Capítulo 2 - Devore a vida
De repente, meu corpo inteiro estremeceu. Quando me dei conta, todo o local foi consumido por uma obscuridade sem precedentes. Perplexo por não poder mexer um único músculo sequer, recorri-me da insensatez de meus instintos e olhei ao redor.
A de mim estendia-se um cenário desolador, um lugar mergulhado na escuridão e no vazio. Nenhuma luz, nenhum contorno visível, apenas uma obscuridade que envolvia tudo.
A quietude desse lugar era mais do que a ausência de som; como se até mesmo o som do pensamento tivesse sido sufocado por essa escuridão espectral.
Perante de toda esta alucinação, minha visão já limitada se fixou apenas ao homem robusto à frente que escondia seu rosto com sua mão calejada.
O que viria a seguir me ensinou o real significado de insanidade.
Marcius deslizou sua mão em seu rosto, de cima para baixo, e levou consigo sua face.
Era estranho, não, era bizarro, porém nada que não pudesse piorar.
Ele posicionou sua mão acima de seu queixo quadrado. Entre suas pregas palmares, a maior em seu centro se dividiu, dali uma boca surgiu. Seus lábios se afinaram e seus dentes apontaram, então uma voz rouca e muito agressiva se dirigiu a mim.
— Coma a vida, pequena centelha.
“Como é?”
Minha voz ressoou em minha mente.
— Devore-a, assimile-a e usurpe-a dos mais fracos.
“Marcius? O que está acontecendo?”
— O mundo lá fora pode ser luminescente demais, extenso demais, até mesmo extraordinário demais. Contudo, nada e nem ninguém pode ser mais absoluto do que a própria inexistência.
A aflição percorria meu corpo, como uma serpente a rastejar. Aquilo jamais poderia ser o meu professor.
Subitamente, algo rasgou minhas bochechas. Eu queria gritar, queria espernear, contudo eu estava estático. As lágrimas de dor se misturaram ao amargor do sangue que escorreu de minha pele.
Então, aquela invasiva voz retornou a me atormentar.
— Esse seu olhar não é bom. Você ainda está fresco, muito fresco.
Sua essência ameaçadora permaneceu intacta, e agora estava muito próxima a mim. Não havia sentido, o torso de Marcius permaneceu imóvel juntamente daqueles malditos lábios.
Declinei minha visão e pude entender o que aconteceu, existia outra boca em meu rosto.
Eu fedia a medo. A presença desse ser era tão assustadora que sentia meu corpo se espremer na tentativa de conseguir espaço.
— AHHHHH! — Minha alma gritou por mim.
— Com isso… Você conseguiu quebrar o celibato do silêncio.
— O que diabos é você?! — Perguntei em um tom abafado.
— Não é possível me definir com conceitos mundanos. Entretanto farei um esforço, usarei de suas gírias para que você compreenda. Nós somos Devoradores, mas por algum motivo você continua negando sua própria essência.
— Eu não sei do que você está falando…
Seu sorriso macabro enviou arrepios em meu corpo, semelhante à sensação de ser envolvido por uma névoa gélida de terror. Me sentia em pele de cordeiro mediante a um predador sádico, enquanto ele, se propôs a ser a voz reemitida do corpo de meu professor.
— Não se preocupe, farei você compreender o quão inútil é fugir de si mesmo.
Sua mão esquerda se ergueu, ela travou quando chegou a altura dos ombros.
— NÃO FAÇA ISSO!
Eu desesperei, nunca pensei que um dia perderia a postura.
— Um aleijado? — A boca disse com desprezo.
Seu braço tremia, estava à beira do colapso.
Eu também tremia, porém, por tentar me livrar dessa maldita imponência.
— NÃO!
O estalar de ossos, quebrou meu coração. Seu braço estava mole, mas este monstro não se importou e continuou deslocando até alcançar o meio de suas costas.
— A essência do próprio Égide, florescida em um corpo aleijado? Deplorável.
Entre os dedos, ele detinha uma esfera ciana que arrancou da coluna de Marcius. Então ele a lambeu.
“Aquele local… ele tirou isso da Marca do Marcius?!”
— Esse amargor… O velho e imutável Égide.
Ele caminhou a passos lentos até mim, cada pisar, fez o ambiente ecoar como o rescaldo de uma pedra lançada na lagoa.
— Eles chamam isso de Marco. Eu chamo isso de nosso. Não existe essência nesse mundo que não seja nossa, pequena centelha.
Ele sorria pelo receptáculo, enquanto me atormentava com sua voz bem debaixo de meu nariz.
— Coma — Proferiu pausadamente enquanto forçava o orbe a minha goela a baixo.
Eu o rejeitei. A ânsia misturada com a repulsa, aumentava ainda mais meu desespero.
Como eu poderia comer aquilo?
‘Aquilo’ não era meu, e se isso for realmente o Marco de Marcius, eu seria tão insano quanto ele.
Essa fome que transbordava do meu estômago foi a maior larica que experimentei em toda minha vida.
O Devorador suspirou por não conseguir alcançar seu objetivo. A minha vontade era rasa, logo não fui eu quem o combateu. Então ele continuou a forçar até eu engasgar, mas de nada adiantou — talvez eu já estivesse cheio.
Meu peito arfava, lutando para recuperar o fôlego, enquanto uma onda de náusea começava a subir. Da aflição, uma rosa desabrochou nas extremidades de meu ser, seus espinhos faziam meus dedos se retorcerem como engrenagens emperradas.
— Você não me deixa outra escolha. Parece que vou ter que te esvaziar primeiro…
— Não… encoste… em mim — Ofeguei em meio a fala. Mas era nítido a irrelevância de qualquer decisão minha.
Eu não podia deixar isso barato, se deixasse, acabaria por entregar completamente meu corpo a esse desgraçado.
Eu precisava agir.
— Ainda tem certeza que quer pestanejar? — Ele interrompeu meus pensamentos com o retorno de sua voz ao meu rosto.
Abruptamente, eu fui perfurado em meu pescoço por garras silenciadas pelo próprio vazio.
— Você achou mesmo que seres de luminescência teriam compreensão de meu domínio? Shhh… não pense demais, apenas sinta a inexistência, só então o vazio preencherá a sua alma.
Sem piedade, o Devorador rasgou minha garganta e puxou sua mão até arregaçar e expor todo meu estômago. Eu gritei, e gritei, até ficar rouco. Minha visão se preencheu com inúmeras centelhas espalhadas ao redor com a implosão causada por aquele corte, seu brilho dourado preencheu todo seu escopo esférico.
Elas atraíram a minha visão e me despertaram uma grande vontade de devorá-las.
Eu não sei como, nem mesmo o porquê, a dor que eu sentia, se esvaiu. O ódio que eu tinha, se suprimiu. Eu não sentia nada, apenas a vontade de reaver todas aquelas esferas.
— Você vê?! Toda a vida que esvaiu de seu interior? Suas dores, suas alegrias, suas vontades, suas esperanças… Todo o amontoado de feitos, vivências e sonhos em cada uma dessas essências vivas — o Devorador falou entusiasmado.
— Você fala demais… eu ainda estou vivo, imbecil. Detesto quem deixa o serviço pela metade — disse, encarando-o.
A mão obscura do Devorador se materializou ao redor do meu pescoço, apertando com uma força sobrenatural. Senti-me suspenso entre dois mundos, minha visão obscurecendo enquanto o vazio se tornava minha única companhia.
A voz soturna do Devorador sussurrou diretamente em meu ouvido, uma fusão desconcertante de tons profundos e inumanos.
— Você é mais resistente do que eu antecipei, pequena centelha. Surpreendente, de fato.
A sensação de ser agarrado por uma força invisível, enquanto sua voz parecia emanar de uma boca na minha própria bochecha, era arrepiante. Eu estava preso na encruzilhada entre a perplexidade e o terror, meu corpo indefeso nas garras de uma entidade que desafiava as leis da realidade.
Apesar da pressão implacável no meu pescoço, uma centelha de determinação queimava dentro de mim. Eu recusava-me a ceder completamente ao abraço gélido do Devorador.
Entre a pressão crescente no meu pescoço, o predador continuou sua narrativa dissonante.
— Você, Theo, é uma ótima faca.
No exato momento em que o sino de Orin ecoou, a obscuridade que me cercava pareceu recuar como maré. A mão do Devorador se desfez do meu pescoço, dissolvendo-se na escuridão que retornava para o meu próprio âmago. Fui deixado, ofegante e atordoado, enquanto as sombras retrocediam, revelando o ambiente já conhecido à minha volta.
Enquanto o mundo voltava ao foco, eu permanecia, uma centelha inquieta de vida, confrontando o desconhecido que se desdobrava diante de mim.
A sensação que aquele encontro trouxe era estranha, como se eu estivesse conectado a algo maior. Minhas mãos tremiam ligeiramente, e o orbe ciano emitia um brilho suave, como se contivesse um fragmento do que essa conexão poderia proporcionar.
— Theo, o que está acontecendo? — Perguntou Marcius, confuso.
Ignorei-o momentaneamente, meus olhos fixaram-se nas minhas mãos trêmulas, então as fechei na tentativa de esconder aquilo de seu dono. O orbe não era mais visível, mas sua presença era inegável.
— Theo, o que está acontecendo? — Insistiu, visivelmente perplexo.
Olhei para Marcius, cujo olhar oscilava entre preocupação e reconhecimento, como se ele soubesse mais do que estava disposto a compartilhar.
— Theo, seja lá o que estiver acontecendo, você precisa se controlar.
Apertei os punhos, tentando conter as emoções tumultuadas que inundavam minha mente. A presença do orbe persistia, e eu sentia um desejo indescritível de devorar o conhecimento que agora parecia ao meu alcance.
— Eu… eu não sei o que aconteceu — murmurei, ainda tentando assimilar a experiência.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.