Capítulo 18: O Pomar Carmisim
O ar dentro da Redoma de Ferro não era mais o ar estéril de uma nave espacial, nem o ar cortante e seco de Tau Ceti f.
Era uma sopa atmosférica. Pesado, úmido e tingido de vermelho, o ambiente cheirava a terra molhada, ozônio e, perturbadoramente, a frutas cozidas em excesso.
Elian estava parado diante do canteiro de batatas, a arma de plasma ainda esfriando no suporte da armadura Atlas. Uma seção inteira do solo negro estava chamuscada.
Ele não hesitou em incinerar os brotos roxos e espinhentos que as árvores haviam corrompido na noite anterior. O visor do capacete estava aberto, permitindo que o suor escorresse livremente por seu rosto enquanto ele observava a guerra silenciosa continuar.
As três Árvores de Cristal que ele preservara como pilares do domo não desistiriam fácil. A injeção de nutrientes terrestres transformara sua biologia lenta e fria em algo febril. As raízes haviam rompido a superfície do solo como serpentes de vidro quente e cercavam o restante da terra fértil onde as batatas não corrompidas ainda tentavam germinar. Estavam prontas para estrangular a vida terrestre e roubar cada grama de nitrogênio
As raízes não estavam mais enterradas. Elas haviam rompido a superfície do solo negro como serpentes de vidro quente, rastejando em direção ao canteiro onde as preciosas batatas da Terra tentavam germinar. Elas cercavam o montículo de terra fértil, prontas para estrangular a vida alienígena (terrestre) e roubar cada grama de nitrogênio.
— Vocês são gananciosas — murmurou Elian, observando uma raiz grossa empurrar uma pedra lateral. O calor que emanava dela distorcia o ar.
Cortá-las estava fora de questão. Se ele usasse o maçarico ou a serra, a pressão interna da seiva superaquecida poderia causar uma explosão de vapor ou, pior, matar as árvores que sustentavam a temperatura do domo. Ele não podia lutar. Ele tinha que negociar.
— M.U.L.A, vamos fazer uma oferenda aos deuses locais.
A estratégia era arriscada, mas lógica: saciedade tática. Se as árvores queriam comida, ele lhes daria um banquete tão denso que elas esqueceriam as migalhas do canteiro de batatas.
Elian foi até o tanque de compostagem. O cheiro era uma barreira física, uma parede de amônia e decomposição que faria um homem menor desmaiar. Mas para Elian, aquilo era o cheiro da sobrevivência. Ele encheu o carrinho com a “Lama Negra” — a mistura mais potente e concentrada de restos de lêmure fermentados, dejetos de Goliath e lodo processado. Era uma bomba calórica de nitrogênio e fósforo.
Ele manobrou o carrinho até a base dos troncos das árvores mutantes, longe do canteiro de batatas.
— Aqui está. Comam isso e me deixem em paz.
Com a pá da armadura, ele despejou a lama fétida diretamente sobre as raízes principais, cobrindo-as com um montículo fumegante de adubo.
A reação foi biológica e imediata. As raízes distantes, aquelas que ameaçavam as batatas, pararam de vibrar. Lentamente, num movimento quase imperceptível a olho nu, mas claro no time-lapse do HUD da armadura, elas começaram a recuar. A pressão osmótica mudara. A árvore “sentiu” a concentração massiva de nutrientes em sua base e retraiu seus tentáculos exploratórios para se banquetear na fonte.
O canteiro de batatas estava salvo. Elian havia subornado a natureza com lixo.
Várias semanas se passaram desde a “oferenda”. A mudança nas árvores acelerou. O brilho vermelho tornou-se tão intenso que Elian não precisava mais das luzes da nave para trabalhar à noite. O domo estava banhado num crepúsculo perpétuo de cor rubi.
Elian aproximou-se da árvore central. O calor que irradiava do tronco era de 52°C. A casca vítrea parecia mais fina, quase transparente, revelando o fluxo turbulento de fluido lá dentro.
— Elas estão hipermetabolizando — disse Elian para o gravador de voz do traje. — A mistura de biologia terrestre e mineralogia alienígena criou um reator orgânico.
Ele precisava saber o que corria naquelas veias.
Elian sabia que não poderia simplesmente fazer um corte. A pressão interna era alta demais; seria como perfurar uma artéria aorta. Ele precisava de uma torneira cirúrgica.
Na oficina da Vanguard, ele projetou a “Torneira de Sangria”: um tubo de titânio oco, com rosca de vedação automática e uma válvula de esfera de alta pressão, acoplada a um dissipador de calor de cobre (para resfriar o líquido na saída).
De volta à árvore, ele posicionou a furadeira de impacto no braço direito da Atlas.
— Calibrar perfuração. Profundidade: 15 centímetros.
VRRRRRR-THUNK.
A broca penetrou o cristal quente.
HSSSSSSSS!
Um jato de vapor pressurizado escapou, cheirando a açúcar queimado. Antes que a seiva jorrasse, Elian golpeou a torneira no buraco e a rosqueou com a força hidráulica do traje. A vedação segurou.
Ele pegou um frasco de vidro temperado de laboratório e posicionou-o sob a bica. Com a mão blindada, girou a válvula lentamente.
O líquido não era seiva comum. Era espesso, viscoso e de um vermelho profundo, quase preto, que clareava para um rubi brilhante quando a luz o atravessava. Ele fumegava ao tocar o vidro, enchendo o frasco com uma substância que parecia xarope de granada fervente.
Elian levou o frasco para dentro da nave. Deixou esfriar até atingir 40°C. O cheiro invadiu a cabine assim que ele tirou o capacete.
Não cheirava a resina. Cheirava a uma cozinha de confeiteiro. Caramelo, frutas cítricas, gengibre e algo terroso, como beterraba doce.
— M.U.L.A., análise toxicológica preliminar.
“Compostos identificados: Glicose de alta densidade, ferro, potássio, eletrólitos naturais. Presença de alcaloide desconhecido (Designação Alfa-Rubra). Toxicidade: Negativa. Propriedades estimulantes detectadas.”
Elian molhou a ponta do dedo no líquido morno e levou à boca.
O sabor explodiu na língua. Era doce como mel silvestre, mas tinha um retrogosto picante que descia queimando agradavelmente pela garganta, espalhando calor pelo peito instantaneamente. A fadiga muscular que ele carregava há semanas pareceu dissolver-se um pouco.
— É um energético — concluiu ele, sentindo o coração bater um pouco mais forte, mas de forma estável. — Um superalimento líquido.
Ele acabara de descobrir o “Chá de Sangue”. Uma bebida capaz de manter o corpo aquecido e energizado no frio mortal lá fora, sem a necessidade de cafeína ou estimulantes sintéticos.
Enquanto engarrafava o terceiro litro de seiva, Elian olhou para cima, para a copa da árvore que roçava o teto do domo geodésico.
Pendurados nos galhos cristalinos, como lanternas chinesas pesadas, havia novos crescimentos.
Não eram pinhas. Eram frutos.
Gigantescos. Do tamanho de pequenas melancias alongadas ou ovos de dinossauro, com uma casca grossa, facetada e translúcida, brilhando com a mesma luz interna do tronco.
— Parece que o nitrogênio fez mais do que alimentar as raízes — disse Elian.
Ele ativou os servos das pernas. A armadura Atlas flexionou e saltou, os propulsores de manobra ajudando-o a alcançar o galho mais baixo, a 3 metros do chão. A estrutura da árvore gemeu sob o peso de mais de meia tonelada da armadura, e seu portador, mas o cristal aguentou.
Elian agarrou um dos frutos com a garra mecânica. Era pesado, denso, cerca de 15 quilos. O calor passava através da blindagem térmica da luva. Ele torceu o pedúnculo vítreo até que ele se partisse com um estalo seco.
De volta ao solo, ele colocou o fruto na bancada de trabalho improvisada ao ar livre.
Ele sacou a faca de combate de cerâmica.
A casca era dura, mas quebradiça. Ao forçar a lâmina, a casca se partiu em placas geométricas, revelando o interior.
Não havia sementes duras. O interior era composto de gomos grandes de polpa vermelha gelatinosa, nadando em um néctar espesso. Parecia o interior de uma romã, mas sem os caroços, apenas pura carne de fruta e suco.
A Análise da M.U.L.A.
Elian espremeu um gomo. O suco era pegajoso.
“Alerta,” disse a M.U.L.A. “Concentração de sacarose e etanol natural excede 400% dos padrões terrestres. Volatilidade: Moderada a Alta. Potencial calórico: Extremo.”
Elian olhou para o líquido vermelho em sua luva.
— Isso não é só comida — ele sussurrou, a mente de engenheiro correndo mais rápido que a de biólogo. — Isso é combustível.
Se ele fermentasse e destilasse aquilo, obteria um álcool de octanagem absurda.
- Poderia alimentar os geradores de emergência sem gastar o reator nuclear.
- Poderia criar explosivos plásticos à base de açúcar nitrado.
- Poderia mover um motor de combustão interna.
Ele batizou o fruto ali mesmo: “Coração-de-Fogo”.
Elian cortou uma fatia generosa do fruto, um pedaço do tamanho de um pão de forma, pingando néctar.
Ele saiu do perímetro de trabalho e encontrou Goliath dormindo perto da saída de ventilação quente da nave. O gigante parecia mais magro nos últimos dias; a caça estava escassa com o degelo transformando o terreno em lamaçal, e os lêmures haviam migrado.
O cheiro do fruto acordou o Titã antes que Elian dissesse uma palavra.
As narinas de Goliath dilataram-se. Ele levantou a cabeça maciça, os olhos pretos fixos na mão brilhante de Elian. Um fio de saliva grossa escorreu de sua boca.
— Você está com fome, grandão? — perguntou Elian, a voz suave amplificada pelo alto-falante. — Vamos ver se o seu estômago de pedra aguenta isso.
Ele jogou a fatia.
Goliath a pegou no ar com uma destreza surpreendente para seu tamanho.
CRUNCH. SLURP.
O som foi úmido e satisfatório. O Titã mastigou a polpa, a casca cristalina e tudo. O suco vermelho escorreu por suas presas de obsidiana, tingindo o pelo branco do queixo de carmesim.
Goliath engoliu e soltou um rugido baixo, um som que vibrou no peito de Elian. Não era um rugido de ameaça. Era prazer puro. Dopamina alienígena.
O gigante aproximou-se da armadura, não para desafiar, mas para investigar. Ele lambeu os dedos metálicos de Elian, onde restava o suco pegajoso. Sua língua era áspera como uma lixa grossa, mas o gesto era de submissão e gratidão.
Pela primeira vez, Elian viu uma mudança. Os olhos de Goliath pareciam mais brilhantes, misteriosamente, seu pelo parecia ganhar um brilho sutil sob a luz vermelha.
O “Coração-de-Fogo” não era apenas calorias; era vitalidade concentrada para a fauna local.
Elian acariciou a cabeça do monstro com a manopla fria.
— Eu cuido de você, você cuida de mim. É assim que funciona agora.
A noite caiu sobre Tau Ceti f, mas dentro do domo, a luz vermelha das árvores mantinha uma vigília constante.
Elian, exausto, alimentado pela seiva e satisfeito com a descoberta do combustível, decidiu fazer uma última ronda antes de dormir.
Ele caminhou até o canteiro de batatas.
A terra negra, agora livre do assédio das raízes, estava silenciosa.
Elian ajoelhou-se. O servomotor do joelho chiava um pouco, precisando de óleo, mas ele ignorou.
Ele ligou a luz de espectro total do dedo indicador da armadura e iluminou o solo.
Lá estava.
No meio da escuridão do húmus, uma pequena mancha verde rompera a superfície.
Não era vermelho. Não era cristalino. Não brilhava.
Era verde fosco. Imperfeito. Frágil.
Um broto de batata. Duas folhinhas enrugadas, lutando contra a gravidade 2G, lutando contra a atmosfera estranha, lutando para viver.
Elian sentiu um nó na garganta que a seiva doce não conseguira desfazer.
Aquilo era a Terra. Era a persistência teimosa da vida de onde ele viera.
Ele desligou os sensores externos, o HUD, o barulho dos ventiladores. Ficou no silêncio do capacete, apenas olhando para aquelas duas folhas minúsculas.
— Bem-vinda ao inferno, pequena — sussurrou ele, com um sorriso cansado. — Você vai gostar daqui. É quente. E eu não vou deixar nada tocar em você.
Ao retornar à cabine da Vanguard, Elian atualizou o log da M.U.L.A. O quadro holográfico não mostrava mais “Sobrevivência Crítica”. Mostrava “Gestão de Colônia”.
- Recursos Biológicos:
- Seiva (Sangue de Árvore): 5 Litros estocados. Propriedades: Regeneração leve, aquecimento corporal, antibiótico.
- Fruto (Coração-de-Fogo): 1ª colheita realizada (3 unidades). Potencial: Alimento de alta densidade e base para bioetanol.
- Agricultura Terrestre: Batatas em estágio de germinação (Colheita estimada: 60 dias).
- Defesa:
- Goliath: Status Nutricional “Otimizado”. Lealdade reforçada.
- Energia:
- Reator Nuclear: 78% de capacidade.
- Biocombustível: Pesquisa iniciada.
Elian olhou para a pilha de sucata no canto do hangar. Havia restos da Aranha-Sentinela, placas sobressalentes da Vanguard e, agora, a promessa de um combustível líquido potente.
A armadura Atlas era poderosa, mas era lenta. Era um tanque, não um explorador.
Ele olhou para o mapa na parede.
O sinal de rádio da Necrópole indicava que o complexo subterrâneo era vasto, estendendo-se por baixo das montanhas até o outro lado da cordilheira.— M.U.L.A, onde estão os esquemas do sistema de suspensão do veículo lunar da nave?
“O veículo foi danificado durante a queda, Elian, e está sem células de combustível,” respondeu a IA.— Eu sei. Mas as rodas não. E o motor elétrico também não.
Ele olhou para o fruto vermelho na mesa.— E acho que acabamos de encontrar o aditivo para o nitro.
O laboratório de alquimia estava pronto. Agora, era hora de construir a carruagem para conquistar o horizonte.

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