Capítulo 57: No morro do morcego
“Eu até gosto.” A mulher falou deitada sobre uma pedra sentindo o sol sobre si, estava esparramada com os braços abertos enquanto o monstro estava deitado ao seu lado.
“Imaginei que suas preferências fossem mais, úmidas por assim dizer.” O hobgoblin respondeu encarando a subida da montanha.
“Morei por muito tempo em uma região assim, é familiar, embora não seja uma opção por causa da vizinhança.” Afirmou se sentando e voltando o olhar para o mesmo lugar que o monstro.
Ao longe, em regiões mais altas, se encontravam algumas criaturas de dez a quinze metros de altura. Seus corpos humanoides eram escuros como o tronco de uma árvore e suas peles tão grossas quanto. Não usavam roupas, é claro, que tipo de vestes criaturas daquele tamanho poderiam ter?
Era incomum que o hobgoblin os visse normalmente, aquela espécie costumava buscar alimentos na região contrária da montanha, seguindo mais ao centro da floresta onde ficavam os maiores animais. Normalmente não eram um risco e naquele momento continuava dessa forma, pois os gigantes (não eram de fato gigantes, mas o adjetivo ainda é utilizável) estavam longe demais e começaram a descer na direção contrária.
A Bruxa se levantou sem muito entusiasmo e esticou as costas. Se agachou para pegar seu cajado ainda no chão e disse:
“Vamos subir, quero ver como é a vista do alto.”
“O que? Qual a necessidade?“
“Deixe de ser tão preguiçoso, vai ser bonito pelo menos e o caminho nem é tão íngreme, tem uma trilha natural até metade da base da montanha.”
A formação rochosa era de uma magnitude fascinante, mas apenas quando comparada a duas criaturas pequenas como eles. Era a menor daquela cordilheira que se espalhava pela floresta e desaparecia na linha esverdeada do horizonte. Até metade do colosso rochoso era possível caminhar sem muitas dificuldades.
Certo, o monstro ficou curioso para saber como era vista. “Ele” então se sentou, curvou sua coluna até ter sua cabeça entre suas próprias pernas. Se impulsionou para frente e ficou ereto usando os braços para ficar em pé de cabeça para baixo.
Abaixou suas pernas formando um arco perfeito com o seu corpo e elevou seu tronco até ficar de pé. A Bruxa apenas assistiu toda a cena incrédula, qual a necessidade de ficar o tempo todo mostrando como era flexível?
Claro que ela sabia a resposta, apenas para fazer seu estômago se revirar. O contorcionismo é assustador e o hobgoblin sabia que ela não gostava. Estava tentada a debochar dele comentando sobre como o monstro só aprendera aquilo para ser capaz de chupar o próprio pênis, mas sabia que aquele não foi o motivo e preferia não dar novas ideias.
Apenas seguiram em um silêncio confortável pelas trilhas naturais da montanha. Algumas grutas se espalhavam pelo ambiente, mas nenhuma que parecesse ser remotamente habitada por qualquer espécie. Que tipo de criatura iria se dispor a alturas como aquela? Só harpias passavam pela mente da mulher e como nunca viu uma nos céus da floresta, era seguro afirmar que apenas os falsos gigantes habitavam as alturas rochosas.
Levaram minutos até que atingissem uma boa altura, terminaram cansados e suados (ela, mais que o monstro), mas valera a pena. A paisagem era extraordinária, a fronteira de árvores que se conectava às planícies humanas podia ser vista daquele ponto. O pantano da Bruxa podia ser localizado devido às copas de folhas escuras e o rio que serpenteava pela área.
O templo antigo do qual o hobgoblin tanto falou podia ser visto não muito distante, foi construído na base da montanha cercado pela água de um rio que entrava na selva pelas terras humanas. A construção era fascinante, um ordem e simetria perfeitas com linhas geométricas circundantes. Sua principal estrutura era uma pirâmide principal cercada por outras menores, todas com partes submersas. Era lindo.
Os acampamentos dos trolls e dos orc também eram enxergados dali, possivelmente o monstro ao seu lado conseguia enxergar ainda mais longe com sua visão aprimorada.
“É bonito não é?” Perguntou se sentando na beirada do rochedo.
“Sim, é uma visão cheia de esplendor.” Concordou, mas sem relaxar igual a outra.
Algo ainda o incomodava, a visão de mais cedo não foram apenas os falsos gigantes, pareceu a “ele” que vira algum vulto sobrevoando o céu. Poderia apenas ter sido algum pássaro de qualquer forma, não era realmente importante.
Algo digno de sua atenção era o movimento estranho do acampamento orc, muitos de seus membros caminhavam em direção às planícies munidos de armas. O hobgoblin só podia supor o que estava prestes a acontecer.
“Aparentemente um novo conflito entre os orcs e os pseudo-centauros é inevitável.“
“Hum?” A mulher murmurou apertando os olhos e tentando enxergar mais longe, não conseguia ver o deslocamento dos monstros apesar de ver o acampamento. “E daí?”
“Eu desejo ver isso.” Respondeu com um tom que não deixava margem para questionamento.
“Lá vamos nós perder mais tempo.” A Bruxa reclamou se levantando e se alongando para a descida.
A atenção deles foi chamada por um barulho de cascalho rolando. Não foi um som alto e teria passado despercebido se não fossem os sentidos superiores dos dois. Eles se entreolharam e caminharam a passos silenciosos até a origem do som.
Encontraram uma gruta escura que aparentavam ser apenas a entrada de uma caverna maior. Apenas uma troca de olhares entre os dois foi o suficiente para saber que entrariam. Tinham confiança em suas capacidades e era melhor não serem pegos de surpresa por alguma criatura enquanto desciam a montanha.
As pupilas de fenda da bruxa se abriram e se espalharam em sua esclera, ela estava pronta para enxergar no escuro. O mesmo não precisava acontecer com o hobgoblin, pois seus olhos se adaptaram a baixa luminosidade sem a necessidade de uma mudança em sua capacidade de absorção luminosa.
“Ele” foi na frente. O túnel tinha espaço para que uma pessoa alta caminhasse por ele, mas não era largo o bastante para que duas andassem lado a lado. Foram uns poucos segundos se entranhando na montanha quando o hobgoblin parou, a mulher atrás conseguia ver a causa.
Eram dezenas de monstros, todos aconchegados uns nos outros. O estranho é que não ocupavam o chão, todos estavam de cabeça para baixo com seus pés presos ao teto. Só duas partes de seus corpos eram visíveis, a cabeça e as asas.
O rosto parecia humano, a mesma face sem a brutalidade da natureza, a boca sem presas e as orelhas redondas. Todos possuíam rostos humanos com um tom de pele pardo. No entanto, definitivamente não eram humanos.
Nenhum homem tinha asas de morcego como aquelas.
Todos eles tinham seus corpos cobertos, enrolados em suas próprias asas, dormindo de cabeça para baixo tal qual a raça animal com quem pareciam compartilhar características.
O hobgoblin se virou para a Bruxa, seus lábios se abriram e nenhum um som saiu quando questionou:
“São esses os famosos vampiros?“
“Não.” Ela respondeu no mesmo tom mudo, sem produzir som. “Nunca vi uma coisa assim.”
Não tinham tempo para pensar sobre a espécie desconhecida. Facilmente identificaram a razão de terem ido até ali e ela poderia acabar causando muitos problemas.
Uma criança.
Assim como os outros parecia humana, um garoto cuja altura nem atingia a cintura do hobgoblin. Tinha a pele parda como a daqueles que dormiam suas asas eram envolvidas e ainda subdesenvolvidas, não vestia roupas e por isso era fácil supor que ninguém do povo usava.
A criança tinha cabelos negros caídos sobre seus ombros, linhas vermelhas pintadas pelo seu corpo e encarava os dois intrusos. Estavam em apuros, um grito da criança e dezenas de homens morcegos se lançariam contra eles. O monstro então fez a única coisa que passou pela sua cabeça.
“Ele” sorriu sem mostrar os dentes.
Independente da espécie, crianças são crianças. Por padrão são curiosas, imprudentes e ingênuas, fossem monstros ou não.
O hobgoblin deu seu melhor sorriso e acenou, era agradável. Já não tinha uma aparência ameaçadora como no passado, era bonito e podia até se passar por gentil.
A criança retribuiu com outro sorriso.
Ela andou dois passos confusos, não sabia andar muito bem aparentemente. Devia ter cerca de apenas três ou quatro anos. Talvez caiu do teto e nenhum outro percebeu?
O pequeno deu mais alguns passos e o monstro abriu os braços com um sorriso caloroso na face. A criança continuou andando e balbuciou no trajeto. “Ele” levou um dedo a boca e fez um baixo som de chiado, pediu silêncio.
O jovem levou as mãos à boca alegre, como se brincasse. Não era barulhento de qualquer forma e o hobgoblin presumiu que sua espécie desgostasse de barulho.
Apenas mais alguns passos e finalmente estavam frente a frente. O monstro abraçou o pequeno, beijou suas bochechas, acariciou seus cabelos.
A criança riu.
Aquela criatura verde e bonita era legal, muito legal. O pequeno relaxou sobre aqueles braços, aproveitou daquele cafuné. O estranho era com sua mãe, gostou disso.
Não se importou quando sentiu a mão do monstro sobre sua boca, não percebeu o braço dele ao redor de sua cabeça. Não teve reação quando seu frágil pescoço foi virado.
“Ele” repousou o corpo sem vida com cuidado sobre o chão. Seus olhos amarelos não demonstravam nenhuma gota do carinho que pareceu ter por um momento. Nenhum sorriso ocupou sua face fria.
Olhou para Bruxa, essa parecia mais entediada do que qualquer coisa, porém feliz por tudo ter acabado bem.
Não demoraram a sair da gruta e não esperaram antes de começar a descer. Apenas quando já estavam outra vez na base da montanha, trocaram palavras.
“Eu me pergunto que monstros eram aqueles, nunca soube de homens com asas morcego antes.” Falou a Bruxa encarando o morro.
“Nunca os vi, não devem caçar na mesma região em que vivemos.” A Floresta sempre o surpreendia com novas espécies.
Nenhum deles discutiu sobre a vida recém tirada, nenhum deles se importava. A criança seria um risco e foi estúpida o bastante para confiar em um estranho.
Não sentiram qualquer simpatia, nenhuma empatia.
Nem mesmo o hobgoblin.

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