O quadragésimo quinto dia em Tau Ceti f não nasceu com um nascer do sol, mas com o fim de um ruído. Por semanas, o som do mundo de Elian fora o grito do metal sendo dobrado e o rugido das turbinas da Vanguard expelindo calor. Quando o silêncio finalmente se instalou, ele era tão pesado que Elian sentiu a pressão em seus ouvidos, um vácuo acústico que sinalizava o fim de uma era e o início de outra.

    Ele estava de pé no centro do que outrora fora uma clareira de gelo. Agora, ele era o centro de um ecossistema artificial.

    A construção da “Arca” — o domo geodésico que agora envolvia a nave — fora um exercício de sadismo físico e engenharia de desespero. Elian lembrava-se dos primeiros dias como um borrão de dor e fuligem.

    Ele retornara das montanhas já pela 12ª vez, arrastando 1,5 toneladas de magnetita bruta. O traje Atlas sibilava, os pistões hidráulicos gemendo sob o estresse de vetores de força que nenhum engenheiro Krael previra para um piloto humano. O rastro deixado na neve era uma trincheira de terra batida, uma cicatriz negra que cortava o branco infinito do planeta, ligando a necrópole à base como um cordão umbilical de ferro.

    Para Goliath, o humano deixara de ser apenas o “pequeno trazedor de calor”. Ele se tornara uma entidade de ruído, fumaça e violência geológica.

    O Titã mantinha-se recuado, circulando o perímetro da clareira com as orelhas coladas ao crânio. Suas narinas largas dilatavam-se, filtrando o ar com desconfiança. O problema não era o frio, mas o cheiro. O ar ao redor da base da nave não tinha a pureza do gelo; estava contaminado pelo odor acre de ozônio ionizado, fluido hidráulico vazando e metal superaquecido. Para a besta, aquilo não cheirava a presa nem a predador; cheirava a tempestade engarrafada. Goliath recusava-se a pisar na área onde a fumaça da impressora 3D pairava, preferindo ficar a barlavento, onde o ar ainda era limpo.

    Alheio ao desconforto sensorial de seu guardião, Elian transformava o minério em fundação. Sem máquinas de britagem industrial, o processo era medieval e exaustivo.

    THOOM.

    O impacto não era apenas um som; era uma onda de choque. O chão tremia, fazendo a neve acumulada nas árvores distantes despencar. Não havia elegância ali, apenas a transferência bruta de energia cinética pulverizando a rocha.

    O pó resultante, preto e brilhante, era alimentado na garganta faminta da Impressora 3D da nave. A máquina, modificada por Elian e operando com os dissipadores de calor no vermelho, cuspia o resultado: vigas de “Aço-Carbono Celular”.

    Eram peças de engenharia que imitavam a natureza, não a indústria. Elian copiou a microarquitetura dos ossos de aves: estruturas cheias de vácuo, leves o suficiente para serem erguidas com uma mão pelo exoesqueleto, mas com uma geometria interna capaz de suportar o colapso de uma catedral.

    A selação física do domo foi o passo final e o mais perigoso. O campo eletromagnético que ele ativara segurava a pressão atmosférica, mas drenava energia do reator e deixava o calor vazar aos poucos.

    Ele precisava de uma estufa real e isolada. Usando sílica refinada do solo alienígena, a impressora gerou painéis de policarbonato translúcido.

    Não era vidro comum; era um polímero flexível de cinco centímetros de espessura, capaz de absorver impactos de meteoritos e dilatação térmica extrema.

    Elian teve que escalar a estrutura externa, usando ganchos magnéticos e a força dos músculos sintéticos do Atlas para se prender a cem metros de altura. O vento de Tau Ceti f soprava a 200 km/h, tentando arrancá-lo da rede de metal como se ele fosse um parasita insignificante, enquanto ele encaixava placa por placa sobre a malha de energia.

    Quando o último hexágono foi encaixado no zênite do domo, o efeito foi instantâneo. O uivo constante do vento, que fora a trilha sonora da vida de Elian desde a queda, cessou. O silêncio que se seguiu foi absoluto, sagrado e assustador.

    — M.U.L.A., iniciar ciclo de aquecimento ambiental — ordenou Elian, sua voz tremendo de exaustão.

    Ele entrou na Vanguard e redirecionou o calor residual dos reatores para as saídas de ventilação externas. As turbinas não rugiram para voar, mas para soprar. Jatos de ar a 80°C começaram a bombear para dentro do domo selado.

    O resultado foi o que Elian chamou de “O Grande Choro”. A neve acumulada por eons dentro do perímetro começou a derreter. Uma neblina branca e impenetrável subiu do chão, saturando a visibilidade. Durante cinco dias, Elian viveu dentro de uma nuvem quente. Ele ouvia o som da água: o gotejar constante das vigas, o rugido de corredeiras temporárias cavando o solo, o estalo do gelo profundo se partindo. O planeta estava suando. O inverno estava sendo expulso por decreto humano.

    No quinquagésimo dia, a neblina finalmente baixou. Elian abriu a escotilha da nave e saiu sem o capacete da armadura, apenas com um respirador leve.
    A temperatura dentro do domo estava em estáveis 12°C.
    O cenário era alienígena em sua nudez. A neve branca e pura desaparecera, revelando o rosto verdadeiro de Tau Ceti f. Onde antes havia dunas de gelo, agora havia um lago de água cristalina, um espelho azulado de trinta metros de largura que refletia a geometria do teto.

    Mas abaixo de suas botas, a realidade era cruel. O solo não era a terra escura e nutritiva da Terra. Era Regolito. Uma areia cinzenta e estéril, composta por rochas vulcânicas trituradas e minerais brutos. Não havia cheiro de mato ou de vida. Cheirava a pedra molhada e metal antigo.

    Elian ajoelhou-se e pegou um punhado da areia cinza. Ele sentiu a frieza mineral em seus dedos orgânicos.

    — M.U.L.A., análise de substrato.
    “Regolito detectado. Nitrogênio: 0,02%. Matéria orgânica: Inexistente. Microbiologia: Nula. Conclusão: Solo estéril para espécimes terrestres.”

    O peso da realidade o atingiu. Ele criara uma redoma, um santuário de calor e água, mas ele ainda estava em um deserto. Ele tinha as sementes da Terra em um cofre na nave — trigo, soja, vegetais básicos — mas se as plantasse ali, elas morreriam em dias, famintas por nutrientes que aquele solo morto não podia oferecer.

    Ele olhou para as três árvores de cristal que sobreviveram ao degelo dentro do domo. Elas pareciam vibrar com uma luz interna, a seiva agora correndo livre sob a casca vítrea. Elas não precisavam de solo orgânico; elas se alimentavam de minerais e radiação. Mas Elian não podia comer cristal.
    Ele precisava de vida para gerar vida. Precisava de decomposição.

    — Goliath… — Elian chamou, observando o Titã que agora caminhava desconfiado sobre a lama cinzenta, cheirando o lago.
    Ele olhou para o monte de carcaças de lêmures que empilhara do lado de fora antes do domo ser fechado. Elas estavam preservadas pelo frio, mas agora, sob o calor de 12°C, começariam a apodrecer.

    “M.U.L.A., mude o protocolo de construção para ‘Gestão de Biosfera’. Precisamos de um Composter.”
    O plano era tão pragmático quanto nojento. Ele precisava fabricar “Terra Preta”. Para isso, ele teria que triturar as carcaças de lêmures, misturá-las com a areia cinza e — o mais importante — coletar os dejetos de Goliath. O Titã processava a flora local e seu trato digestivo era o único laboratório disponível capaz de converter minerais alienígenas em matéria orgânica processada.
    Elian começou o trabalho de “fazendeiro do apocalipse”. No traje Atlas, ele carregava os restos mortais dos predadores que ele mesmo matara e os jogava em um triturador improvisado. O cheiro de decomposição acelerada logo começou a preencher o domo, lutando contra o cheiro de ozônio. Era o cheiro da vida tentando se agarrar a uma rocha morta.

    Mas enquanto ele trabalhava na lama, algo chamou sua atenção na borda do novo lago.

    O derretimento da neve profunda não revelara apenas pedras. No fundo do lago, algo que estivera congelado por séculos estava se movendo.

    Elian aproximou-se da margem, a mão descendo instintivamente para o cabo da picareta sônica. O visor da armadura captou um movimento térmico. Pequenas formas, parecidas com sementes de girassol, estavam se desprendendo do fundo lamacento e subindo à superfície.


    Eram centenas.

    Ao atingirem a superfície, as cápsulas se abriam, revelando pequenas criaturas translúcidas, filamentosas, que começavam a nadar freneticamente.

    Pareciam larvas de insetos, mas com uma bioluminescência pálida e pulsante.

    — Alerta — sibilou a voz da M.U.L.A. em seus ouvidos. — Bioassinatura analisada.

    Morfologia análoga a larvas necrófagas terrestres. Referência cruzada: tapurus. Comportamento detectado: Detritívoros de alta eficiência. Estado: Coleta ativa.

    Elian parou, baixando a arma improvisada.

    O degelo fizera mais do que limpar o quintal; ele acordara a equipe de limpeza original do planeta. Aquelas criaturas não pareciam predadores, mas sim operários.

    Elas formavam um cordão pulsante e esbranquiçado ao redor da margem lamacenta do lago, ignorando completamente o calor da Vanguard ou a presença imponente de Goliath.

    O animal bufou, cheirando a lama com curiosidade, e uma das larvas simplesmente contornou sua pata maciça. O interesse delas estava focado em pequenos nódulos ambarinos que o gelo havia revelado: gotas de seiva fossilizada, duras como pedra. Elian observou, fascinado, enquanto as mandíbulas das larvas trituravam o material ressecado, processando a matéria orgânica velha com uma velocidade impressionante. Eram máquinas biológicas de reciclagem.

    Um sorriso lento se formou no rosto de Elian. Se aquelas coisas podiam converter detritos milenares e duros em nutrientes, elas poderiam resolver metade dos seus problemas de lixo e compostagem na estufa.

    — M.U.L.A., cancele o protocolo de contenção — ordenou Elian, observando a massa trabalhar ritmadamente. — E prepare um contêiner de amostras. Acho que acabamos de encontrar nossa nova unidade de processamento de resíduos.

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota