Capítulo 63: Devoção (2)
“A língua dos Borus era complexa e cheia de nuances. Assustadoramente complicada, mas cheia de termos dolorosos para os que fugiam da filosofia do seu povo. A própria língua deles era uma extensão de suas filosofias, entalhadas nas Pedras de Gelo.”
Izandi, a Oniromante

Suas roupas, cavalo, espada, bolsa de cartas, tudo estava ausente no cadáver. Ereken manejou o corpo com sua espada, soltando-o da árvore com um corte e fechando seus olhos. Ele ainda chegou a empurrar neve com os pés, em busca de uma gota que fosse de sangue congelado, antes que a pastora começasse a falar.
— Pobre Homem, foi humilhado antes de ser morto. Pouparam nada… O roubaram, humilharam e mataram depois de fazê-lo sofrer de graça. Malditos bandidos.
O caçador semicerrou os olhos.
— Como sabe que não o roubaram depois de matá-lo?
Thirtu fez silêncio por um segundo, com uma expressão confusa e um ardor irado nos olhos.
— É o que eu faria, se fosse uma pessoa ruim — ergueu o queixo, olhando de cima. — Muitas pessoas, no caso. Kijshar. Não entendo seu povo, honestamente.
Ereken olhou-a por cima do ombro.
— E o que significa esse?
— “Aquele que monta em iguais.”
O caçador bufou, enojado, enquanto Thirtu balançou a mão esquerda. “Pobre homem”, pensara o homem. “Mas que bandidos o roubariam? Há, primeiramente, bandidos das montanhas por esta região, onde os próprios senhores mantém para uso de seus soldados e caça? É mais fácil um grupo de dissidentes escondidos por esses ermos.” Quando fora posto sob as asas de seu sire, Ereken teve que aprender muito sobre as atividades dos senhores vizinhos.
Somar algumas peças fundou uma linha de pensamento nefasta na mente de Ereken. “As conspirações e dramas. Sempre, sempre…”
Como se soubesse o quanto a mente de Ereken se afundava, a pastora se aproximou do cadáver e começou a juntar pedras para enterrá-lo. Todavia, Ereken não poderia ficar longe da hoste por muito tempo. Ele cedeu com um suspiro e guardou sua espada.
— Najiak makuy — repetiu Thirtu, sem olhar para Ereken. — Eu cuido de enterrar esse carinha aqui. Vocês vão para o sul ou para baixo?
Ereken parou por um instante.
— Para baixo. Para onde o monstro se escondeu. — E deixou-a para trás.
“Eu já sei onde isso vai acabar…”, e suspirou, cerrando os dentes. “Tenha fé nos outros, Ereken. Este não é o mundo que desejo deixar.”
— Najiak makuy — ele repetiu.
Em poucos minutos de caminhada, já observava o acampamento e as fogueiras que foram acessas. Os homens de Cei Hoone montaram o acampamento rapidamente sobre o terreno irregular. Derrubaram arbustos e algumas árvores e jogaram a neve fora, de modo que planificaram uma grande área. O suficiente para várias barracas — o suficiente para uma pequena área de trabalho de onde o cheiro de ferro e calor voava junto de brasas.
Ereken se aproximou com o olhar concentrado. Doze homens em idade de batalha erguiam um funil de boca grande, negro como ferro, conseguindo suar no ambiente frio como se estivessem em um deserto. Ao lado desses doze, mais homens manuseavam foles e cilindros de cobre, e outros apertavam tiras de metal quente no grande funil de ferro. Outros praticavam carpintaria, martelando pregos e parafusos em rodas grandes e grossas.
— O que está sendo preparado aqui? — ele questionou a um dos homens, que sequer virou o rosto suado.
— Deveria perguntar a Vossa Graça Cei Hoone, Barão Zwaarkind — respondera, com a voz cansada, e o barão optou por não insistir.
Ele se moveu para a tenda de Cei Hoone, que era alta e ilustrada com motivos de cavalos e pontes, e reparou que logo atrás dele quatro homens se viraram e puseram as mãos no pomo da espada. A tenda estava aberta, e quando entrou, rapidamente percebeu o jovem Willen Hoone dormindo trêmulo, coberto por uma pele de urso, e Cei Hendrick Hoone amolando sua espada com uma pedra. Ele trajava um gibão longo de couro claro junto de uma capa simples e uma cota de malha sobre o peito.
— Vinho?
— Não, mas agradeço. — Pôs as mãos detrás das costas. Sua espada jazia no quadril.
— Ótimo. — Ele se levantou e pôs sua espada na mesa, ficando ao lado da espada desembainhada. Ereken semicerrou os olhos. — A que devo a visita, barão? Espero que não seja para regressarmos à Fortaleza-Montanha. Estou velho demais para voltar para aquele ninho de bastardos e covardes. Sempre desprezei um soldado que foge à missão. A leniência de Ceire Joran Cyreck é digna de seu sobrenome, por mais que um machado não pertença ao barbeiro.
— Ceire Joran Cyreck é um homem bondoso que ofertou moradia a muitos que teriam morrido neste inverno — ergueu o peito. Seus olhos esquadrinharam a tenda.
— Como também teriam morrido no próximo, e no próximo, e no próximo — fechou os olhos e meneou a cabeça, então suspirou. — Entre e deixe essa porta de uma vez. Não herdei títulos, mas ainda sou um nobre Lestino e um soldado.
“Percebe-se”, pensara Ereken.
— Irei direto ao ponto: há um homem morto dentro do bosque. Enforcado, despido e roubado.
Cei Hoone virou o rosto, fitando o sobrinho-neto com olhos preocupados. “Não”, pensou Ereken, uma sombra apertando seu coração. O cavaleiro devolveu sua atenção ao barão, apertando a mesa.
— Bandidos das montanhas, temo? A criatura que matou meu sobrinho certamente não conseguiria enforcar alguém. Inferno. — Cerrou os dentes e soprou alto. — Enviarei homens para procurarem pelos assassinos… Nós já temos bestas o suficiente percorrendo por…
Ele calou-se de uma vez e ergueu-se de supetão. Girando um pouco o corpo, pegou uma gaiola, onde repousava um pássaro de penas amarelas e um bico longo e largo. A ave acordou com o movimento brusco da gaiola, revelando um par de olhos grandes, amarelos e inteligentes, que se fixaram em Cei Hoone como se fosse sua razão para estar vivo.
— Aqui é Cei Hendrick Hoone, irmão de Vossa Graça Duque Otto Hoone. Aparentemente, voltamos a ter bandidos na Cordilheira. Nada te surpreende com isto? Envie mais uma disposição por aqui. Estou a terminar de cuidar com meus serviços. Te encontrarei em breve, quando me livrar das três bestas.
“Há mais do que uma?”
Um frio passou pelas costas de Ereken. Detrás deles, os soldados se mantinham atentos. Enquanto focara neles, o pássaro amarelo levantou voo e passou por sua cabeça, imediatamente voando em direção ao sul. Cei Hendrick Hoone bufou alto e virou-se para o barão e meneou a cabeça.
— Mudança de planos. Eu e você voltaremos a viajar hoje.

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