A caminhada para longe dos destroços da Vanguard foi o exercício mais árduo e humilhante da vida privilegiada de Elian Vane. Cada passo era uma vitória conquistada à força bruta contra um planeta que parecia determinado a esmagá-lo. Com uma gravidade efetiva de 1,8 Gs, andar ali equivalia a caminhar agachado e carregando um peso igual ao seu próprio corpo nas costas — um fardo que, para ele, acostumado aos 0,38 Gs de Marte, significava sentir-se como se pesasse quase cinco vezes mais do que o normal. Seus músculos, treinados para a leveza e o conforto, queimavam com um fogo interno que se espalhava das coxas até a planta dos pés, forçando-o a parar a cada poucos metros, ofegante, com a visão embaçada pela falta de oxigênio e pelo esforço excessivo. Seus pulmões, habituados ao ar filtrado, pressurizado e aquecido das cúpulas marcianas, agora inalavam o ar gélido e denso daquele vale; cada respiração era como sugar uma lâmina de gelo que cortava a garganta e ardia no peito. O núcleo de energia do traje, sua única linha de vida, piscava em 15% — um relógio digital contando regressivamente para o momento em que ele se tornaria parte da paisagem congelada, assim como as rações que diminuíam a cada refeição em sua mochila improvisada.

    O vale oferecia um alívio ilusório: o vento não era mais furioso como no topo da montanha, mas o frio permanecia onipresente, infiltrando-se pelas rachaduras e costuras danificadas do traje. Elian tropeçava sobre o terreno irregular, os pés afundando em camadas de neve compactada que rangiam como vidro moído sob as botas reforçadas. Ao redor, a floresta de árvores cristalinas se erguia como sentinelas silenciosas. Seus troncos translúcidos refratavam a luz fraca da estrela laranja, criando efeitos de arco-íris desbotados que dançavam na névoa, uma beleza alienígena que ele não tinha ânimo para apreciar. Ele havia deixado a nave para trás, sabendo que retornar implicaria arriscar-se a uma explosão do reator ou ao colapso final dos sistemas. Seu objetivo era brutalmente simples: encontrar abrigo, encontrar calor, encontrar qualquer coisa que o mantivesse vivo além das próximas horas. Mas o Inverno Eterno não concedia misericórdia; cada metro avançado era pago com suor que, ao sair de seu corpo, congelava quase instantaneamente sobre a pele ou dentro do tecido do traje.

    A cerca de 300 metros da nave, o vento mudou de direção abruptamente, soprando com mais força e levantando redemoinhos de neve fina que eram, na verdade, partículas de gelo afiadas capazes de lixar metal. O som de galhos de cristal se rompendo ecoou como tiros de rifle, estalos secos e penetrantes que cortavam o zumbido constante da floresta. Elian congelou no lugar, o instinto de sobrevivência sobrepujando sua mente analítica. Seu coração batia tão forte que o sangue pulsava nos ouvidos, um ritmo acelerado que gritava perigo. Sem pensar, ele se jogou atrás de um tronco caído — uma daquelas árvores gigantescas, agora partida em fragmentos que pareciam cacos de vidro monumental — e se encolheu, pressionando o corpo contra a neve dura. Ele prendeu a respiração, sabendo que o vapor quente de sua exalação poderia denunciá-lo naquele ar frio, e espiou pela borda do tronco, os olhos semicerrados contra a branca intensidade da névoa.

    Da nevasca emergiu uma silhueta colossal, materializando-se como um fantasma feito de massa e força. Não era um animal gracioso como os cervos simulados dos parques virtuais de Marte; era uma fortaleza ambulante, adaptada à brutalidade daquele mundo. Media cerca de seis metros de altura até a cernelha, o equivalente a dois elefantes terrestres empilhados, mas suas pernas eram curtas, grossas e sólidas como pilares de pedra, projetadas estruturalmente para suportar não apenas seu próprio peso imenso, mas também a carga constante da gravidade elevada. Sua pelagem era um emaranhado branco-sujo, tão denso e entrelaçado que funcionava como uma armadura natural isolante, cobrindo quase tudo, inclusive protegendo seus olhos pequenos e escuros sob camadas de fios grossos. Duas presas curvas, feitas de um material escuro e brilhante semelhante à obsidiana — provavelmente mineralizado devido a uma dieta rica em elementos geotérmicos — raspavam o solo enquanto a criatura se movia lentamente, escavando o gelo em busca de raízes ou nutrientes subterrâneos. Cada passo seu fazia o solo tremer levemente, vibrações que Elian sentia através do tronco onde se escondia; era um lembrete claro: aquela besta poderia esmagá-lo sem nem perceber, como se ele fosse um inseto.

    Elian observava, trêmulo, o corpo inteiro convulsionando tanto pelo frio quanto pelo terror. Seu olhar de engenheiro, treinado para dissecar mecanismos, foi substituído por uma necessidade primitiva e crua. Ele não via um espécime fascinante para um relatório acadêmico; via uma fonte de calor. “Aquela pele…”, pensou ele, esfregando as mãos enluvadas que já perdiam sensibilidade, os dedos dormentes como blocos de gelo. “Uma capa feita daquilo me manteria vivo. Eu poderia dormir sem medo de congelar, caminhar sem sentir o vento me cortando.” O desejo era quase alucinógeno, consumindo seus pensamentos. Mas a realidade o feriu logo em seguida: ele olhou para seu cinto de utilidades e viu a miséria de seus recursos: uma chave sônica com o circuito quebrado, um scanner com bateria beirando o fim, e um cortador a laser industrial que tinha energia para, no máximo, três minutos de uso contínuo. Contra uma massa de quatro toneladas de músculo e pelo isolante, ele era menos que nada. Se tentasse atacar, seria esmagado antes de apertar o gatilho. Ali, sua fortuna, seu sobrenome e sua educação não valiam nada; ele era apenas carne e osso vulneráveis.

    Sem outra opção, ele pegou seu dispositivo de anotações — o Diário, uma unidade resistente que sobrevivera à queda, com a tela rachada mas ainda funcional. Com dedos duros e desajeitados pelo frio, ele desenhou linhas trêmulas, capturando a proporção imponente da criatura.

    Nome Provisório: Titã-da-Tundra.
    Observações: Temperatura corporal significativamente alta — o vapor da respiração é visível a 20 metros e demora a se dissipar. Deve gerar calor interno excessivo para compensar o ambiente. Movimento é lento e deliberado, estratégia para economizar energia sob alta gravidade. Parece não depender tanto da audição ou visão; detecta o mundo através de vibrações no solo e possivelmente olfato.
    Conclusão: Inatingível por enquanto. Evitar contato a todo custo.

    Em Marte, aquilo seria dados para um artigo publicado; ali, era sua tábua de salvação. Ele esperou quarenta minutos, imóvel como uma estátua de gelo. O preço por ficar agachado naquele frio foi alto: suas articulações latejavam, as costas travadas em uma rigidez que o faria mancar por horas. Só quando as vibrações cessaram e o som dos passos pesados foi engolido pela nevasca, ele ousou se mover. Levantou-se devagar, seguindo na direção oposta, cada passo sendo uma agonia renovada.

    Adentrando mais fundo na floresta, o cenário se mostrou ainda mais estranho. As árvores não tinham casca, mas sim uma estrutura vítrea, como quartzo leitoso ou vidro fosco, translúcida o suficiente para que a luz filtrasse através delas, projetando sombras complexas na neve. Em vez de folhas, possuíam agulhas longas e finas que vibravam com o vento, produzindo um zumbido baixo e contínuo, como se a floresta inteira fosse um instrumento musical gigante e melancólico. O ar era mais calmo ali, protegido pelas copas entrelaçadas, mas o chão era uma armadilha: a neve ocultava raízes salientes e pedras afiadas, prontas para torcer um tornozelo ou perfurar uma bota.

    Ao se aproximar de uma árvore particularmente imensa — seu tronco tinha o diâmetro de uma nave de carga —, Elian notou algo incomum: a neve ao redor da base estava derretida, formando círculos de lama negra e úmida em meio ao branco imaculado. Curioso, apesar do cansaço que nublava seu julgamento, ele tocou a superfície com a luva. O material estava morno, um calor sutil mas constante que irradiava de dentro para fora, como se o tronco tivesse sangue circulando.

    — Como? — sussurrou ele, a voz rouca ecoando fracamente.

    Ao ativar o scanner, a resposta apareceu na tela, e ele lembrou-se das aulas de exobiologia que quase reprovara, preferindo festas corporativas aos estudos. As árvores realizavam uma reação química exotérmica: puxavam minerais e compostos reativos do subsolo profundo, usando a própria pressão da gravidade alta para manter o fluxo e gerar calor como subproduto. Era uma adaptação genial para não congelar e não se estilhaçar.

    E ali estava o erro. A esperança fez seu cérebro trabalhar mais devagar e com menos cautela. “Se a seiva é quente”, pensou ele, “talvez eu possa usá-la para reaquecer o traje, ou pelo menos para derreter neve e obter água sem gastar bateria.” Ignorando o risco, ele pegou o cortador laser e ajustou para um corte superficial, fazendo uma incisão no tronco vítreo.

    A consequência foi imediata e catastrófica, uma lição brutal de que a pressão naquele planeta é um inimigo invisível. A árvore não sangrou lentamente; a gravidade que comprimia toda a estrutura interna funcionou como uma prensa hidráulica. Um jato de líquido viscoso, de cor âmbar, explodiu para fora com a força de um gêiser, acertando o peito de Elian em cheio. A temperatura da seiva era escaldante, quase fervente, e penetrou as camadas externas do traje danificado, queimando sua pele mesmo através do tecido restante. Ele gritou, caindo para trás na neve, tentando limpar a substância com punhados de gelo, mas o choque térmico fez com que a seiva, ao entrar em contato com o ar frio, endurecesse quase instantaneamente. Ela se transformou em uma crosta dura e pesada, como uma camada de cimento ou resina solidificada, cobrindo seu peito e limitando a movimentação de seus braços e tronco.

    Agora, sua situação era ainda pior. O isolamento do traje estava comprometido, o frio penetrando mais rápido por onde o tecido foi danificado e pela rigidez da casca que se formara. Além disso, a seiva exalava um cheiro forte e doce, um aroma de mel queimado e flores raras que se espalhava pelo vento. Na natureza, cheiro forte significa alimento. Ele havia acabado de acender um farol olfativo, anunciando a todos os predadores da região: Aqui há presa ferida e vulnerável.

    Elian se arrastou para longe, mancando, o peito latejando com queimaduras superficiais e a consciência pesada de que sua própria impulsividade o havia colocado em rota de colisão com a morte. O Inverno Eterno não perdoava erros de novato; eles se acumulavam, se somavam, e o próximo poderia ser o último. Ele precisava encontrar abrigo antes que a noite caísse, antes que as sombras se movessem e que a nevasca trouxesse aquilo que o cheiro da seiva iria atrair..

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