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    Ele despertou e no momento em que abriu seus olhos, soube que iria morrer, que todos iriam.

    Não foi uma conclusão a qual chegou depois de passar por uma longa linha de pensamentos, afinal qualquer força superior saberia que a mente daquela criatura mesmo em seus melhores momentos não teria sido capaz de muito mais além de algum raciocínio lógico limitado ao esperado de uma criança humana. Tampouco foram seus instintos, estes sim aprimorados pelo tempo e levados ao auge de suas capacidades.

    Somente lhe pareceu óbvio.

    Ele iria morrer, todos iriam.

    Sua garganta se fechou e não abria, por mais esforço que fizesse, ela permanecia fechada e nem a mais leve lufada de ar poderia passar. Se existisse algum ar para ser respirado naquela caverna, o que o Cupendiepe não acreditava ser possível. Quando ele respirou, tudo que atravessou suas narinas foi a fumaça.

    E ela queimava, ela queimava como fogo e ardia como brasa.  Desafiando o aperto sufocante em seus pescoço, o homem alado tentou gritar, mas tudo que saiu de sua boca foi um som estrangulado e baixo que se assemelha mais ao último suspiro de um náufrago em seu leito. Em rápida compreensão, soube finalmente que sucessão de ganidos roucos eram aqueles chegando a seus ouvidos.

    Seus iguais sofriam igual a ele, ou assim soava para suas orelhas. Seria difícil dizer com precisão, sua capacidade visual já baixa era inexistente desde o momento em que abriu os olhos. Cada um deles derramando rios de lágrimas em uma forma desesperada de tentar se livrar da sensação de fogo puro que os cobria.

    Era inútil e quanto mais choro caia, mas seco seu corpo se tornava. Quando acordou, suor escorria por sua pele tentando resfriá-lo antes que sua carne fosse cozida e bolhas estourassem. Segundos e apenas isso foram necessários até que qualquer líquido em seu corpo evaporasse. O homem morcego sentiu sua garganta ainda mais ressecada e sua própria vida escorrer pelas rochas da caverna.

    Ele ia morrer, todos iriam.

    Nem mesmo sabia como se manteve no teto a despeito de tanta tortura. Foi como um sinal, uma ordem, uma lei, pois uma vez que o seu peito doeu, suas pernas falharam e sua queda foi inevitável. Levou uma mão de garras longas ao peito, é repetitivo, no entanto é fato que sentia seu coração queimar. Tudo em seu corpo queimava e ardia quanto menos ar era capaz de sentir. 

    Talvez fosse a sua mente sendo cozida, o ar que não conseguia, até mesmo a cabeça sendo ferida na queda, porém ele quase conseguia ouvir crianças chorando e alguma criatura dando risada. Era impossível, sua última criança fora morta por algum invasor enquanto dormiam e quem riria naquela situação?

    Percebeu que não sentia mais o seu braço dominante, nem mesmo fazer qualquer movimento da cintura para baixo. Nenhum de seus irũ vinha ajudar, que sede demoníaca, moxy! Ele precisava respirar de uma vez.

    Os olhos dele se voltaram para a saída, existia uma saída não existia? Pensava que sim, pouco mais do que contornos foram percebidos por seus olhos já fervidos, no entanto aquele era o seu lar, poderia encontrar a saída mesmo sem a enxergar. E a encontrou, porém quando o fez, não havia para onde seguir. Muitos já haviam seguido aquele caminho, mas não tiveram como sair. Todos aqueles que não padeceram no trajeto, retornaram para a caverna, algo os impedia de deixar o interior da montanha. Não havia esperança para ele, nem para seus t-apixara, seus maran-irũ e até mesmo seu ykeyra.

    Seu ykeyra, onde ele estava? A criança que morreu era dele, sua cria, sangue dele e de todos. Por que tanto mal se abateu sobre eles em tão pouco tempo? Quais foram seus crimes perante aos espíritos? Por que tanta punição?

    Quem foi o responsável por tanta dor em suas vidas?

    Ele ia morrer, todos iriam.

    O Cupendiepe queria viver, ele queria tanto viver, não podia estar morto. Existia tanta coisa valiosa no mundo para aproveitar, as árvores, as estrelas, os risos, a lua, o ar fresco na cara.

    Poderia matar qualquer um naquele momento para sentir o ar fresco.

    No entanto, tudo que conseguia ao respirar era apenas aumentar a sua dor e acelerar o que era inevitável. Com os músculos da garganta fechados, olhos cegos e ardendo, um corpo que já não estava sob seu completo controle, o homem morcego desistiu.

    Foi quando a luz surgiu, em um modo literal de se descrever. Mesmo que nada além de contornos existissem no alcance de sua visão, a luz era clara e evidente o suficiente para ser incapaz de passar despercebida. Vinha de cima, de um buraco na caverna feito por seus t-apixara através de uma tentativa desesperada de sobreviver.

    Os corpos daqueles que iniciaram a tarefa jaziam sobre as rochas do chão, os que conseguiram completar seu objetivo estavam caindo incapazes de viverem o suficiente para saírem eles mesmos. O buraco foi útil apenas aos mais resistentes, aos últimos sobreviventes que voaram através daquele túnel estreito feito através da agonia, mas não a ele.

    Apesar de ainda poder voar e existirem chances de conseguir sair da caverna antes de finalmente sucumbir, ele não se moveu e muito menos cogitou. Já havia aceitado um fato que estava lá desde que acordara, uma verdade óbvia mesmo a sua mente simples e naquele momento atordoada por dor e calor.

    Ele iria morrer, todos iriam.

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