Capítulo 58: O azar na desgraça (2)
“A sabedoria dos mais velhos vem do fato de que não estão mortos. Ora, viver é surpreendentemente difícil, para alguns mais do que outros. No entanto, é essencial compreender que cada segundo é uma nova oportunidade de morrer. Chegar à velhice é sinal de que não estar morto, e oportunidades ruins são perdidas somente por sortudos e sábios.
Há sorte na desgraça. Confie no que digo. Há muita sorte na desgraça. Para alguns, mais do que outros.”
Izandi, a Oniromante

— Vim ver a princesa brincar de rei no lugar errado. — Bert franziu o cenho. — Seu Cei parece ser meio… emocionado. Em matéria de força, hmm. Muito bom. Muito bom. — O homem pôs a mão na boca, fitando Bert por trás dos óculos escuros. “Quero matar esse desgraçado”, pensou o rapaz. — Ah, diabos, Cyreck! O que faz aqui? Pensei que já tinha morrido!
— Não tão cedo. Ainda tenho muito o que fazer neste castelo.
— Hm… — Manert deu de ombros. — Justo. Era isto que tinha a falar. Adeus, voltarei para minha torre. — Deu as costas e foi embora, e ainda fechou a porta com um estrondo.
Silale sorriu e cobriu os olhos.
— Ele é assim sempre, lorde Cyreck?
— Só maioria das vezes, minha princesa…
Mais uma vez, bateram à porta. A princesa ergueu as costas e observou um grupelho de lordes entrando, suas roupas esfarrapadas e sujas. Bert ergueu o pescoço e inclinou a mão da espada, puxando-a o suficiente para desembainhar quase sem inércia.
— Vossa Alteza — cumprimentou o primeiro, se ajoelhando com uma queda brusca e ensaiada demais.
O barulho do impacto fez a princesa jogar as costas para trás e ter os olhos saltando as órbitas, perdendo o ritmo da respiração. “O senhor cheira bem demais para esse desespero”, pensou Bert. O homem não poderia passar dos trinta anos e vestia andrajos de cor cinza como nenhum lorde usaria senão em luto. Mas no luto, vestiriam preto.
— Barão Collenk, sente-se bem? Não quer uma água para acalmar-se?
— Sua generosidade é como uma chuva na seca, Vossa Alteza.
Cei Bert se aproximou do homem e estendeu a mão para levantá-lo. Havia um sorriso cruel na sua face.
— Você… — falara o Collenk. — Você é o sulista que espan…
— Já espanquei muita gente.
— Cei Zwaarkind! — falara a princesa num tom alto. Os pelos de Bert ouriçaram e seus olhos arregalaram. “Quem era ela para falar nesse tom comigo?!” — Por favor, retorne ao seu lugar. — Inclinou-se um pouco à frente, dando uma olhadela para o ministro. Bert trincou os dentes e deu dois passos para trás. — Fale, barão Collenk.
— Vossa Alteza certamente já ouviu as notícias.
Silale meneou a cabeça.
— Quero ouvir de sua boca. Confio em testemunhas, não em rumores.
O homem acenou para o que veio com ele, que se aproximou. Também era jovem, mas suas roupas eram menos destroçadas, exceto pela cota de malha arranhada e enferrujada, tão cortada quanto seu rosto branco e olho cego.
— Este homem se chama Cei Docson e esteve no conflito desde o início. Demorei para chegar lá, quando já haviam ido embora — falara o barão.
— É um prazer conhecê-la, Vossa Alteza.
— Por favor, prossiga — ela pediu, tomando a xícara.
Docson abaixou a guarda e seu semblante escureceu de melancolia.
— Sou Cei pelo leste há alguns meses e protejo a mesma vila há semanas. Cultivávamos trigo e cevada e finalmente começamos o plantio quando o inverno acabou. Estava tudo indo bem. Até retirei minha armadura para ajudar. Mas então, vimos o Cervo Atravessado dos Asseliers, então a vila foi reduzida a chamas. Perdi este olho assim, e teria sangrado até a morte se não fosse por barão Docson.
“Ele tá mentindo”, pensou Bert. O ministro dos conselhos coçou a barba e semicerrou os olhos.
Princesa Silale engoliu em seco e uniu as mãos. Embora tivesse aberto a boca, não pôde falar, pois Bert se pôs à frente de novo.
— Um tal de Cei Ehrle estava lá?
— Hm? — fizera Cei Docson. — Não consigo dizer. Descreva-o, por favor…
— É o Bastardo do Pomar Branco, oras. Nunca ouviu falar dele? — Deu de ombros. — Alto como um touro, ruivo como uma fogueira, usa uma lança estrangeira, cuja lâmina tem quase setenta centímetros, e dizem por aí ser tão viril que não poupa nem as irmãs. Alheias, é claro.
Cei Docson franziu o cenho, como se procurando tal alguém nas memórias.
— Ele é de aparência bem marcante, não deve ser difícil de lembrar.
O cavaleiro cegueta fechou o olho cego e tocou sua cicatriz. Seu rosto ficou cheio de ira, cerrando os dentes com força para estralá-los.
— Foi o miserável que me cegou! Sim, lembro bem!
Bert virou as costas para ele e piscou para a princesa, mas logo se arrependeu. Ela estava com os olhos meio fechados, mas os lábios abertos cheios de um sentimento que o jovem rapaz não sabia discernir entre ira, dúvida, resignação e contestação. Ele franziu o cenho, ergueu o queixo e voltou para seu lugar. Já a princesa, ela retomou sua expressão gentil e graciosa e puxou tinta com a caneta.
— Barão Collenk, acha que pode me trazer mais testemunhas?
— Posso trazer dezenas de dezenas, Vossa Alteza. Os Asseliers cruzaram o rio e mataram não só o povo de uma vila, mas de várias! E nem sabemos o porquê! Lai do Lamento nunca teve qualquer rusga com Pomar Branco.
Ela começou a escrever. Bert não prestou atenção no que ela escrevia, e o ministro meneava a cabeça lenta e cansadamente.
— Outorgo um aviso direto para os Asseliers — dobrou o papel e o selou com cera — para que venham à Bennevir e se ajoelhem perante o rei imediatamente. Quando ao senhores, barão Collenk e Cei Docson, prometo-lhes vindoura justiça.
Barão Collenk pôs a mão no peito, gesto que Cei Docson logo imitou.
— A justiça há de vir, Vossa Alteza — ele disse, acompanhado do cavaleiro. E então, educada e vagarosamente foram embora.
— Ele estava mentin…
Silale bateu as palmas na mesa, com força para assustar o ministro.
— Bert, o que deu em você?
— Oi?
— Em que momento dei-te o dever de interrogá-lo?
— Hah?! Eu literalmente mostrei que ele estava mentindo na cara dura!
— Eu sei! Ouvi muitase muitas recentemente!
— Então por que raios está reclamando de mim? Eu te ajudei!
— Não, você não o fez! Acha que não percebi a cheiro da loção? Que a pele dele estava muito limpa para a túnica, que mal cabia nele? Claro que percebi, e até mais!
— Hah?!
— O olho cego se movia, e não deveria estar lá. Deveria ter sido removido com a profundidade do corte! Eu não sou cega, Bert!
Ele avançou a bateu as mãos na mesa de modo a cravar seus punhos e causar rachaduras. Elas se alastraram e derrubaram o fraco de tinta sobre papéis virgens, e uma gota espirrou até a gola do vestido da princesa.
— Se acalme, Bert — disse, com a pele tão branca quanto fria. Seus olhos pareceram encolher.
— Quem caralhos você é pra mandar em mim? Eu te ajudei, deveria me agradecer.
— É um beijo? É isso que quer para se acalmar?
O rapaz congelou. Seus olhos cinzas claros não eram nem de perto tão claros quanto sua pele ficou pálida; seus pelos eriçaram.
— Eu sou um cachorro por acaso? É isso?
— Nunca disse isso! Nunca!
— Eu devo ter sido muito bem adestrado, isso sim.
Ele deu um passo furioso para trás e girou a cabeça. No outro lado, a garota ficava cada vez mais pálida, como se o sangue estivesse sumido da pele. “Era isso que pedi para acontecer?!”
— Se acalme, garoto cavaleiro.
— E se cale você também, velhote de merda.
O ministro engoliu em seco e trincou os dentes.
— Meu conselho de mais cedo foi ignorado. — Olhou para a garota trêmula. — Mas não é tarde demais. Me ouça e se acalme, garoto. Aqui não é lugar para deslizes furiosos. Quer carregar a mancha de ter gritado com uma moça de metade de seu tamanho e um velho a um degrau da morte?
O rapaz cerrou os dentes e os punhos.
“Eu vim para cá contra minha vontade. Sim, o gordo Theolor quem pediu, e reforçado por essa garota de mer… Ahg! Dane-se, dane-se! Vim só para servir, e quando ajudo ainda sou desprezado? Não, não, dane-se!”
— Dane-se… — sussurrou.
— Bert…! — Vai se foder, Silale. Eu me demito. Que seu pai morra logo.

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