Capítulo 3 - Isekai? Não valeu!
(poV Cael)
Cara… atravessar aquele portal foi tipo… uma brisa. Literal.
Me senti sendo sugado para dentro de um mundo mágico — coelhinhos pulando, graminha verdinha, aquele clima de filme do Studio Ghibli… Será que era o tal pós-vida irado depois de virar panqueca no caminhão dos animes? Pois é. Não.
Foi mais tipo levar um tapa na cara com a mão de Deus.
Caí. Mas não foi qualquer queda, não — foi daquela maneira humilhante, estilo saco de batata, direto numa terra seca e estalando. Árvores mortas, névoa densa, aquele clima de apocalipse com trilha sonora de filme de terror.
E o maluco? Ah, pousou igual super-herói.
— Intermédio! — ele abriu os braços como se apresentasse o paraíso em pessoa. — Bem-vindo ao mundo que está além do físico… e antes do fim de toda existência. Aqui, é o reflexo do mundo terreno!
A voz dele tinha um peso musical. Soava mística. Quase me convenceu.
Mas cacete… que lugarzinho feio da porra.
— Hm… que lugar feio, hein.
Falei mesmo. Já estava todo arregaçado, não ia fingir empolgação agora.
Ele só riu e me estendeu a mão enquanto eu me sentava, coberto de poeira e dignidade nenhuma.
— É… o pântano é feio mesmo. Mas relaxa, mais uns quinhentos mil quilômetros e a gente chega na primeira civilização!
— Quê?!
Esse cara tá maluco? Quinhentos mil?! Eu tô sem tênis, sem autoestima e ainda com gosto de morte na boca.
— Que foi? Acha que eu não consigo? — disse meio ofendido, tipo criança quando duvidam do desenho dela. Mas aí, né… o cara materializou fogo e derreteu o asfalto com um violão.
— Cara… se tu me falar que é um Transformer, eu acredito! — levantei as mãos, rendido.
Vai discutir com um bicho desses? Eu não!
Ele sorriu, todo convencido, e estendeu a mão de novo — meio príncipe encantado, mas com cara de quem queimaria uma cidade só pra ver o circo pegar fogo.
— Nem vem! — recuei.
— Quer que eu te deixe aí? No seu estado atual, tu vai morrer igual barata sendo frita em micro-ondas.
Barata em micro-ondas? Que brisa desse cara…
Dei uma olhada em volta. A névoa parecia morder o ar, espessa e pegajosa, como se quisesse me engolir. O breu não era só ausência de luz — era presença de coisa errada.
Tudo ali gritava “vai dar merda” com sotaque demoníaco.
Energia toda errada. Atmosfera de filme de terror B com orçamento alto demais pro meu gosto.
Medo?
Tava no modo hardcore, com trilha sonora própria e o cu trancando sozinho.
— O que tem aqui, hein?
O eco da minha pergunta se dissolveu na névoa como um suspiro mal-assombrado. E ali, no silêncio pesado, a ficha caiu com força. Eu estava enfiado até o pescoço no ventilador ligado.
— Tem de tudo: monstros paridos pelos desejos podres dos iluminados, almas penadas de humanos filhos da puta, sombras demoníacas… e deuses metidos a justiceiros. Tipo aquele que quase te deletou da existência.
— Tantos assim?
Agarrei a mão dele como se fosse a última alça antes do moedor de almas. Tipo: ou isso, ou eu virava presunto espiritual de primeira linha.
— Cacete, então me tira daqui, pô!
— Calma, calma! — ele ria. O infeliz ria da minha desgraça como se fosse stand-up. — Você tá com um dos quinze guardiões superiores, meu chapa… eu sou poderoso pra caralho! — E então fechou a mão na minha e, num passo só, decolou.
Foi… esquisito.
Ele não fez força. Não correu. Nem deu impulso. O cara simplesmente… subiu. Como se a gravidade tivesse pedido demissão.
— Wow…
Um, dois, cem… duzentos metros do chão. Meu sapato voou. Literalmente. Ficou pra trás e despencou lá embaixo como quem diz: “valeu, irmão, daqui pra frente é só ladeira acima”.
— Você… voa?
— Todo ser minimamente racional. Até você… — e aí o desgraçado me soltou.
Simples assim. Me soltou.
Por um segundo, só existia o vazio. O vento rasgando a cara, o estômago subindo como elevador sem freio, e aquele pensamento clássico pipocando na cabeça: “É agora que viro estatística.”
Mas aí… eu não caí.
Eu… flutuei.
Fiquei ali, boiando no ar como se a física tivesse tirado folga só pra me zoar.
— Mas que porra…?
Abaixo, uma imensidão sufocante: névoa engolindo o mundo até onde a vista alcançava, e árvores secas, tortas, parecendo esqueletos tentando fugir da própria cova.
Tipo os véio da Caixa, só que com mais atitude.
Silêncio.
Assustador. Belo. Apocalíptico.
— É uma das belezas desse mundo! — ele gritou, flutuando do meu lado, sereno como se estivesse num domingo de sol no parque do fim dos tempos.
Filho da mãe voador. Loiro azedo. O que mais esse infeliz tinha planejado pra alma perdida que ele pescou por acidente?
Eu só queria uns trocados nessa vida. Pagar uns boletos, comer um pastel decente na feira de sábado… e agora tô aqui, flutuando num pesadelo, tentando não morrer de formas criativas.
— Mas fala aí… por que cê me trouxe aqui?
— Vou te apresentar ao Conselho! Quero que… você se torne um Guardião! — um sorrisinho maligno brotou na cara dele, daqueles que gritam “isso vai dar merda”. — Só preciso da confirmação!
— Guardião? Pera… o quê? Por quê?!
— Vai entender! — falou, ajeitando os cabelos com a finesse de um comercial de xampu, e ainda teve a audácia de piscar pra mim. — Vamos! — e saiu voando como um míssil, todo empolgadinho.
E eu? Cacete… eu fui atrás.
Mesmo querendo dar uma voadora naquele lunático… eu fui.
Guardião? Tá doido? Eu não quero profissão com risco de morte por turno. Depois que sair dessa maluquice, vou abrir uma lojinha de móveis usados, vender sofá rasgado e viver de boa, com paz interior e pouca expectativa.
Mas sair? Era só um sonho.
Abri e fechei os olhos, e de repente, lá estava eu, diante de uma cidade imensa. Belo Horizonte era um muquifo perto disso. As muralhas deveriam ter seus cem metros de altura, no mínimo.
— Bem-vindo ao primeiro distrito! Cidade de Qedmaton! — ele me olhou de lado, esperando que eu estivesse impressionado, mas tudo o que eu consegui pensar foi: Cacete, que raio de nome é esse?

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.