A manhã começou como qualquer outra, mas havia algo diferente no ar. O céu estava nublado, um cinza espesso que parecia pesar sobre os telhados da escola. Isabel atravessou o portão devagar, abraçando os livros contra o peito. Assim que passou, notou o burburinho. Grupos de alunos estavam espalhados pelos cantos do pátio, reunidos em pequenos círculos, cochichando, rindo e trocando celulares de mão em mão.

    Ela franziu o cenho. O clima parecia carregado de uma animação quase elétrica.

    — Mano, olha isso! — exclamou um garoto, a voz ecoando alto demais. Ele segurava o celular como se fosse um troféu, mostrando a tela para os amigos. — Eu juro que foi perto da onde eu moro, bem à noite! Ela apareceu de novo, a tal heroína!

    — Sério? — perguntou outro, arregalando os olhos.

    — Sério! — o primeiro confirmou, quase pulando de empolgação. — Eu vi o vídeo, cara! Ela amassou o Esmagador na porrada!

    Isabel estacou por um segundo. Um arrepio percorreu sua espinha, e o coração disparou como se tivesse sido pego em flagrante.

    Vídeo…?”

    O peito dela se apertou. Respirou fundo, obrigando as pernas a se moverem, tentando manter a expressão neutra. Cada passo parecia mais pesado que o anterior, como se o próprio chão fosse denunciá-la.

    Entrou no corredor. O som era o mesmo: risadas, gritos, celulares brilhando. Em cada canto, alguém exibia algum trecho da gravação. Alguns imitavam gestos de luta, outros comentavam em tons exagerados.

    Quando finalmente chegou à sala, percebeu que a situação não mudava. Vários colegas estavam reunidos em torno de uma carteira, olhando para a tela de um celular, como se presenciasse uma cena de cinema.

    — Olha isso! — exclamou uma garota, tampando a boca com a mão. — Ela praticamente voou no estacionamento! Jogou o cara contra os carros, igualzinho a um filme de ação!

    — Quem será que é? — perguntou outra, com os olhos brilhando.

    Um garoto alto respondeu, empolgado: — Cara, você viu o soco que ela deu naquele brutamonte? Parecia que o chão inteiro tremeu!

    — Vi sim! — riu outro, balançando a cabeça. — Parecia coisa de super-herói de verdade, não alguém daqui da cidade.

    Isabel prendeu a respiração. O coração batia forte demais. Tentava se convencer de que ninguém ali a reconheceria, mas as palavras deles soavam como marteladas em sua mente.

    No fundo da sala, alguns começaram a brincar com possíveis apelidos.

    — Eu voto em Anjo da Meia-Noite! — disse uma menina animada, mexendo as mãos como se escrevesse o nome no ar.

    — Nada a ver — rebateu um garoto. — Ela apareceu do nada, bateu em todo mundo e sumiu… devia ser Mulher de Aço.

    — Não, não! — riu um terceiro. — Melhor Fênix! Ela apareceu rápido, caiu e levantou e deixou todo mundo impressionado.

    Um coro de risadas se espalhou.

    Isabel, em silêncio, apenas ouviu. Cada apelido era como uma tentativa de revelar a identidade que ela lutava para esconder. Ainda assim, não pôde evitar um leve sorriso ao ouvir o último.

    Engoliu em seco, apertando os livros contra o peito.

    — Oi — disse discretamente, sentando-se ao lado de Davi.

    Ele ergueu os olhos do caderno, arqueando as sobrancelhas. O olhar preocupado contrastava com a agitação ao redor.

    — Você tá bem? — perguntou em voz baixa, quase num sussurro. — Parece meio pálida.

    — Tô… tô sim — respondeu rápido, desviando o olhar.

    Davi franziu o cenho. — Tem certeza? Você nem respondeu minhas mensagens ontem… fiquei preocupado.

    Isabel mordeu o lábio, o peso da culpa apertando o peito. — Desculpa…

    Ele suspirou, mas manteve o olhar firme nela. — Não precisa se desculpar. Só queria saber se aconteceu alguma coisa.

    Ela forçou um sorriso, mesmo com o estômago revirando. — Eu tava mal… fiquei em casa.

    Davi inclinou a cabeça, como se analisasse cada detalhe dela. — Tá se sentindo melhor agora?

    — Sim… só precisava descansar. — a voz dela saiu baixa demais, quase hesitante.

    Ele apoiou o queixo na mão, balançando devagar a cabeça. — Essa cidade anda ficando cada vez mais perigosa. Teve aquela confusão no mercado, depois falaram que rolou briga no estacionamento também. — Fez uma pausa, os olhos voltando para ela. — Você não apareceu na escola ontem.

    O coração de Isabel apertou. Ela desviou o olhar para a janela, observando o céu cinzento que parecia esmagar a cidade.

    Davi continuou, quase como se pensasse alto: — Desde que essa heroína começou a aparecer… parece que tudo ficou ainda mais caótico. O que é irônico, né? — ele franziu a testa. — Porque no fim das contas, ela surgiu pra proteger a gente.

    As palavras bateram forte. Isabel apenas apertou os dedos no colo, sem conseguir responder.

    Longe dali, em um galpão abandonado no limite da cidade, o clima era outro. As paredes úmidas estavam cobertas de pichações, o chão repleto de bitucas, seringas e garrafas quebradas. O ar pesado carregava o cheiro de drogas, suor e sangue.

    No centro, sobre uma cadeira de ferro enferrujada, estava o Esmagador. O braço esquerdo imobilizado em uma tala improvisada, o corpo coberto por hematomas e cortes. O brutamonte parecia menor agora, frágil diante da dor.

    — Maldita… — rosnou, batendo o punho na mesa ao lado. O metal rangeu, ecoando pelo galpão.

    Passos ecoaram. Não eram de um subordinado qualquer. A tensão se espalhou entre os capangas, que imediatamente silenciaram.

    Das sombras, surgiu um homem baixo, envolto por uma aura que fazia o ar parecer mais frio. Seu rosto permanecia escondido, metade engolido pela escuridão, mas a autoridade em sua voz não deixava dúvidas.

    — Você falhou, Esmagador — disse calmamente, num tom baixo que ainda assim parecia cortar o ar. — Mas não importa. Cada peça no tabuleiro tem seu propósito.

    O brutamonte ergueu os olhos, ainda ofegante. — Ela… ela não é normal. Quem é aquela garota?

    Um sorriso leve surgiu no rosto do homem, mas sem qualquer calor humano.

    — Não precisa se preocupar com isso. — Deu um passo à frente, e a sombra pareceu se alongar. — Quando chegar a hora… essa cidade inteira aprenderá a temer o nome que ainda nem nasceu.

    Ele se virou para os capangas imóveis.— Preparem-se. O verdadeiro jogo está apenas começando.

    O Esmagador estremeceu, mesmo ferido. Se o patrão estava levando a situação tão a sério, então aquela heroína era uma ameaça muito maior do que ele podia imaginar.

    Enquanto isso, a escola permanecia cheia de risadas, vídeos e boatos. Isabel caminhava por entre os corredores, tentando se misturar, mas cada comentário parecia sussurrar diretamente para ela.

    E nas sombras da cidade, homens armam planos para destruí-la.

    Quando a noite caiu, Isabel já estava em casa. O silêncio preenchia cada canto, pesado e quase sufocante. Desde a última discussão, as palavras de sua mãe ainda ecoavam, deixando uma cicatriz invisível. Agora, Isabel a enxergava de outro jeito, não com ódio, mas com uma distância dolorosa.

    Deitada na cama, encarava o teto, ouvindo o som distante dos carros na rua. Seu corpo ainda carregava marcas da luta, hematomas arroxeados, mas a dor diminuía mais rápido do que o normal. Estimava estar cerca de oitenta por cento recuperada. E isso era suficiente.

    Sentou-se devagar, respirando fundo. No canto da cama, o espelho refletia sua imagem: cabelos cacheados, olhar cansado, mas firme. Havia algo diferente em seus olhos, uma chama que recusava a desaparecer.

    — Eu preciso inventar algum nome… — murmurou para si mesma. Apertou os punhos. — Mas no fim, o que importa é continuar lutando.

    Levantou-se e abriu a pequena caixa onde guardava o uniforme improvisado. O moletom escuro, a máscara simples, o capuz. Não eram apenas pedaços de tecido. Carregavam peso, identidade.

    Pegou a máscara de pano e segurou diante do rosto, encarando o reflexo. A transformação parecia simples, mas dentro dela algo sempre despertava, uma força que sabia que nunca conseguiria explicar.

    Puxou a cortina da janela. Lá fora, a cidade brilhava com suas luzes artificiais, escondendo segredos em cada esquina. O perigo estava por todo lado, mas a pergunta se repetia em sua mente. “Se não for eu, quem mais se levantaria?”

    Respirou fundo, ajeitou a máscara no rosto e puxou o capuz. O reflexo no vidro agora mostrava alguém diferente, não mais Isabel, a garota invisível da escola, mas a sombra que a cidade começava a temer e admirar.

    Um sussurro firme escapou de seus lábios: — Está na hora de voltar.

    E assim, com a determinação renovada, Isabel se preparou para reassumir seu posto. Ainda não era uma vitória final. Mas cada passo dali em diante seria parte da batalha.

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