uma pergunta a ele por mim.”1
“Pergunta?”
“Isso.” Ele assentiu. “Vá e pergunte a esse Qi Xia: ‘Qual foi o dia em que você chegou?'”
“Irmão, mas se eu fizer a pergunta, será que ele não vai entender, assim?”
“Não tem problema. Aproveite a chance para treinar o seu chinês”, disse Chu Tianqiu com um sorriso.
Mesmo confuso, Kim Wonhun sabia que Chu Tianqiu sempre agia de caso pensado. Restou-lhe assentir e sair.
“Não estou entendendo”, confessou Yun Yao, soprando as unhas para secar o esmalte antes de fechar o frasco. “Você acabou de dizer que o cara é ‘uma figura extremamente formidável’. Por que não pretende trazê-lo para o nosso lado?”
Chu Tianqiu deu um sorriso sutil. “Yun Yao, é exatamente por isso. ‘Reis não se cruzam’.”

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