Índice de Capítulo

    “Uma coisa que aprendi com Willmina, em meus profundos sonhos, era que o coração era dividido em várias partes. Como máscaras em um teatro mascarado de Charyçás. Há as máscaras dos heróis, as dos vilões.

    Mas o coração é mais complexo. Fonte de toda a emoção, ele também é da racionalidade. O cérebro é o pai de todas as emoções. O coração, o da mente. Parece confuso, certo? É porque é.

    A realidade é muito mais cruel do que palavras podem traduzir. Mas ouçam isto: o coração bondoso pode ser tão mais racional e maligno que a mente de um monstro.”

    Izandi, a Oniromante

    Bateu os punhos nas coxas.

    — Pouco tempo depois, ouvi um grito. Um dos homens de Cei Ehrle estava em chamas. Peguei um balde e fui ajudá-lo, mas ouvi o silvo do ferro e me joguei para trás. Teria morrido se não fosse por isso. Um dos prisioneiros havia se libertado e tentara me levar os braços. Ele me atacou de novo, mas consegui fazer que a apunhalada que tentou fazer perfurasse o balde. Girei meu corpo, atingi seu queixo e passei-o a espada.’

    ‘No tempo que fiz isso, outros dois vieram contra mim, e uma das servas de Cei Ehrle estava sendo estuprada por um dos facínoras. Matei os dois e perfurei o peito do terceiro. Não tive tempo de cuidar da serva, porque vi as tendas em chamas. Pedi perdão, mandei que ela se escondesse, e corri para a tenda onde estava senhorita Hydele. Sabia que podia confiar em mestra Jenna, mas não perdi tempo.’

    ‘Encontrei as duas rapidamente. Auxiliei Jenna a proteger a senhorita. Fugimos mata a dentro, mas de nada adiantou. Demo-nos de cara com o corcunda, que se revelou o pior de todos: era quem incendiou os pobres herboristas e cavaleiros de Cei Ehrle, quem soltara os prisioneiros. Tentei lutar contra ele, mas de que adiantaram meus anos de treino quando uma esfera flamejante me atingiu e me chocou contra árvores?”

    “Um feiticeiro de batalha na bandidagem? Não, deve ser um Mago…”

    Willmina sentiu seu coração esfriar e sua mente ficar cada vez mais lisa, como cerâmica fria.

    Cei Witernier juntou as mãos, molhadas. Seus fungos ficaram cada vez mais altos.

    — Pude vê-lo fazendo coisas que não merecem ser ditas com Jenna enquanto implorava para que nada fosse feito com a senhorita, então via desmaiada. Depois, minha mente só voltou a luz quando ouvi-o gritando com a senhorita Hydele, e então, ouvi-a gritando… Eu sou um miserável. Me perdoe, Vossa Graça. Deveria ter morrido lá, tentando protegê-la até que nada restasse de mim…

    Cei Witernier fechou os lábios e esperou. Sentia as lágrimas murcharem seus olhos e os dentes cerrados machucarem as gengivas e esperou. Imaginou que veria a mãe em lágrimas. Imaginou que a veria furiosa. Que agarraria seu pescoço e o estrangularia com uma raiva justificável e cruel. Mas o que vira fora os olhos turmalina mais enregelantes que já testemunhara. Um calafrio mordeu suas costas, centenas de formigas e milhões de pernas coçaram por dentro da sua pele.

    — Como? Como o corcunda se parecia?

    — Ele tinha um olho só. O corpo era coberto por cicatrizes velhas e mal curadas. Uma das suas pernas era maior do que a outra, mas era alto e magricela, quase desnutrido.

    — Mais. Eu preciso de mais do que só isso. — Ela suspirou e juntou as mãos. — Ele tinha um nome? Qualquer nome?

    O Cei demorou-se e olhou para o altar.

    — Não ouvi nenhum nome… Ah.

    — Diga!

    — Ele se parecia com seu marido, Vossa Graça. O rosto era quase o mesmo, como se fossem gêmeos.

    — Vá embora, agora. Não quero vê-lo nunca mais.

    Os olhos do cavaleiro saltaram. Ele engoliu em seco, sentindo o suor frio escorrer pela nuca. Se pôs de pé, prestou uma mesura e caminhou torto feito um galho para à porta da casa.

    — Te perdoarei quando trazê-la de volta a mim.

    Ele se virou e cerrou os lábios, com um brilho cheio de surpresa e de dever nos olhos lilases.

    — Farei isso nem que retorne morto, Vossa Graça; nem que meu cadáver traga-a de volta para a senhora. Eu prometo isso. Que os Deuses levem minha vida caso não o faça.

    Willmina não respondeu. Suas costas viraram água, e ela despencou pelo sofá, cerrando os punhos enluvados para não perder o esforço que estava fazendo. Sua mente emocional estava afundada em um mar denso e viscoso, nas profundezas da mente pensante. No entanto, a racional não aprovaria de modo algum o que estava prestes a fazer. Assim que Cei Witernier foi embora da casa, a ruiva se recordou o verdadeiro porque preferiu esta casa invés de uma mais luxuosa na muralha principal do castelo.

    E afundou sua racionalidade num mar calmo, gélido e cruel.

    Ela se ergueu, respirou fundo e soprou as velas de cera de abelha. A casa ficou submersa em escuridão, uma escuridão profunda que não vinha somente da ausência de luz. Havia algo profundo, escuro, sombrio como a morte e denso como o arrependimento na escuridão da casa. Uma escuridão que fluía pelos ares como flocos de neve ao vento. Havia uma escuridão ainda mais profunda nos olhos quase tão claros quanto cristal da mãe.

    Havia uma ira que desmedia suas ações.

    “Mãe…”

    Ela fez uma prece silenciosa e foi até a cozinha a passos apoiados nas paredes e cômodos, então se abaixou. Abaixo do fogão, viu lenha cortada em pequenas tiras, reta como metal forjado, e pensou no bom marido que tinha. Seu tão amado e bom marido, que agora estava longe. Que não a respondia nunca. Que não recebia suas lágrimas.

    — Que fez de mim sua yverrnike e me amou e me protegeu, Ereken, meu amado syåsonike. Perdoe esta tola, tá?

    Acendendo a lenha com uma pederneira, pensou nos bons Deuses que amava. Os sons dos estalos da madeira sumiram. Havia silêncio.

    Com uma faca, cortou a ponta dos seus dedos, e pensou nas boas crianças que deu à luz e na que cuidara. “Que o Pai proteja-me, que a Mãe me ouça, que a Sábia me dê sua sabedoria e mostre-me se eu estiver errada. Que a Guia ilumine meus caminhos e meus amados.”

    Retirou-se da lareira, deixando seu sangue quase negro fluir por um lenço de linho suave, tricotado por sua pequenina Hydele, sua amada Hydele.

    — Tanto me amou e tanto me mudou, minha filhinha amada, minha única filhinha. Amo-te tanto…

    Deixou seu sangue respingar por um dos brinquedos envelhecidos de Bert.

    — Por quem falhei tanto em educar, meu filho idiota… que amo tanto quanto se tivesse sucedido. Amo te tanto…

    Seu sangue também escorreu por uma camisa velha de Ereken.

    Então foi ao seu quarto, para o baú onde guardava suas roupas. Havia um caixote não mais grosso do que uma palma, escondido entre suas roupas e embalado por um papel de chumbo. Mesmo que pequeno, tinha cinco fivelas de aço e o dobro de fechaduras, cada uma com uma entrada diferente. Willmina o retirou de lá, pesado como se uma pedra duas vezes maior, e assim que as gotas de sangue tocaram a superfície metálica, ela ardeu como se fosse fogo.

    Seu suor escorreu. A lareira lá fora não fazia mais luz nenhuma. As cortinas do quarto balançaram, farfalhando como se em tempestade. Willmina sentiu o frio arranhando sua pele, mordiscando sua mente emocional. Ela gemeu e cerrou os dentes, impedindo as lágrimas de fugirem. Dividiu sua consciência de novo, empurrando até a mente racional para o fundo do oceano pesado do seu cérebro.

    Quando livre da emoção e da racionalidade, o que restaria senão a crueldade?

    Logo o fedor pungente do chumbo queimando se espalhou por seu quarto, venenoso como aquilo que assassinou sua paz. As janelas tremeram, ecoando um som metálico que vidro não deveria fazer. Era uma manhã, mas a escuridão lá fora era a de uma noite inteira.

    A dentro de sua casa, era a escuridão de uma tempestade furiosa, sem raios e sem chuva.

    Símbolos dourados arderam como fogo pela pele da mulher, e então sua casa ficara cada vez mais amarela. Sua pele ardia, não por fora, mas por dentro, como se sua carne estivesse exposta. Seu vestido começou a fumaçar. Havia uma luz no lugar. Uma luz sombria, deprimida e cruel. Havia silêncio. Logo não ouviu nem as vozes da sua consciência, ou de sua mente repartida escondida.

    Ela retirou três ampolas cheias de sangue coagulado de dentro do caixote. As abrindo, deveria sentir um fedor pungente. Mas o lugar não possuía mais odor de nenhum tipo. As abrindo, Willmina pingou seu sangue em cada uma e sentiu as lágrimas borbulharem nas suas bochechas.

    Então as atirou no fogo da lareira. O fogo tornou-se alvo, branco como a neve.

    Branco como a morte.

    Niad nedheren ri draverakerter. Niad nedheren ri draverakerter. Niad nedheren ri draverakerter — gemeu, sentindo dor por todo seu corpo e a ferida se fechando, com os dedos secos e sem sangue. — Pago está o preço. Deixem que eles queimem e não faça nada aos que amo, Deuses. Protejam os que amo. Ouçam minhas preces, por favor. Imploro eu.

    “Mãe”, ouviu ela. “Mãe…”

    Apoie-me

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (2 votos)

    Nota