Capitulo 14: O Julgamento do Sol Poente
O abismo não tinha fundo, mas tinha voz. Enquanto Elian atravessava a Ponte de Luz, o zumbido dos fótons sob suas botas ressoava como uma nota de violoncelo infinitamente prolongada. Atrás dele, a M.U.L.A. flutuava, o olho rubi varrendo a escuridão, projetando uma sombra longa e trêmula sobre o feixe translúcido que os conectava à Esfera Central.
A cada passo, Elian sentia a fragilidade de sua existência. Um erro de cálculo, uma flutuação na rede elétrica de uma civilização moribunda, e ele seria apenas um átomo a mais no vazio. Mas quando ele finalmente pisou na plataforma sólida da Metrópole de Vidro e Obsidiana, o medo foi substituído por uma sensação de profanação. Ele estava em um lugar onde o tempo havia sido forçado a parar.
A cidade não tinha o caos orgânico das metrópoles humanas. Era uma geometria de pesadelo, composta por monólitos negros que se erguiam como presas em direção ao teto curvo da casca planetária. Não havia janelas, apenas inscrições rúnicas que brilhavam com uma luminescência residual, como brasas em uma fogueira esquecida.
Elian caminhava por uma avenida de pó cinzento. Ao tocar em uma superfície, percebeu que não era cinza vulcânica. Era o resíduo orgânico de milênios — pele morta, detritos de tecido e a degradação molecular de uma biologia que tentou enganar a entropia. O cheiro era de um necrotério estéril: ozônio, formaldeído e o hálito metálico de máquinas que não sabiam como desligar.
— M.U.L.A., conecte-se àquele terminal — ordenou Elian, apontando para um pedestal de obsidiana no centro do que parecia ser o Capitólio. — Quero saber quem eram eles. E por que o céu lá fora é uma ferida aberta.
A unidade utilitária estendeu seus braços de aranha, inserindo filamentos de dados nas fendas do pedestal. O silêncio da sala foi quebrado por um grito eletrônico. Hologramas azuis, saturados de estática, explodiram no ar, preenchendo o vazio do salão com fantasmas de luz.
Elian assistiu ao pecado original dos Krael.
As projeções mostravam uma raça de gigantes cinzentos, magníficos em sua arrogância, construindo anéis colossais ao redor de sua estrela. Eles não eram apenas colonizadores; eram parasitas estelares. Através de uma tecnologia chamada “Lança Solar”, eles drenavam o plasma da coroa solar para alimentar uma rede de portais e armas de destruição em massa. Por séculos, os Krael foram os senhores do setor, mantendo mundos vizinhos sob o jugo de uma ameaça incineradora.
Mas o sol não era infinito.
A extração desenfreada causou um desequilíbrio na fusão nuclear da estrela. O sol amarelo e vibrante, que outrora nutria o planeta, começou a tossir, expelindo sua massa em erupções violentas antes de colapsar prematuramente em uma anã vermelha anêmica. O sistema esfriou em uma velocidade catastrófica.
As imagens seguintes eram de puro horror. Elian viu naves de luxo partindo enquanto canhões automáticos na superfície — os mesmos que deveriam proteger o povo — derrubavam naves de refugiados que tentavam escapar. A elite Krael não buscou uma solução para todos; eles construíram a Cripta. Eles se enterraram no ventre do planeta, roubando o resto da energia geotérmica para se manterem em estase, enquanto bilhões de seus próprios semelhantes congelavam em questão de horas,
transformando-se em monumentos de gelo na superfície.
— Eles não se esconderam de um desastre natural — murmurou Elian, com o punho cerrado. — Eles causaram o desastre, trancaram a porta por dentro e deixaram o resto queimar.
A M.U.L.A. emitiu um bipe de alerta crítico. A tela do datapad de Elian começou a rolar dados em uma velocidade frenética.
“Alerta: Equilíbrio de Potência Insustentável. Reator Geotérmico Central operando em 4%. Falha sistêmica prevista para 240 ciclos solares.”
O sistema de gerenciamento de energia abriu-se diante de Elian. Era um diagrama de fluxo de três ramificações principais, cada uma drenando o que restava do sangue quente do planeta:
- A Galeria dos Reis: Onde 5.000 adultos, a casta dominante e militar, esperavam pelo despertar. Consumo: 60%.
- O Berçário da Esperança: Um setor isolado, contendo 500 cápsulas de infantes. Inocentes que nunca haviam empunhado uma arma ou assinado um decreto de morte. Consumo: 10%.
- A Máquina-Mundo (Terraformação): O motor que mantinha o campo magnético e impedia o planeta de se tornar uma rocha atmosférica inerte. Consumo: 30%.
Se nada fosse feito, a energia se esgotaria e o silêncio seria absoluto. Se Elian escolhesse salvar a si mesmo e ao planeta através da terraformação, ele teria que desligar os berços. Se ele salvasse os reis, eles acordariam e, com certeza, veriam Elian como um parasita a ser esmagado.
Ele caminhou até um dos sarcófagos da Galeria dos Reis. Limpou a poeira do vidro com a luva do traje. Lá dentro, um Krael adulto flutuava. Três metros de pele cinzenta, quatro braços cruzados sobre uma armadura de ouro e obsidiana. O rosto era uma máscara de arrogância preservada.
Elian sentiu o cheiro da banha de lêmure frita em sua própria roupa, o suor de dias de trabalho escravo na nave, as cicatrizes em suas mãos. Ele olhou para o gigante adormecido e viu não um deus, mas um covarde.
— Vocês drenaram o sol e deixaram seus filhos para trás para salvar suas joias e seus títulos — disse Elian, sua voz ecoando como um veredito. — O universo não lhes deve mais nada.
- O Veredito: Cinzas e Renascimento
Elian voltou ao console. Seus dedos não hesitaram. A “verdade emocional” de que ele precisava era a clareza de que o futuro não poderia ser construído sobre alicerces podres.
— M.U.L.A., transfira o protocolo administrativo para o meu comando.
“Comando aceito, Usuário Elian. Aguardando diretrizes de alocação.”
— Setor Alpha (Galeria dos Reis): Desativar suporte de vida. Iniciar drenagem de estase. Purga total.
— Setor Beta (Berçário): Prioridade Máxima. Isolar rede e ativar Modo de Preservação de Longo Prazo. Eles terão cem anos de energia se eu fizer isso.
— Máquina-Mundo: Direcionar todo o excedente do Setor Alpha para o Núcleo Geotérmico. Ativar Protocolo de Reaquecimento Atmosférico em nível de sobrecarga.
“Confirmar extermínio de 5.000 entidades biológicas de classe dominante?”
Elian olhou para o holograma da Galeria dos Reis. Um simples botão virtual. Se ele o pressionasse, ele se tornaria um genocida. Mas se não o fizesse, ele seria o cúmplice de tiranos.
— Confirmar — ele disse.
O som que se seguiu não foi uma explosão, mas um suspiro. Milhares de relés de energia desligaram-se simultaneamente. CLUNK. CLUNK. CLUNK. As luzes azuladas que banhavam os sarcófagos dos reis piscaram e tornaram-se vermelhas, antes de se apagarem para sempre.
Dentro dos vidros, o campo de estase que mantinha o tempo à distância colapsou. Sem a suspensão molecular, milênios de idade atingiram os corpos dos Krael em milissegundos. Elian assistiu, através das câmeras do sistema, enquanto os generais e lordes se transformavam em pó cinzento, desintegrando-se dentro de suas armaduras douradas. O passado estava finalmente morto.
Abaixo de seus pés, o chão rugiu. Foi uma vibração profunda, sentida nos ossos. A Máquina-Mundo, alimentada agora pelo sangue dos seus antigos mestres, despertou com fúria. A temperatura no Capitólio subiu três graus instantaneamente. Lá fora, na superfície do inferno branco, o gelo começaria a gemer sob a pressão do calor ascendente.
Com o peso da decisão ainda vibrando em seu peito, Elian não se permitiu o luto ou a dúvida. Ele precisava de força. O planeta estava mudando, e ele precisava mudar com ele.
Ele seguiu para o Setor de Defesa, onde a guarda pretoriana dos Krael mantinha seus implementos de guerra. Lá, pendurados em suportes de magnetita, estavam os Exoesqueletos Atlas.
Eram máquinas de beleza brutal. Quatro metros de altura, construídos em uma liga de Neutronium que parecia absorver a luz da tocha de Elian. Diferente da tecnologia humana, que dependia de pistões barulhentos, os Atlas usavam feixes de polímeros sintéticos que imitavam a musculatura biológica — mas com a força de uma prensa hidráulica em cada fibra.
— M.U.L.A., não podemos vestir isso. Somos pequenos demais, frágeis demais. Mas podemos ser isso.
A M.U.L.A. projetou lasers de corte enquanto Elian começava o processo de desmontagem. Ele não queria o traje inteiro; ele queria a essência. Com a precisão de um cirurgião de sucata, ele removeu os servomotores das pernas e a coluna vertebral mecânica do Atlas.
Nas horas que se seguiram, a oficina improvisada de Elian tornou-se um cenário de alquimia tecnológica. Ele pegou as placas de blindagem da Vanguard, leves e resistentes, e as fundiu à estrutura do exoesqueleto Krael. Ele criou talas metálicas que se conectavam às suas próprias coxas e panturrilhas, usando sensores de pressão para que os “músculos” de polímero respondessem aos seus próprios movimentos nervosos.
O resultado era uma monstruosidade funcional: o Exoesqueleto Frankenstein.
A parte inferior era robusta, com pernas digitalizadas que terminavam em garras de ancoragem. A parte superior era um arnês reforçado que envolvia o torso de Elian, conectando uma bateria de fusão Krael diretamente às costas de seu traje de voo.
Quando ele ligou o sistema pela primeira vez, a sensação foi de um choque elétrico. Ele deu um passo, e quase atravessou a parede de obsidiana. A força era inebriante. Em gravidade 2G, ele agora se sentia como se estivesse na Lua. Ele podia carregar uma tonelada, podia saltar cinco metros, podia esmagar pedra com as mãos.
Elian observava os hologramas flutuando sobre o console da Necrópole Krael. Eram mapas estelares, mas vistos de um ângulo que nenhum astrônomo na Terra jamais vira.
— M.U.L.A., onde diabos nós estamos? — perguntou ele, limpando o sangue seco do nariz.
A IA processou as constelações alienígenas, girando o mapa até que padrões familiares surgissem.
— Triangulação completa, respondeu ela. A estrela local é uma anã amarela de classe G, a 12 anos-luz da Terra. Designação humana: Tau Ceti.
Elian riu, um som seco e sem humor.
— Tau Ceti? O “Jardim Prometido”? A Vane Corp gastou bilhões procurando esse sistema.
— Afirmativo. Estamos no quinto planeta da zona habitável. Designação astronômica: Tau Ceti f. Os Krael o chamavam de ‘Obsidia’. Mas para os registros da sua nave, Senhor Vane, nós colonizamos o alvo.
— Tau Ceti f… — Elian testou o nome na língua. Tinha gosto de ferro. — Soa melhor que “Inferno”. Vamos manter.
A subida de volta à superfície foi diferente da descida. Elian não era mais o náufrago assustado que rastejava pelo túnel. Ele era uma centelha de poder caminhando através da garganta do planeta.
Ao emergir da entrada triangular, o sol anã vermelha estava se pondo no horizonte, pintando a neve de um carmesim profundo. Mas o ar… o ar estava diferente. Havia uma umidade que não existia antes. Um som de estalo vindo das geleiras distantes. O degelo havia começado.
Goliath estava lá, esperando. O Titã levantou-se, sacudindo a neve de seu pelo denso. Ao ver a nova forma de Elian — ampliada pelo exoesqueleto metálico e acompanhada pela M.U.L.A. flutuante — o animal soltou um rugido de incerteza. Ele sentiu o cheiro da tecnologia Krael, o cheiro dos antigos predadores do planeta.
Elian caminhou até a fera, cada passo mecânico fazendo o solo vibrar. Ele removeu o capacete, deixando o ar frio — agora apenas suportável — tocar seu rosto. Ele estendeu a mão blindada e tocou o focinho de Goliath.
— Calma, amigão — disse Elian, sua voz rouca. — Os demônios se foram. Eu os enterrei.
Goliath cheirou a luva de metal, sentindo o calor humano por trás da máquina. O Titã relaxou, encostando a cabeça no peito blindado de Elian.
Elian olhou para a carcaça da Vanguard ao longe e, além dela, para a vastidão do planeta que ele acabara de condenar e salvar ao mesmo tempo. Ele tinha as ferramentas, tinha o poder e tinha o primeiro sopro de uma atmosfera que, em algumas décadas, pertenceria aos órfãos que ele deixara dormindo lá embaixo.
— Vamos para casa, Goliath. Temos uma base para construir.
A caravana partiu sob a luz vermelha. O homem-máquina, o monstro e o droide. O primeiro dia do resto de Tau Ceti f estava apenas começando.

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