A visita acabou.

    Desapareceu como apareceu:

    como um rastro de chamas no ar.

    Deixando para trás apenas o eco de sua personalidade, algo acima de responsabilidades, ou qualquer autoridade.

    E, mais uma vez, entre os dois…

    Aquele sentimento.

    Um certo respeito. Uma certa admiração. Uma certa… confiança.

    Aprendizado era a sina de ambos.

    Um tentava entender o outro como quem lê bula de remédio; já o outro se esforçava para entender a si, com a confiança de quem monta um móvel sem manual, e jura que sabe o que está fazendo.

    — Tente!

    Ele tentou.

    Algo.

    Qualquer coisa.

    Mas nada saiu.

    O peito bateu forte, o vazio e o silêncio foram sua única resposta.

    Não houve sequer um suspiro na sua aura, tamanha era a serenidade… ou a completa falta de noção do que estava acontecendo.

    — Tente!

    Mais uma vez.

    Mão suspensa no ar, tentando impor direção… mas era como empurrar o vento.

    Nada obedecia. Nada surgia, exceto a sua própria vergonha — majestosa, desfilando no vazio como quem acha que está arrasando.

    — Nada…

    Desabou como maracujá de gaveta, velho, esquecido e dramaticamente enrugado.

    — Tente, vai!

    Demorou mais. Se concentrou mais.

    E novamente, o fracasso lhe estapeou a cara como um palhaço zombeteiro num palco vazio.

    — Cacete… Tem certeza que é isso? “Se sinta capaz e acontece”? Isso me soa mais como frase de autoajuda do que uma técnica real!

    — É mais fácil se iludir do que reconhecer que até a sua coragem tirou férias? — disse, pontual e cortante, como só os sábios meio cansados sabem ser.

    — Ehr… Mas eu consegui aquela aura, né?

    — Ela só te torna capaz… no instante em que a confiança te domina. Mas a expressão? Ela é a certeza. Aquela que já vê o depois antes mesmo de chegar lá. Entende? É como escolher com quem dividir sua vida… Ou… você não sabe o que é isso?

    A última frase o atravessou.

    Fria. Íntima. E assustadoramente verdadeira.

    Um arrepio rastejou pela espinha dele.

    — Papo de psicólogo de novo?

    Ali estava o cerne da desgraça. Para que a aura pudesse sequer cogitar emanar, o sujeito precisava estar certo — e, pior, convicto — do que queria. Um motivo, qualquer um: vingança, amor, algum laço emocional meio torto. Qualquer coisa que o fizesse assumir seus atos. Mas a covardia? Ah, essa espantava a intenção como barata na luz.

    — É. Você já confiou em alguém? Já depositou tudo de si? Ou é mais vazio do que eu pensei?

    — Sou meio vazio… — dizer aquilo foi como levar um cruzado no estômago assinado por si — Cacete… também, quem manda? Não é como se eu entregasse tudo de bandeja… vai que dá ruim, né?

    — Ainda essa covardia miserável… — disparou, cuspindo as palavras como quem arremessa pedras — e ainda tem a ousadia de confessar? Entra numa causa sem alma e acha que vai conquistar alguma coisa? Patético. Covarde!

    Sua sinceridade zumbia no ar como o estalo seco de um chicote, rápida, dolorosa e impossível de ignorar.

    A palavra ‘covarde’ já era repetida tanto que parecia até nome de batismo.

    — Ahn? — mais por reflexo do que por qualquer capacidade de raciocinar naquele momento.

    — Você tem medo de perder!

    — E perde antes mesmo de tentar, seu fracassado do caralho! É isso que quer ser chamado? Campeão mundial em desistência?

    — Parou…

    — Esculacho, motivação ou conselho? Escolhe aí, porque de qualquer jeito tu vai ouvir!

    — Ei, ei! — rebateu, se levantando num pulo desengonçado, igual gato assustado — Bug, falha existencial, até aceito… mas “do caralho”!? Ô Zé, modera essa língua aí!

    Seus nervos estavam em frangalhos, a pele formigava, o peito parecia em chamas. E foi aí que o outro simplesmente desabou na gargalhada, como se a desgraça toda fosse a piada mais óbvia do mundo.

    — Que foi?

    — Tô te zuando, ué! — respondeu ainda rindo, inclinando-se para frente, apoiando o queixo na mão, estudando a situação como quem observa um bicho raro — Cadê teu bom humor, campeão?

    O riso foi murchando aos poucos, feito balão furado, até sobrar só um suspiro carregado de algo que ninguém ali queria nomear.

    — Mas falando sério… por que não tenta? — insistiu, a voz ficando mais grave — Essa raiva que você sente… ela é real. Talvez, só talvez… não seja raiva. Talvez seja frustração.

    — Por quê? Se calmo eu já sou um desastre… imagina irritado?

    — Porque, meu caro, frustração ainda é um sentimento válido! Não é um amor épico nem um ódio avassalador… mas, veja pelo lado bom: é um começo! Todo incêndio começa com uma faísca, não?

    — Tá… — resmungou, desconfiado.

    Suspirou.

    Tá me zoando. Certeza.

    A ideia se infiltrou na mente dele como uma faísca incandescente e, lá no fundo, algo primitivo se agitou.

    Maldito…

    Irritado, levantou a mão — um gesto tão instintivo quanto respirar, tão natural quanto o próprio impulso de sobreviver.

    E então, tudo mudou.

    Sua expressão.

    Seu olhar.

    Tudo.

    Foi arrebatador. Assustador.

    — O quê…?!

    Se não fosse mais rápido — se não fosse simplesmente melhor em tudo — talvez já estivesse estirado no chão, nem sequer consciente para pensar nisso.

    Suas pernas se flexionaram num estalo, jogando uma cortina de poeira para trás enquanto escapava, por um triz, de algo invisível.

    Algo que veio.

    De repente.

    O ar oscilou, pesado. Uma onda de calor quase imperceptível deslizou sobre sua pele.

    Um golpe tão veloz, tão sutil, que mal podia ser chamado de expressão.

    Afinal, o que expressava?

    Se nem rastro tinha… nem sonido… silenciosa…

    Sorte que desviou.

    Suor frio o serpenteava pela nuca, enquanto os batimentos retumbavam como tambores nos ouvidos.

    Mas, diante de si em choque, o jovem permanecia imperturbável, como se absolutamente nada tivesse ocorrido.

    — Que que foi, caraí? — Sua expressão era mais de emburrecimento do que de orgulho próprio.

    E de fato, para ele, era isso mesmo.

    Afinal, sequer se deu ao trabalho de olhar ao redor…

    ÚLTIMO CAPÍTULO ESCRITO AQUI!

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (2 votos)

    Nota