Após… tentar.

    Não por segundos.

    Não por minutos.

    Mas horas.

    Horas de suor, frustração, falhas. Tentativas inúteis. Gritos abafados pelo cansaço. É, foi até ridículo assistir ao show que ele deu.

    Enfim, teve fim.

    Cael cedeu.

    Seus joelhos tocaram o solo ressecado do Intermédio, a respiração ofegante, os músculos em colapso. A sensação esmagadora do peso da guardiã pressionando suas costas, não só física, mas espiritualmente, como se a própria existência dela o sufocasse.

    — Mas já?

    — Já!?

    — Ué… só aguenta isso, garanhão?

    O céu ao redor já havia se tingido de um azul profundo, pontilhado por estrelas. A luz prateada da aurora invertida caía sobre os dois, solitários no campo onde treinavam.

    — Três horas… — cuspiu o tempo com raiva — e você me diz já? Cacete… vocês não têm noção? De hora… de gasto de energia?

    — Mas eu nem… — começou, irritada, mas logo desistiu com um suspiro — deixa…

    — Que que foi, mulher?

    Resmungou, ainda jogado no chão.

    Ela não respondeu de imediato. Apenas virou o rosto lentamente na direção dele, um meio sorriso se formando nos lábios, não de deboche, mas de puro deleite.

    — Como assim não temos noção de hora? — repetiu, com uma entonação melodiosa — O que seria isso?

    Bufou, incrédulo, balançando a cabeça como se esperasse uma câmera escondida filmando aquele absurdo todo.

    — Ué… tem hora pra tudo. A gente mede o dia, planeja, organiza a vida! E agora, perdi três horas num treino idiota enquanto podia… sei lá… tá fazendo algo útil!

    Ela o observava com um olhar sereno, quase clínico. Mas havia uma fagulha ali algo entre fascínio e tristeza.

    — Então, você tem apego ao tempo que tem… é isso?

    — É. Porque ninguém sabe o dia de amanhã — Desviou o olhar, o tom baixando, ficando mais sincero — Tipo, eu… nunca pensei que estaria aqui. Com você… com vocês.

    Ela assentiu levemente, seu olhar agora mais sério, distante. Até seus lábios cor de rosa se apertaram, como se tentasse prender palavras que jamais poderiam ser ditas em voz alta. Tentando, em vão, buscar em sua mente louca alguma razão, alguma lógica.

    — Isso é… fascinante — repetiu, quase para si — Vocês humanos… vivem com prazo. Mesmo que indefinido. E isso, de certa forma, torna tudo mais verdadeiro…

    Cael fez uma careta, sacudindo a cabeça.

    — Fascinante? Ehr… não acho. Incrível mesmo seria ter tempo pra fazer tudo o que se deseja. Mas não é a realidade de vocês, né? O Asael me contou.

    Desviou o olhar, encarando o nada como se visse algo que não podia.

    Algo antigo.

    Algo doloroso.

    — Não… — murmurou — Nós somos fardados a viver como eternos guardiões de vocês. Humanos. E nossa vontade… é tão inalcançável quanto a riqueza entre os seus. Tudo passa de uma bela ilusão.

    — Ilusão?

    — É, gatinho… Isso aqui é só um teatro. Não há concordância, só atuação. E o destino? A mentira mais amarga, engolida como verdade. Chega a ser… ridículo.

    Riu como uma psicótica que encontra poesia no caos. Seu sorriso, torto e encantador, era uma pintura – uma deusa enlouquecida na euforia do prazer existencial.

    Cacete… o sorriso dela é… do caralho!

    Pensou, sem conseguir desviar os olhos.

    Era o tipo de beleza que não se pedia, nem se compreendia. Ela era o furacão e a calmaria, o abismo e o céu estrelado. Do tipo que seduz até quem sabe que vai se ferrar.

    Ele piscou, tentando se recompor, mas a imagem já tinha se cravado no peito como uma adaga feita de desejo e confusão.

    — Que… bad. — Se deixou cair, sentado, olhando pro céu como quem busca uma resposta onde só há vazio — Então é isso? Não há mudança? Quer dizer, é assim desde sempre?

    Não respondeu de imediato. Apenas se aproximou em silêncio, sentando ao lado dele. Por um instante, parecia quase humana. Seus cabelos dançavam ao vento, e o brilho de seus olhos, antes tão afiados, agora tremia com algo mais sutil.

    Talvez sinceridade. Talvez… reciprocidade.

    — É… Você não sabe, mas estas terras… eram outras. Mais vazias. Mais puras. Apenas almas humanas vagavam por aqui. O mundo era dividido em três grandes reinos: a Profundidade, que vocês chamam de Inferno; o Intermédio essa terra de transição… e o Topo que, seria o Paraíso.

    — Era?

    — No princípio, sim. Mas nós… Nós surgimos da vontade de Elohim. Não por vaidade, nem por dominação… mas por necessidade. Ele nos moldou como servos. Guerreiros. Guardiões das almas, para defendê-las da fome das Sombras.

    — Então… vocês foram criados para proteger a gente?

    — Sim. E talvez… também pra sofrer no lugar de vocês.

    Ela não sorriu. Apenas olhou o vazio à frente como quem enxerga milênios atrás de um instante.

    — Wow… que… dramático…

    — Né? Enfim… foi por isso que houve guerra. Nosso surgimento feriu o orgulho dos deuses. Eles se sentiram traídos… como se o próprio Elar os tivesse abandonado. Roubados em sua vaidade. Então, começou a guerra. Dois mil anos de caos. Nosso nascimento foi também nossa sentença. Nosso selamento. Fomos condenados a servir eternamente, a nos opor às divindades. A proteger os homens que nem sabem disso, das Sombras famintas, que os devorariam sem dó!

    — Deuses… Eles são mesmo… deuses?

    — Não — disse firme o suficiente para fazer até o descrente crer em suas palavras — São apenas fragmentos. Partes despedaçadas do que um dia foi Elar. Divididos pela ambição, corrompidos pela vaidade. Não são mais que nós, guardiões ou sombras, mas vivem acreditando que o topo do mundo lhes dá o direito de ditar o destino.

    Cael engoliu seco.

    — E com o fim da guerra…?

    — Eles impuseram condições. As regras da “paz”. Não podemos alterar o curso da humanidade. Não podemos intervir além do permitido. Temos que manter o tal “equilíbrio” deles. Uma farsa… uma ilusão!

    — Nem… — tentou dizer algo, mas a frase morreu na garganta.

    — Racistas de merda… Condicionaram a própria raça aos pesares. E a nossa também. Um fardo eterno! Dá… vontade de foder com eles… de quebrar tudo! Mas… uma terceira guerra… seria o fim.

    O silêncio que veio depois não era comum.

    Cael não respondeu. Pela primeira vez em muito tempo… não tinha resposta. Nem sarcasmo, nem piada, nem defesa.

    Só…

    …Só o peso de uma eternidade que não era sua.

    Não era só um mundo dos sonhos.

    Era real. Cruel. Fragmentado.

    E… até quebrado.

    ÚLTIMO CAPÍTULO ESCRITO AQUI!

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