O silêncio que se instalou sobre a planície gelada após a tempestade não trazia consigo a serenidade de um repouso merecido, mas sim o peso opressor de uma expectativa sombria. O ar, carregado de partículas finas de gelo cristalizado e poeira mineral, parecia uma massa densa e palpável, uma atmosfera que cobrava um preço alto por cada movimento que Elian fazia. Era como se o próprio planeta estivesse medindo cada grama de energia que ele gastava, observando-o com olhos invisíveis de gelo e pedra.

    Ele ficou parado por alguns instantes, respirando com dificuldade, sentindo o vapor quente sair de seus lábios e se dissipar rapidamente no ar gélido. Seus olhos, cansados mas brilhantes de determinação, observavam a pilha de minério que ele havia conseguido acumular com tanto esforço. Montanhas de magnetita escura e brilhante, com reflexos metálicos que capturavam a luz fraca do sol distante, intercaladas por camadas de rocha carbonácea de tonalidade acinzentada e textura porosa, formavam um monte que parecia pequeno diante das formações rochosas gigantescas ao redor, mas que representava um tesouro inestimável para ele. Horas a fio de trabalho manual exaustivo, usando picaretas improvisadas e ferramentas recuperadas dos destroços, haviam deixado seus músculos doloridos e seus tendões gritando de exaustão. Suas mãos, cobertas de calos grossos e pequenos cortes que haviam sarado às pressas, tremiam levemente, mas a visão daquela riqueza bruta e não polida acendia dentro dele uma satisfação primitiva, quase febril. Naquele momento, ele não era mais apenas um náufrago, um ser perdido em um mundo estranho e hostil; ele estava se tornando o arquiteto do próprio domínio, construindo as bases para uma sobrevivência que ia além da simples luta contra a morte iminente.

    Ele se virou para a enorme silhueta que o observava a certa distância.

    — Vamos lá, Goliath. Hora de provar que você vale cada grama de ração que eu nem tenho para te dar — disse ele, com a voz rouca e baixa, tentando soar firme, embora soubesse que a tarefa à frente seria difícil.

    Goliath, o Titã, a enorme criatura quadrúpede que ele havia resgatado, estava longe de ser o parceiro tranquilo que ele desejava. Mesmo após todos os esforços de aproximação, o animal permanecia nervoso e arisco, herança de um ambiente selvagem e traumático. Ele bufou em resposta, mas o som não foi calmo. Era um ruído alto e desconfiado, semelhante ao de uma turbina de avião funcionando em baixa rotação, uma vibração profunda e constante que Elian podia sentir não apenas no chão, que tremia levemente sob seus pés, mas também nos próprios dentes. A fera, com seus músculos poderosos cobertos por uma pele grossa, resistente e de tonalidade acinzentada, não ficou parada. Suas patas grandes e pesadas se mexiam inquietas sobre a neve, e suas orelhas, geralmente eretas e alertas, estavam agora baixas, coladas quase ao crânio, um sinal claro de desconforto e desconfiança. Seus olhos grandes, amendoados e inteligentes, brilhavam com uma mistura de medo e agressividade contida, observando cada movimento de Elian como se esperasse uma traição a qualquer momento.

    Naquele mundo onde a natureza era implacável e os recursos eram escassos, a improvisação era a única linguagem que o ambiente parecia compreender. Elian ajoelhou-se sobre a neve suja, misturada com terra escura, pedras pequenas e restos de materiais da nave, cercado por destroços da Vanguard. Peças de metal retorcido, cabos quebrados de várias espessuras, pedaços de plástico endurecido e tecidos sintéticos rasgados estavam espalhados por todo o terreno, formando um cenário de destruição que ele havia transformado em uma oficina de fortuna. Seus dedos, endurecidos pelo frio intenso e marcados por cicatrizes recentes de cortes, queimaduras e arranhões, moviam-se com uma precisão quase maníaca, como se cada movimento fosse calculado milimetricamente em sua mente. Ele não tinha uma oficina adequada, nem equipamentos modernos e sofisticados, mas tinha o calor de um maçarico a plasma, que ele havia conseguido consertar com muito esforço e habilidade, e a urgência de quem sabia que cada minuto perdido poderia ser a diferença entre a vida e a morte.

    Com cuidado e habilidade, ele cortou os assentos de espuma de alta densidade da nave, que haviam sido projetados para absorver o impacto de reentradas atmosféricas violentas e que agora seriam usados para um propósito completamente diferente. Ele moldou cada pedaço de espuma com as mãos, usando facas improvisadas e ferramentas de corte, ajustando-os perfeitamente à curvatura dos ombros largos e musculosos de Goliath. A espuma, que antes servia para proteger passageiros de forças físicas extremas e pressões intensas, agora serviria para proteger a pele coriácea e sensível da fera contra o atrito do metal duro e áspero que ele iria colocar sobre ela. Em seguida, ele pegou placas de alumínio leve mas muito resistente, retiradas da fuselagem da nave, e as dobrou usando o macaco hidráulico que havia recuperado da área de carga como se fosse uma prensa industrial improvisada. Com paciência, força física e muita concentração, ele deu forma às placas, criando dois cestos grandes e profundos, com capacidade suficiente para carregar todo o minério que ele havia coletado. Os cestos tinham uma estrutura simples, mas sólida e resistente, com bordas reforçadas e suportes para que pudessem ser presos com segurança ao corpo do animal.

    No entanto, a parte mais difícil estava apenas começando. Ao tentar aproximar-se de Goliath com a cangaia feita de tiras de couro sintético reforçado e cabos de reboque de alta tensão, o comportamento da fera mudou imediatamente. O animal recuou rapidamente, dando passos largos para trás, com as orelhas ainda mais baixas e um rosnado baixo e gutural saindo de sua garganta, mostrando que não estava disposto a aceitar aquilo facilmente. Elian teve que parar, levantando as mãos em sinal de paz, falando palavras suaves e tentando acalmar o instinto de defesa da criatura. Por diversas vezes, ele quase desistiu, pensando que não conseguiria realizar a tarefa e que teria que transportar tudo sozinho, o que seria praticamente impossível e fatal. Mas ele sabia que precisava insistir. Aproximou-se devagar, centímetro por centímetro, deixando que Goliath cheirasse os materiais, que se acostumasse com a presença e com o cheiro dos objetos.

    Depois do que pareceu uma eternidade de negociação silenciosa e de muita paciência, a fera finalmente parou de recuar. O rosnado parou, embora as orelhas continuassem baixas e o olhar permanecesse desconfiado. Goliath permitiu que Elian se aproximasse e começasse a colocar o equipamento, mas o corpo do animal permanecia tenso, com os músculos enrijecidos, pronto para fugir ou atacar a qualquer sinal de perigo. Ao prender as tiras, Elian sentiu a musculatura poderosa e rígida de Goliath sob suas mãos. Era como tocar uma cordilheira viva e em alerta máximo. O animal não protestou mais, mas cada movimento de Elian era acompanhado de perto, com os olhos brilhantes e atentos da criatura registrando tudo com desconfiança.

    Quando a primeira pá de minério foi despejada dentro de um dos cestos, fazendo um barulho seco, metálico e pesado, Goliath deu um salto para o lado, assustado, fazendo o gelo rachar sob as patas e quase derrubando toda a estrutura. Elian teve que acalmá-lo novamente, explicando com gestos e palavras que tudo estava bem. Aos poucos, com muito custo e esforço, o animal aceitou o peso. Ele ajustou a carga, movendo-se com rigidez e desconforto, e as orelhas continuavam baixas, mostrando que não estava feliz com a situação, mas que havia aceitado o acordo.

    A caminhada de volta à base, que era formada pelo que restava da cabine principal da nave e algumas construções improvisadas que ele havia feito com pedras grandes e placas de metal, foi um desfile silencioso e tenso de dois sobreviventes que estavam unidos por necessidade, não por amizade tranquila. Elian caminhava à frente, virando-se a cada dois passos para verificar se Goliath ainda o seguia, sempre pronto para acalmar o animal caso ele se assustasse com algo. A criatura caminhava com passos pesados e desconfiados, com a cabeça baixa e as orelhas recolhidas, olhando para todos os lados, como se esperasse um ataque a qualquer momento. Naquele momento, a relação entre eles havia mudado de forma definitiva, mas não para uma parceria calma. Eles tinham se transformado em uma unidade logística instável, uma equipe de trabalho que dependia um do outro, mas que ainda precisava construir confiança. Era como se fossem uma caravana de um homem só, com um meio de transporte poderoso mas imprevisível, carregando o combustível físico e simbólico para construir o amanhã.

    Quando chegaram à base e descarregaram todo o material, armazenando-o em um local protegido da chuva de gelo, do vento forte e de possíveis predadores, Goliath afastou-se imediatamente, indo para um canto mais distante, onde ficou parado, observando Elian de longe, ainda com as orelhas baixas e o olhar desconfiado. A curiosidade que havia estado adormecida dentro de Elian começou a crescer rapidamente, alimentada pelos novos recursos e pela sensação de possibilidade. O que antes era apenas uma faísca de interesse, alimentada por pequenos detalhes e achados casuais, havia se transformado em um incêndio que consumia todos os seus pensamentos e desejos. O scanner de mão, um aparelho pequeno, portátil e resistente que ele usava preso ao pulso por uma tira de tecido forte e elástico, emitia um pulso rítmico e constante, um som semelhante a uma batida de coração eletrônico que não parava de procurar, de forma incansável, por algo que estava enterrado no subsolo. Ele sabia que era o cabo subterrâneo, uma estrutura de metal e plástico reforçado que ele havia detectado dias antes durante uma de suas explorações, e que agora estava mais perto do que nunca. Aquele fio de metal, que se estendia por quilômetros sob a superfície irregular do planeta, não era um elemento natural, resultado de processos geológicos ou químicos da natureza; era tecnologia, construída por mãos inteligentes, por seres que tinham conhecimento e habilidades de engenharia muito superiores às suas. E a existência de tecnologia significava que ele não era o primeiro ser humano ou inteligente a caminhar sobre aquele solo, a pisar naquele mundo hostil. Alguém havia estado lá antes, alguém havia construído, instalado e deixado para trás aquela estrutura, e ele estava determinado a descobrir quem era, qual era o propósito e o que mais estava escondido sob aquelas montanhas de gelo e pedra.

    Elian preparou sua mochila de sobrevivência com um cuidado e um rigor extremos, com a atenção de quem sabe que o menor erro, o item esquecido ou a ferramenta quebrada, pode ser uma sentença de morte em um ambiente tão perigoso e imprevisível. Ele verificou cada peça de equipamento, cada objeto que iria levar, certificando-se de que tudo estava funcionando perfeitamente e que nada faltava para a missão que ele iria realizar. Colocou a picareta sônica, que podia cortar pedras duras e superfícies resistentes com facilidade graças a vibrações de alta frequência, e enrolou com cuidado as cordas de fibra sintética, muito mais fortes que as de seda ou de algodão, mas leves e fáceis de transportar. O cortador a laser, uma ferramenta poderosa que podia cortar quase qualquer material com precisão cirúrgica, tinha a bateria piscando em 80%, um nível que ele considerou suficiente para a viagem que iria fazer, mas que ainda assim fez com que ele guardasse um carregador portátil e baterias reservas como medida de segurança. Além disso, levou alimentos desidratados e concentrados, água purificada e armazenada em garrafas resistentes, um kit de primeiros socorros completo e algumas ferramentas pequenas de reparo e manutenção, todos itens que representavam um peso necessário, que poderiam fazer a diferença entre a vida e a morte em momentos críticos.

    Quando tudo estava pronto e organizado, eles começaram a marchar em direção ao norte, seguindo a direção precisa que o scanner indicava em sua tela pequena e iluminada. A caminhada continuou tensa. Goliath seguia atrás, mantendo uma distância segura, parando a cada barulho diferente, farejando o ar constantemente e com as orelhas sempre atentas ou baixas em sinal de medo. O cenário ao seu redor começou a mudar gradualmente, transformando-se de planícies geladas e cobertas de neve grossa e fofa para uma cordilheira de rocha negra, escura, brilhante e afiada, que parecia ter sido mastigada por dentes gigantescos e afiados de predadores antigos, deixando superfícies irregulares, com buracos, rachaduras profundas e formações estranhas. As montanhas eram altas e íngremes, com picos que pareciam tocar as nuvens escuras e carregadas que pairavam sobre elas, criando uma atmosfera sombria e misteriosa, e as encostas eram cobertas de pedras soltas e detritos que dificultavam a caminhada e tornavam o percurso mais perigoso. O cabo subterrâneo continuava correndo sob seus pés, seguindo uma linha reta e precisa, ignorando completamente os abismos profundos, as elevações acentuadas e as formações geológicas complexas que encontravam pelo caminho, com uma arrogância matemática que mostrava a precisão e a inteligência de quem havia o construído. Ele não fazia curvas desnecessárias, não mudava de direção por causa de obstáculos naturais ou mudanças de terreno; seguia um caminho pré-definido e perfeito, como se tivesse sido projetado para ligar dois pontos importantes, independentemente do que houvesse no meio.

    Então, depois de caminharem por horas, subindo e descendo colinas íngremes, atravessando vales estreitos e profundos e passando por entre pedras enormes que pareciam estátuas de deuses antigos, eles finalmente a viram.

    A entrada não pedia licença para a montanha, não parecia ter sido construída de forma a se integrar ao ambiente natural; era como se tivesse sido imposta à força, como uma marca de poder e dominação sobre a natureza selvagem e indomável. Era um triângulo equilátero perfeito, com lados de tamanhos exatamente iguais e ângulos precisos, uma ferida geométrica de trinta metros de altura que havia sido aberta na face do penhasco, cortando a rocha negra de forma limpa, suave e precisa, como se tivesse sido feita com uma lâmina gigante. Milênios de gelo e neve, de tempestades violentas e ventos fortes, haviam tentado selar aquela abertura, cobrindo-a com camadas grossas de gelo transparente e criando estalactites que pendiam do topo da entrada como dentes grandes, afiados e brilhantes de um predador de eras esquecidas, que esperava pacientemente por uma presa para devorar. Apesar de todos esses esforços da natureza para esconder ou destruir a estrutura, a entrada ainda estava lá, intacta, firme e resistente.

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