Índice de Capítulo

    — Obrigada, S9.

    Sua voz desinteressada ecoou ao horizonte. As pupilas caminhavam com calma, observando cada um dos oito participantes ali presentes.

    Para ela, não havia muito o que destacar, apenas duas coisas lhe chamou a atenção, e uma delas foram os olhos universais do garoto.

    Era tão estranho quanto único, como ver um unicórnio pela primeira vez. Ainda que observasse mais do que queria, não conseguiu encontrar um fio de hostilidade.

    E assim foi com os outros seis olhares. Não havia uma sensação real de competição direcionada a ela, apenas curiosidade sobre quem ela era.

    Claro, isso não foi uma regra, havia um deles cujo olhar era tão fervoroso quanto sua cor escarlate, ele sim não estava disposto a baixar a guarda.

    Tanto a postura quanto o semblante podiam parecer tranquilos, mas aquela energia banhada em cautela e hostilidade não mentia nas intenções.

    Um riso sutil escapou dos lábios de Melinoe assim que ela concluiu a análise. Logo em seguida, caminhou em direção daquele que parecia ser o líder do grupo.

    “Acho que esse evento pode ser uma distração divertida.”

    Ficou frente a frente com Ônix não muito depois e estendeu a mão, dizendo: “Muito prazer em conhecer vocês, moços e moças que não sei o nome.”.

    Ônix observou a fundo o seu olhar, a cumprimentou pouco depois, respondeu que o prazer era deles e desejou que a competição fosse amigável.

    Assim que essa pequena apresentação aconteceu, Melinoe ficou ao lado de Andressa, como se fosse parte daquele grupo de oito pessoas.

    Pouco após, a nona sistema recomeçou sua fala com um sorriso no rosto contagiante o suficiente para fazer a segunda sistema rir discretamente.

    S9
    Ótimo! Fico muito feliz que vocês se deram bem de primeira!

    Antes de continuar, interrompeu-se de propósito e começou a olhar cada um dos presentes, contando do 1 até que chegasse ao 9.

    S9
    Vixe, acho que tem um probleminha…

    Os números apareciam lentamente acima da cabeça de cada um deles. Pouco depois, a palavra “ÍMPAR!!!” surgiu no topo daquele grupo.

    S9
    É difícil dividir o numero nove, né? Acho que um de vocês vai ter que cair fora, mas seria injusto demais decidir isso de forma aleatória… Hum…

    Manteve-se pensativa por um breve momento. De repente, uma lâmpada surgiu sobre sua interface; junto a isso, disse “Já sei!”.

    O chão da arena começou a tremer repentinamente. Pouco a pouco, um pilar erguia-se do nada. No topo, havia uma roleta com o nome de cada um dos noves.

    A ideia que ela ofereceu foi muito simples: dois nomes vão ser sorteados aleatoriamente. Se cair Chico e Francisco, eles vão se enfrentar e, quem perder, sai do torneio.

    Outra forma seria usar essa roleta para sortear quem seria expulso, mas ela não achou justo dessa forma, tendo em vista que o campeão desse torneio vai ser decidido na força.

    Com tudo explicado, perguntou ao grupo se eles achavam justo dessa forma, ou se tinham alguma outra ideia sobre, porque um deles precisava sair de alguma forma.

    Não houve discussão, tampouco debate, todos estavam de acordo. Bom, já que não há empecilho algum, é hora do destino decidir os combatentes.

    Pois bem, que a roleta gire! E girou, mais rápido do que olhos humanos normais podiam acompanhar. O ponteiro colidia com cada um dos nomes.

    Não demorou muito, mas a velocidade começou a decair. Os olhos de todos estavam mais atentos do que gostariam de saber, e a mente indagava a si mesma: “Será que vai ser eu?”

    E então, finalmente parou. Por sorte, azar ou destino, Ônix foi o escolhido. De primeira, ficou brevemente confuso, até a reação surgir pouco depois:

    — Ih… Fui eu?

    O rosto de todos os seus amigos murcharam em desânimo. Interesse e expectativa, ambos foram embora como um suspiro ao vento. Apenas uma pessoa manteve-se animada: Melinoe.

    Seu sorriso não era nem um pouco discreto, e os pensamentos eram tão óbvios quanto: “Tomara que seja eu!”. E assim o destino seguiu.

    O nome de Ônix flutuou para a esquerda e fixou-se lá. A roleta, sem papo furado, deu recomeço a sua única função: perguntar ao mundo quem iria enfrentá-lo.

    Tec, tec, tec… Foi o que o ponteiro disse até que os lábios começassem a cansar. Os nomes ficaram visíveis, e os olhos atentaram-se mais do que anteriormente.

    O nome de Saito estava lentamente sendo abraçado pelo ponteiro. Sua reação era ainda mais desanimada do que uma flor murchando; entretanto, essa sensação desapareceu assim que o ponteiro seguiu adiante.

    Melinoe foi a próxima. O brilho nos olhos pareciam ofuscar o do sol. O ânimo era tanto que nem percebeu que não foi escolhida e, assim que deu-se conta, murchou igualmente.

    Por fim, o destino apontou para o terceiro nome e disse: “É esse.”, e assim o ponteiro parou, anunciando o combatente escolhido: Morfius.

    Seu queixo só faltava atingir o chão. Os olhos vazios quase escreviam no ar o que a mente indagava a si mesma: “Por que teve que ser eu?”.

    Alguns de seus amigos ao redor riam discretamente, outros nem tanto, como Waraioni, que deu-lhe um tapa no ombro enquanto disse rindo:

    — Se fodeu KK.

    Melinoe não pensou duas vezes em perguntar se ele não queria trocar de lugar com ela, mas logo S2 disse que essa mudança de combatentes não seria permitida.

    A verdade já estava lá para ele: lutar contra um amigo querido ou desistir. A segunda opção pareceu-lhe a mais confortável. Pouco depois, os lábios quase disseram:

    — Eu…

    E logo foi interrompido, não por algo externo, mas interno. Uma voz que ele nunca ouviu antes lhe disse: “Não, não desista, você não está autorizado.”

    — … Vou dar o meu melhor!

    Essa segunda frase foi algo automático. Tinha a sua voz, mas não a intenção. Para as suas suspeitas, isso nunca aconteceu antes com ele, só agora.

    Quando percebeu, Ônix estava à sua frente com um sorriso amigável, estendendo a mão para que pudesse desejar uma luta divertida, como se fosse algo bobo.

    Quantos segundos se passaram? Nem ele sabe sobre. Essa indagação só surgiu porque o restante do grupo já estavam caminhando à arquibancada.

    No fim, não havia o que ser feito. Ambos apertaram a mão como dois amigos e seguiram para o centro da arena, aguardando as orientações das sistemas.

    S2 virou-se para eles e encostou a sua interface gentilmente na de S9. A voz saiu como um sussurro quase inaudível, mas o pedido era claro até demais.

    S2
    Eu vou precisar da sua ajuda pra me controlar. Já sabia que isso iria acontecer eventualmente, mas, ainda assim, por que dói tanto ver isso…?

    S9 entendeu de primeira. A criação do torneio, Ônix sendo escolhido por “azar ou sorte”, e o seu combatente ser alguém que ninguém sabia a origem, tudo isso foi planejado pelo primeiro sistema.

    S9
    Tá tudo bem, vai ficar tudo bem, tem que ficar tudo bem. Fica aqui, eu dou seguimento ao evento.

    E assim, caminhou até ficar um pouco próxima a eles. A ordem para que começassem foi tão simples quanto repetitiva: se cumprimentem em um aperto de mão e comecem.

    Morfius viu-se brevemente confuso, até chegou a comentar com um riso bobo: “Nossa, de novo?”, mas isso não era algo ruim para ele.

    Ônix riu junto, pensando da mesma forma. Era um pouco estranho. Pela primeira vez, não estava incomodado em lutar. Talvez por ver isso como uma brincadeira/passeio? Quem sabe.

    E assim as mãos se apertaram mais uma vez. Nesse mesmo instante, os olhos de Morfius perderam a cor, como se sua vida fosse tirada de si repentinamente.

    “Esse é o meu primeiro e único comando para a máscara: retorne a minha aparência original durante poucos segundos. Depois, me dá a aparência do garoto junto ao total controle do corpo que emprestei.”

    Essas palavras não vieram da boca, do vento, ou de qualquer fator externo; mas, sim, de um lugar onde somente Morfius podia ouvir: a mente.

    Pouco a pouco seu rosto começava a ser desfeito. Cada pedaço de pele estava sendo entregues à máscaras pequenas, mas da cor amarela.

    Os olhos de Ônix entregavam-se ao arregalar conforme observava cada detalhe de alguém que tirou tudo dele sabendo que havia nascido sem nada.

    Um cabelo tão branco quanto calvo. O corpo era baixo, e o mal cuidado resultou em uma barriga indesejada, mas isso não importava, tudo o que ele queria mostrar era quem ele era: Carlos.

    Tudo começava a fazer sentido, não para Ônix, mas ao Saito. A cabana da cor amarela foi algo que levantou suspeitas a ele, não pela cor, mas pelo significado histórico: traição, inveja, covardia e falsidade.

    Se bem me lembro, ele reapareceu em um formato de máscara logo depois do tutorial de Ônix. Tinha a cor branca, mas foi tomada pela escuridão.

    Todos os sinais estavam na mesa desde o começo. Somente um ser presente ali sabia da verdade desde o princípio: sistema dois, e foi por isso que tratou Morfius de forma rude, mesmo sabendo que ele era inocente.

    Como assim inocente? Isso é algo que você talvez me pergunte, e eu respondo: Morfius existiu de verdade. Não era atuação de Carlos; mas, sim, uma existência própria.

    A diferença é que, infelizmente, ele tinha total controle a hora que quisesse, só não usou antes porque não era conveniente, até ser.

    Ônix mal podia crer no que estava à sua frente: o gatilho mais poderoso existente para que todos os seus traumas revivessem de uma vez só.

    As mãos tentavam esmagar a própria cabeça, tentando conter o que era inevitável de vir depois: o grito de desespero mais sincero que a alma podia oferecer.

    Medo? Covardia? Não, nada disso, era simplesmente doloroso além do imaginável recordar de tudo e, além disso, ver o assassino da sua família na sua frente.

    — Por que você tá gritando, Ônix?

    Foi o que Carlos perguntou enquanto retornava à aparência de Morfius. Quase ao mesmo tempo, socou sua barriga com a força que roubou do garoto dominado pela máscara.

    O berro de Ônix foi interrompido pelo golpe que o acertou em cheio. Seu corpo não estava disposto a reagir, somente entregar-se ao impacto que jogou-lhe para longe.

    As costas colidiram com a parede e ali ele ficou. Carlos, já em forma de Morfius, sorriu satisfeito olhando para o céu e vangloriou a própria maldade e covardia:

    — Sou uma maldição, não esqueça, criança.

    Próximo capítulo: Ainda não escrevi.

    Folhas do Aprendizado, 12/02/2026

    E aí, leitores.

    Que coincidência forte, né? Uma carta no mesmo dia em que o capítulo 50 foi postado. Prometo que não foi de propósito, eu não escrevi esse tempo todo por alguns motivos justificáveis.

    Pra resumir, eu não estou bem psicologicamente. Já não estava há um tempo, mas piorou recentemente, o bastante para me impedir de pensar direito, por isso em alguns dias não teve capítulo novo, como foi agora.

    Hiato? Nem sonha, não quero isso de novo, quem sabe um descanso pequeno quando a primeira temporada acabar. Tá tudo bem, eu nunca vou desistir da minha história, eu só não conseguia escrever mesmo.

    Quem sabe algum dia melhore, mas, se eu não postar, é por causa disso. Vou me esforçar mais para isso não acontecer com tanta frequência. Então tá tudo certo.

    Passei só pra dar esse aviso sobre os capítulos mesmo. Sem hiato, não vai ter, a não ser que eu piore muito de forma abrupta ou perca um dos meus braços.

    Enfim, cuidem-se, vou me esforçar pra dar um capítulo novo pra vocês no dia 15. Tchauzinho, até a próxima carta (provavelmente no encerramento da primeira temporada e na carta nova de 150 capítulos.)

    Maik

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