Capítulo 26 - Liora
Mas… a morte.
Essa senhora histérica, dramática e inconveniente, não conseguiu sequer beijar seus calcanhares. Nem arranhou sua epiderme trêmula, que se arrepiava inteira com aquele clarão súbito.
Sem cerimônia. Sem flores. Sem trilha sonora.
Por um microssegundo, cogitou: um anjo?
Que piada.
Nem teve tempo de concluir o delírio gospel, porque seus olhos — ainda cegos da explosão — se arregalaram, e seus sentidos foram tragados por um abraço.
Forte. Quente. Intenso. Com um cheiro…
Não floral.
Marcante. Como alguém que matou antes de salvar uma vida.
— Seu idiota! — trovejou, numa fúria quase doméstica, tipo briga de casal — Era só ter liberado logo sua expressão mais poderosa! Francamente… homens.
E do nada… puff. Evaporou.
Como uma aparição metida a atriz principal que interrompe o clímax só pra fazer cena e sumir depois com o Oscar na mão. Deixou ele ali, no chão, despencado igual sacola de mercado furada.
Tossiu. Uma, duas, três vezes. De leve. Mas a dignidade? Essa já tinha fugido pela sarjeta.
O que caralhos foi isso…?
A resposta veio no tempo certo — como um eclipse. Ela. A mesma figura. Agora flutuava, bem no centro do campo, afrontosa e gloriosa.
Sorte a dele que, ao ser deixado por uma, havia outra em seu resguardo.
A dama de cabelos negros pousou ao seu lado — com uma delicadeza desconcertante para alguém do tipo que carrega mundos nas costas.
Os sapatos?
Finos demais para uma guardiã. Quase elegantes demais para o contexto ao redor.
— S-senhor… você está bem?
A voz dela saiu entre a preocupação sincera.
E então, o abraçou.
Com aquele gesto contido — que só quem já perdeu demais sabe como entregar.
Como quem segura não um corpo, mas o que sobrou de uma consciência quebrada.
— Senhor…?
A palavra morreu em seus lábios.
Porque ele também morria. Ou melhor — desmaiava.
Lento.
E ela ficou ali.
Ajoelhada… Tentando entender se aquele silêncio era paz, ou prelúdio.
Estava alheia até ao embate que se iniciava.
Como uma testemunha distraída no limiar do inevitável.
Inocente por segundos.
Irrelevante por instantes.
Mas prestes a ser engolida por algo muito maior que suas preces.
— Desespero real? — indagou, num tom entediado. Como quem já viu coisa pior…
A Sombra, que até um segundo atrás era “o terror”, agora parecia um estudante pego colando. Encolhida. Culpada. Patética.
— Hm…
— Vingança? — continuou, arqueando a sobrancelha com um requinte que faria Freud chorar — Do quê, seu merda? Porque, sinceramente, eu não lembro de nada que justifique esse surto performático de espírito ferido!
— N-não? Claro que não… — ele respondeu, a voz misto de ódio e vergonha.
Fechou o punho como quem tenta agarrar o pouco de testosterona cósmica que ainda lhe restava.
— Você não faz parte disso! Nenhum de vocês faz!
— Ehr…? — A aura dela escapou como fumaça — Então por que, docinho, tá metendo porrada na gente? Matando meus aliados?
— Porque vocês estão no nosso caminho… — disse, e por um segundo, hesitou. Medo? Raiva? Paranoia? Vai saber. Mas tinha algo ali. Um arrepio honesto — …Você.
E foi ali que o mundo deu aquela virada de câmera lenta.
Se não tivesse se jogado pro lado, teria virado pó. Porque uma rajada de luz — silenciosa — rasgou o espaço como bisturi cortando véu de noiva.
— I-isso foi…?
— Meu Yesod, sim! — sorrindo com aquele tipo de sorriso que separa as pessoas normais dos psicopatas — Mudo, mas letal. Simbólico, né? Igual à culpa…
— A culpa? Isso é…
— Ambíguo? Louco? Hipócrita? — Completou, girando os olhos como quem já leu esse roteiro antes.
— Não… — insistiu, a voz oscilando entre a dúvida e a teimosia quase infantil de quem se recusa a aceitar uma metáfora tão absurda — A culpa é escura. Ela não tem luz!
— Que burrice… — bufou, quase ofendida com a ignorância — Claro que tem. A luz… é arrependimento.
E com um dedo, apenas um dedo, ela riscou o ar. Um feixe nasceu, fino, brutal, como uma rachadura na parede da realidade.
— A luz pode ser tudo, queridão. Inclusive o que antecede o caos. Ela vem antes da sombra, antes da queda, antes de otários como você invadir os meus domínios!
Foi aí que algo quebrou. Dentro dele.
Não um osso.
Um tempo.
Sentiu o corpo travar. Seco. Rígido. Como se o ar tivesse coagulado ao redor de seus nervos.
Estático — enquanto os lábios dela continuavam se movendo em câmera lenta.
O que é isso…?
— Tzura…
O nome veio à sua mente como um estalo dentro de um sino vazio.
Mas, vinda dela, aquela frase era ainda mais desesperadora.
Já lhe haviam avisado. Seria preciso mais que coragem para aguentar o peso que a guardiã da luz carregava.
Não consigo… agir e pensar ao mesmo tempo. Tudo tá… desconectado…
— Sedeqram, Elefmachatei Or!
E então, como vidro quebrando sob luz ultravioleta, da fenda que ela abriu com o dedo, feixes de luz despencaram. Não raios — agulhas. Não luz — cirurgia.
Elas o perfuraram, como se sua carne fosse um necrológico. E antes mesmo que a dor fizesse sentido, já estava atrás dele. Como uma sentença que te alcança no segundo seguinte à negação.
Não é possível…
— Tzura… Keluvha Elohim!
E o som de seu sangue negro tocando o chão foi um cântico invertido. Cada gota, uma nota. Cada nota, uma corrente.
O líquido espalhou-se pelas fissuras do espaço — tingindo o chão com a tinta da punição.
E assim, ela o selou.
Grades feitas de luz sólida ergueram-se ao redor, como uma jaula forjada com os nervos da alma de Deus.
Não uma prisão.
Um conceito.
Ele estava isolado.
— Você está preso à gaiola de Deus — declarou — Nela, você só pode ouvir… e falar. Não pode ver. Não pode tocar. Não pode sequer farejar o ar atrás de mim, seu verme.
Ergueu a mão, até a altura do rosto, e a fechou devagar. Um gesto mínimo — mas o suficiente para fazer a realidade estremecer ao redor.
Sua Aura se expandiu em ondas lentas, como se o próprio tecido do plano do intermédio estivesse tentando respirar com ela… e falhando.
— Limitei meu uso à Tzura… — completou — Porque se eu liberar tudo o que tenho… esse lugar vira poeira. Então me diga, criatura, que vingança é essa?
— Por que quer saber?
A voz dele cortou o ar. Alta. Nervosa. Estúpida.
— Já perdeu a frieza? — Devolveu, afiada.
— Q-quê…?
— Apenas me diga. Antes que eu te ceife. Pelo que está se vingando?
Houve silêncio.
— Eu… estou vingando meu Senhor… Noctherr!
No exato instante em que o nome foi dito, Ele desapareceu. Não como quem foge.
Mas como quem é retirado.
Arrancado.
Como uma nota errada que riscam da partitura.
A guardiã piscou. Só uma vez.
Mas foi o suficiente.
— N-Noctherr…?
O ar oscilou como espelho d’água. O céu balançava, como se tivesse maresia.
E até as sombras escondidas nas matas… sumiram. Como se não quisessem ser vistas ouvindo esse nome.
— Quem… — tentou manter o controle — Quem é esse filho da puta!? — berrou, o grito explodindo como um trovão entre os mundos.
Não era medo. Era indignação.

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