O silêncio que se instalara sob o domo não era de paz, mas de exaustão. A Arca de Vidro, majestosa em sua geometria contra o céu carmesim de Tau Ceti f, escondia em seu ventre um homem e uma máquina que haviam chegado ao limite da física.

    Elian olhou para suas mãos. Elas tremiam. Não de frio — o domo mantinha uma temperatura tropical de 25°C úmidos —, mas de uma fadiga que se entranhara na medula. A euforia da construção dera lugar à ressaca da realidade. Ele fechara o mundo lá fora, mas trancara-se com problemas que não podiam ser resolvidos com solda de plasma.

    A armadura Atlas, batizada na fúria da construção, estava morrendo.
    Elian a encontrou no suporte de manutenção, uma estrutura de vigas improvisada no centro da baia de carga da Vanguard. O gigante de metal preto e dourado parecia um animal ferido. Sob a perna esquerda, uma poça escura e viscosa se alastrava pelo chão — fluido hidráulico misturado com limalha de Neutronium. O cheiro era acre, químico e perturbadoramente semelhante ao de sangue coagulado.

    — M.U.L.A., diagnóstico completo — a voz de Elian era um sussurro rouco. Ele segurava o capacete do traje em uma das mãos, o olho rubi da IA brilhando fracamente.

    “Relatório de danos: Crítico,” a voz da IA ecoou pelos pequenos alto-falantes do elmo, desprovida de empatia, mas carregada de urgência. “Junta do joelho esquerdo: vedação comprometida. Perda de pressão em 40%. Servomotor do ombro direito: tolerância de alinhamento excedida em 14%. Risco de travamento catastrófico em uso de carga pesada.”

    Elian passou a mão pelo metal frio da coxa da armadura. Ele sentiu as ranhuras profundas onde rochas haviam tentado rasgar a liga alienígena. Ele exigira demais dela. Arrastar doze toneladas de minério montanha abaixo não era uma tarefa para uma máquina; era um trabalho para a tectônica de placas.


    Mas não era só o traje. A Impressora 3D, o coração industrial da base, estava engasgando. O bico de extrusão de titânio estava entupido com uma crosta de carbono vitrificado, e as correias de tração, feitas de polímero sintético, estavam esgarçadas como tendões velhos.

    Não havia botão de “reparar tudo”. Havia apenas Elian, uma caixa de ferramentas e dias de trabalho sujo.
    Ele desmontou a perna da armadura. Peça por peça. Parafuso por parafuso. O processo foi uma lição de humildade mecânica. Ele viu como a poeira fina do regolito, afiada como vidro moído, havia penetrado nas juntas “seladas”, agindo como lixa sobre os pistões de precisão.

    — Maldita areia — praguejou Elian, raspando a borra preta com uma espátula. — Ela entra em tudo.
    Ele teve que vulcanizar novos anéis de vedação usando borracha sintética recuperada dos assentos da nave. O cheiro de borracha queimada impregnou seu cabelo, suas roupas, sua pele. Ele poliu os pistões arranhados com lã de aço até que brilhassem como espelhos novamente, seus dedos doendo e sangrando nas cutículas.

    Foi um trabalho de relojoeiro aplicado a um tanque de guerra. Durante três dias, ele não viu o sol. Ele viveu no mundo microscópico de tolerâncias de milímetros. Mas, no processo, a armadura deixou de ser um veículo. Elian aprendeu a “ouvir” o metal. Ele sabia que o clique suave no cotovelo significava lubrificação perfeita, e que o zumbido grave no reator era um sinal de felicidade térmica. Ele estava curando seu corpo estendido.

    Com a armadura ronronando novamente — embora com cicatrizes de solda prateada que contrastavam com o ouro Krael —, Elian voltou-se para o problema do solo.
    O chão dentro do domo era uma zombaria. A neve derretida revelara o regolito: areia cinza, morta, composta de silicatos e óxidos metálicos. Quimicamente, tinha potencial. Biologicamente, era um deserto. Não havia bactérias fixadoras de nitrogênio, não havia fungos micorrízicos, não havia o ciclo da vida e da morte que transforma pedra em comida.

    Ele precisava de Nitrogênio (N), Fósforo (P) e Potássio (K).
    Ele precisava de merda.

    — Vamos lá, Goliath. Hora da sua contribuição para a ciência — disse Elian, empurrando um carrinho de mão feito de chapas de alumínio amassadas.

    Goliath não entendeu o conceito de privacidade. O Titã, cuja dieta consistia em raízes fibrosas e cristais ricos em minerais, produzia dejetos que eram menos “orgânicos” e mais “geológicos”. Eram pedras fumegantes, densas e negras, que cheiravam a enxofre e amônia concentrada.

    Elian teve que usar uma marreta para quebrar as fezes petrificadas de Goliath. Cada golpe liberava uma nuvem de pó amarelo que ardia nos olhos.
    — Isso é ouro, grandão. Ouro fedorento — tossiu Elian, jogando os fragmentos no carrinho.

    Mas fezes de pedra não bastavam. Ele precisava de carne. De sangue. De decomposição rápida.

    Ele voltou à pilha de carcaças de lêmures que empilhara dentro do domo para descongelar. A temperatura tropical de 25°C dera às bactérias a chance de se multiplicar exponencialmente, e o resultado estava lá para ser cheirado.

    Ao abrir a lona térmica que as cobria, o odor o atingiu como um soco físico. Doce, enjoativo, podre. A carne dos lêmures estava liquefeita, uma sopa marrom.

    Foi ali que Elian despejou o contêiner com as larvas alienígenas — os “tapurus” bioluminescentes — que coletara no lago. Em questão de minutos, os vermes translúcidos já nadavam em êxtase, devorando a matéria morta com uma voracidade mecânica.

    Elian conteve o vômito. Ele pegou a pá.

    — Nitrogênio puro… Nitrogênio puro… — repetia ele como um mantra, enquanto despejava a lama biológica no carrinho, misturando-a com as pedras de enxofre de Goliath.
    Para completar a trindade profana, ele conectou a saída do sistema de esgoto da própria Vanguard. Seus próprios dejetos, processados quimicamente pela nave, foram adicionados à mistura. Nada se perdia. No espaço, e agora aqui, o desperdício era o único pecado imperdoável.

    Elian construiu a “Caixa de Decomposição” no canto mais afastado do domo, longe da entrada da nave, mas ainda dentro da bolha de calor. Era um tanque retangular feito de placas de metal soldadas, com um sistema de ventilação forçada que passava por filtros de carvão ativado que ele canibalizara do sistema de suporte de vida da nave.

    O Processo químico era uma lasanha de horror.

    • Base: Uma camada grossa de Regolito Cinza, a areia do planeta, para dar estrutura.
    • Recheio: A mistura de fezes de Titã, carne podre de lêmure e lodo de esgoto humano.
    • Cobertura: Raspas das Árvores de Cristal que ele cortara. A madeira vítrea agiria como a “serragem” na compostagem terrestre, retendo umidade e fornecendo carbono estrutural.
    • Hidratação: Água do lago recém-formado, rica em minerais dissolvidos.

    Elian selou o tanque. E esperou.
    A decomposição é, essencialmente, uma fogueira lenta. As bactérias do intestino de Goliath (adaptadas ao planeta) entraram em guerra com as bactérias do intestino de Elian (terrestres) e com os micróbios putrefatos dos lêmures. O resultado foi termodinâmico.

    Em dois dias, o termômetro externo do tanque marcava 65°C. A caixa vibrava levemente. O cheiro que escapava pelos filtros, apesar do carvão, era uma entidade viva. Cheirava a pinho podre, amônia, enxofre e terra molhada. Era o cheiro de um pântano primordial.

    Goliath odiou. O Titã passava os dias do lado oposto do domo, com o nariz enterrado na própria cauda, espirrando e lançando olhares de traição para Elian.

    — É pelo seu jantar também, amigo — disse Elian, verificando a temperatura. Ele trabalhava com o capacete da armadura fechado, respirando ar reciclado para não desmaiar.

    Vinte dias. Vinte ciclos de revirar a mistura com uma pá, suando dentro do traje, observando a alquimia acontecer.
    Aos poucos, a cor mudou. O cinza do regolito foi manchado pelo marrom da carne, e depois, pelo preto profundo do húmus. O cheiro de morte recuou, substituído por algo que fez o coração de Elian disparar: o cheiro de chuva. O cheiro de floresta depois da tempestade. O cheiro de Terra.

    No vigésimo primeiro dia, Elian abriu o tanque. O vapor subiu, quente e úmido. Ele desligou os sensores olfativos do traje e abriu o visor. Ele pegou um punhado.

    Não era mais areia. Era solo. Era grumoso, escuro, retinha água e manchava a luva de metal. Era a substância mais valiosa em anos-luz.

    Elian transportou a “Terra-Mãe” para um canteiro elevado que construíra perto do lago, usando pedras para conter o precioso material. Ele espalhou o solo preto, sentindo o calor residual da compostagem.

    Com mãos trêmulas, ele foi até o congelador da nave. De uma caixa prateada marcada com o símbolo da Agência Espacial, ele retirou um pacote a vácuo.

    “Solanum tuberosum” (Batata) – Cepa Resistente a Frio.
    Ele pegou uma batata velha, enrugada, com “olhos” brotando timidamente. Com uma faca de cerâmica, ele cortou os pedaços.
    — Vocês estão muito longe de casa — sussurrou ele para os tubérculos. — Mas esta é a casa agora.

    Ele enterrou os pedaços na terra negra e fumegante. Cobriu-os com cuidado, como se estivesse colocando bebês para dormir.

    Ele regou com água do lago filtrada.

    — Cresçam. Por favor.

    O tempo passou rápido dentro da bolha de calor. Elian se distraiu nos dias seguintes reforçando as placas do domo e mapeando sinais de rádio antigos.

    Foi só na manhã do trigésimo quinto dia — duas semanas após o plantio — que ele voltou para checar a colheita.

    Ele esperava ver pequenos brotos verdes, frágeis e terrestres. O que ele viu o fez recuar e sacar a arma de plasma.


    O canteiro não estava verde. Estava vermelho.
    Mas não eram as batatas.

    As três Árvores de Cristal que ele preservara dentro do domo… elas haviam reagido. Suas raízes, normalmente profundas e estáticas, haviam sentido a “super-nutrição” do adubo terrestre concentrado. Elas se moveram.

    Como serpentes de vidro subterrâneas, as raízes das árvores haviam migrado horizontalmente, rompendo a base do canteiro de Elian e invadindo a terra negra. Elas estavam sugando o nitrogênio, o fósforo e a matéria orgânica com uma voracidade aterrorizante.

    E a consequência foi visível.
    As árvores, antes de um branco leitoso e translúcido, haviam mudado. As agulhas de cristal no topo, onde a fotossíntese alienígena acontecia, agora brilhavam com um tom Vermelho-Sangue. Elas pulsavam. Um ritmo lento, biológico. Thump… thump… thump…

    Elian aproximou a mão (blindada) do tronco de uma das árvores. O calor era palpável. A árvore estava febril. Ela estava metabolizando a biologia da Terra e transformando-a em algo novo. Algo agressivo.

    Onde as raízes vermelhas tocavam o solo, as batatas de Elian não haviam morrido. Elas haviam crescido. Mas estavam deformadas. As folhas que brotavam eram roxas, grossas e cobertas de espinhos cristalinos.

    — O que eu fiz? — sussurrou Elian.

    Ele criara um híbrido. A biologia de Tau Ceti f não rejeitara a Terra; ela a devorara e se fortalecera. E agora, o domo estava cheio de um brilho escarlate que parecia atrair olhares.
    Do lado de fora do vidro, na escuridão do inverno polar, algo se mexeu na neve. Olhos refletiram a luz vermelha das árvores. O calor e a luz pulsante não eram apenas um milagre botânico; eram um farol.

    Elian olhou para a picareta sônica. Ele tinha um jardim para cultivar, e agora, uma floresta mutante para podar. A agricultura neste planeta não seria uma pastoral bucólica. Seria uma guerra de trincheiras.

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