A silhueta colossal pairava na fronteira do perímetro defensivo, uma presença fantasmagórica cujos olhos refletiam os clarões intermitentes das luzes estroboscópicas como faróis predatórios cortando a nevasca. Elian Vane, ainda recuperando o fôlego após a árdua instalação da cerca luminosa, sentiu um arrepio que penetrou fundo nos ossos, muito mais intenso que o frio externo. Aquilo era o Titã-da-Tundra? Ou alguma outra abominação da natureza, atraída pelo caos sonoro e pelo aroma adocicado da seiva que agora pairava no ar como um farol irresistível?

    O radar emitia apitos insistentes, um ritmo cardíaco eletrônico que espelhava a tensão em seu peito. Ele não podia esperar para confirmar. O mostrador de energia piscava em vermelho agressivo: 27 horas restantes. Era um relógio implacável, uma contagem regressiva para a escuridão e para as mandíbulas que o esperavam do lado de fora. A expedição deixara de ser uma possibilidade remota para se tornar uma questão de vida ou morte.

    Com um gesto pesado, ele desligou a tela. Deixaria para trás o oásis frágil que construíra, arriscando tudo na esperança de encontrar a Célula de Combustível. Ou pelo menos era o que repetia a si mesmo para silenciar o tremor involuntário de suas mãos.

    O tempo era um luxo que não possuía. Elian se arrastou pelos corredores inclinados da Vanguard, sentindo a gravidade dupla esmagar seus ombros, como se o próprio planeta tentasse mantê-lo pregado ao solo. O ar dentro da cabine, aquecido pelo sistema de bypass da árvore, cheirava a resina e a esforço, um ambiente artificial em contraste com a selvageria lá fora.

    O maior desafio logístico pairava em sua mente: a Célula de Combustível. Na Terra, pesava cerca de oitenta quilos. Ali, sob a força gravitacional daquele mundo, seu peso efetivo chegava a cento e sessenta. Carregá-la nas costas era impossível; ele desmaiaria ou romperia músculos em minutos.

    Memórias de uma vida distante vieram à tona, amargas como o gelo. Lembrou-se das aulas de sobrevivência na Academia, que ele frequentava apenas por obrigação, rindo com os amigos enquanto bebiam vinhos sintéticos importados. “Sobrevivência é para os desfavorecidos,” costumava dizer com a arrogância de quem nunca passou fome. Agora, ele era o náufrago, o desfavorecido, obrigado a erguer-se do pó e da sucata.

    A criação começou com a desmontagem de seu próprio mundo. Ele arrancou um painel curvo da fuselagem, uma peça de liga leve que outrora ornamentara a asa direita, agora retorcida e marcada pela violência da reentrada atmosférica. O metal arrastou-se pelo piso metálico com um som lúgubre, como um lamento.

    Com o cortador a laser — cuja carga ele racionava como se fosse água —, Elian moldou as bordas, aquecendo o metal até dar-lhe forma côncava, perfeita para deslizar sobre a neve compactada. As faíscas iluminavam seu rosto barbado e sujo, transformando-o em uma imagem distante do jovem polido que um dia fora. Ele fixou correias de aço trançado, retiradas dos sistemas de ancoragem da nave, transformando aquele pedaço de lixo em um trenó rudimentar, uma extensão de seu próprio corpo destinada a dividir o fardo.

    Para a defesa, ele confiou no que já conhecia. Desmontou o último sinalizador de emergência, um cilindro vermelho projetado para cortar a escuridão do espaço. Dentro dele havia uma carga de intensidade capaz de cegar temporariamente. Seria seu trunfo, um “flash” de uso único que poderia comprar segundos vitais caso fosse encurralado. Ele o prendeu ao cinto, junto ao cantil e à última barra de proteína, sentindo o peso de cada item como uma escolha estratégica. Levar mais significava fadiga mais rápida; levar menos significava vulnerabilidade.

    Após um último olhar para os monitores — onde via os pontos negros dos lêmures espreitando nas copas, esperando uma brecha —, ele selou a escotilha. O sistema de defesa permaneceu ativo, piscando como olhos vigilantes. A cada passo que se afastava, a segurança da nave diminuía, substituída pelo silêncio sepulcral da tundra.

    A jornada de seis quilômetros revelou-se uma odisseia de dor pura. O terreno descia em direção a uma fenda geológica onde a neve, sob pressão e calor interno, sublimava-se diretamente em vapor, criando um mar de névoa leitosa que limitava a visão a poucos metros. Raízes de cristal rompiam o solo como esqueletos petrificados, e o vento não uivava, mas sussurrava, carregando sons de cliques e estalidos que poderiam ser qualquer coisa.

    A gravidade transformava cada passo em um agachamento forçado. Seus músculos queimavam como se ácido corresse dentro deles, e o suor, após escorrer pelo rosto, congelava instantaneamente na barba, formando uma crosta de gelo que doía a cada movimento. Ele parava a cada poucos minutos, ofegante, vendo sua respiração se materializar em nuvens densas que pairavam imóveis na bruma.

    “Resiliência,” pensou, lembrando das palavras do pai. “Isso é o que você queria, pai? Então veja bem.” A raiva era o combustível que o mantinha em movimento quando as pernas já não respondiam.

    No fundo do vale, a flora tornava-se grotesca. Árvores cristalinas retorcidas em espirais impossíveis, alimentadas por fontes geotérmicas que derretiam o gelo em poças de lama negra e sulfúrica. Pequenas sombras o observavam das fendas, olhos negros refletindo o facho de sua lanterna, mas mantendo distância. Ele seguia o bip fraco do radar portátil, a tela rachada indicando que o prêmio estava próximo.

    O encontro aconteceu de súbito, como um soco no estômago.

    Através da cortina de vapor, uma massa negra e imponente se delineou. Era o Titã-da-Tundra. Uma montanha de carne, osso e pelos brutos que dominava a paisagem como um deus caído. Mas ao observar melhor, Elian percebeu a verdade: a besta não estava caçando. Estava sofrendo.

    A criatura jazia de lado, sua respiração saindo em golfadas roucas que expeliam plumas de vapor quente. Ao redor dela, a neve estava manchada de um azul-escuro, sangue que congelava em cristais brilhantes sob a luz alaranjada do céu. Feridas profundas, rasgadas por garras ou impactos, abriam-se em seu flanco, expondo tecidos vivos. O Titã estava ferido, talvez em combate com outro de sua espécie ou vítima da própria crueldade do ambiente.

    E a ironia do destino se fez clara: a fera repousava diretamente sobre os destroços do Reator de Fusão. O casco metálico, ainda quente e emitindo um brilho fraco e radioativo, servia como uma lareira improvisada, o calor residual cauterizando suas feridas e aquecendo seu corpo massivo contra o frio mortal. A Célula de Combustível brilhava lá no centro, visível sob a barriga peluda, um diamante tecnológico preso sob uma tonelada de força bruta.

    Elian congelou atrás de uma rocha, a apenas vinte metros de distância. O dilema era monumental.

    Opção A: A Agressão. Usar o laser para finalizar a criatura. Ela estava fraca, ferida, vulnerável. Um corte preciso em uma artéria ou órgão vital e tudo acabaria rápido. As vantagens eram tentadoras: acesso livre à bateria, pele grossa para fazer isolamento térmico, quilos de carne rica em gordura que significariam comida por semanas. Mas o custo era alto. Matar aquilo, um ser que parecia tão senciente e sofredor quanto ele, seria o fim de sua inocência. Seria admitir que se tornara apenas mais um predador na cadeia alimentar do planeta. Sua mão pairou sobre o cabo do cortador, sentindo o peso moral da ação.

    Opção B: A Intimidação. Usar o sinalizador, explorar a fraqueza à luz que funcionara com os lêmures. Mas o risco era incalculável. O Titã estava acuado e ferido. Se a luz não o assustasse, mas o enfurecesse, Elian seria esmagado como uma inseto. Não havia segunda chance.

    O Titã soltou um gemido baixo, uma vibração que percorreu o solo e tremeu no peito de Elian. Um olho imenso, do tamanho de um prato, abriu-se lentamente e fixou-se nele através da névoa. Não havia ódio ali. Havia cansaço. Havia dor. Era o olhar de um irmão em desgraça, de outra vítima daquele mundo hostil.

    Naquele momento, Elian baixou a arma. Ele não conseguia matar a sangue frio. Não assim.

    — Maldição… — sussurrou ele, a voz embargada.

    Decidiu-se pela Opção C: A Ousadia. A confiança cega na empatia e na engenhosidade.

    Ele saiu do esconderijo, erguendo as mãos abertas num gesto universal de paz, o coração batendo tão forte que doía. O Titã rosnou, um som que fez a névoa dançar e as árvores vibrarem, tentou se erguer, mas as pernas cederam, colapsando com um baque surdo.

    Elian avançou alguns passos, retirou a barra de proteína de seu cinto — seu último alimento — e atirou-a suavemente aos pés da besta. A criatura cheirou, as narinas dilatando-se, e devorou o pequeno pacote em um movimento rápido.

    Foi a abertura que ele precisou.

    Aproveitando a distração e a confiança forjada naquele gesto mínimo, Elian rastejou para debaixo da barriga do gigante. O calor era insuportável, misturado ao cheiro de pelo sujo, sangue e ozônio radioativo. Ele trabalhava a poucos centímetros daquela massa de músculos que poderia esmagá-lo sem esforço.

    Localizou a Célula. Ela estava fundida aos suportes do reator pela força do impacto. Precisaria do laser.

    O aparelho zumbiu, e o facho de luz azul cortou o metal. Faíscas voaram para todos os lados. O Titã estremeceu, um movimento que fez a terra tremer, e uma pata imensa desceu perigosamente perto de seu corpo, mas não o atingiu. O calor intenso do corte, ao invés de ferir, selou pequenos vasos na carne da besta, proporcionando um alívio momentâneo que a acalmou.

    Com um estalo final, a Célula se soltou. Elian agarrou-a, sentindo seu peso sólido e reconfortante. Começou a rastejar para fora, lentamente, esperando o golpe final a qualquer segundo.

    Mas ele nunca veio. Quando saiu de baixo da sombra protetora, o Titã apenas o observou, com um olhar que parecia conter uma sabedoria antiga e cansada.

    A volta foi um teste de vontade que desafiou todos os limites humanos. Com um ombro que latejava e logo descobriu estar deslocado, arrastou o trenó pela subida íngreme. A dor era uma presença constante, latejante, mas ele a transformava em combustível. A neve parecia querer puxá-lo para baixo, as raízes o impediam, e os olhos das pequenas criaturas o seguiam na escuridão. Ele vomitou bile, sentiu o frio entrar em seus ossos, mas não parou. Parar era morrer.

    Quando a silhueta da Vanguard surgiu na neblina, o painel de energia marcava míseros 2%. Os lêmures já se acumulavam em massa, prontos para invadir.

    Elian conectou a Célula de Combustível com os dedos já sem sensibilidade.

    HUMMMMM.

    Um som grave e potente irrompeu da nave, como o despertar de um leão. Energia inundou todos os sistemas. As luzes internas brilharam em plenitude, o aquecimento disparou com força total, e as defesas externas dispararam uma saraivada de flashes que expulsou os invasores em pânico.

    Ele caiu no chão da cabine, exausto, vivo, poderoso.

    Mas o conforto foi manchado por uma lembrança. Ele olhou para o radar de longo alcance. Lá no fundo do vale, o ponto vermelho gigante permanecia imóvel. Ele havia levado o reator, a fonte de calor que mantinha a criatura viva.

    Salvou a si mesmo, mas havia selado o destino do gigante. Uma dívida de sangue e gratidão pairava no ar, um fardo que ele carregaria para sempre na consciência: na luta pela sobrevivência, ele vencera, mas a que custo?

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