Capítulo 1 - Badalar de Orin
Opulência.
Caça.
Harmonia.
Karma.
Égide.
Transfiguração.
Iluminação.
Entropia.
Neste mundo de princípios imutáveis, cada um tem seu próprio Arquiteto como representante. Cada princípio dá origem a uma nação submissa, que o aceita como um conceito absoluto para sua existência. No entanto, a coexistência pacífica não é o destino de todas essas nações. A segregação por princípios surpreendeu até mesmo os Arquitetos, levando ao surgimento de religiões, guerras e ódio disseminado.
Mesmo as divindades não foram poupadas da veneração. A adoração dos seres ignorantes semeou sementes de discórdia entre elas, dando origem a perguntas como “Quem entre nós é o todo-poderoso?” Essa dúvida crucial levou ao desencadeamento de uma guerra santa, marcando assim o início do primeiro Grande Cerco.
— Professor!
DEVORE O FIO!
24 de Dezembro, ano 774 a.R.
Capela didática – vilarejo Archi, Ástrea.
— Professor! — Sua voz era penetrante e contagiante, como sempre, pronta para irritar nosso tutor.
Eu teria sorrido ao ver a expressão de decepção do professor, se eu estivesse de bom humor, mas minha mãe fez questão de estragar meu dia.
Seu longo suspiro sinalizou que Marcius atingiu seu limite. Não era para menos, esta foi a terceira vez que o interrompiam.
— Esvie, quantas vezes já te disse para não me interromper? É uma tremenda falta de respeito interromper seu superior!
Ele podia estar sendo autoritário, mas eu não o julgo, imagina conviver confinado em um chiqueiro tentando competir pela sobrevivência com outros concorrentes suínos? O batalhão de Emergentes não é para qualquer um. E admiro Marcius Crossfield por suportar esse teste gratuito do inferno.
— Ahn?! Professor, você dá aula para uma classe de apenas dois alunos! E adivinha, cinquenta por cento da classe não te respeita — enfatizou a garota rebelde.
— Mas o que fará em relação aos outros cinquenta por cento? — Marcius fez uma pergunta perspicaz para encurralá-la, mas ele não esperava que eu estivesse apenas alimentando o fogo.
O fogo mor era Esvie Zeitler. Nós estamos grudados desde a infância, e ela sempre exibiu uma personalidade forte.
Não consigo me lembrar da última vez em que olhei nos seus olhos de cor avelã e não me perdi. O brilho encorajador em suas íris refletia sua ausência de medo, e isso me atraía.
A nossa prisão particular era pequena e bem cuidada, como quase todas as casas naquele lugar. Parece que a técnica de bater o martelo sobre os pregos é a única forma de construção que os adultos conhecem. Nah. Eu sempre odiei a sensação de estar enclausurado.
Diante de nós, um quadro negro de oitenta polegadas exibia tópicos sobre a origem de Ástrea. O guerreiro aposentado mostrava uma notável habilidade com giz. As demarcações de território e proporções eram tópicos que os professores suínos não ensinavam; era puro talento.
O cheiro de cevada invadiu o recinto pela janela, misturando-se ao odor do verniz da porta de correr, deixando o frescor de bebum mais refinado ainda — que fedor. Pelo jeito Seu Cícero já havia começado com suas atividades noturnas.
Espero que minha mãe não esteja bebendo… Eu odeio quando ela faz isso.
Meu olhar estava pesado de mais.
— T-Theo, você pode parar de olhar para mim? — Esvie gaguejou.
Seus olhos âmbar roubaram minha atenção mais uma vez, como se tivessem me hipnotizado. Encarei-os como se estivesse sedento por ela.
“Droga, fiz isso de novo…”
Enquanto remoía a situação, buscava com os olhos por uma solução para o constrangimento crescente. Levei a mão ao rosto, fingindo coçar a testa para esconder minha distração.
— Eu to nem ai… — murmurei, enquanto afundava meu rosto em meu caderno, tentando ignorar a situação. Definitivamente, essa não era a resposta que eles esperavam.
— Sério, Theo? — Esvie me questionou, arqueando uma de suas finas sobrancelhas. Eu realmente não estava com disposição para participar disso.
Só queria poder me tornar ignoravél para todos hoje.
— Você é um bundão. E isso só reforça meu ponto, ele não tá nem aí pra sua aula.
A arrogância dela soava como se suas unhas raspassem aquele quadro-negro, era pura provocação para Marcius.
— A democracia é uma bosta… — murmurou o professor em decepção — só faça sua pergunta logo.
Com um soberbo sorriso em seus lábios, não conteve a vontade de apontar seu dedo na cara do homem à frente.
— Professor, não enrola! Qual deles é realmente o todo-poderoso? — A pergunta de Esvie cortou o ar, direta e sem rodeios.
O professor reprimiu suas emoções por um momento antes de desabafar toda sua frustração sobre o assunto em um longo suspiro. Sua sobrancelha se contraiu, e ele nos fulminou com um olhar severo.
— Cuidado com as palavras, não faça esse tipo de pergunta a ninguém. Se não segurar sua língua, suas palavras chegarão aos céus e cairão como pesadelos sobre você — advertiu, apontando o giz em sua direção.
Esvie retrucou, sua expressão desafiadora estava evidente.
— É sério que você acredita nessas lendas? Não vai me dizer que tem medo dos Arquitetos?
O professor sustentou seu olhar severo.
— Sim, eu tenho. E não são lendas, é um fato. Basta você enxergar isso.
Esvie, em um gesto de desdém, empinou o nariz e mostrou a língua, emitindo um som de repulsa.
— Bluahn. Você é um cagão — debochou, com um sorriso travesso nos lábios.
Arquitetos.
Esse foi um dos motivos da discussão calorosa com minha mãe.
Eu nunca conheci meu pai, e por muito tempo o odiei por ter nos abandonado no momento em que ela mais precisou. Com o tempo, esse ódio virou uma curiosidade merdeira — daquelas que você sabe que não vai dar em nada, mas mesmo assim cutuca.
Eu lembro do dia em que levei a maior surra da minha vida. Depois, entre dentes, ela disse que era errado nutrir ódio por um babaca que eu nunca conheci, já que a escolha de me conceber e de viver nesse vilarejo minúsculo foi só dela.
Mesmo que ele não fosse um covarde… isso não mudava o fato de nunca ter aparecido. Nunca me visitou. Nunca deu as caras.
Não havia foto, registro, lembrança. Nada.
Era como se meu progenitor simplesmente não existisse.
A não ser nas memórias dela.
E se você acha que ela se recusou a me contar a verdade…
Bingo.
Foram mais de dois anos tentando arrancar qualquer informação. Qualquer migalha.
Tudo o que recebi foram desculpas esfarrapadas. Até hoje.
Hoje foi diferente.
“Cale a boca, Theo! Eu não aguento mais você querendo saber sobre seu pai! Esqueça isso. Você é fraco demais em todos os aspectos. O dia em que se tornar tão forte quanto um Arquiteto de Barabudur — só sob essas condições — você será merecedor de conhecê-lo.”
E depois… sermão. Sempre tem.
Que saco.
Aquelas palavras continuavam martelando minha cabeça. Mas não foi o grito que doeu.
Foi o olhar.
A decepção fria.
A arrogância disfarçada de verdade absoluta.
Aquilo me destruiu mais do que qualquer castigo. Mais do que a gritaria clássica de gansolina.
— Eu te odeio, mãe.
Eh…
Eu soltei essa pérola em voz alta.
— Theo… — Marcius me chamou enquanto esfregava sua nuca.
Então o nosso “ditador” respirou fundo. A careta feita ao sentir o fedor no ambiente fez ele soltar o ar por meio de tosses secas imediatamente.
— Enquanto nosso sino permanecer quebrado, sempre podemos contar com seu Cícero… Estão dispensados — Marcius disse em meio às tosses.
— FINALMENTE! — Esvie exclamou.
— Porém, quero uma redação de nove páginas sobre o que motivou e como se iniciou o Grande Cerco. Vocês vão encontrar suas respostas no livro, “Ano I”, por Heródoto. Nas páginas nove a dezoito, e, vinte e sete à cinquenta e quatro.
— Que sacanagem! A gente acabou de aturar você falando baboseira, e não dá nem tempo pra gente se recuperar? — Ela estava indignada, mas no fundo, sabíamos que era só birra.
— Esvie, eu faço as regras por aqui. Sua insubordinação é um caso grave, você tem que ser mais educada.
— Respeito aqui, insubordinação lá, você acha que somos soldados? Você pode ser meu professor, mas você não tem autoridade nenhuma sobre mim!
O apagador se enterrou na carteira. O barulho calou a sala.
— JÁ CHEGA! Não há nada que eu faça para mudar a falta de figura paterna ou materna em sua vida. Mas essa arrogância, esse ódio por um superior, vai ter que acabar, nem que eu tenha que…
Ele segurou sua fala. A jovem igualou sua altura ao subir em cima de sua carteira, sem temor pressionou seu dedo indicador sobre o peitoral de Marcius.
— Me bater? É essa sua forma de disciplina? Gritar e esmurrar?! Você não passa de uma putinha de sargento!
Eu observei o punho dele se fechar, estava pronto para intervir, mas me segurei, afinal, no fundo eu sabia que Marcius não era tão otário.
— Pra fora de sala Esvie, agora.
— Não precisa falar duas vezes.
Com uma bordoada na porta, Esvie saiu do recinto.
Assobiei com a despedida calorosa.
— Você fez merda — eu disse.
— Não começa — eu senti pelo seu tom o seu arrependimento.
Melhor deixar ele mastigar as próprias merdas por um tempo.
Olhei para a mesa de Esvie, ela saiu tão raivosa que deixou suas coisas.
Ah, que saco.
Me levantei e recolhia tanto os meus materiais escolares quanto os dela. Enquanto recolhia, reparei melhor em sua mesa e percebi seus rabiscos. De fato, ela não levava jeito com arte, mas era daora sua visão monstruosa do professor.
O que é você?
Perguntei a mim mesmo ao encontrar em meio a sua bolsa algo muito chamativo. Era pequeno. Ao alcançá-lo, senti sua maciez, entretanto, havia algumas irregularidades nas linhas de reforço que faziam a textura ser mais densa em certas partes. Ao tirá-lo da bolsa, vi com mais clareza: uma raposa de pelúcia maltrapilha. Sua coloração desbotada deixou no passado o que um dia reteve um vermelho vibrante; talvez muitos anos de carinho intenso tenham causado isso.
Desde quando você aprendeu a costurar, Vie?
— Theo. Podemos conversar? — Marcius interrompeu meus pensamentos.
— Claro… que não. Foi mal, mas hoje eu não estou a fim.
A luz suave do entardecer infiltrou-se na pequena sala, revelando uma bagunça discreta de livros e papeis. Fixei um olhar semicerrado na mesa desordenada do interlocutor.
— Fiquei sabendo que você e sua mãe discutiram hoje.
— Você não tem louça pra lavar não?
— Não começa com essa balbúrdia, Theo — disse Marcius. Ele massageou sua barba mal-feita, demonstrando certo amuo.
O chiar da madeira velha da mesa se misturava ao zumbido distante de insetos lá fora. Uma pausa perfeita para eu segurar minha raiva em meus pensamentos.
Eu detesto ser pressionado.
Um leve suspiro saiu da minha boca.
— Quem te contou isso?
— Não é surpresa para ninguém que se sua mãe não está bem, o vilarejo inteiro também não está.
— Deixa eu adivinhar, ela estragou a colheita de Kã deste ano?
— Não toda, mas grande parte. Às vezes fico confuso em saber quem é o responsável entre vocês dois… Ahn? Como assim Kã? Você andou fazendo essa droga de novo com o nosso cânhamo? — Marcius falou, mas caguei.
— Cada um tem o direito de fazer o que quiser com a sua parte da plantação — acentuei as sobrancelhas, não estava nem um pouco à vontade para escutar sua propaganda antidrogas — você quer que eu faça o que? Dar sermão na minha própria mãe por ela ter esmagado as fibras?
Tenho que admitir. Seria até bonito de ver.
— Se fizesse isso estaria te induzindo à morte — sua entonação era tão monótona quanto ele, porém detinha graça.
Eu simplesmente não pude me segurar, quando percebi havia um leve sorriso em meu rosto. Isso foi engraçado.
— Tudo bem. Agora que você está menos babaca. O que você quer saber?
Eu estava pleno, Marcius não conseguia ser autoritário comigo.
— Não se aflija, no momento a relação “harmoniosa” entre você e sua mãe não me importa.
Ele fez aspas com os dedos? Marcius, você tem mais de trinta anos, toma vergonha na cara.
— Então… — Tentei induzi-lo a uma resposta imediata.
— Preciso saber como anda o despertar do seu Marco.
— Continua adormecido. Assim como deve ser — afirmei e franzi o cenho.
— Vamos lá Theo! Você recebeu um dom divino, dentre milhões de seres vivos nesse mundo os Arquitetos escolheram você!
— Você já se esqueceu da Esvie? Ela também é uma portadora.
— Seu Marco é único Theo.
Em outras palavras ele havia cagado para ela.
— Assim como a de outras centenas de pessoas? — Eu descruzei os braços em desdém. Um sorriso sarcástico dançou em meus lábios, como se a ideia fosse absurda demais para levar a sério.
Marcius permaneceu em silêncio. Talvez estivesse reunindo uma resposta em sua mente, ou apenas tenha desistido. Vai saber.
Cada Marco é único, isso não tava errado. Mas o que me diferencia de qualquer um? Eu precisava dessa resposta, precisava mais do que qualquer outra pessoa.
— Como eu poderia despertar um Marco que não representa nenhum dos Princípios Imutáveis? — Perguntei desanimado, sem esperança alguma de resposta.
Os oito princípios imutáveis. Como bem me lembro, é a herança maldita que recebemos dos Arquitetos.
Uma herança que marca o corpo e grava na alma um destino inerente, entregando ao portador a liberdade de manipular a prana do mundo ao bel prazer, mas decretando-o a uma prisão eterna de falsas escolhas.
Nós batizamos isso de Marco.
Alguns nascem marcados, outros adquirem a marca.
Aqueles que nascem, despertam.
Aqueles que adquirem, perecem.
Não havia muito o que arrancar dos livros.
Eu li todos mesmo assim. Li até os olhos arderem, esperando que alguma frase estivesse errada, que alguma regra tivesse sido escrita por engano.
Nada.
Só explicações tortas, versões que não batiam entre si e aquele tom insuportável de quem finge saber do que está falando.
As únicas fontes confiáveis sobre o Marco eram minha mãe, Elyza, e o debilitado Marcius. Como sempre, todo conhecimento vindo deles passava por filtros evidentes; achavam que eu não percebia. Patético.
A pressão atrás dos olhos aumentou. Segurei o rosto como se quisesse manter a caixa craniana intacta. Então, um som cortou o ar e reverberou por cada canto, como se estivesse rastreando algo.
A frequência era inconfundível: o sino de Orin. Impossível. Vie o havia quebrado há algum tempo.
Fechei os olhos, não por escolha, mas porque processar aquilo era ruído demais. Quando o som se dissipou, abri as pálpebras — e não havia nada. Não era escuridão. Era ausência.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.