Mais uma manhã.

    Outra, entre tantas que viriam a se repetir.

    — Acorda, seu dorminhoco! — disse Asael, escancarando a porta do quarto como se fosse um show à parte. Estava agitado, o sorriso torto estampado no rosto parecia tentar esconder algo… e falhava miseravelmente.

    — Ahhh…

    Soterrado entre lençóis e má vontade.

    — Vamos lá… não vai me dizer que cinco horinhas de sono não foram suficientes?

    — Cinco? — murmurou, os olhos ainda meio colados — Quantas horas eu dormi, cara?

    — Praticamente cinco. O que, nesse mundo aqui, equivale a dez no seu mundinho preguiçoso.

    — E isso faz sentido por quê, exatamente?

    — Só faz — Deu de ombros, já andando pelo quarto como quem dá uma palestra informal — Aqui, tudo funciona em dobro. Ou pela metade, depende do ponto de vista. Você dorme cinco, é como se tivesse dormido dez. O problema é que o cansaço também é dobrado. Sensorialmente falando, claro.

    — Aff…

    Se arrastando para fora da cama como um sobrevivente de guerra. Levantar era quase um ato de heroísmo.

    — Um presentinho do plano espiritual pra vocês forasteiros!

    Asael observou o movimento com a cabeça levemente inclinada.

    — Não sente saudade da Terra? Da sua vidinha mortal?

    — Sinto!

    Com um suspiro que trazia mil imagens escondidas.

    — Família?

    A pergunta soou casual, mas carregava um peso estranho. Era como um interrogatório, até tardio demais. Como se estivesse repassando um roteiro que deveria ter lido capítulos atrás – e agora tentasse disfarçar o atraso com falsa naturalidade.

    — Por que isso agora?

    — Só curiosidade — Se virou de costas, fingindo desinteresse — Se eu tivesse uma… acho que sentiria saudades também.

    Cael ficou em silêncio por um momento.

    — Um pouco. Da minha mãe, principalmente — a voz saiu mais baixa — Meu irmão… morreu. O mundo do crime engoliu ele. Foi rápido. Injusto também, como quase tudo lá. Mas aqui… aqui a morte parece uma coisa banal pra vocês, não?

    — Banal? — Parou, virando-se de novo — Como assim?

    — Quantos guardiões morrem por década? Deve dar pra fazer um obituário mensal. Vocês se importam? Ou já perderam a conta e o costume?

    Aquilo cutucava em ferida velha.

    — Depende — respondeu, sério até demais — O único guardião de quem eu realmente gostava… já não está entre nós. Sinto falta dele, sim. Mas a morte, pra nós, é uma verdade inalcançável. Estamos sempre desafiando ela, brincando com o tempo. Tecnicamente, somos imortais. Mas mentalmente? Somos como vocês. Sofremos, desejamos, enlouquecemos. Fingimos que não importa… mas importa. Sempre importou.

    — Que…

    — Melancólico? — Arqueou uma sobrancelha, como quem já previa a linha de pensamento.

    — Papinho! — rebateu o outro, com uma risada seca. Havia esperado mais da tal “anomalia” — Como “nós”? Se eu fosse imortal, viveria a eternidade de boa. A vida curta é cruel! um sopro ingrato de existência, sem manual e com prazo de validade ridiculamente baixo.

    O guardião riu, mas não de diversão – foi aquele tipo de riso que vem junto de uma verdade desconfortável.

    — Eternidade? Vocês nem aproveitam os meros oitenta anos que mal conseguem alcançar — a voz dele soou mais dura agora — Alguns se matam antes de completar vinte por cento disso. E você quer que eu acredite nesse discursinho de “ah, se eu fosse imortal”?

    — Tá ignorante hoje…

    — Eu? — Soltou uma risada seca, quase cínica — Você que é um comédia ambulante. Enfim, vamos treinar ou vai continuar chorando?

    — Ahhhh… só depois do cafezinho, né? — resmungou, já com voz de pidão — Aliás… será que hoje rola um pão de queijo? Só um cadim já me deixava feliz! — arfou teatralmente, como se estivesse implorando por um milagre — Hein, hein?

    — Talvez se você fizer render, até role. Mas hoje… é o mesmo de ontem. Não tem outro alimento capaz de sustentar o treinamento pesado. E convenhamos, não existe nada mais nutritivo que um belo verme.

    O olhou com a paciência de um mestre e a crueldade de um nutricionista.

    — Cacete… Mas fazer o quê, né? — Ergueu as mãos num gesto de falsa empolgação, digno de um ator de quinta — Vamos treinar!

    Após esse breve teatrinho matinal e um café nada saboroso, ambos retornaram ao campo de treinamento. A muralha, agora milagrosamente intacta, erguia-se como se nada tivesse acontecido no dia anterior. Mas agora havia algo novo – uma cerca de madeira simples, quase rústica, erguida em frente ao concreto sólido dos muros no perímetro e horizonte do campo de treino.

    — Que diabos é isso?

    — Precaução — Como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.

    No centro do campo, uma jaula coberta por um pano grosso tremia levemente, e de dentro dela ecoava um ranger abafado de dentes, seguido por grunhidos pesados. Algo respirava ali – e não parecia amigável.

    — Hoje… eu vou te ensinar os conceitos básicos. — Com a tranquilidade de quem ia dar aula sobre álgebra, mesmo diante da coisa que parecia saída de um pesadelo — E te fazer entender o que sua técnica realmente faz. Certo?

    — Tá… — ele engoliu seco. O que, exatamente, estava naquela jaula?

    — Primeiro, os termos — Cruzou os braços, olhando como quem esperava um aluno abrir o caderno — Existe o Eco a manifestação da sua determinação. Depois, vem a Aura a emanação do seu Eco. E por fim, a Expressão que é como sua Aura interage com o mundo externo.

    — E…?

    — Eco é o que te move — prosseguiu, com um olhar mais sério e didático — É algo íntimo. Um sentimento. Um trauma. Um desejo. Algo que não se cala em seu âmago. Louco, compulsivo, e incrivelmente pessoal.

    — Certo… algo que te define, basicamente.

    — Exato. Agora, a Intenção ou Aura, é o que você quer transparecer. Aquilo que emana de você, mas que você não diz com palavras. Entendeu?

    — Mais ou menos…

    — Já a Expressão… — Fez uma pausa, olhando em direção à jaula, como se ela estivesse prestes a participar da aula — …É o resultado direto disso tudo. Aquilo que você manifesta, mas não necessariamente controla como os outros a vêem. E por que não é? Porque a forma como você a vê e como os outros a interpretam… é subjetiva. Podendo até parecer perfeita pra você, mas imperfeita pra mim. Ou o contrário. Depende do olhar.

    — E por que isso importa, exatamente?

    — Porque no combate, a Expressão é tudo — sorriu de canto, como quem prestes a revelar um truque sujo — Se sua Expressão for lida, você tá ferrado. Mas se você enganar seu oponente com ela… aí sim, tem vantagem. Jogo mental, garoto. A maioria perde antes mesmo do primeiro golpe.

    — E o tal Yesod? — franziu o cenho — O que isso tem a ver? Você mesmo disse que era a expressão mais… pífia que existe.

    — E é — Deu de ombros, com aquele típico desdém de quem já esperava a pergunta — Mas até a coisa mais patética tem seu papel. Yesod é a liberação crua, básica. A técnica em seu estado mais simples e direto. Nenhuma firula. Só o essencial.

    Deu um passo em direção à jaula, como se falasse tanto para o aprendiz quanto para a criatura que se contorcia sob o pano.

    — Depois vem o Gvul — continuou — Aqui, a técnica ainda é limitada, mas começa a ganhar forma. Mais complexidade, mais controle. Você começa a esculpir o que antes só liberava!

    — E depois? — Já antevendo o tom professoral.

    — Tzura — Sorriu com os olhos, como quem chegava na parte divertida — É aqui que você começa a brincar. Moldar a técnica, dar forma artística. “Controlo ventos”? Legal. Mas e se eu manipular a temperatura deles e criar uma tempestade de chamas? É o mesmo Eco, mas elevado. Refinado. Você não está mais apenas só atacando, está criando.

    — Porra…

    — E o último? Atzmut — A palavra saiu quase como um sussurro respeitoso — Aqui… você transcende. É o limite final da manifestação. A forma mais pura e devastadora. E, acredite, pouquíssimos chegam lá sem se perder no processo. Porque nessa etapa… o Eco começa a manifestar você. Não o contrário.

    E de repente, puxou o pano.

    A visão que se revelou fez o estômago dele dar uma leve cambalhota.

    Lá estava a criatura – a mesma sombra canina retorcida que seu mestre vira antes, aquela que, horas atrás, tinha os órgãos meticulosamente arrancados pelo infame cientista sem jaleco.

    Fedia a aborto e carne queimada, uma podridão que parecia grudar na pele. Seus pelos, eriçados como navalhas, reluziam sob a luz. E os olhos… os olhos exalavam fome. Não comum, mas a ânsia de devorar não apenas a carne mas a existência inteira dos que o encaravam.

    — E essa coisa? — a pergunta saiu num tom mais alto do que gostaria. Quase deu um pulo pra trás.

    — Nosso experimento — Com a frieza de quem apresentava uma amostra de ciências — Vamos descobrir como sua técnica mais pífia se manifesta. Só assim você vai entender seus limites… e talvez, com sorte, suas capacidades.

    — Então… você quer que eu mate esse filhote de cruz credo?

    — Quero que ataque — Foi direto, impassível — A morte, para ele, já é uma questão de tempo.

    — Tá… é, só… eu fechar os olhos… — murmurou, já tentando engolir o peso na garganta.

    — Tem pena?

    Hesitou. Por mais grotesca que fosse a criatura, ainda parecia… um cachorro. Torturado, violento, mas cachorro.

    — Matar bicho é paia, velho… até os demoníacos. Dá uma travada.

    — Então destrava. Aqui, você não vai escolher contra o que lutar. E às vezes, a pior coisa com cara de monstro… é só o começo!

    A lida no Intermédio não era fácil. Nunca foi. Nunca seria.

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