Capítulo 106: O Mais Fraco vs A Mais Forte
Partículas prateadas sobrevoavam a arena. Em um ritmo individual, todas elas repousavam sobre os destroços do recinto para consertá-los.
Quando um concreto era devidamente recuperado, também era carregado para a parte em que descolou, e assim foi até o reparo ser concluído.
A Nona Sistema observava de cima. Seu olhar estava firme o bastante para fazê-lo brilhar sutilmente.
Um suspiro discreto escapou assim que seu trabalho foi concluído. Logo em seguida, buscou saber onde a Segunda Sistema se encontrava.
Lá estava ela: sentada em um canto isolado da arquibancada. Seus olhos opacos observavam o nada, e assim permaneceria por um bom tempo.
S9
Hum…
A Nona estagnou-se no topo por um breve momento. Suas bochechas inflavam com os desabafos de seu ar. Pouco após, voou lentamente até S2.
Logo quando a alcançou, tudo o que conseguiu dizer foi:
S9
Hummmmmmmmmmmmmmmmmmmmm…
Os olhos da segunda tiveram demora em erguer-se para sua amiga. Quando finalmente a observou, encontrou-se confusa por alguns segundos.
S2
… Hã? O que foi?
Inúmeros símbolos de raivinha (💢) preencheram a interface da Nona. Seu incessante “humm” foi ficando mais intenso até que o desabafo viesse.
S9
hÃ? o QuE fOi? hÃ?
Sua insatisfação chegou em um ponto em que um simples sermão não iria adiantar. Sendo assim, criou duas mãos pequenas para apertar e esticar a bochecha da segunda.
S9
Cê vai ficar aqui observando tudo de longe pra descansar, viu? Tá toda lenga lenga aí e fica insistindo em ajudar!!! Doida!!!!! Maluca!!!!!!!!!!
Breves risos nervosos escaparam da Segunda Sistema. Ao mesmo tempo em que tentava controlar essas risadas involuntárias, dizia:
S2
Tha… Tha bwon, enthendi!
S9, em um suspiro brusco, soltou as bochechas.
Seus olhos curvaram-se levemente. As pupilas ficavam cristalizadas. Seu peito começava a doer com o levantar da preocupação.
Não havia muito o que pudesse ser feito. Ninguém, além da própria S2, podia lidar com o que acontecia nos bastidores, e a Nona sabia disso.
Sendo esse o caso, ela queria, pelo menos, mostrar que a solidão nunca seria obrigatória. O meio que encontrou para passar essa mensagem foi um beijinho na testa.
O coração da Segunda pulou uma batida. Vergonha deixava suas bochechas avermelhadas, e tudo, por um momento, substituiu a tristeza.
Antes de se retirar, a Nona observou o fundo dos olhos da S2, e passou seu último recado: “Já te falei que vai ficar tudo bem, boba, então fica aí e descansa.”
E assim foi-se embora, deixando para trás uma marca do seu apoio. A Segunda ainda encontrava desânimo; no entanto, um pequeno sorriso desabrochou em seu rosto.
Nona, após a conversa que teve com sua companheira, estava parada há alguns minutos em um lugar isolado da arena outrora destruída.
Os olhos estavam fixos em lugar algum. Seus lábios murmuravam: “160, 161, 162…” até que alcançasse o número desejado: 180.
Três minutos se passaram desde o consolo à Segunda. Esse foi o tempo que ela disponibilizou para os jovens descansarem da batalha recente.
Sendo assim, virou-se em direção a eles e voou para alcançá-los. A maioria direcionou a atenção a ela assim que chegou.
S9
Opa! Tudo certo? Espero que sim. A reparação já foi concluída e o torneio, infelizmente, tem que continuar. Vou explicar os detalhes pra vocês, tudo bem?
Em suma, o torneio vai ser inteiramente um contra um. Duas pessoas vão ser teletransportadas aleatoriamente para a arena.
Os que estiverem na arquibancada não poderão enxergar os que estiverem lutando. O único motivo disso é simplesmente um descanso a mais.
Quem o sistema reconhecer que foi derrotado, assim será o resultado. Se a pessoa encostar em qualquer lugar fora da arena, esta será desqualificada.
Assim que uma batalha encerrar, ambos os lutadores receberão uma cura de cem por cento. Os únicos que poderão assistir às batalhas seguintes serão os desqualificados.
S9
Acho que expliquei tudo certinho!
Com todos os detalhes ditos, chegou a hora da Nona se retirar. Antes de voar em direção a outra arquibancada, acrescentou que estaria observando de longe.
O silêncio veio com sua saída, mas não durou muito tempo. Um apito, tão sutil e presente quanto um sussurro, surgiu da esquerda.
Todos os que estavam por perto moveram seus olhos para lá. O que viram era, provavelmente, o processo de teletransporte acontecendo em Melinoe.
O corpo inteiro transformou-se numa luz prateada intensa. Ela estava desaparecendo pouco a pouco, começando pelos dedos.
Seus olhos observavam as mãos deixarem de existir com o tempo. Sentir desespero nessa situação seria algo normal, mas não foi isso o que aconteceu.
Por algum motivo que ela desconhecia, tudo o que ela podia sentir era paz e conforto crescente, como se algo a consolasse para que soubesse que não existia perigo ali.
E então, foi-se junto com as partículas.
Ninguém conseguiu falar nada por alguns instantes. Luna ainda tentava entender se aquilo também aconteceria com ela, até seu desabafo vir:
— Credo… Que medo. Será que morreu?
— Sei lá… [Arthur]
Douglas deixou alguns risos escaparem. Luna logo perguntou do porquê ele estava rindo, dizendo que logo logo ele vai ser o próximo.
Nesse clima de um pouquinho de medo, diversão e proteção, assim permaneceu esse grupo.
Em um mundo tão escuro quanto a noite, tudo o que podia ser feito era respirar. Frio, gélido feito metal, sussurrava em todo o seu corpo.
Melinoe tinha seus olhos voltados para o abismo. Eles se encontravam levemente arregalados, não por insegurança, mas por curiosidade.
Ao mesmo tempo em que as trevas dominavam tudo o que via, pequenas fagulhas de luz nadavam naquele abismo como se fossem peixes.
Em um determinado momento, uma dessas luzes flutuou sem pressa em sua direção até que alcançasse a ponta do dedo indicador.
No início, nada aconteceu. Quando pensou que era apenas uma interação simples, uma onda começou a ressoar verticalmente.
Seu som era o de um zumbido vibrante que, pouco a pouco, tornava-se tão grave e presente quanto sua forma destacada nas trevas.
O corpo de Melinoe era tomado tanto pelo formigamento quanto pelo desaparecimento. Seus olhos ficaram tão prateados quanto arregalados.
Flashes de memórias que ela nunca teve percorreram por sua mente. Estava embaçado demais; entretanto, não era impossível de enxergar.
Grama verde balançava com o vento. O sol estava vermelho naquele dia. Pelo horizonte, várias casas de palha se espalhavam como se não houvesse fim.
Pássaros voavam sem preocupação alguma. Em algumas árvores, bem-te-vis descansavam para cantar.
A brisa do vento era calma feito um sussurro. Sua temperatura era sem igual: gélida, mas morna ao mesmo tempo, feita exclusivamente para agradar.
Até que a noite caiu.
Não havia estrelas no céu, apenas a lua de sangue. A brisa confortável foi substituída pelo calor que trazia consigo os arrepios do desconforto.
O som do fogo queimando as gramas podia ser ouvido de qualquer lugar; entretanto, mais forte do que isso eram os gritos da maioria:
— SACRIFÍCIO! SACRIFÍCIO!
Berravam isso sem fim.
Ao mover os olhos em direção a esse bordão, pôde observar as chamas circulando em um lugar específico, e era lá dentro onde as “pessoas” estavam.
As aspas respondem sua dúvida: todos tinham a pele esverdeada e as orelhas pontudas feito elfos, mas não eram tão sagrados quanto.
No centro daquilo tudo, havia duas cruzes enormes uma do lado da outra. Em uma delas, um pequeno sistema ciano estava preso.
As lágrimas eram tantas que deixavam seus olhos vermelhos. A garganta não cessava nos prantos, e, no topo da sua interface, “S1” era lentamente consumido por um olhar universal.
A cruz ao seu lado estava escura e borrada. Nesse pequeno fragmento da verdade que Melinoe recebeu, não tinha permissão para saber quem estava do lado daquele sistema.
De repente, a realidade começou a rachar feito vidro.
Os estalos deixaram as cores preto e branco. Tanto as vozes quanto as sensações foram deixando de existir até que tudo se quebrasse.
Quando percebeu, estava ofegante. A luz do sol se espalhava por toda a arena, impedindo qualquer resquício de sombra existir naquele lugar.
Frio do inverno dançava na sua barriga. Os olhos se curvavam em desconforto, e tudo o que pôde pensar foi: “O que foi isso agora?”
Infelizmente, as circunstâncias não permitiriam a resposta chegar agora. Assim que seus olhos se ergueram, perceberam um ser de luz gradualmente se transformar em um humano.
E lá estava seu desafiante atual: Waraioni. De incontáveis características para notar, tudo o que pôde enxergar foi o título destacado: “O Mais Fraco.”
Seus olhos logo murcharam em descontentamento. Na sua primeira e única partida, teria que enfrentar o jogador mais fraco disponível?
“Fazer o que…”
Esse pensamento acompanhou um profundo suspiro desanimado.
Melinoe entrou em guarda, e esperou seu adversário fazer o mesmo. Não demorou para que o fizesse, mas algo em seu olhar estava estranho…
Era simplesmente opaco demais. Não olhava para canto algum, e também não parecia ter interesse em prestar atenção no que estava acontecendo.
Foi somente segundos depois em que suas pupilas se ergueram para observá-la. Nada ali transparecia ânimo, e isso a deixou ainda mais descontente.
Próximo capítulo: Diversão Infinita.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.