Capítulo 12 - O Escudo Mundial
A cidade de Nova York, tremia.
As janelas dos prédios altos estilhaçaram em sequência, como se fossem dominós de vidro quebrando ao mesmo tempo. O chão começava a rachar sob as patas do monstro que surgiu no coração da cidade. Uma criatura gigantesca, de pele cinzenta e musculatura descomunal, com chifres que se curvavam como espadas. Seus olhos brilhavam em um tom vermelho, e cada rugido fazia os carros estacionados vibrarem como se fossem brinquedos frágeis.
Acima dele, dois vultos cortavam o céu.
Um deles usava um traje, sem máscara, totalmente azul escuro e capa preta com pontilhados brancos, que tremulava com o vento, o peito erguido, o olhar altivo como se todo o mundo lhe pertencesse. Seus punhos cerrados refletiam a luz da Lua, como duas armas divinas.
— Sai da frente, Solaris — disse Celeste, a voz grave e cheia de desprezo, enquanto flutuava a alguns metros acima da cabeça da criatura. — Eu resolvo isso sozinho.
Do outro lado, uma aura de fogo explodiu no ar, chamas envolvendo todo o corpo de um homem moreno, de armadura vermelha dourada. Solaris cerrou os olhos, irritado, enquanto as brasas caíam em direção ao asfalto e queimavam marcas no chão.
— Você sempre fala isso, Celeste. Mas, da última vez, quem segurou aquele Leviatã fui eu — respondeu, cuspindo fogo pelas mãos.
O monstro rugiu, golpeando um prédio com o braço colossal. Concreto e poeira caíram sobre os civis que corriam em pânico pelas ruas, até serem salvos por uma barreira feita de água erguida às pressas pela heroína chamada Marina, que acompanhava a batalha.
Celeste nem sequer olhou para eles. Estava fixado apenas em seu reflexo nos vidros intactos de um prédio próximo. O sorriso satisfeito brotou em seus lábios antes mesmo de atacar.
— Esses vermes sempre gritam quando aparece um rato grande demais… — murmurou. Então, em voz alta, rugiu para o monstro: — Olhe bem para mim, aberração! Eu sou a luz que governa este mundo!
Ele disparou para frente em velocidade absurda. O ar estourou em um estrondo sônico quando Celeste atingiu o peito do monstro com o ombro, lançando a criatura para trás. O impacto rachou o asfalto, ergueu carros e ônibus como se fossem folhas secas. Pessoas caíram no chão apenas pelo choque da onda de impacto.
Solaris bufou, o corpo tremeu em chamas.
— Você vai acabar matando inocentes! — gritou, voando logo atrás. Ele ergueu as duas mãos, e uma esfera de fogo incandescente se formou, crescendo até brilhar mais que o próprio sol da manhã.
Ele lançou o projétil, que atingiu o monstro na lateral, fazendo-o tombar contra um prédio inacabado. As estruturas metálicas se entortaram, chamas devoraram os andares inferiores. Gritos ecoaram novamente.
Celeste ergueu os olhos e riu.
— Belo show de fogos… mas o público está assistindo a mim, Solaris. — Ele pairou no ar, braços abertos, como se fosse um messias diante da multidão em desespero. — Olhem bem! Não precisam agradecer! É só mais um dia comigo protegendo todos vocês.
A arrogância em sua voz ecoou pelos comunicadores que os outros heróis usavam, arrancando suspiros e olhares revirados. Solaris quase respondeu, mas preferiu gastar o fôlego em outro ataque. Ele sabia que discutir com Celeste era inútil.
Meia hora depois, o monstro estava derrotado. O corpo colossal já havia sido derrubado sobre as ruínas do bairro comercial, fumaça subindo de crateras abertas pelo choque da luta. A imprensa cercava o perímetro como abutres sobre carniça, câmeras e microfones apontados para Celeste e Solaris.
— Capitão Celeste! — gritou uma repórter, correndo até ele. — Como foi enfrentar uma criatura desse nível?
Celeste sorriu, ajeitando a capa sobre os ombros. — Fácil. Para mim, foi apenas mais uma noite. Se o Escudo Mundial é apenas um escudo, eu sou a própria lança! — Ele apontou para Solaris sem sequer olhar. — Claro, tive uma… ajudinha. Mas, no fim, todos sabem quem salvou o dia.
Solaris suspirou, abafando a raiva. Sua chama se apagava aos poucos, deixando apenas fumaça saindo dos ombros de sua armadura. Ele não disse nada. Já havia aprendido que, com Celeste, as palavras eram sempre viradas contra ele.
O público aplaudia. Muitos filmavam, gritando o nome de Celeste como se fosse um deus vivo. Poucos percebiam o olhar frio e vazio que se escondia por trás do sorriso impecável.
Enquanto isso, em outro país, Isabel caminhava para casa.
A rua parecia calma, a lua já descendo no horizonte e tingindo os prédios com tons acinzentados. A cidade ainda falava sobre a batalha que aconteceu no centro, mas para ela… era apenas mais um dia. Um dia sem criminosos nas esquinas, sem perseguições, sem precisar colocar sua máscara à mostra para o público.
Ela respirou fundo, sentindo o vento leve da tarde. A luz dos postes, pesava em suas costas, mas o coração estava tranquilo.
— Hoje foi calmo… — murmurou para si mesma, um sorriso discreto nos lábios. — É, finalmente, um dia só meu.
Abriu a porta de casa, deixando os sapatos no canto e se jogando no sofá. A televisão ligada mostrava as imagens da batalha, Celeste voando, Solaris disparando chamas, jornalistas narrando como se fosse um espetáculo. Isabel assistiu por alguns segundos, até desligar.
— Esses caras… sempre fazem parecer que só eles importam.
Ela fechou os olhos por um instante, permitindo-se descansar.
Na base do Escudo Mundial, o clima era outro.
Os corredores metálicos refletiam a luz branca dos painéis no teto. Heróis iam e vinham, discutindo relatórios, enquanto em uma sala ampla Celeste, Solaris e outros membros se reuniam. Telas holográficas exibiam replays da batalha contra o monstro, estatísticas de danos e mapas da destruição na cidade.
Celeste estava de pé, de braços cruzados, sorriso satisfeito. — Mais uma vitória perfeita para o Escudo Mundial. A imprensa vai adorar. — Ele passou os olhos pela mesa. — E eu também.
Solaris resmungou algo, que não se sabe o que era, cruzando os braços, mas não respondeu de imediato. O silêncio que se formou na sala parecia mais pesado do que o ar frio vindo do sistema de ventilação.
Foi Marina, a estrategista do grupo, quem decidiu quebrá-lo. De traje azul claro com linhas prateadas que se acendiam levemente sob a luz e um visor translúcido cobrindo os olhos, ela se inclinou para a frente sobre a mesa oval.
— Enfim vocês ficaram sabendo? — perguntou num tom firme, mas carregado de curiosidade. — Há relatos sobre uma nova figura… alguém forte o bastante para enfrentar gangues inteiras sozinha. No Brasil.
O olhar de Argus, o analista e perito tecnológico do time, ergueu-se de seu tablet, onde relatórios da polícia ainda piscavam em telas holográficas.
— Não são apenas boatos — disse, deslizando o dedo e projetando as manchetes.
As imagens sobre a mesa, recortes digitais de jornais brasileiros, vídeos granulados de câmeras de segurança e relatos de testemunhas.
— Patrulhas noturnas e gravações de celulares captam a mesma silhueta em pelo menos três incidentes diferentes em São Paulo. A polícia local conseguiu contato direto com essa heroína.
Helena, com seu corpo musculoso e o cabelo amarrado em um coque, conhecida por sua força bruta e temperamento direto, apoiou os punhos na mesa. — Misteriosa, novata e já chamando atenção… — Ela franziu a testa. — Isso pode ser bom ou pode ser um problema. Especialmente vindo de fora dos Estados Unidos.
Celeste, que até então parecia entediado, arqueou as sobrancelhas, finalmente interessado. Um sorriso atravessou seu rosto como um corte de lâmina.
— Uma heroína nova? — A risada que escapou dele foi curta, carregada de ironia. — No Brasil? — Ele balançou a cabeça, descrente. — Se fosse realmente forte, já estaria aqui, ao nosso lado. Mas, tudo bem… — Os dentes brilharam em seu sorriso arrogante. — Deixem que brinque de vigilante no quintal dela. O céu continua sendo meu.
O silêncio voltou, mas agora acompanhado de olhares trocados entre os membros do Escudo Mundial. Marina manteve os olhos fixos em Celeste, sem responder. Argus voltou ao tablet, mas seus dedos hesitaram por um instante antes de deslizar. Helena apenas bufou.
Solaris, por sua vez, desviou o olhar para a janela panorâmica que mostrava o horizonte da cidade brilhante. Algo dentro dele se contorcia. Uma intuição silenciosa lhe dizia que aquela “nova heroína” não era apenas mais um vulto passageiro na noite. Talvez, muito em breve, o brilho arrogante de Celeste não fosse o único a dominar o céu.
Enquanto isso, no Brasil, Isabel estava em seu quarto simples, deitada de costas, olhando o teto como quem tenta decifrar um enigma. Ela não fazia ideia de que seu nome já corria em sussurros entre os mais poderosos. Que para alguns, ela era esperança. Para outros… ameaça.
Mas uma cidade perigosa, nunca permanecia tranquila por muito tempo.
Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.