Mais um dia. A primeira manhã no intermédio.

    E lá estavam: suados, ofegantes e solenemente ignorados por Eliyah — o responsável por toda aquela cena — que, ocupado demais, devorava pães de mel como se fossem pepitas de ouro recheadas.

    — Isso é do caralho!

    Sentado direto no chão, com o manto todo amassado e o canto da boca lambuzado, parecia mais uma criança largada em feira do que um guardião de um plano superior.

    — O que trouxe sua presença até nós? — indagou seu subalterno.

    Passos casuais bastavam para desviar dos ataques de Cael — que tentava como podia. Sem técnica, sem graça. Lutar não era seu forte, muito menos seu hobbie.

    — Quero saber o que esse aí aprendeu. Me diz você: ele aprendeu alguma coisa? — perguntou entre uma mordida e outra, a voz abafada por migalhas e desinteresse.

    — Não tá vendo? — Exausto de tanto tentar.

    Se jogou de costas, o sarcasmo escorrendo pela boca como cuspe de desdém.

    Um sorrisinho torto no canto dos lábios. E então… veio a outra ventania.

    Mais forte que antes… Mas…

    Dessa vez, não foi parar na parede como nas últimas dezessete tentativas. Ficou de pé. Firme. Só os cabelos bagunçados — como se a cena tivesse sido dirigida por alguém com fetiche em comercial de xampu em câmera lenta.

    — Hm… tô vendo vocês brincando de lutinha…

    — Não é… ehr… brincadeira! Esse jovem tem uma capacidade de resistência acelerada. Diria que é quase uma barata! É impressionante… — e, ao desferir um soco, Cael reuniu tudo que tinha pra segurar. Viu a morte de relance. Mas, mesmo voando na parede, não morreu… de novo.

    — Calma aí! — arfava, a cabeça latejando, meio zonzo. Tudo girava… e então, como num estalo de mágica, tudo voltou aos conformes.

    Espera…

    Pensou. Foi incrível.

    Sentiu os ossos se remendando por dentro, a pele queimando e se reconstruindo, o ar sumindo dos pulmões… e voltando como se nunca tivesse faltado.

    Era como se o próprio corpo estivesse aprendendo a sobreviver — no tapa.

    Uma sensação absurda de cura acelerada. Violenta, crua… e viciante.

    — Viu? — apontou para o loiro. — A cada situação de quase morte, o Eco dele adapta os atributos para ele resistir. Tipo um antivírus espiritual em tempo real. Não acha incrível?

    — É… é… — retrucou com desdém. — Mas e o Yesod dele? Ser fortinho é ótimo, mas sem controle nem pra fazer careta… não vai matar nem bicho-papão.

    — Eles não morrem com socos do Saitama?

    Ele fez uma careta de dor, mas segurou firme. Deu uns jabs leves no ar, encenando uma luta imaginária, e então abriu um sorriso torto — daquele tipo malandro, como se tivesse ganhado a briga… e o último pedaço de bolo.

    — Tô no auge, pô. Agora ninguém me pega nem na bala!

    — Criaturas sobrenaturais não fazem abordagem de moto. Isso aí é execução à queima-roupa — o loiro formou uma pistola com os dedos e apontou, firme. — Bang. Fim de jogo.

    — Ehr… como assim?

    O grandalhão riu alto.

    — Os monstros não dependem de energia espiritual para existir. Eles estão além da matéria e são intocáveis por algo puramente físico. São a sujeira dos desejos humanos ganhando forma — disse, a voz grave ressoando com a devida autoridade. — São puro Eco corrompido… e só podem ser atingidos por algo que se assemelhe a sua essência. Uma expressão! Daquelas que gritam quem você é, sem filtro, sem freio!

    — Cirúrgico.

    — Então eu tenho que aprender essa tal expressão… — resmungou, quase como uma criança contrariada. — Saco.

    — Vai ficar reclamando toda vez? Tá parecendo aluno no primeiro dia de aula…

    De repente, o olhar mudou. Ficou sério, afiado — como o de um felino prestes a dar o bote.

    — Certo, certo… — interrompeu com um suspiro impaciente. — Deixa comigo. Vou tentar ensinar pro nosso amiguinho aqui o básico da liberação da própria técnica. Porque se depender de vocês, a gente empaca.

    — E isso é tão difícil assim?

    — Difícil? Que nada! — o loiro se levantou com um estalo nos ossos, como se estivesse prestes a subir no palco. — É mais fácil do que essa sua pose toda errada de lutador. Você só precisa decidir e colocar firmeza no espírito, sacou? Guardiões como a gente fazem isso no automático — sem precisar dar um show da Madonna…

    Ele fez uma pausa, os olhos acendendo com malícia.

    — Mas você? Vai ter que pagar mico. E bem aqui. Na minha frente.

    — Você é chato demais, sabia?

    — Sabia…

    — Sabia… — afinou a voz num deboche leve, imitando-o. — Por que mudou do nada? Tava mó animado quando me trouxe…

    — Responsabilidades, jovem! — respondeu, com um tom mais firme. — Você sabe bem como é… O senhor carrega esse setor inteiro, milhares de vidas nas costas. Não dá pra manter o sorriso o tempo todo. Mas ele… ele tenta. — concluiu, com convicção e respeito no olhar.

    Sério que o cara que quase fritou o mundo liga pra isso?

    Coerente. Pela primeira vez. Ou segunda, talvez…

    De repente, o olhar seguro e determinado caiu sobre si.

    — Vamos?

    — Vamos!

    O olhar do mestre também se afiou — adrenalina e um certo tesão por combate fervendo sob a pele. E então…

    — Buuuu!!!

    O grito o pegou de cheio. Por reflexo, se jogou para trás, tropeçou… e caiu de bunda.

    — Wow…

    — Filho da puta! Eu estava concentrado! Cacete! — explodiu, tomado pela fúria. — Some daqui se for pra atrapalhar!

    — Ui, uiui… e depois eu que tô estressado… — o loiro riu de canto, saboreando cada segundo do caos.

    Enquanto Asael, batendo a mão no rosto, só conseguia pensar no quão imbecil era o homem que insistia em chamar de seu líder.

    ❍❍❍ ᨖ ❍❍❍

    Já no plano superior, Thaenor ouvia as boas novas — se é que se podia chamar aquilo de “boas”.

    — QUEEEE!?

    Sua harpa celestial soltou um gemido agudo, como uma corda arrebentando no meio de um hino.

    — Aquele asno fez o quê!?

    — Senhor… — arriscou o carrasco, com a coragem de quem segura uma granada sem pino.

    — Não se explique! — a voz ecoando como trovões em catedrais vazias. — Não me importa se se arrepende!

    Sua aura então se rasgou no tecido da realidade, tomando a forma colossal de um dragão negro, feito da própria essência da morte, da treva e dos pesadelos mais podres.

    — Só quero essa aberração a sete palmos da terra! — rugiu novamente. — Nem que eu tenha que arrastar aquele maldito mundo intermédio para o inferno comigo! ENTENDEU!?

    Sua fúria era tão insana que cuspia saliva corrosiva. Corroendo o piso do plano superior e suas nuvens douradas.

    Foi então que, de repente, como quem abre uma janela no meio de uma tempestade, outro Deus surgiu — com passos leves, mas uma presença que congelava até a luz.

    — Tem certeza do que diz… irmão?

    A voz vinha de Veimar, o Deus dos Temores, envolto em névoa e mistério, com um sorriso de quem já sabe o final da piada.

    Seus cabelos eram longos e brancos como a neve. Seus olhos, da mesma cor espectral, não apenas viam — refletiam o medo, o horror primal que até o próprio Deus do Fim evitava encarar.

    Não havia criatura, em qualquer plano, em qualquer era, que suportasse aquele olhar sem sentir a alma tremer.

    Pois diante deles, estava ele…

    O temor de todos.

    O princípio e o fim do pavor.

    — Por que diz isso?

    — Seria burrice — Quase divertido — Guerrear por orgulho… e por causa de um homenzinho de meia tigela. Guarda tua harpa, ó trovador da destruição! Mal terminamos a última guerra há dois mil anos! — Suspirou, como se carregasse o peso do universo nos ombros. — Quer começar outra antes da próxima era nascer?

    Thaenor franziu o cenho, olhando o carrasco como se considerasse carbonizá-lo por esporte.

    — Vaza!

    O pobre diabo não esperou um segundo sequer: evaporou no ar, deixando só um fedor de medo para trás.

    E o deus fechou os olhos, pensativo. Seu peito ainda arfava de ódio, mas algo mais fundo começava a roer suas entranhas.

    — O que mais me intriga… Não é o homenzinho. É o como. Alguém está puxando nossas cordas. Alguém ousa nos manipular. E isso, meu caro irmão… é algo que vou descobrir. E esmagar!

    — Justo! — disse, dando de ombros, como se não fosse nada demais.

    Indiferente como quem assiste a um circo pegar fogo.

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