Capítulo 5 – Sobrevivência
No momento em que todos estavam sendo enviados para Exilium. Will nem percebeu seu corpo se dissolver no ar, como se cada átomo se separasse antes de se recompor em outro lugar. Não houve dor. Apenas um vazio momentâneo, como se tivesse deixado de existir por uma fração de segundo.
Quando os sentidos retornaram, notou que estava caindo. Instintivamente, se preparou para flexionar os joelhos para amortecer o impacto.
“Ploft!”
Quando seus pés tocaram a grama, o corpo não absorveu tudo. Deu dois passos desordenados à frente antes de se ajoelhar no chão, os músculos das pernas vibraram como cordas tensionadas.
Mas o que o preocupava mais neste instante era saber onde estava. Piscou várias vezes, se livrando da visão embaçada, e notou que a coloração do ambiente ao seu redor era diferente. O ar natural dava uma sensação de liberdade. Levou somente um segundo para perceber que não estava mais em Hoikuen.
“Que lugar é esse…?” murmurou, apoiando-se no joelho antes de se erguer.
O espaço se rasgava e pequenos estalos soavam ao redor. O som se repetia sem parar.
“Poof.”
“Plaft.”
Alguns caíam de pé e tropeçavam nos próprios passos. Outros desabavam de lado, batendo ombro ou cabeça no chão antes mesmo de entender o que havia acontecido. Dois mais desafortunados colidiram no ar e caíram embolados.
“Ahh! Merda!”
“Minha perna!”
Um rapaz tentou se levantar e caiu de novo, segurando o joelho. A garota que havia caído junto rastejou alguns centímetros antes de conseguir ficar de joelhos, só então teve uma visão do caos.
“O que está acontecendo!?”
“Onde estamos!?”
Will moveu a cabeça devagar, avaliando o campo.
Dez. Vinte. Cinquenta. Parou de contar. Estimou mais de cem pessoas espalhadas pela clareira, dispersas sem padrão algum. A princípio, não reconheceu ninguém. Todos tinham rostos jovens com expressões estranhas. Nenhum traço familiar.
Alguns se erguiam cambaleando, piscando como se a luz fosse forte demais para suas retinas. Outros permaneciam no chão, encarando as próprias mãos que agora pareciam diferentes, virando-as de um lado para o outro, imóveis, tentando entender o que tinha acabado de acontecer. E havia aqueles que olhavam para o céu, orando para que tudo que tivessem visto anteriormente fosse apenas um sonho.
“Droga… Kai.” Will murmurou, passando o olhar pela multidão mais uma vez.
Um som rasgou o ar à distância.
Virou a cabeça no mesmo instante. O grito não veio do pequeno campo onde estava. Vinha do oeste, além da linha de árvores que cercava a clareira. “Tem mais pessoas espalhadas naquela direção!” disse, fixando o olhar entre os troncos.
Outro grito rasgou o ar. Dessa vez, do leste.
Enquanto a maioria estava imóvel, perdida em seus próprios pensamentos, ele percorria o olhar sobre a linha de árvores. Algo parecia muito estranho e os pequenos ruídos de gritos apenas confirmavam isso.
“Creck…”
Congelou ao ouvir um som diferente. Não vinha de nenhuma pessoa, mas da floresta às suas costas.
“Craque-crac-crac…”
Galhos se partindo sob um grande peso. Vegetação sendo forçada.
O coração acelerou, emitindo um instinto primitivo que surge antes mesmo do pensamento. Mas, em vez de correr, respirou fundo, enchendo os pulmões, e gritou com toda a força que conseguiu reunir.
“PESSOAL! ESCUTEM!!!” A voz saiu rouca, lutando para atravessar o caos de murmúrios ao redor. Algumas cabeças se viraram por um breve instante, mas logo desviaram o olhar de volta para suas próprias preocupações. Ninguém parou. Ninguém realmente prestou atenção a um desconhecido.
Estão em pânico demais. Will pensou, cerrando os punhos. Não vão me ouvir assim.
Olhou ao redor, procurando algo, qualquer coisa que pudesse ajudá-lo a chamar atenção. O olhar caiu sobre uma pedra do tamanho de um punho, meio enterrada entre os destroços. Abaixou-se, agarrando-a rapidamente com ambas as mãos, e ergueu-a acima da cabeça.
“Bam!”
Bateu a pedra contra uma rocha próxima. Sua mão vibrou e o som ecoou seco, ainda assim foi insuficiente para atrair todos. Bateu novamente. E mais uma vez.
“Bam! Bam! Bam!”
Alguns rostos se viraram encarando-o, cada vez que alguém prestava atenção, os murmúrios diminuíam e mais pessoas conseguiam ouvi-lo bater. Finalmente, todos estavam prestando atenção. Olhares confusos, curiosos e alguns até irritados com o incômodo.
Will largou a pedra no chão e endireitou a postura, forçando a voz a sair firme mesmo com o fôlego desgastado.
“Pessoal, tem algo errado com esse lugar, vocês ainda não perceberam!” disse, notando seus rostos demonstrarem confusão. “Eu não sei o que é, mas existe algo atacando as pessoas que ficaram espalhadas pela floresta!” continuou, varrendo o olhar pelo grupo. “Se ficarmos desunidos contra este inimigo desconhecido, não vamos sobreviver.”
Uma jovem deu um passo à frente, os braços cruzados com força contra o peito.
“E por que a gente deveria confiar em você?” A voz saiu trêmula, mas carregada de desafio. “Quem garante que você não vai nos usar como isca para poder fugir em segurança?”
Will manteve o olhar fixo nela, sem desviar.
“Ninguém garante.” respondeu, sem hesitar. “Mas se andar sozinho em lugar desconhecido como este, é garantido que vai morrer. Juntos, pelo menos temos uma chance.”
Fez uma pausa, deixando as pessoas absorverem.
“Eu não vou obrigar ninguém a me seguir.” acrescentou, baixando ligeiramente o tom. “Mas se quiserem sobreviver, vão ter que começar a usar a cabeça em vez de só ficarem reclamando e chorando por aí.”
Eles começaram a se olhar, vendo o que o outro faria. Ninguém se moveu, mas também ninguém saiu correndo. Presente no fundo da multidão, havia um rosto encarando-o com o cenho franzido.
Roy estava bem no fundo do grupo, meio escondido entre as outras pessoas. O olhar fixo em Will, que gesticulava tentando convencer a multidão. Cada palavra que saía daquela boca deixava um gosto amargo subindo pela garganta.
Sempre foi assim. pensou, apertando os punhos. Sempre querendo ser o chefinho.
Deu um passo à frente pensando em gritar para reunir o seu próprio grupo, mas desistiu no mesmo instante. Recuou devagar, testando se alguém o notaria.
Ninguém sequer olhou em sua direção. Todos estavam ocupados demais, divididos entre ouvir Will ou discutir entre si. Recuou mais um passo, depois outro. O grupo foi ficando para trás enquanto ele se afastava em silêncio, mantendo os movimentos lentos para não chamar atenção. Quando chegou à borda da vegetação, deslizou para trás de uma árvore grossa, pressionando as costas contra o tronco áspero.
Acha que é algum herói para salvar todo mundo? Patético. pensou, franzindo o cenho. Eu não vou ser responsável por ninguém.
“Crec…”
Foi então que ouviu uma árvore rachar, despencando contra o chão. Virou a cabeça abruptamente, espiando por detrás do tronco.
“O que é isso?” exclamou, arregalando os olhos.
Uma criatura do tamanho de um cavalo saiu da floresta que ficava a cerca de trinta metros do grupo e entrou no campo aberto. Corpo maciço, coberto por pelos negros irregulares com listras cinza-metálicas, cada passo fazia o chão tremer. Não havia obstáculos entre ele e a pessoa mais próxima.
Roy se jogou para trás, pressionando as costas contra o tronco da árvore. O coração martelava no peito, mas não se moveu e nem fez barulho.
Os pelos brilhavam levemente sob a luz. Quatro patas grossas terminavam em cascos rachados. Presas longas e curvadas saíam da boca, cada uma com mais de quarenta centímetros. Mas o que mais chamou atenção foi a crista ao longo da espinha, que mais parecia agulhas.
Javali!? pensou, no momento em que avistou o animal. Mas aquilo era algo muito pior.
A criatura parou por um instante, fungando o ar. A cabeça se virou lentamente na direção do grupo no campo aberto.
Roy engoliu em seco. “Eles vão morrer!” murmurou, frio e sem emoção. “Eu deveria ter ajudado?” Se perguntou, sentindo um frio subir pela barriga. “Não… quero ver como sairá dessa, senhor Herói!?” Voltando a espiar o grupo no campo aberto.
O silêncio pesado tomava conta. Todos engoliram em seco vendo a criatura se aproximar do rapaz de cabelo castanho que estava na borda do grupo. O jovem sentiu suas pernas ficarem moles, caindo de joelhos, juntando forças para pronunciar alguma coisa.
“So… socorro…”
A criatura o encarou, fungando o ar, e sem aviso disparou a toda velocidade em sua direção. O campo aberto favorecia a investida. Justo no ângulo em que estava vindo, não havia troncos ou pedras grandes que pudessem desacelerá-la.
“Não… não… NÃO!”
“THUM!”
O corpo do rapaz foi arremessado para longe como um boneco de pano, rolando pelo gramado antes de parar em um ângulo estranho, imóvel. Um cheiro metálico e denso se espalhou pelo ar, misturando-se ao aroma úmido da grama esmagada.
“FUJAM! CORRE! ” O grito rasgou o ar vindo de algum ponto no meio da multidão. Tais palavras foram só o gatilho que faltava para destruir qualquer hesitação, eles se viraram no mesmo instante, prontos para fugir dali.
“Ploft!”
“Sai… SAI DA MINHA FRENTE!”
Os gritos começaram a se sobrepor até se tornarem um ruído, impossível de distinguir. Vozes agudas e roucas, todas misturadas num mesmo desespero. Ninguém sabia para onde ir. Apenas queriam fugir. O instinto de sobrevivência assumiu o controle.
O javali virou a cabeça, olhando para o grupo que corria desesperado. As narinas dilataram, fungando o ar em rajadas curtas e pesadas, fazendo o vapor se condensar diante do focinho. Então, investiu novamente.
“CUIDADO… SAIAM DA FRENTE!” Will gritou, mas sua voz se perdeu antes mesmo de alcançar o tumulto e só pôde olhar impotente.
A moça corria olhando para trás, os olhos presos na criatura, sem perceber que se afastava cada vez mais do grupo. O ar entrava queimando a garganta.
“Não… não… eu não quero morrer…”
“THUM!”
O impacto a atingiu em cheio. O corpo foi lançado para cima como um boneco sem peso, os braços se abrindo no ar antes de despencar sobre o gramado.
Antes que alguém conseguisse reagir, a besta já havia alcançado outro. Sem perder o embalo, fez quatro vítimas em sequência, esmagadas pela investida brutal. Só quando o solo tremeu abaixo de seus pés é que notaram o perigo chegando às suas costas.
Se jogaram para o lado no último instante, abrindo um corredor involuntário. A criatura passou por ele sem reduzir a velocidade, arrastando consigo uma rajada de vento da própria fúria.
“PAREM DE CORRER!” Will gritou, espremento todo o ar dos seus pulmões, aproveitando o momento. Mas poucos conseguiram notar sua voz, aqueles que ainda mantinham a calma, mesmo em tal situação.
“Vamos nos reunir atrás daquela rocha!” disse, esticando o braço e apontando para a formação irregular alguns metros adiante. Não esperou confirmação, já estava correndo antes de terminar a frase.
Sete pessoas que haviam conseguido se adaptar à nova realidade seguiram o mesmo destino que ele, sabiam instintivamente que se continuasse assim todos poderiam morrer.
“Escutem!” disse, posicionando-se à frente deles. “Se continuarmos fugindo, aquela coisa vai nos caçar um de cada vez. Precisamos lutar!”
“Lutar!?” A única garota loira retrucou, parando por um segundo, mas alcançando-os em seguida. “Contra AQUILO!? Você é louco!?”
“Não.” Will respondeu, antes de parar ao lado da rocha e se virar para encará-los. “Eu sou realista! E a realidade é… ou aprendemos a nos defender agora ou morremos.”
Um rapaz de cabelo preto deu um passo à frente. Seus olhos estavam fixos em Will desde o início, analisando-o. “O jovem tem razão!” disse com uma voz rouca, seu tom soava como o de uma pessoa mais velha. “Você tem um plano, garoto?” perguntou, surpreendentemente calmo.
Will o encarou. Finalmente, alguém racional com quem eu possa contar. pensou, com um leve suspiro.
“Algo do gênero.” respondeu, antes de explicar. “Se a cercarmos, ela não conseguirá focar em todos de uma vez, assim podemos atacá-la pelas laterais. Mas precisamos de mais gente.” disse, varrendo o olhar para os poucos membros presentes.
O homem assentiu.
“Marcus!” apresentou-se, estendendo a mão. “Will!” respondeu, apertando a mão do homem
Marcus virou-se para o grupo.
“Vocês ouviram. Juntem qualquer um que esteja disposto.” Desviou o olhar, analisando rapidamente o campo. “Mas evitem aqueles que estão em pânico. Só vão nos atrapalhar.”
“Mas—”
“AGORA!” Marcus cortou, e algo em sua voz fez com que todos obedecessem.
Will viu suas ações e se perguntou se aquele homem vinha do exército. Mas o alívio durou apenas um segundo.
Outro grunhido ecoou próximo dali. Os três que haviam ficado para trás viraram a cabeça para a origem do som, sentindo um certo temor.
“Você está brincando comigo…” murmurou a moça.
Marcus olhou para Will e questionou. “Dois?” Franziu a testa, arqueando as sobrancelhas.
“Era o que eu estava pensando” Will suspirou. Então, fechou os olhos por um segundo, respirando profundamente.
“Marcus. Reúna quantas pessoas conseguir desse lado. Eu vou para o outro.”
“Will…”
“Não temos escolha!” Will interrompeu. “Cada grupo lida com um! Se ficarmos todos juntos contra os dois, seremos esmagados pelo flanco. Separados, pelo menos impedimos que façam ataques coordenados.”
Qualquer outro comentário era desnecessário neste momento. O som do animal correndo pelo gramado foi suficiente para lembrá-los de que estavam indo de encontro a uma criatura que poderia matá-los a qualquer instante.
NT: Mais um capítulo refeito. Se gostou, deixe um comentário para incentivar.
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