Capítulo 19: A Besta de Carga.
O tempo em Tau Ceti f deixara de ser medido em horas ou ciclos solares. Ele era medido em milímetros de ferrugem, em gramas de solo fértil e na profundidade das olheiras no rosto de Elian Vane.
Três meses haviam se passado desde a descoberta do “Coração-de-Fogo” e a estabilização do jardim. O Domo Geodésico, a Arca de Vidro, tornara-se uma bolha de sanidade num mundo que se dissolvia em lama e degelo. Mas o isolamento, tal como a gravidade, exercia uma pressão constante e esmagadora.
A noite caíra sobre o hemisfério norte, trazendo consigo uma tempestade de granizo que chicoteava o policarbonato do domo com a violência de tiros de metralhadora. Dentro, o silêncio era quebrado apenas pelo zumbido estático do projetor holográfico e pelo som rítmico de uma lixadeira pneumática.
Elian estava debruçado sobre a bancada de trabalho, os olhos vermelhos fixos no esquema flutuante de um sistema de suspensão independente. Suas mãos, outrora as mãos macias de um piloto de academia, estavam agora irreconhecíveis. Eram mapas de cicatrizes, calos endurecidos pelo frio e manchas permanentes de graxa e fuligem. As unhas estavam roídas, sujas de óleo de máquina e terra negra.
— M.U.L.A., recalcular o vetor de torque para o eixo traseiro. Se usarmos a liga de alumínio padrão, ela vai cisalhar na primeira ravina.
— Calculando… — a voz da IA ecoou no capacete. — Sugestão: Reforço estrutural com as vigas de suporte do convés C da Vanguard. Aumentará o peso em 12%, mas a integridade estrutural subirá para 98%.
Elian assentiu, mas sua mente vagou. Enquanto a lixadeira parava, um cheiro fantasma invadiu o capacete aberto de seu traje. Não era o cheiro de ozônio, nem de suor, nem o aroma doce e enjoativo do fruto alienígena fermentando no tanque ao lado.
Era cheiro de café. Café verdadeiro, torrado, servido numa xícara de porcelana fina. E, misturado a ele, o aroma de sândalo do escritório de seu pai em Olympus Mons.
A memória o atingiu como um soco físico. Ele viu, por um breve segundo, o reflexo de quem ele costumava ser: limpo, barbeado, vestindo seda sintética, preocupado com as notas da academia e com a aprovação de Silas Vane. Ele lembrou-se da segurança. De nunca ter sentido o frio morder seus ossos. De nunca ter tido medo de que o teto caísse sobre sua cabeça.
Uma lágrima quente, solitária e pesada, traiu sua determinação. Ela escorreu pelo rosto barbado, cortando um caminho através da fuligem na bochecha, e morreu no canto da boca, salgada.
“Eles acham que eu morri,” a frase ecoou em sua mente, não como um pensamento, mas como uma sentença. “O funeral já aconteceu. As naves de busca pararam. Eu sou um fantasma numa rocha esquecida.”
A solidão não era um corte agudo; era uma asfixia lenta. Ele largou a ferramenta, o metal tilintando na bancada. Ele olhou para Goliath, que dormia pesadamente perto do reator, o peito gigantesco subindo e descendo num ritmo que era a única outra prova de vida naquele continente.
Elian olhou para o reflexo de seu rosto no vidro escuro do domo. O homem que o encarava de volta tinha olhos selvagens, famintos, mas acesos.
Em Marte, ele era Elian Vane, o herdeiro, o piloto promissor, o investimento de seu pai.
Aqui, coberto de sujeira, cheirando a óleo e lêmure podre, ele era outra coisa.
Ele olhou para a forja. Olhou para o jardim onde as batatas lutavam para viver. Olhou para o gigante de quatro toneladas que o obedecia.
— Se eu voltar… — ele sussurrou para a escuridão, a voz rouca pelo desuso. — Eu serei apenas um sobrevivente. Uma curiosidade num talk-show. Um homem quebrado.
Ele limpou a lágrima com as costas da mão suja, deixando um rastro preto na pele.
— Mas aqui… — ele pegou a lixadeira novamente. O aperto foi firme. — Aqui, eu sou o Criador.
A tristeza não desapareceu, mas mudou de estado físico. Deixou de ser um peso líquido e tornou-se combustível sólido. Ele não construiria aquela máquina para fugir desesperadamente. Ele a construiria para conquistar.
Os três meses seguintes foram um borrão de brutalidade industrial. A Vanguard, que servira como seu berço e abrigo, agora era tratada como uma mina a céu aberto.
Elian canibalizou tudo.
Paredes internas de titânio foram cortadas com maçaricos de plasma. O piso do refeitório tornou-se blindagem. Os assentos de couro sintético da cabine de comando foram arrancados para isolamento térmico. A nave estava sendo estripada para dar à luz algo novo.
O projeto que nasceu na bancada holográfica começou a tomar forma no centro do hangar. Não era um veículo elegante como os rovers de exploração da NASA ou as naves de luxo de Marte. Era uma abominação funcional.
- O Chassi: Elian construiu uma espinha dorsal dupla de Titânio-Aço, articulada no meio. Isso permitiria que a frente e a traseira do veículo girassem independentemente, mantendo as rodas no chão mesmo quando ele atravessasse campos de pedras irregulares. Era a flexibilidade de uma coluna vertebral aplicada a um tanque.
- As Rodas: Borracha era inútil. No frio extremo da noite, ela cristalizaria e estilhaçaria. Na lama do dia, ela atolaria. Elian programou a Impressora 3D para trabalhar por semanas, fio por fio, criando oito rodas de Malha de Liga com Memória. Eram estruturas de favo de mel vazadas, de um metro e meio de altura. Não precisavam de ar. Eram impossíveis de furar. Elas deformavam-se sobre as rochas para criar aderência e voltavam à forma original instantaneamente.
- O Coração Híbrido: A maior inovação estava sob o capô blindado. Elian não podia depender apenas de baterias elétricas; o frio drenava a carga muito rápido. Ele precisava de calor e explosão.
Ele resgatou um gerador de combustão de emergência da nave e o modificou drasticamente. As câmaras de injeção foram alargadas. As velas de ignição foram trocadas por ignitores de plasma.
O combustível? O Etanol do Coração-de-Fogo.
Destilado e refinado no laboratório químico improvisado, o suco da fruta alienígena tornou-se um líquido volátil, transparente e com um cheiro adocicado perigoso. Quando Elian testou uma gota num queimador, a chama foi azul-branca e tão quente que derreteu o bico de teste.
O motor a combustão giraria para carregar os capacitores e alimentar oito motores elétricos independentes — um em cada roda. Torque infinito. Autonomia estendida.
Enquanto o inverno lá fora começava a ceder lugar a uma primavera lamacenta e violenta, Elian finalizava o interior. Ele sabia que, quando saísse com aquela máquina, talvez não voltasse para o domo por semanas.
O veículo, batizado de V.T.P. “Mamute”, era mais do que um transporte. Era uma base móvel.
A cabine era pressurizada e isolada com camadas duplas de vidro Krael recuperado dos capacetes dos trajes da Necrópole. Tinha uma cama estreita atrás do banco do piloto, um purificador de água e um mini-laboratório químico.
Mas a característica mais distinta estava na parte externa. Na caçamba traseira, sobre o eixo de tração principal, Elian soldou uma plataforma reforçada, coberta por uma lona térmica de alta resistência e aquecida pelo escape do motor. Era um “ninho” de aço. O trono de Goliath.
Ele pintou a fuselagem com uma tinta anticorrosiva cinza-chumbo, para que a máquina desaparecesse contra as rochas e o céu tempestuoso. Mas, num acesso de vaidade artística, usou o pigmento vermelho da seiva para pintar uma linha grossa na lateral e, na frente, um símbolo: a silhueta de um Titã e um Humano, lado a lado.
No final do quinto mês, o sensor atmosférico indicou uma janela de calmaria. Temperatura externa: -15°C. Vento: moderado. Solo: permafrost em degelo, viscoso e traiçoeiro.
Elian vestiu a armadura Atlas — agora polida e reparada — e subiu na cabine do Mamute. O espaço era apertado para o exoesqueleto, mas ele projetara o assento para acomodá-lo.
Ele olhou para o painel, uma mistura de telas digitais da Vanguard e alavancas analógicas feitas à mão.
— M.U.L.A., iniciar sequência de ignição. Injetar o Composto Fogo.
“Iniciando. Atenção: Volatilidade do combustível desconhecida em câmara de compressão.”
Elian girou a chave.
Não houve o silêncio clínico dos motores elétricos do futuro. Houve uma tosse mecânica, seguida por uma explosão.
KA-BOOM… VROOOOM!
O Mamute acordou. O som era gutural, uma vibração crua que fez as ferramentas nas prateleiras tremerem. Fumaça branca e doce saiu pelas chaminés verticais de escape. O veículo vibrava com uma raiva contida. Era uma máquina do velho mundo, movida a fogo e compressão.
Goliath, que observava do lado de fora, recuou e rosnou para a besta de metal barulhenta.
— Sobe, garoto! — gritou Elian pelo alto-falante externo.
O Titã hesitou, cheirou o escapamento (que cheirava à fruta que ele amava) e, entendendo que aquela coisa barulhenta era obra de seu mestre, saltou para a plataforma traseira. A suspensão do Mamute cedeu meio metro sob as quatro toneladas, mas os amortecedores pneumáticos compensaram com um silvo de ar comprimido.
Elian abriu o portão do domo. O ar frio entrou, misturando-se com o calor do motor.
Ele engatou o trenó de mineração na traseira. Vinte toneladas de rocha morta.
O Mamute não tinha pedais convencionais. Conectado ao veículo, Elian enviou o comando de tração através da interface neural da armadura. O carro agora era o seu corpo.
Os oito motores elétricos receberam a carga do gerador a etanol. As rodas de malha de metal giraram. Elas não patinaram na lama congelada; elas morderam. A estrutura de favo de mel deformou-se, agarrando cada pedra e fenda.
O Mamute não correu; ele puxou. Com um gemido de metal tencionado, a máquina arrastou as vinte toneladas para fora do domo como se fossem isopor. O torque era monstruoso. Elian foi colado ao banco, sentindo o poder bruto vibrar em sua espinha.Ele soltou a carga na área de despejo e virou o veículo para a planície aberta.
— Vamos ver o que esse álcool alienígena faz de verdade. Segure-se, Goliath!Ele enviou o pulso mental de aceleração máxima.O motor a combustão uivou. O velocímetro digital subiu vertiginosamente.
40 km/h… 80 km/h… 100 km/h.
O terreno passava como um borrão cinza. A suspensão independente engolia pedras do tamanho de barris, mantendo a cabine estável. O Mamute flutuava sobre o inferno geológico.
De repente, o radar de proximidade gritou em vermelho.
“Alerta. Movimento biológico rápido. Setor 4. Múltiplos contatos.”
Elian olhou pelo retrovisor digital. Saindo de uma ravina escura, uma matilha de criaturas surgiu. Não eram os lêmures lentos.
Eram Lobos-de-Escamas. Criaturas despertas pelo degelo, esguias, cobertas de placas quitinosas e com seis patas que se moviam em borrão. Eles corriam a 60 km/h, famintos, os olhos brilhando na penumbra.
Eles estavam alcançando. Um deles saltou, as garras raspando no metal da caçamba, perto de Goliath. O Titã rugiu e esmagou a criatura com um golpe de pata, jogando-a para fora.
— Elian riu. Não era uma risada de medo. Era a risada maníaca de quem segura um raio nas mãos.
— Vocês querem correr? Então vamos correr.
Através do sistema do traje, ele ativou a injeção direta de óxido nitroso (que ele sintetizara a partir do adubo nitrogenado).
O motor deu um estalo seco. O fogo azul saiu pelos escapes.
O Mamute saltou para a frente.
80 km/h… 100 km/h.
A aceleração foi brutal. A matilha de predadores ficou para trás, transformando-se em pontos distantes na poeira de neve, incapazes de competir com a união da engenharia humana e a química Krael.
Elian parou o Mamute no topo de uma colina alta, a dez quilômetros da base. O motor ficou em marcha lenta, um ronronar grave e quente.
A tempestade passara. O céu estava limpo, revelando a vastidão da galáxia.
Ele saiu da cabine e sentou-se no capô quente da máquina. O calor do motor protegia-o do frio de -20°C. Goliath desceu da caçamba e deitou-se ao lado das rodas gigantes, montando guarda.
Elian olhou para cima. Lá, entre aqueles pontos de luz, estava o Sol. Estava a Terra, arruinada e abandonada. Estava Marte, estéril e corporativa, onde seu pai provavelmente estava assinando documentos num escritório com cheiro de sândalo, lamentando a perda do investimento, não do filho.
Depois, ele olhou para baixo.
No vale escuro, um ponto de luz brilhava. O Domo.
Ele viu o brilho vermelho das árvores de cristal através do policarbonato. Viu o verde tímido das batatas que ele plantara. Viu a cicatriz da estrada que ele abrira.
Ele pensou nos bebês Krael dormindo na necrópole, esperando por um futuro que seus pais destruíram.
Aquele fantasma de Elian Vane, o garoto rico que chorara na oficina, desapareceu.
Ele percebeu a diferença fundamental.
Os Krael falharam porque tentaram dobrar o planeta à força, sugando-o até a morte.
A humanidade falhou na Terra porque consumiu tudo até sobrar apenas a casca.
Elian estava fazendo o oposto. Ele estava dando. Ele estava suando, sangrando e criando solo onde havia apenas pedra.
— Eu não sou um prisioneiro — disse ele para as estrelas frias, sua voz firme, sem tremores. — Eu não sou um náufrago esperando resgate.
Ele acariciou o metal do Mamute.
— Eu sou o Jardineiro. E este é o meu jardim.
A decisão solidificou-se em seu peito como o aço do chassi que ele construíra.
Ele não usaria o Mamute para dirigir até o ponto mais alto e gritar por socorro, implorando para voltar para a gaiola dourada de Marte.
Ele usaria o Mamute para explorar. Para encontrar os outros berçários. Para mapear os recursos. Para entender o que este planeta precisava para viver.
Se um dia uma nave humana descesse ali, eles não encontrariam uma vítima. Encontrariam o Embaixador de um Novo Mundo.
Ele deu dois tapinhas no capô do veículo. O som ecoou no vale silencioso.
— Vamos para casa, Goliath. — Ele olhou para o horizonte, onde a cordilheira escondia segredos ainda maiores. — Amanhã, nós vamos ver o que há do outro lado daquelas montanhas.
O planeta estava acordando. E Elian Vane estaria lá, armado, blindado e motorizado, para lhe dar as boas-vindas.

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