Índice de Capítulo

    O silêncio apresentou-se a todos por breves segundos. Naquele período, tudo parecia ter acabado para Ônix naquele único soco.

    Morfius, que infelizmente terei que chamar de Carlos a partir de agora, olhava para sua vítima com a satisfação visível até demais nos lábios.

    Não havia peso nos ombros, pesar na consciência, ou até mesmo uma única gota de arrependimento. Pela postura e sorriso, tudo estava perfeito.

    — E aí? Ganhei esse round, né?

    Essa frase foi dita com ânimo enquanto ele movia o pescoço para a direita, onde a segunda sistema se encontrava, mas o que viu transformou satisfação em medo.

    A interface não era escura, era mais vermelha do que o escarlate e mais fervorosa do que sangue. Esse tom era intenso demais para ela suportar, e isso fez com que algumas gotas caíssem.

    Lágrimas de ódio escorriam lentamente pelo rosto. Ali existe uma das angústias mais incômodas: saber disso desde o início e, mesmo assim, não poder fazer nada a respeito.

    A resposta para a indagação que ele fez foi o silêncio, não só da segunda sistema, mas do mundo. Carlos se encontrava numa situação onde quase nada poderia ser feito.

    Semente do temor se apresentava como um pequeno frio na barriga. Os olhos já não sussurravam tanto ânimo quanto antes, afinal, sua sobrevivência não estava garantida.

    E assim permaneceu até a alma de todos os presentes ali ser banhada no arrepio. Cada coração parou de bater por um breve momento.

    Logo em seguida, como uma ação involuntária, os olhos fixaram em Ônix. Nada estava acontecendo, mas algo trazia-lhes a certeza de que iria.

    Estavam mais do que certos. Uma névoa, densa e escura, saía lentamente da espinha, para logo depois aumentar seu ritmo drasticamente.

    O ar gelava a cada instante, como se o inverno houvesse chegado de um instante ao outro. Insegurança e incerteza eram os gatilhos para o incômodo no coração.

    Tal névoa continuou a erguer-se em direção ao céu, atravessando até mesmo o domo, só para alcançar o topo e começar a espalhar-se ao horizonte.

    Dia se tornava noite em passos lentos. Eventualmente, escuridão estava por todo lugar, e a primeira ação delas caiu sobre aquele lugar: chuva.

    A queda era lenta feito flocos de neve. Ela podia escolher quem era digno de seu toque, e sua preferência foi: todos, exceto Carlos.

    Qualquer um que teve contato com aquela chuva experenciou algo que as sombras chamam de paz. Calor aconchegante, despreocupação involuntária…

    … Sensação de amor incondicional e proteção absoluta, isso tudo era algo que as sombras recebiam sem nada ser cobrado.

    Pouco depois, lágrimas caíam de todos aqueles que tiveram essa experiência. Naquele momento, não houve porquê, era simplesmente algo natural.

    Não muito após, um sussurro nasceu na mente de todos ali presentes. Sua voz disse: “Isso é o que todos nós recebemos em troca do sofrimento dele, e essas lágrimas são nossas.”

    Naquele dia, seus amigos entenderam o que era viver como uma sombra, mas jamais terão uma única gota de como é viver como o guardião delas.

    “Alguém como ele, que nunca mereceu esse sofrimento, está desacordado agora, enquanto o vilão está de pé. Isso é um absurdo. Nós vamos consertar esse erro. Ela vai: Naevra Rhaiel, que também sofreu nas mãos do sistema.”

    Após seu discurso, o vento começou a sussurrar sua presença ao redor da arena, como se um redemoinho estivesse prestes a nascer.

    Pouco depois, sombras começaram a nascer ao redor de Carlos até que a arena estivesse lotada com a presença daqueles que foram protegidos até agora.

    Todos eles encaravam o inimigo nos olhos, como se estivessem ali para atacar, mas esse não era o caso. Uma das sombras apontou para trás, e dissipou-se na mesma hora.

    Assim aconteceu com cada uma delas, até que sobrasse apenas uma sombra no fim da arena, uma que sabíamos as características, mas não o nome, que foi dito há pouco tempo.

    Um cabelo curto, que abraçava o pescoço e repousava no ombro. Esclera escura, mas pupilas tão vermelhas quanto escarlates. A exata mesma sombra que apareceu no tutorial de Ônix.

    Estranhamente, não havia malícia em seus olhos. Na verdade, ela observava os detalhes com curiosidade, até entender o que estava acontecendo pouco depois.

    A chuva cessou de uma hora para a outra. Os olhares de Naevra, antes confusos, cerraram-se em hostilidade. Logo em seguida, um clima de tensão surgiu junto do som de uma explosão abafada.

    Os lábios dela estavam tão cerrados quanto enfurecidos. Seus olhos fixavam-se nos de Carlos, e apenas isso bastou para que suas pernas falhassem, forçando-o a cair.

    Qualquer um poderia deduzir que ela era inacreditavelmente perigosa. Sua intenção assassina conseguia alcançar até mesmo a arquibancada.

    E assim ela caminhou em passos lentos em direção ao culpado. Não demorou muito para que chegasse até ele, agachando para observar o fundo de seus olhos.

    Um silêncio esquisito pairou sobre eles durante poucos instantes, até que o primeiro ataque veio tão rápido quanto instantâneo logo depois.

    Naevra esticou os dedos da mão esquerda e atravessou a garganta de Morfius da esquerda para a direita, mas, infelizmente, nada aconteceu.

    Não havia sangue, dor, tampouco dano, seus dedos simplesmente passaram reto, como se Carlos não existisse ali, e assim sua intenção assassina desapareceu.

    — Entendi…

    Ele não entendia coisa alguma, mas era covarde demais para fazer alguma coisa. A única coisa que estava disposto a servir era os próprios instintos de permanecer quieto.

    Pouco depois disso, Naevra levantou e foi em direção a Ônix, que ainda estava desacordado no mesmo lugar. Assim que o alcançou, agachou para dizer o que queria há muito tempo:

    — Oi, tudo bem? Eu queria me desculpar, naquele dia, não era eu. Um sistema ciano alterou minha personalidade e me forçou a lutar como o primeiro sacrifício feito por ele.

    Silêncio. Isso foi tudo o que recebeu, mas não era algo ruim para ela, pelo contrário, isso lhe tirou um sorriso sincero do rosto, como se estivesse tudo bem.

    Não muito tempo depois, encostou sua testa na de Ônix e pôs uma das mãos em seu cabelo, fazendo um breve cafuné que talvez pudesse confortá-lo de alguma forma.

    — Fica tranquilo, tá? Daqui eu resolvo, só vou pegar seu corpo emprestado por alguns minutos.

    Assim que passou a mensagem àquele que nada escutava agora, começou a se dissipar e atravessar seu corpo pouco a pouco.

    Somente alguns segundos se passaram, e ela havia desaparecido apenas visualmente. Sua presença ainda existia naquele lugar, ainda que estivesse fraca.

    Isso não durou muito. O frio foi ficando ainda mais intenso. A dúvida tornou-se uma incerteza e a chuva parou aos poucos até cessar por completo.

    Ônix ainda estava de cabeça baixa, mas um de seus dedos se mexeu. A mão veio pouco depois e, quando menos esperava, estava tocando o chão.

    O ritmo acelerou ainda mais. As pernas se moviam como se tentassem se adaptar a um corpo novo, mas isso não durou muito.

    Pouquíssimo depois, estava de pé, mas a cabeça permaneceu baixa. Ele ainda estava inconsciente, mas Naevra não, era só questão de tempo para ela assumir.

    E aconteceu. Seus olhos ainda estavam fechados, mas o pescoço se ergueu. Ela o moveu de um lado para o outro, estalando-o para afastar o desconforto.

    Após isso, abriu os olhos. Ainda estava universal como sempre, mas não era dele. As pontas brancas não tinham mais essa cor, pois haviam abraçado o tom escarlate.

    Ônix, que chamarei de Naevra daqui para frente, observou o próprio punho direito fechado por alguns segundos, e o abriu pouco depois.

    Em seguida, moveu seu olhar para o alvo que ainda estava caído. O semblante não era nem um pouco amigável, e não foi de demora alguma para a intenção assassina vazar de novo…

    … Só que dessa vez era diferente. Por estar em um outro corpo, a intenção assassina não seria mais a mesma, mas sim a daquele que tem o universo nos olhos.

    Escuridão se espalhou não só pelo chão, mas pelo céu. O abismo cercava Carlos por todas as direções e, onde quer que ele olhasse, os olhos universais o encaravam de volta.

    O semblante de Carlos estava tão murcho quanto assustado. O que deveria ser feito? Fugir é a melhor das escolhas ou isso sequer é possível agora?

    Infelizmente para ele, esses pensamentos não tiveram espaço para brilhar. Quando foi perceber o que estava acontecendo, já havia sido atacado.

    Um chute frontal quase atravessou seu tórax. Sangue foi expulso de sua boca como um ladrão descoberto, e os olhos quase saltaram em susto.

    O corpo foi jogado para trás feito um boneco arremessado. Ele mal sabia como reagir para aliviar o impacto, afinal, nunca lutou nesse mundo até agora.

    Quando percebeu, já estava no chão tossindo sangue enquanto tentava se levantar, e conseguiu; com dificuldades, mas teve sucesso.

    Sua primeira reação foi olhar para o lado ao mesmo tempo em que tentava limpar a boca, e o que pôde enxergar era alguém que não tinha a mesma gentileza de Ônix.

    Naevra se aproximava da presa devagar, não porque estivesse pensando em algo ou analisando o que ele podia fazer, simplesmente porque era melhor assim.

    Ela, melhor do que ninguém, sabia que não tinha como Carlos escapar daquela situação, sendo assim, torturá-lo com a demora da morte é a escolha mais dolorosa.

    — O que foi? Se machucou? Se endireita, isso é só um pouco do que está por vir.

    Carlos nada disse a respeito, apenas encarou de volta com os olhos de alguém que não faz ideia do que pode fazer para sair vivo dessa situação.

    Próximo capítulo: Lágrimas em Duas Cores.

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