Capítulo 15 - Método científico
— Vamos logo…
Murmurou Asael, impaciente.
Screeeee! Enquanto o chiado agudo das garras daquela coisa arranhando o piso arrancava a paz de Cael.
Para alguém acostumado a bailes e caixas de som explodindo o tímpano aos domingos, isso deveria ser tranquilo. Mas não – claro que não! Quando o barulho vem com risco de morte, a experiência sonora muda um pouco.
— Espera! — Ainda mantinha os olhos fechados, a testa brilhando de suor frio — Calma… eu… vou!
— Então vá! Mate-o!
Sem paciência.
Sem piedade.
Sem tempo pra mais drama ou dilemas morais.
— Mas…
— Mas nada! — cortou, como quem já ouviu desculpas demais.
— Cacete, véi… — bufou, abrindo um olho devagar, como quem acorda de ressaca — Pra que essa pressão toda? Eu já ia conseguir…
Misturava-se à ansiedade do momento aquela tensão sufocante que a criatura exalava.
— Ia? — Arqueou uma sobrancelha. E, sinceramente, não era errado duvidar, sua postura gritava “não tô pronto” em todas as línguas possíveis — Sem nem ao menos emanar sua aura? Você tá literalmente parado aí, tremendo, esperando que o bicho morra de tédio. Nada de expressão, nada de manifestação… diria que está um tiquinho nervoso, está?
— Ehr… talvez…
Ao olhar para as próprias mãos, trêmulas e vazias.
— Isso é receio por essa sombra… ou só medo?
— Sombra? — franziu o cenho, tentando parecer ofendido — Por que você a chama assim?
— Porque é isso que ela é — Lançou à criatura um olhar de desprezo e ódio por sua maldita raça — Uma sombra. Um ser do mundo profundo, reflexo dos pecados humanos. Vive às costas do que vocês chamam de civilização. E cresce… na sujeira da sua alma!
— Ehr…
— Não é só pra bater em deuses de moral duvidosa que somos guerreiros!
Estreitou os olhos com aquela cara clássica de tio velho que já viu padawan demais travar no tutorial.
— E por mais o quê?
— É por causa delas, ué. As sombras. Essas desgraçadas não ficam escondidinhas no seu mundinho, não! Elas rastejam até a superfície do Intermédio como baratas. E, de vez em quando, metem o pé no mundo humano. E devoram tudo. Tudo mesmo!
— Tá, tá! — retrucou, revirando os olhos com a audácia de quem tenta parecer valente, mesmo tremendo mais que gelatina.
— E nem pense em subestimá-la! — Virou-se de frente, o semblante naquela seriedade incômoda — Aquela coisa ali… sozinha, já tem poder suficiente pra derrubar um exército bem armado. Sem esforço. O poder dela não vem de Eco, nem de alma, nem de intenção. Vem do próprio caos!
— Cacete…
— Entendeu?
— Entendi… o bicho é do mal e tem que virar churrasco — Soltou um suspiro que queria ser piada, mas saiu com gosto de oração — Vamos lá… só preciso matar…
Só…
…Bem fácil, né?
— Depois eu que sou dramático…
— Não fode! — bufou, limpando o suor da testa com as costas da mão — Antes entregava pizza… agora tô aqui, matando cachorro do capiroto… vida que segue, né?
Grrrnn… À frente, o ranger de dentes soava como trilha sonora do inferno. Pela coloração entre vinho escuro e ocre, dava para ver que aquilo já estava corroendo até o esmalte, de tanto triturar ossos e carcaças.
— É mais feio quando você encara, viu… Grr… que merda… nunca pensei que sentiria tanto cagaço assim… de frente para um monstro de verdade…
— É porque você nunca viu quem põe uma dessas… na coleira.
A frase caiu como pedra no estômago.
— É angustiante!
E, junto, um déjà vu amargo o congelou por um instante.
— Já invadiram aqui…?
Só sorriu de canto – não um sorriso reconfortante, mas daquele tipo que vem junto com um aviso silencioso: “tem coisa que é melhor você não saber”.
— Não… mas, de vez em nunca, rolam expedições de extermínio além da muralha. Sempre aparece um peixe grande…
— Entendi… — engoliu seco.
Duas sombras em uma moto?
Pensou. É… ele não mudaria tão cedo.
— Bem… tá na hora de parar de enrolar… e subir de nível, né?
Até sentiu um arrepio – era tipo a hora do intervalo na escola, parecia o fim dele.
— Verdade… — firmou os pés no chão, tentando parecer mais confiante — Agora vai!
Sem esperar mais nada, sua aura explodiu – fraca, trêmula, como uma vela tentando resistir a um vendaval. Mas estava lá. Vibrando. Carregada de algo que não se mede, mas se pede… a intenção.
— Isso!
Quase dava pra esquecer que, algumas horas antes, tinha assinado o atestado de óbito do moleque com um tapinha nas costas e um “boa sorte”. Mas tudo passa, né? Como um bom mestre estoico que era – sereno, impassível… e, claro, convenientemente sem culpa.
O que importava, no fim das contas, era que o guiava para o progresso.
Ou para a cova. Depende da perspectiva.
Vamos lá, Cael… vamos lá!
A mão se ergueu, firme – ou tentando parecer. Apontava direto para a criatura, que do outro lado se debatia com fúria animalesca, golpeando as barras com tanta força que elas começavam a ceder, amassadas como lata de refrigerante.
— Não fecha os olhos!
Ordenou assim o que ele mesmo estava prestes a fazer.
Era isso. Encarava… ou afundava de vez no pântano da própria covardia.
Ah, a coragem… essa desgraçada linda.
Sempre tão… cruel.
— Tá… — mordeu o lábio com força, como se sangue fosse ajudar a pensar.
Então, liberou a primeira etapa do seu Eco. Fraco, dissonante… mas real. O suficiente pra fazer o ar vibrar. O suficiente pra ser o começo de algo.
Que fosse deliberado, com aquela rara – quase mítica – vontade de acertar…
O impacto veio no silêncio. Nada de explosão, nem raios tempestuosos. Só uma onda de vento sutil rasgando o ar e, num estalo seco, atingiu a criatura.
Por pouco não acertou as grades.
Felizmente, foi no peito da besta.
A fissura se abriu pequena, tímida, do tamanho de uma agulha. Mas começou a crescer no mesmo instante. E crescer. Até chegar ao tamanho ideal para causar desconforto: já cabia uma bola no peito bem ali, onde seria fatal a um humano.
O uivo veio na hora. Agudo. Canino. Daqueles que fazem o tímpano querer pedir as contas. O sangue espirrou como tinta, manchando um chão seco demais pra absorver qualquer líquido.
Enquanto a criatura se debatia com brutalidade…
As patas cambaleavam, tentando encontrar um equilíbrio que já tinha largado o emprego fazia tempo.
— Cacete… por que tem que sofrer tanto?
Murmurou, enquanto o canino sombrio clamava por vida num último surto de desespero… e, do nada, morreu.
Simples assim.
Sem fanfarra.
Só… caiu.
Deu pra sentir o peso. A poeira ao redor da prisão levantou num salto.
— Finalmente…
Mas, claro, não podia acabar fácil.
Agora vinha a ciência.
O corpo começou a colapsar e se decompor bem diante deles – rápido o suficiente pra deixar seus olhares naquele meio-termo entre “será que vi isso mesmo?” e “tô pirando?”.
Em segundos, a carne apodreceu, virou uma carcaça, depois derreteu os ossos e, por fim, evaporou daquele mundo.
O que sobrou?
Nada! NADINHA! Nem um farelo pra contar história.
Três piscadas.
Foi só isso que Cael precisou pra ver tudo – a morte, a decomposição e o fim absoluto dos restos mortais.
— Como…?
Ele murmurou, genuinamente surpreso, encarando as próprias mãos. Não via apenas carne e osso — via puro poder.
Assustadoramente, poder.
— Eu desintegrei ele?
Asael finalmente tinha sua tese comprovada; aquele instante provava tudo.
— Não… Você… impôs a morte a ele. Foi tão rápido que nem deu tempo da criatura entender o que estava acontecendo. Ela foi forçada a passar pelos estágios da morte… tudo de uma vez. É pior que desintegrar… é tipo obrigar a alma a assinar o atestado antes do corpo cair.
Seu olhar estava afiado e não no sentido poético. Era o tipo de olhar que cortava mais que uma espada.
— I-isso… é possível?
— Aparentemente, agora é. Parabéns, Cael… você é oficialmente um problema maior do que imaginei!
— Como?
— Como isso é possível, ainda não sabemos… Mas uma coisa é certa: a morte em si… é o seu Eco.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.