— Como assim ele te venceu?! — Não consegui conter a surpresa, me levantando da grama onde estava sentada, em frente ao fogo, enquanto apontava para o lado e questionava minha avó.

    Ela apenas levantou a sobrancelha para mim e eu percebi que estava sendo grossa. Ela ainda era a pessoa mais respeitada da minha família. Ainda era uma das maiores generais que os nahuales já tiveram em toda a história.

    — Er… Desculpa. — Me sentei novamente. — Mas como foi? Eu não entendi…

    — Me mostre que é bom sendo um instrutor e explique para ela, Caçador. — Minha avó falou.

    — O que você conseguiu ver com os seus olhos? — ele me perguntou enquanto espetava o galho no chão, pegando outro sobre a fogueira para atacar o próximo peixe.

    — Eu vi que vocês estavam disputando a energia… Mas que você estava concentrando uma segunda parcela atrás das suas asas, escondido para atacar de surpresa quando o Percivarez te atacou de surpresa. Aí ficou tudo escondido na fumaça do trovão e não vi mais nada.

    Ele balançou a cabeça, acompanhando minha resposta.

    — Eu não dividi minha energia em duas, mas em três. A primeira parte barrou o avanço da sua avó. A segunda, que você viu, era a armadilha. Mas a terceira, a maior de todas, permaneceu como minha reserva interna. Uma luta nunca é apenas sobre o que você mostra, Ellarien, mas sobre o que você esconde. Sua avó também guardou parte da energia com ela mesma. Lembra que não podemos ficar sem nada dentro de nós, certo?

    — Espera… Então você tem tanta energia assim a mais do que minha avó? A aura estava quase igual… Mas você estava concentrando energia no ataque surpresa.

    Ela estalou a língua, como se fosse discordar dessa afirmação, mas não falou nada.

    — Se for somar a quantidade dela e a do pássaro-trovão dela… — Ele deixou as palavras no ar, olhando para o céu como se encontrasse a resposta para aquela soma e a comparação nas próprias estrelas. — Sim, eu tenho mais.

    “Mas a força não vem da quantidade que podemos converter, vem do que podemos fazer com ela e da forma como podemos aproveitar isso. Felizmente, eu sei fazer os dois.

    “Quando o pássaro atacou, eu usei minha energia interna para neutralizar o trovão dele. Potencializei o vermelho, protegendo todo o meu corpo o máximo que eu podia enquanto canalizei o amarelo na energia que acumulei em minhas costas para atacar sua avó com uma rajada rápida.”

    — Então… Você não só tem acesso a uma manifestação prismática diferente da nossa, como também pode usar as cores primárias normalmente? — perguntei, sabendo que meus olhos deveriam estar arregalados com a surpresa que eu não conseguia esconder.

    — Sim. Podemos usar todas as cores que vocês usam e temos a nossa. Embora o Prateado se encaixe mais como suas cores prismáticas… Quem pode usar o Prateado, geralmente não pode usar as outras secundárias.

    Minha cabeça latejava com a quantidade de informação. Arcontes, novas cores, reservas internas… Era um nível de complexidade que eu mal conseguia compreender.

    Mas uma coisa ficou clara: a força que eu vi na minha vida passada, a força que me levou à morte, era apenas a praia desse mar. E, pela primeira vez, eu tinha alguém que poderia me ensinar a navegar por essas águas profundas.

    — Eu permito que você treine minha neta, Caçador. — Minha avó falou, finalmente. — Mas eu irei acompanhar todos os treinamentos de perto.

    Ele assentiu com um breve movimento com a cabeça e voltou a se concentrar no seu peixe.

    Percebi que eu era a única que não estava comendo.

    Alcancei um dos gravetos que servia de espeto, onde o peixe estava fincado e mordi.

    Imediatamente cuspi, sentindo um gosto amargo horrível enquanto tentava colocar a língua para fora. Cheguei a pegar um pouco de grama para esfregar nela, de tão ruim que estava o peixe.

    Foi quando minha avó e o alado cuspiram também, jogando fora os pedaços que estavam em suas bocas.

    — Eu achei que você nunca ia comer também! — o Caçador reclamou, pegando grama para esfregar na língua também.

    Minha avó parecia mais decorosa, mas também estava fazendo careta.

    — O que aconteceu?! Vocês estavam fingindo gostar dessa coisa ruim só para eu experimentar também? — Não era possível que os dois entraram na mesma tramoia sem nem se comunicarem.

    — Quando eu comi e vi que era ruim, mas ele não tinha falado nada… — Minha avó deu de ombros, rindo. — Achei que seria engraçado entrar na brincadeira também.

    O alado estava deitado no chão, com as mãos na barriga e rindo sem parar.

    Isso foi coisa sua, né?! — Tentei jogar um pouco do gosto ruim que eu sentia para Kairin, compartilhando com Vic também através do laço.

    O Percivarez disse que ia ser engraçado e ele é mais velho… Eu não queria ir contra ele. — Kairin respondeu, pelo menos parecendo se sentir culpado.

    Quando olhei para o familiar de minha avó, ele estava passando um dos bicos sobre suas penas enquanto olhava para mim.

    Eu não conseguia me comunicar com outros familiares, então não fazia ideia do que ele poderia estar dizendo, mas pude jurar pelo seu olhar que era algo como:

    “Da próxima vez, peguem vocês mesmo suas comidas.”

    O treinamento começou no dia seguinte e Ralik iria participar também. Eu queria que Baplin e Gakina também fizessem parte, mas Satoriel foi bem direto dizendo que quanto menos pessoas soubessem disso tudo, melhor seria. Além da minha preocupação de que mais pessoas descobrissem meu segredo.

    Por algum motivo… O pensamento de Ralik acabar descobrindo não me deixava tão preocupada assim.

    Sentados um ao lado do outro, na grama verde no mesmo lugar em que estivemos ontem, dá para ver o lugar onde acendemos a fogueira e a grama ficou um pouco queimada.

    — Até ontem… — o alado falou, caminhando de um lado para o outro. Ele não estava com suas asas a mostra agora. — Meu plano era fazer vocês treinarem sem seus familiares, mas percebi, graças a sua avó… — ele apontou para mim enquanto falava. — Que vocês são mais fortes ao lado deles e que seria errado forçar uma separação quando eu posso incentivar a união.

    Eu não pretendia sair do seu lado mesmo. — Vic falou. Ela estava sentada sobre as patas de trás, as asas fechadas e parecendo ouvir a explicação com atenção.

    Kairin estava pousado no ombro dela, a diferença de tamanho o fazendo parecer um pequeno pássaro qualquer de longe.

    — Então eu quero entender até onde a conexão de vocês é capaz de ir. — Ele continuou. —Eu já sei que os familiares podem compartilhar a energia prismática deles com vocês, mas vocês também podem enviar para eles?

    — Somente depois de firmarmos o estágio do laço. — Ralik respondeu. — No nosso atual estágio, não podemos.

    Ele não sabia da minha situação com Kairin, então.

    — Certo. E falta muito para isso? — Satoriel perguntou.

    — Na verdade… Não. Estamos bem próximos da formatura já.

    O Caçador balançou a cabeça e se afastou um pouco, parecendo contar os passos até chegar em uma distância considerável de Ralik e eu.

    — Vamos começar do básico então. Peçam para seus familiares enviarem o máximo de energia prismática que puderem para vermos o quanto vocês aguentam.

    Estiquei o pescoço para cima, buscando o olhar de Vic e de Kairin. Os dois podiam ouvir o que o alado estavam falando e eram capazes de entender a linguagem humana, só não eram capazes de falar nela.

    Começa você. — Vic falou, dando a vez para Kairin.

    Era engraçado pensar no quão territorial e possessiva esse dragão era capaz de ser, mas ao mesmo tempo no quão protetora e carinhosa ela era comigo e com Kairin.

    O pássaro-trovão abriu suas asas e planou com leveza até chegar no solo, pousando do meu lado. Não havíamos tentado compartilhar nossa energia desde… Desde o que ocorreu na ilha Lazil.

    Só se você quiser, Ell. — Ele falou através do laço. E eu tive vontade de abraçar ele ali mesmo, naquele exato momento.

    Eu quero.

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