A primeira coisa que senti foi o peso. Não o peso da espada, nem o peso da armadura… mas o peso do corpo exausto, como se cada músculo tivesse sido moído até o limite. Minhas pálpebras eram âncoras, e abrir os olhos exigiu um esforço quase absurdo.

    O teto acima de mim era familiar. O quarto também. Aquele aroma sutil de flores secas e papel antigo… estava de volta à cama de Pers. Aquela mesma cama em que adormecíamos todas as noites antes do experimento de sete dias.

    O silêncio era quase total, exceto pelo som distante das cortinas se movendo com o vento. A luz era suave, filtrada por um céu que eu não sabia se era manhã ou tarde. Tudo parecia lento, denso, como se meu corpo e minha mente estivessem tentando entender que a batalha havia acabado.

    Eu não sentia glória. Só um cansaço físico e mental tão profundo que parecia esvaziar até meus pensamentos.

    Foi então que a porta se abriu sem pressa. Pers entrou, descalça, usando o vestido negro simples que ela preferia quando não queria ser a Deusa distante, apenas ela mesma. Seu olhar me encontrou, e por um momento, ficou ali, como se estivesse avaliando cada pedaço de mim.

    Ela se aproximou devagar, sentou-se na beira da cama e, sem dizer nada, começou a passar os dedos pelas cicatrizes do meu corpo. Lentamente. Uma a uma. Seguindo cada linha marcada na pele como quem lê um livro em braile, como quem decifra uma história silenciosa.

    Eu fechei os olhos.

    — Isso é… relaxante. — murmurei, sentindo a tensão dissolver-se com o toque dela.

    Ela sorriu de leve.

    — É porque cada uma dessas cicatrizes é uma vitória… e eu estava lá para ver.

    Abri os olhos e encontrei os dela. Havia orgulho ali. Orgulho genuíno, calmo, como se não houvesse necessidade de palavras grandes.

    — Eu me sinto muito orgulhosa de você, amor. — disse ela, com uma sinceridade que atravessou qualquer defesa que eu ainda pudesse ter.

    Fiquei em silêncio por um momento, apenas respirando ao som daquela frase. E, pela primeira vez desde o fim do combate, senti algo além do cansaço. Senti que, independentemente de quantas batalhas viessem… eu já tinha vencido a mais importante.

    Depois de nos ajeitarmos, deixamos o conforto silencioso do quarto e voltamos para o coliseu, o mesmo onde Maximus me treinava antes de toda a experiência de sete dias como imperador. O som dos meus passos ecoava nas paredes altas, e assim que atravessei o portão, fui recebido exatamente como no meu primeiro dia com ele.

    Maximus não esperou cerimônias. Veio como um raio, o punho avançando num soco rápido e pesado. Eu ergui o braço e defendi no reflexo, sentindo o impacto reverberar pelo corpo.

    — Hah! — ele gargalhou. — Senti saudades de bater em você!

    Abri um sorriso cansado, mas sincero.

    — E eu senti saudades de chutar a sua bunda velha.

    Rimos juntos, o som ecoando pelo espaço vazio do coliseu. Pers que nos observava da lateral, cruzou os braços, com um meio sorriso.

    — A vantagem de treinar com velhos é que eles já chegam com a desculpa pronta quando perderem.

    Maximus fingiu ignorar, mas deu um meio sorriso antes de voltar o olhar para mim.

    — Bom trabalho lá dentro, garoto. Foi um desempenho que até eu respeitaria no campo real.

    Balancei a cabeça.

    — Não preciso de elogios, preciso de ensinamentos.

    Ele ergueu uma sobrancelha.

    — É assim que gosto. Então, vou começar a te ensinar artes marciais. E mais do que isso… vou te ensinar a aprimorar seus músculos usando mana.

    — Eu já fiz isso. — respondi, sem hesitar.

    Maximus deu uma risada profunda, quase debochada.

    — O que você fez foi, no máximo, se empurrar usando mana. Eu vou te ensinar a transformar seu corpo inteiro numa arma viva.

    A forma como ele disse isso me fez perceber que o treinamento que viria a seguir… não ia ser nada leve.

    Maximus se afastou alguns passos, o sol do meio-dia caindo sobre o chão branco do coliseu e projetando a sombra enorme dele sobre mim. O vento carregava um calor seco, e por um instante, parecia que estávamos mesmo nos desertos do Khanganato.

    — Esse estilo nasceu em Aegiskhan. — ele começou, a voz grave ecoando no espaço. — Todo homem que sonhava em vestir as cores do exército de Athena precisava dominá-lo. Não é opcional.

    Ele deu mais um passo à frente, o olhar sério.

    — Foi criado para lutar no calor sufocante dos desertos áridos, onde armaduras cozinham o corpo e armas pesadas viram âncoras. Aqui, o corpo é sua arma. Cada músculo, cada junta, cada respiração.

    Maximus retirou a capa e a jogou para o lado, ficando apenas com as roupas leves de treino.

    — O estilo é direto, sem floreios. — disse, assumindo uma postura baixa.

    Ele avançou de repente, e antes que eu pudesse reagir, agarrou meu braço e o torceu para baixo, desequilibrando-me. O chão veio rápido, mas no último instante ele suavizou o impacto, controlando meu corpo.

    — Primeiro princípio: controle. Você decide onde a luta acontece.

    Ainda no chão, tentei me virar, mas Maximus usou o peso do corpo para me imobilizar, uma perna prendendo meu braço e a outra bloqueando meu quadril.

    — Segundo princípio: alavanca. Você não vence com força. Vence usando o peso e os movimentos do inimigo contra ele.

    Com um giro, ele liberou meu braço e me fez rolar para trás. Levantei rápido, tentando contra-atacar, mas ele se abaixou e mergulhou no meu centro de gravidade, derrubando-me de novo, desta vez com uma chave no ombro que me fez ranger os dentes.

    — Terceiro princípio: finalize rápido. Aqui, cada segundo que você prolonga a luta, o sol do deserto rouba sua energia.

    Ele me soltou e se levantou, oferecendo a mão. Peguei-a e, ao ficar de pé, senti meu corpo protestar com dores leves nos ombros e nas costas.

    — Você vai suar até entender que essa arte não é sobre quem é mais forte, mas sobre quem controla o momento.

    Maximus sorriu, e pela primeira vez percebi que o treinamento não ia ser só físico. Ele estava me ensinando a pensar como um soldado de Athena… ele estava me ensinando a pensar como um soldado de Aegiskhan.

    Maximus me soltou, e eu me levantei rápido, sentindo a dor leve nos ombros e nas costas se misturar com a exaustão acumulada da batalha contra a ilusão do general demônio. O coliseu estava silencioso, exceto pelo som distante das cortinas se movendo no quarto de Pers, e o calor do meio-dia era uma manta pesada.

    — Soldados de Aegiskhan não lutam com armaduras — continuou Maximus, gesticulando para a minha roupa leve de treino. — Lutam nus. Quase isso. A armadura, para nós, era um fardo. Uma âncora no deserto. Aqui, você não vai invocar trovões negros nem se teletransportar para vencer um oponente. Você vai usar o que a natureza te deu: ossos, tendões e o peso da sua vontade.

    Ele avançou. Desta vez, não com a fúria cega de um duelo, mas com a precisão calculada de um instrutor.

    — Sua postura está errada. — Ele tocou meu quadril. — Baixo demais. Você precisa de mobilidade. Aegiskhan é velocidade. Flexibilidade. Você precisa ser capaz de virar um chicote.

    Ele girou, e o movimento era fluido e perigoso, a antítese do seu corpo envelhecido. Ele parecia ter vinte anos de novo. Em um piscar, ele estava na minha guarda, a mão aberta pairando a centímetros do meu rosto.

    — Chave de Cotovelo. — Ele explicou o movimento antes de executá-lo. — Em vez de me empurrar com mana, você usa o meu avanço contra mim.

    Quando ele tentou estender a mão para me agarrar, usei meu braço para desviar o golpe, mas ele já havia antecipado. Agarrando meu pulso, ele girou o corpo e, usando o peso do meu próprio avanço como alavanca, prendeu meu cotovelo sob sua axila e girou.

    Senti a articulação protestar. O instinto gritou para usar a mana, para me dissolver em sombra e reaparecer longe, mas Pers, que nos observava da lateral, cruzou os braços com um meio sorriso que era um claro desafio. Ela não queria magia.

    Senti o chão se aproximar.

    — Primeiro erro, Hades — disse Maximus, a voz grave e calma enquanto controlava o meu corpo, impedindo que eu caísse de forma perigosa. — Você confia na sua força. Força é lenta. A alavanca é imediata.

    Ele me soltou com um floreio. Levantei, respirando fundo, o braço doendo levemente.

    — Eu sou um mago, Maximus. Minha força é a mana.

    — E por isso você morre tantas vezes. — A crítica dele era afiada como obsidiana. — A mana se esgota. A carne não. Um soldado de Aegiskhan aprende a lutar por sete dias no deserto, sem mana, sem água, usando apenas o corpo. O corpo é o templo. A mana é o incenso. Você precisa do templo inteiro para que o incenso funcione.

    Ele deu um passo para trás e assumiu uma nova postura. Mãos abertas, pés em V, centro de gravidade baixíssimo.

    — Vou te mostrar o Básico da Batalha de Aegiskhan: O Golpe da Cobra no Deserto e o Chute da Águia. Preste atenção.

    Ele avançou como um relâmpago. Seu punho não veio em linha reta para me socar, veio em arco, visando o lado do meu pescoço, o ponto onde a artéria se encontra. Desviei para trás, mas ele já estava com o segundo movimento pronto. A perna direita dele girou em uma rasteira baixa, mais rápida do que o olho podia seguir, mirando o meu tornozelo.

    Eu saltei.

    — Erro! — gritou ele. — Você saltou! No deserto, você teria caído na areia, e eu teria te pisado antes que sua mana purpurina tivesse tempo de acender uma vela!

    Ele me alcançou no ar. Usando a palma da mão, ele me deu um empurrão na costela, suave, mas o suficiente para me desequilibrar. Caí de costas, com a respiração cortada.

    — A Cobra ataca o pescoço ou as juntas. O Chute da Águia mira o chão. Você precisa grudar no chão. Seja a rocha.

    Pers deu uma risadinha suave do lado de fora, a única coisa que quebrou o meu foco na frustração. Ela estava se divertindo.

    — Certo. De novo. — murmurei, levantando-me, a mana ainda dormente nas veias. Eu não iria usá-la.

    O treinamento de Maximus era uma tortura física e mental. Não era a fúria mágica de Moradina, que exigia que eu explodisse em poder, mas sim uma microgestão do corpo, uma lição de paciência.

    — Seu quadril é lento. — Ele acertou a lateral da minha coxa com o pé, um toque que doeu o suficiente para me fazer tropeçar. — Se você não gira o quadril, o golpe não tem peso. Você está socando com os braços, não com o corpo inteiro!

    — Não preciso de peso! Preciso de velocidade! — retruquei, tentando aplicar o Golpe da Cobra, mas ele desviou com a cabeça para o lado com a facilidade de quem assiste a um voo de pássaro.

    — A velocidade sem peso é apenas um tapa! — Ele rosnou, a paciência fina se esgotando. — Você é o Apóstolo da Morte! Seus golpes devem ser sentenças! Use a Mana!

    Aquela ordem me pegou de surpresa.

    — Você disse para não usar.

    — Eu disse para não depender dela! — Ele pareceu se irritar. — A mana de Perséfone é escuridão. É ausência de peso, mas densidade de intenção! Você está lutando como um açougueiro, não como um fantasma!

    Ele avançou em fúria. Dei um soco reto, mirado no centro do seu peito. Ele não desviou. Apenas moveu o ombro minimamente para o lado, e minha mão atingiu o osso forte, não o ponto vulnerável.

    — O Caminho da Mão Vazia — disse ele, imobilizando meu punho com uma pegada de ferro. — É quando você canaliza toda a intenção em um ponto.

    Ele girou meu braço. Senti o ombro sair da junta, a dor era excruciante e real. Gritei. Mas antes que a dor me consumisse, Maximus soltou meu braço, e ele girou no ar.

    — Agora, faça de novo. Mas use o Aspecto. — Ele apontou para o meu braço. — Quando o soco estiver no meio do caminho, retire o peso do seu corpo com o Véu Fúnebre.

    Aquela era uma ideia insana. Usar a mana sombria de Perséfone, o poder de teletransporte e ausência de peso, para melhorar um golpe de luta mundana.

    Tentei.

    Avancei com um soco. No meio do caminho, respirei fundo, evocando a sombra. A sensação era a de que meu corpo se desprendia da gravidade, tornando-se mais rápido, mas perdendo o peso. O punho voou pelo ar com a velocidade de um chicote, mas a leveza de uma pena.

    Maximus bloqueou com o braço. O impacto foi… nulo.

    — Pena! — gritou ele. — Você precisa do peso só no final! Você precisa ser rápido como a Sombra, mas pesado como o Túmulo!

    Ele me acertou no estômago com o calcanhar, e a dor me dobrou. Caí de joelhos, tossindo.

    — A Ascensão da Serpente! — Ele ensinou, sem piedade. — Você cai. Mas se ergue atacando. Seu joelho deve ser um martelo ascendente. Não caia como um boneco!

    Levantei. O soco que eu tentava era o mais difícil. Eu precisava ser rápido, usando o Aspecto para deslizar pela realidade, mas ancorar o corpo no instante do impacto.

    Mais três horas. Meus músculos gritavam. Minha mana estava esgotada de tanto ser ligada e desligada em frações de segundo.

    — Sombra, Peso, Sombra, Peso. — Ele repetia, o ritmo implacável.

    Numa última tentativa, avancei com um soco. Senti a sombra me envolver. O punho voou. No último instante, aterrei o corpo, cravando os pés no chão, e o soco se conectou com um impacto seco no seu ombro.

    Maximus cambaleou. Não por dor, mas por surpresa.

    — Hah! — A gargalhada retornou. — Sentiu a diferença, garoto? A Morte não brinca. E nem a carne. Agora, de novo. Eu quero o Chicote do Anjo.


    Os dias que se seguiram foram um borrão de dor e aprendizado. Maximus não me dava trégua.

    O treinamento de artes marciais de Aegiskhan era o oposto da minha vida como mago. Ele me ensinava a economizar movimentos, a não depender de explosões de poder, mas de geometria, de controle da distância.

    O Punho Fantasma: O soco com o Aspecto da Morte. Eu tinha que desvincular o peso do corpo usando a mana, acelerar o golpe, e então re-ancorar a gravidade para dar peso somente no impacto.

    O resultado era um golpe que parecia vir do nada e que carregava a força total do meu corpo, amplificado pela densidade da mana de Perséfone.

    O Bloqueio de Raiz: Usar o feitiço Terra Firma que Oliver me ensinara para me estabilizar, mas de forma sutil, invisível. Não para bloquear a magia, mas para me tornar uma montanha que não podia ser movida pelos golpes físicos de Maximus.

    A Torção do Véu: O movimento mais difícil. Usar a micro-teleportação do Aspecto do Anjo da Morte (os atalhos da morte) para escapar de uma chave de junta, reaparecendo com a articulação liberada e a contra-chave pronta. Era uma dança entre a carne e a eternidade.

    Em uma tarde, estávamos no clímax de um duelo. Maximus me derrubou com uma rasteira. Tentei me levantar, mas ele estava em cima de mim em um piscar, me prendendo em uma chave de braço que faria qualquer mortal gritar.

    — Força! — Ele rosnou, o suor pingando no meu rosto. — Saia com a força, Hades!

    Tentei. Forcei os músculos, mas ele era mais velho, mais experiente, e o ângulo era perfeito. A dor era cegante. A junta gritava.

    — Falhou! — gritou ele.

    — Não! — A raiva me dominou.

    Fechei os olhos. Concentrei-me não na força, mas na ausência. O Aspecto do Anjo da Morte. Eu não precisava mover o braço, eu precisava mover o espaço ao redor do braço.

    Senti o atalho da morte se abrir. Não um caminho para longe, mas um micro-dobrar da realidade.

    Meu corpo se dissolveu em sombra por uma fração de segundo. Meu braço escorregou da chave, e eu reapareci em um giro, livre, com a perna já armada para a Ascensão da Serpente.

    O chute, carregado com o peso repentino, atingiu a costela de Maximus.

    Ele gemeu. Um som real. Não de dor, mas de surpresa.

    — Impossível! — Ele recuou três passos, as mãos na costela, os olhos arregalados. — Você usou o véu para sair de uma chave de braço! Isso é… isso é loucura! É uma blasfêmia à gravidade!

    — É o Chicote do Anjo — disse, ofegante, a adrenalina correndo. O Aspecto tinha funcionado.

    Pers, no parapeito, deu um salto silencioso e desceu ao chão do coliseu. Seu rosto estava inexpressivo, mas seus olhos, rubros, tinham o brilho da descoberta.

    — Está se tornando rápido demais para a carne, Hades. — A voz dela era suave, mas carregada de poder.

    Maximus, recuperado, riu de novo, agora com um ar quase de desespero.

    — Eu não o treino mais. Eu luto contra uma ideia!

    Eles ficaram ali, me observando. O corpo moído, a mente limpa. Eu tinha levado a luta real ao limite, e a mana havia encontrado o seu lugar, como uma ferramenta de precisão cirúrgica, não uma bomba.

    — Oliver não ensina isso. — disse Pers, aproximando-se, o vestido negro ondulando. — Oliver ensina a queimar. Mas você… você está aprendendo a cortar.

    O treinamento foi encerrado ali. Eu estava exausto. Caí de costas no chão quente, e a exaustão me abraçou como um velho amigo.


    A noite me encontrou no quarto, mas eu não conseguia dormir. A dor física era um ruído constante, mas o silêncio que se seguiu ao treino era mais alto. Eu me sentia limpo. Não apenas limpo de dor, mas magicamente limpo.

    O corpo moído era apenas um condutor para a mana, e eu o havia forçado a ser um condutor mais eficiente.

    Senti a presença de Pers no quarto. Ela sentou-se na beirada da cama, me observando em silêncio. Sem o vestido negro, apenas com a seda simples, ela era menos Deusa e mais… Pers.

    — Você está mudando. — Ela quebrou o silêncio. — Maximus te levou a um lugar que Oliver jamais conseguiria. O limite da carne.

    — A dor é um canal, não é? — murmurei, sem abrir os olhos. — Quando tudo mais falha, ela abre a mente.

    — A dor é o ferreiro. O corpo é o metal. E a mana… a mana é a fornalha. — Ela sorriu, passando os dedos pelas cicatrizes. — Cada golpe de Maximus te forçou a mover o Aspecto. Não como um feitiço de ataque, mas como uma extensão. Isso exige controle absoluto. Uma pureza de intenção que a magia de explosão não exige.

    Abri os olhos.

    — E qual é o meu grau agora? — A pergunta saiu instintiva.

    Ela balançou a cabeça.

    — O grau de pureza de mana não é um número que Oliver te dá. É um estado que a alma alcança. Você estava no grau nove, Hades. O limite dos que moldam reinos. Mas há muito que a alma se recusa a ir além, porque tem medo da quebra.

    Senti um arrepio. Grau nove. Já era maior do que a maioria das lendas de Chaia.

    — Você passou por incontáveis mortes contra Moradina e contra os outros. Cada vez que você morre e volta, seus canais se dilatam. A mana de morte entra, mas sai ainda mais densa. Isso te levou até o grau sete. Mas a barreira entre o Nono e o Décimo… é a mais difícil.

    — E como se alcança o Décimo?

    — Com o Sacrifício Final. Você precisa desistir de algo para ganhar mais. A maioria desiste da própria humanidade.

    Ela parou de acariciar as cicatrizes e olhou diretamente para mim.

    — Mas você… você foi confrontado por Maximus com algo mais sutil. Ele não te forçou a morrer. Ele te forçou a viver a cada golpe. A sentir cada músculo, cada osso, cada falha do seu corpo. E você forçou a mana a ser sua serva de novo, não sua mestra. Você fez a Morte obedecer à Carne.

    O silêncio retornou. Eu podia sentir a mana em minhas veias. Não era um rio. Era um vidro líquido, escuro e denso, correndo sem atrito.

    — O que preciso fazer, Pers? — perguntei.

    — Nada. — Ela sorriu. — A forja já aconteceu.


    Na manhã seguinte, voltei ao coliseu. Maximus e Pers já estavam lá, cada um em um canto. Maximus, com um braço enfaixado (o lugar onde meu Chicote do Anjo havia pegado), e Pers, de braços cruzados, a expectativa em seus olhos rubros ainda mais intensa.

    — O que vamos fazer hoje, velho? — perguntei a Maximus.

    — Nada. — A voz dele estava séria. — Ontem foi o limite da carne. Hoje será o limite da alma.

    Maximus se afastou três passos. Pers fez o mesmo. Eles estavam me dando espaço. Eu estava no centro do coliseu, sob o sol do meio-dia. O chão era de mármore branco e as paredes ecoavam o silêncio.

    — Hades. — A voz de Pers, pela primeira vez, não era suave. Era um comando. — Conecte-se. Deixe a mana correr. Não para lutar. Não para atacar. Apenas… deixe-a fluir.

    Fechei os olhos. Concentrei-me.

    Deixei a mana sair das minhas veias. Era negra, densa, envolvente, mas não agressiva. Ela me abraçou como uma segunda pele, criando o véu fúnebre em torno do meu corpo. A ausência de peso era reconfortante.

    — Sinta o corpo. — A voz de Maximus veio, como um trovão. — Sinta o que a luta fez com você. Cada músculo, cada osso. Sinta o cansaço. Use o Aspecto para curar.

    Era outro conceito insano. O Aspecto do Anjo da Morte não era cura. Era transmutação.

    Eu tentei. Direcionei a mana para os ombros. Ela encontrou a dor. E em vez de curar, ela a absorveu. Era como se o Aspecto dissesse: “A dor é uma falha. A falha é um tipo de vida. A morte a corrige.”

    No instante em que a dor foi absorvida, senti um estalo dentro do meu peito. Não era um osso. Era um canal de mana se abrindo.

    A mana negra explodiu em mim. Não em ataque, mas em luz.

    Uma onda de energia púrpura e escura, densa como minério, irrompeu do meu corpo, atingindo as paredes do coliseu. O chão de mármore rangeu e rachou sob meus pés, não de força, mas de densidade.

    A luz não era de um feitiço. Era a luz do refinamento.

    Minha mana, antes em um fluxo lento e suave, agora corria como um rio subterrâneo, poderoso e implacável.

    Abri os olhos. O mundo estava diferente.

    Eu não via apenas a mana negra. Eu via as linhas do tempo.

    Não os atalhos para a morte que o Aspecto já me dava, mas o passado e o futuro entrelaçados em fitas sutis. Eu podia ver o movimento de Maximus antes que ele o fizesse. Eu podia ver o que Pers pensava antes que o pensamento terminasse de se formar.

    Eu vi o chão de mármore do coliseu rachar. Vi o sol se mover no céu. Vi as pequenas rugas nos olhos de Pers aprofundarem-se.

    O ar se tornou sólido ao meu redor, não de pressão, mas de compreensão.

    — O Aspecto… — sussurrou Pers, dando um passo para trás, a mão sobre a boca.

    — Ele não está mais no Aspecto — corrigiu Maximus, a voz rouca, sem o tom de piada. — Ele… ele alcançou a Pureza de Grau Nove.

    A mana negra que me envolvia agora tinha reflexos prateados. Não era mais a mana da Morte. Era a mana da Eternidade.

    Grau Nove.

    O nono círculo da magia, aquele que Oliver dissera que ninguém em vida jamais havia alcançado. O círculo que dobrava o mundo.

    Eu me virei lentamente para Perséfone, sentindo a energia fluir para meus olhos. Eles não queimavam com a cor rubra dela. Eles brilhavam com um branco puro e frio, o tom da ausência absoluta.

    — Eu vi — disse, minha voz calma, ressoando pelo coliseu como se viesse de três lugares ao mesmo tempo. — Onde a luta começa. E onde ela termina. Eu vi o Quarto Aspecto, Pers.

    Pers caiu de joelhos. Não por fraqueza, mas por reverência.

    — Impossível… — Ela murmurou, os olhos marejados de lágrimas de orgulho e pavor. — O Grau Nove. Em tão pouco tempo… você pode desfazer o véu agora!

    Maximus estava imóvel, o braço enfaixado tremendo levemente. Ele soltou um assobio longo e lento, tirando a bengala da mão e a jogando para o lado.

    — Ele não é mais um soldado, Pers. — Sua voz era um sussurro de respeito. — Ele é o General da Morte.

    O sol do meio-dia, antes um fardo, agora era um aliado. Eu estava em pé, no centro do coliseu. O corpo ainda moído, mas a alma, purificada.

    Eu tinha vencido a carne. E a carne havia forjado a alma.

    Eu estava no Grau Nove. E o mundo nunca mais seria o mesmo.

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