Capítulo 57: O Conselho dos Cinco (2)
“O amor é cego, surdo e mudo, e tantas vezes tão transformador quanto uma porta numa corrida.”
Izandi, a Oniromante

Ezekel suspirou. “Sim, pode ser isso!” No entanto, a carta tinha mais sobre a ferned. Muito mais. Descrevia folhas lilases, galhos e tronco retorcidos. Começara a ficar tão pálido quanto o príncipe Bloemennen.
— Não fora sobre isso que viemos acordar — retomou rei Rikard, passando os dedos pela superfície da mesa. — Príncipe Howan Bloemennen, as terras de seu pai estão sobre ameaça. Interna ou externa, não importa. Não somente as suas. No pequeno espaço de tempo em que atacavam a Casa Bloemennen e Beesh, outro grupelho atacara a Cidade de Diamante. Treinados, obtusos, que preferiram morrer do que confessar seus crimes. Entende onde quero chegar, príncipe?
O jovem príncipe engoliu em seco.
— Entendo perfeitamente — respondeu, erguendo o peito e esboçando seriedade no rosto ainda pálido. — Entendo que isso é responsabilidade minha. Entendo que cuidarei disso eu mesmo.
— Não é o que o Tratado nos diz — respondeu a primeira rainha de Flassam, com sua feição impassível dura como pedra. — “Proteger um ao outro, como os irmãos que somos e aliados que eternamente seremos”, concordaram nossos ancestrais. — Ergueu a palma direita. — Flassam propõe enviar vinte mil homens às suas guardas ao final desta reunião, príncipe Bloemennen. Vinte mil homens bem treinados e providos, para lidar seja com imperiais ou com saudosistas.
— Greanalg entrega cinquenta mil homens, dez para a Cidade de Diamante. Todos treinados e providos pela Coroa dos Godwill.
— E-eu… Temos cinco mil — disse a Pequena Rainha, com olhos meio fechados. Ezekel sentiu uma pontada no peito. “Quão doloroso é, para uma menina de oito anos, enviar cinco mil homens para longe de casa?”
— Kielrun fará o de sempre — jogou os ombros na espaldeira. — Protegeremos a fronteira leste. Não que precisemos.
“Ah…! Rikard!”
Ezekel franziu o cenho e respirou fundo. Seus ombros tremiam como se feitos de água. Príncipe Howan jogava olhares incrédulos para todos, contraindo as mãos sobre a mesa e cerrando os dentes. Seu rosto estava pálido como a morte.
— Parece que não está bem, Vossa Alteza — falara o id Baene para o príncipe. — Encerremos aqui por hoje.
Rei Rikard prendeu os olhos no id Baene, mas rainha Kya Mynson o ignorou. A Pequena Rainha encolheu-se e saiu correndo para a porta. Enquanto a princesa de Kielrun se erguia lentamente, príncipe Howan saltou de seu cadeirão e deu passos furiosos para longe. A porta grossa foi aberta lentamente, e assim que os dois ruivos foram embora, Randi começou a gargalhar.
— Que coisa, não? — Assobiou, fazendo o cão enorme se levantar. — Até logo, Vossas Graças!
Randi não era baixa. O oposto. Era quase uma cabeça mais alta que Ezekel, e nem com isso parecia alta perto daquele cão enorme. Ezekel já tinha ouvido que Kierelrun cruzara e treinara cães para se locomoverem pelos pântanos do país. Ainda assim… um cão não deveria ser tão enorme. Uma pontada no peito o fez morder os lábios. “Ciúme?”, o pensamento veio. Encolheu os ombros e semicerrou os olhos.
Reparando de soslaio, seu irmão lançou um olhar duro.
— Deixarei Vossas Majestades a sós — avisou Ezekel, sem esperar resposta. Não era isso que o importava agora.
“Por que deixei a paz de lado?”
Fora do salão havia cuidadores de dragão, vestidos em suas túnicas escondidas e com galhos de flagelo-do-dragão em mãos e cavaleiros com armaduras pesadas. A pequena Lycia Troikg andava vagarosamente, sendo guiada por um cuidador de dragão e vários protetores com armaduras espinhosas, e princesa Randi fazia seu caminho sozinha ao lado do cão. Já o príncipe de Aavier não estava a vista.
— Onde fora o príncipe Bloemennen? — questionou, ao que o cuidador de dragão mudo prestou uma reverência e apontou para não muito longe dali.
A seis metros de escuridão mais profunda, as tochas não conseguiam mais iluminar o suficiente do chão de rochas arranhadas e gastas. A rocha se inclinava em direção de uma caverna funda, cujas bordas de sua boca eram emolduradas por madeira grossa, concreto e o nome Meevel entalhado nos portões de aço. Um vento quente escapulia daquela caverna.
“O erro de não se impor o suficiente foi meu”, pensou Ezekel. “Inteiramente meu!”
A capa branca levantou poeira com o correr do príncipe. Mas ela sujar não importava de verdade agora. Um calor forte o recebeu, balançando seu cabelo e eriçando seus pelos. Tochas jogavam luz pela caverna, que tinha paredes escuras e arranhadas de todos os ângulos possíveis, e seu teto possuía marcas de destruição que garras não fariam de propósito. O príncipe Howan não estava a vista, mas suas botas fizeram pegadas na poeira.
Ezekel não perdeu tempo e correu até a caverna abaixar e treliças de aço surgirem, amarradas com correntes de latão e ferro. Vento as fazia tilintar, e as tochas, mais ausentes a cada passo que dava, quase o fizera não perceber quando a descida virou uma queda — separada por uma grade metálica, com folhas de flagelo-do-dragão amarradas em cada barra.
Príncipe Howan as segurava e olhava para frente, cantando num tom melancolicamente apaixonado:
Aventuro-me em teu olhar de pássaro
Cujas asas voam para distante de mim.
Mas anseia eu conhecer teu carmim
Pois para mim, meu amor é claro…1
Na frente de seus olhos, um rio partia a “arena” — um semicírculo profundo e longo — em dois, e ali repousava uma criatura laranja e com penas grandes como uma couraça.
Meevel significava encouraçado, Ezekel Ainee Godwill sabia muito bem, mas só vendo o dragão-real tão de perto que o nome realmente fazia jus. Era tão enorme que Artreni caberia em suas asas! Do focinho largo e redondo, cheio de dentes longos que ultrapassavam os lábios rachados e escuros, à cauda enroscada, penas laranjas, amarelas e vermelho-queimadas cobriam cada centímetro do corpo. As protuberâncias ósseas em suas costas pareciam pequenas montanhas. Suas penas não eram orgulhosas e delicadas como as de Artreni, e muito menos eram muitas, mas eram enormes, penas grandes como um homem. Elas cobriam as pernas musculosas, os colossais chifres em seta e o par de asas recolhidas e largas como uma casa como um armadura tingida de fogo e cobre.
— Ele é enorme — sussurrou Ezekel. Uma pontada de ciúme atingiu seu coração mais uma vez. “De novo?”
— Ouvi que o de sua Casa é ainda maior — respondeu Howan, com as mãos agarradas nas barras da grade e num olhar distante para o dragão-real dormindo.
Ezekel quis encostar a mão no ombro dele. Hesitou e desistiu. “Melhor não.”
— Ele é um caso especial, e já é velho demais. Nem gosta mais de voar. Ao menos foi o que ouvi…
Howan encostou a cabeça na grade.
— Sabe porque meu pai era chamado de Flor do Dragão?
— Soube que ele deixava seu dragão-real livre para voar aonde bem entendesse.
— E ainda assim, o dragão o seguia quase sempre. Parou de fazê-lo só quando Better foi exilado. — Apertou o agarrão na barra. — Já eu, não sou seguido por ninguém que não guardas. Ninguém me ouve, ninguém tem o mínimo de apreço pelo que falo!
— É porque você é jovem, Vossa Gra…
Girou os calcanhares e deu um olhar furioso.
— Sou um único ano mais novo que você.
Ezekel apertou os lábios.
— É diferente… — “Eu concordo com você!”
O ruivo, loiro e castanho deu de ombros com um sorrisinho cansado.
— Por que é casado?
Ezekel enrubesceu.
— Minhas circunstâncias maritais não importam para o caso.
— Ah, vamos! Sei que não é o caso. Estou me inspirando em um idiota que conheci. Desviar o assunto e mentir são suas táticas favoritas de aliviar uma situação. — Soltou a barra e se encostou na parede úmida. O loiro suspirou. — Também sou um homem apaixonado, id Baene. Conheci-a no banquete onde tentaram assassinar-me. Era de uma beleza tímida, tão graciosa que perdi o controle de minha boca e falei coisas que me arrependo muito… Escrevi cartas e até compus uma canção para ela, mas nunca fui respondido.
— Sua noiva?
— Nunca. Foda-se a Nianna Beesh. — Cruzou os braços e cuspiu no chão. — Nunca a quis, não a quero e morrerei sem querê-la. Meu pai que me obrigou! Porra, ela é minha prima!
Ezekel suspirou e encostou suas costas na parede. Ver o futuro rei de Aavier ficar tão relaxado o aliviou de uma forma que não saberia por em palavras. Ele fedia a uma taça gorda de vinho, mas isso não importava. O loiro também tinha trago um cantil de vinho escondido. Retirou a tampa e tragou um gole longo.
— Passei por algo bem diferente. — Tampou e jogou o cantil de prata.
— Ah, sou todo ouvidos. — Pegou o cantil.
— Não faço ideia de como consegui conquistá-la. Acho que foi o contrário, na verdade… Também não faço ideia de como seu pai permitiu nosso casamento. Os Deuses são bons para aqueles que tentam, eu acho.
O rosto de Howan escureceu, seu cenho franzido.
— Eles nos dão missões bem difíceis, às vezes.
— Acho que sim.
Howan Bloemennen ergueu o cantil e deu um longo trago. Depois, o jogou para Ezekel e disse:
— Aos malditos jovens que não são ouvidos por ninguém, e que essa merda de mundo não impeça nossos amores.
- Esse aqui me deu um trabalho de filho da mãe pra fazer, as rimas me sumiram e não devem ter ficado muito boas kkkk[↩]
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