— Huff… — o ar escapou pelos dentes quando inclinou o tronco para trás, raspando o chão com o calcanhar.

    O soco passou rente à ponta de seu nariz, cortando o vento.

    Cael estava rápido demais para o próprio corpo, reagindo com reflexos de filme, quase um Jack Chan de fundo de quintal, mas funcional.

    O ar tremulava quando passava por sua pele.

    Ele emanava Eco, discreto, quase tímido, porém forte o bastante para repetir cada intenção que nascia contra sua determinação.

    — Você é bom em desviar… — Asael não recuava; seus olhos brilhavam como brasas afiadas.

    O careca avançou e não era por acaso.

    Havia propósito no passo.

    Um furacão inabalável, contido apenas pelas próprias mãos.

    Mesmo assim, sua presença balançava os anseios de qualquer sombra que ousasse desafiá-lo.

    E agora…

    Agora estava diferente.

    Ainda mais.

    Havia algo nos olhos, um brilho orgulhoso, selvagem, quase paternal, como alguém que observa seu filhote dar os últimos passos antes de finalmente correr.

    Não dizia nada.

    Mas o corpo falava: vai em frente… mostra que valeu a pena te moldar.

    — Sou o melhor!

    Ele apertou o passo, golpes brotando como furacões: primeiro de cima, depois varrendo pela lateral, um gancho de baixo, cotoveladas, joelhadas. Quando percebeu, já encaixava chutes tão rápidos que o ar parecia estalar.

    Era um ritmo animalesco, puro êxtase.

    Um dançar de violência.

    — Não vai recuar?

    A pergunta veio como uma provocação quase casual.

    — Não! — Cael abriu um sorriso torto, cheio daquela garra teimosa que só cresce na pele de quem já levou muita pancada da vida — Sobreviver no Brasil é desviar de bala todo santo dia! Ou vencer tempestades constantes!

    — É?

    — E… — Deslizou pelo chão, jogando o corpo para baixo, quase deitando no ar.

    Sentiu a textura do solo fugir sob suas mãos quando se impulsionou para cima com um salto improvisado.

    Foi aí que notou.

    Flutuava.

    Não só um pulo, não um desequilíbrio.

    Flutuava… sustentado por algo, que o corpo reconheceu antes da mente.

    Naturalizado com o ambiente? Talvez.

    Ou talvez o ambiente estivesse se adaptando a ele…

    — Eu… tô incrível!

    O peito subia e descia rápido, e Cael balançava o corpo para os lados, tentando encontrar um ponto de equilíbrio que ainda não existia — como alguém que aprendeu a voar antes de aprender a ficar de pé.

    O ar tremia ao redor dele, refletindo seu entusiasmo desajeitado.

    Asael inclinou o queixo, os olhos estreitando.

    — Incrível?

    A palavra saiu quase como deboche, mas havia orgulho escondido no canto do sorriso.

    O corpo dele tensionou, músculos marcando como feras esperando o bote.

    — Desvie então! — o rosnado veio, abrindo um sorriso predatório, selvagem.

    Sem aviso, o careca disparou. Um boom seco rasgou o ambiente quando ele explodiu um impulso de ar, lançando-se como um míssil humano para além nos céus, subindo em linha reta até seu aprendiz ver tudo em panorama.

    O jovem abriu um sorriso bobo enquanto esperava frear.

    — Ah… — o som escapou quando percebeu que estava a tantos metros do chão, leve demais para cair, pesado demais para ser um sonho — Acha que eu sou besta?

    Asael não conteve o riso.

    Um som rouco, orgulhoso, quebrado por um fundo de satisfação.

    — Boa, pirralho… — havia orgulho escondido sob o tom bruto, aquele tipo de aprovação que ele nunca entregava abertamente — Agora retorne!

    Ele estreitou os olhos.

    — Agora!

    Sua indagação dispersava pesares, quebrava a rigidez costumeira dele, derrubava aquela postura dura que carregava como armadura.

    E o jovem estava elétrico.

    A autoconfiança que antes vacilava em cada tropeço agora se firmava em algo primitivo, seu puro instinto, uma chama que queimava nas veias, dizendo que ele podia, que ele sempre pôde.

    A mão dele foi ao peito… não por dor, mas por intensidade, como se tentasse segurar o próprio coração antes que ele saltasse.

    — O que acha de mim!? — a pergunta veio mergulhada no orgulho e dúvida, desse fio tênue entre implorar aprovação e desafiar quem o moldava.

    O ar vibrou ao redor.

    E, assim que a frase terminou, despencou, mas não como uma bomba.

    Como lâmina.

    Rasgou a distância em uma linha limpa, veloz, quase luminosa, o próprio corpo foi afinado para cortar o espaço.

    E freou a centímetros do solo, o ar comprimido gritando ao redor do impacto controlado.

    Seu domínio era absurdo.

    O chão não resistiu: abriu-se numa fenda curta, estalando como se algo maior tivesse pousado ali.

    Farelos de terra saltaram como pequenas faíscas, iluminadas pelo Eco que ainda vibrava no ar.

    Cael ergueu o rosto, a respiração firme.

    Ele não apenas tinha pousado.

    Ele tinha mostrado.

    — Bom! — estalou os dedos.

    O som pareceu acalmar a neblina e o ar ao redor, que se desmancharam numa brisa de abril, suave, quase inocente demais para aquele cenário bruto.

    Um toque mínimo, mas que denunciava o controle absurdo que tinha do ambiente.

    Expressando Eco de forma natural.

    — Mas… — a pausa carregava intenção — você ainda não está pronto.

    As palavras caíram como um balde de água fria, mesmo com o vento morno passando pela pele.

    — O que… — Respirou fundo, o peito abrindo como quem tenta segurar o próprio medo antes que ele escape — O que tem de tão perigoso lá?

    Asael cruzou os braços.

    E o gesto sozinho pesou mais que qualquer explicação.

    Os olhos estreitaram, ficando sombrios.

    — Humanos.

    A palavra foi cuspida, amarga.

    — Eles criam sombras demais. Mais do que qualquer demônio, espírito ou entidade que já enfrentei.

    Um guardião corre mais risco lá… do que aqui.

    O ar pareceu murchar por um instante, como se a verdade entortasse o ambiente.

    — O ambiente espiritual não acompanha a densidade do que eles sentem… do que eles negam… É pesado demais!

    Ele passou o polegar pela palma, um gesto antigo, vício de quem fala de algo que conhece profundamente.

    — Há um déficit enorme na formação de guardiões lá… A impermanência espiritual é tremenda.

    — É tipo escola pública…

    Saiu sem jeito, quase um tropeço verbal.

    O descaramento ainda não o havia abandonado… talvez nunca fosse.

    — Ou particular… — retrucou — Enfim… A diferença é que lá o problema não são carteiras quebradas… são almas penduradas por um fio.

    A neblina atrás deles tremeu, como se tivesse ouvido.

    Expirou devagar, e o ar se tornou mais pesado, quase sólido.

    — Lá… tudo muda rápido demais. Sentimento vira abismo em segundos. Esperança vira veneno. Vontade vira ruína.

    Ele inclinou um pouco o corpo, aproximando o rosto apenas o suficiente para que a verdade ficasse inevitável.

    — E o que muda rápido… tende a quebrar quem tenta protegê-lo.

    A frase não veio como ameaça.

    Como se, por um instante, estivesse vendo o futuro — e não gostasse do que enxergava.

    — Você entende isso?

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