Índice de Capítulo

    “A língua dos Borus era complexa e cheia de nuances. Assustadoramente complicada, mas cheia de termos dolorosos para os que fugiam da filosofia do seu povo. A própria língua deles era uma extensão de suas filosofias, entalhadas nas Pedras de Gelo.”

    Izandi, a Oniromante

    — Deixei minha espada!

    — Por uma garrafa de rum!

    — Deixei minhas terras!

    — Por duas garrafas de rum!

    — Só não deixo minha esposa!

    — Por menos que um barril de rum!

    Os soldados do Cei Hoone mantinham um canto alto para seguir a pé pelas montanhas, evitando pisar em pedras ou em folhas caídas pelo caminho. Ereken tinha testemunhado duas grandes surpresas na sua descida: a primeira era haver uma estrada, a segunda era não tê-la visto antes. Teria sido tão mais fácil subir essa parte das montanhas antes se houvesse uma estrada de verdade.

    Arbustos verde-escuros cerceavam a estrada batida, com feixes de outros arbustos por trás, arremessados. Parecia ter sido feita há algumas semanas, mas o solo já era duro como se pisado há meses. Menos mal, pensava, pois não era à beira de milhas de queda.

    Enquanto isso, os soldados seguiam marchando atrás das carruagens e cavalos dos Hoone. Ereken seguia a pé também, com sua espada na cintura. Foi-lhe presenteado estar na carruagem, mas não quisera. Preferia sentir o ar rarefeito e fresco das montanhas ficar mais fraco a cada toesa que desciam. Graças a isso, reparara em um galho quebrado uma mancha de tinta de um tom familiar.

    — Vamos parar por hoje — declarou Cei Hoone, e Ereken imediatamente se retirou para mata a dentro.

    Bastante luz entrava pelas folhas escuras dos poucos pinheiros e muitos carvalhos, iluminando o pequeno bosque montanhoso com um tom róseo e deixava ainda mais claras um par de pegadas femininas. Ele as seguiu até sumirem, mas galhos quebrados em árvores altas e folhas caídas dessem um novo caminho entre a mata. Em poucos minutos, Ereken reparou de soslaio uma garota baixa com um arco curto amarrado na bota, sentada numa pedra alta demais para a grossura dos seus braços.

    — Demorei pra te achar — falara Thirtu, de mãos nas cintura. Ereken encostou a mão na têmpora e suspirou, no qual a garota suspirou vergonhosamente e murmurou, de dentes cerrados: — Desculpa. Te meti numa enrascada, não?

    — Nada que não possa resolver. — Erigiu as costas e olhou os arredores. — Aproveite a oportunidade e obedeça Ceire Joran.

    Najiak makuy — ela respondeu, erguendo o queixo. — Significa “não fugir das consequências dos meus atos”. Meu povo leva muito a sério a ideia de que nossas ações tem consequências, e eu arco com as minhas. Eu te meti nessa enrascada e eu te tiro. Além do mais, você meio que salvou minha vida…

    O homem coçou o pescoço. Ao olhá-la, sentia uma dor entre os olhos, do tipo que o fazia querer apertar o nariz e virar a cabeça, mas não sentia maldade vinda dela; nem sequer uma parte de mentira. Não admitir que Thirtu tinha os olhos mais honestos em algumas milhas era um exemplo de fealdade que ele não concordava. “Pelos olhos das montanhas”, ele pensou, apertando o topo do nariz e abaixando a cabeça.

    — E como você faria isso, para começar?

    — Não faço ideia — levantou as palmas.

    Ele arregalou os olhos. Não havia um pedaço de vergonha no semblante de Thirtu.

    — Eles te puxaram pra caçar aquela coisa, não é? Aquele aynuk se escondia na neve e caçava sem olhar, com os ouvidos atrapalhados pela neve, mas eu acho que consigo acha…

    — Adoraria que esse fosse o caso — deu de ombros. — Se fosse por isso, ele está na vila ao oeste.

    — Ah… — ela apertou os punhos. — Então a gen…

    — Como chegou até aqui?

    Um sorriso cobriu o rosto da garota.

    — Não tem como vocês saberem disso, mas esse lugar, esse pedaço inteiro de montanhas fora um grande, grande Palácio para Nossas Majestades e suas Pedras de Gelo. Nakiminushi Hatashathir. Era enfeitado com brilhantes, cristais e as mais belas sedas. Ao menos até vocês chegarem em barcos e trazerem calor para cá.

    Ereken engoliu em seco, sentindo o frio do ambiente coçar sua garganta. Nunca havia escutado essa história antes, seja da boca de seus antigos colegas ou dos novos; dos anciões ou de sua esposa. A mera ideia de um palácio que cobrisse dezenas de milhas de montanhas frias e rarefeitas dava um nó na sua barriga. Teria o Império uma vez governado essa região? “Seria anacrônico”, concluiu, de sobrancelhas contraídas.

    — Têm muitas formas de se mover por estas bandas. O segredo é respeitar os mortos — ela terminou. Ereken imaginava possíveis rotas de fuga da Fortaleza-Motanha, para caso da ponte ser derrubada em cerco. No entanto, estavam há quase dois dias de descida. Quão longas eram essas rotas? De súbito, Thirtu suspirou e completou sua frase: — Que nem aquele cara ali.

    O castanho seguiu o apontar da garota. Na ponta do seu nariz um caminho ia até um corpo escondido entre árvores, amarrado num galho pelo pescoço. Ereken bufou e apertou os punhos antes de seguir até o cadáver. Thirtu saltou da pedra e foi logo atrás, até o homem coberto por uma fina camada pálida de geada.

    Ela honrara o cadáver traçando na sua testa um símbolo parecido com uma chama bruxuleante, mas estava frio demais, congelado e duro demais para que algum sangue escorresse pelo ferimento de faca. No entanto, ela não o reconhecia. Diferente de Ereken. Os olhos cansados e pomo destacado de um homem cujo trabalho era gritar, as pernas longas de quem corria desde que nascera.

    “O mensageiro”, ele lembrou. Um bigode ralo num rosto grosso, cheio de espinhas e sulcos, se misturava com os pelos do nariz adunco.

    Ele jazia nu e enforcado. Seu corpo pendia por uma corda de cânhamo e seu pescoço estava quebrado. O frio havia há muito levado a cor do seu corpo, e o inchaço azulado do rosto fez o barão ficar entristecido. Seu corpo parecia uma pedra de gelo de tanto tempo que jazia morto. Uma semana, talvez dois meses ou mais. A Cordilheira era alta e fria o suficiente para encontrar um cadáver congelado de décadas atrás.

    “Mais um morto, mas por quê? Por quem?”, pensou. Queria pensar que não tinha ideia de quem fora o culpado pela morte. Preferia confiar nas pessoas.

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